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Insólito pic-nic: O encontro secreto Salazar/Franco

António Pina do Amaral

 

Foi em Fevereiro de 1942, o encontro que definiu a sorte da guerra. Salazar encontra-se secretamente com Franco e obtém uma certeza: a não beligerância espanhola manter-se-á. O Presidente do Conselho de Ministros de Portugal saíra de Lisboa pela manhã. Ao almoço tinha lugar um insólito pic-nic.


Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942.

 

Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados de guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros.

 

Mas pior: feitos uns contactos de entre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido quanto a qualquer eventual saída ou motivo para ausência.

 

A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome. Também o Director da PVDE, a antecessora da PIDE, o capitão de infantaria Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes se não achava no seu posto, na Rua António Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.

 

Facto consumado!

 

No maior segredo, nem aos mais íntimos confessando a sua intenção, Salazar partira essa manhã, de automóvel, acompanhado de Lourenço e de dois oficiais de segurança, rumo ao Sul de Portugal.

 

Passado o Tejo pelas nove e meia, junta-se-lhe em Estremoz o Embaixador Pedro Teotónio Pereira, que para o efeito se deslocara de Madrid, onde chefiava a legação portuguesa junto de Franco.

 

Retomada a marcha, pela hora do almoço os viajantes estão perto da fronteira.

Dá-se então o ainda mais inesperado.

 

A um gesto de Salazar, o motorista estaciona num local retirado da estrada. Cumprindo um ritual pré estabelecido, abre a bagageira da viatura e dali retira um cesto.

 

Dali sai, queiram ou não os circunstantes acreditar, o farnel para o almoço.

 

Disposto a não dar nota da sua presença e a isso juntando uma economia de despesa, Salazar confunde-se com a paisagem e quais turistas acidentais em improvisado piquenique, satisfaz assim as exigências vitais.

 

Os outros acompanham-no em respeitoso silêncio.

 

Filho de camponês, a refeição é frugal.

 

E, no entanto, é um momento decisivo da História contemporânea que então se vive.

Não adivinhariam os poucos passantes que ali, nesse “déjeneur sur l’herbre” estava a jogar-se o futuro de Portugal e a sorte da Segunda Guerra Mundial.

 

Salazar dirigia-se a Sevilha para um encontro com Franco.

 

Iriam ver-se pela primeira vez.

 

E, no entanto, até ali, tinham estado sempre juntos.

 

O encontro, ocorrido nessa noite no Alcazár, seria decisivo.

 

O ambiente político e militar de então não poderia ser mais carregado.

 

A ameaça de envolvimento de Portugal no conflito militar que, desde há três anos, dilacerava a Europa, era cada vez mais iminente.

 

O país havia definido desde o princípio das hostilidades uma política de neutralidade, ditada pela Aliança Inglesa e pela consideração que não poderíamos por causa dela hostilizar os britânicos nem por efeito dela guerrear os alemães.

 

Mas, na concepção de Oliveira Salazar, a neutralidade jogava-se igualmente na frente atlântica, envolvendo o destino dos Açores e de Cabo Verde, e no bloco peninsular, envolvendo uma concertação com a Espanha.

 

Com o Governo de Madrid Portugal firmara, logo em 1939, um “Tratado de Amizade e de não agressão” e em Julho de 1940 um Protocolo Adicional.

 

Dois anos volvidos, em 1942, o panorama estava diferente e mais complexo.

 

Aos riscos de uma invasão nazi, que Hitler prenunciara com o Plano Félix, sucedem-se, em cumulação, os riscos de uma invasão Aliada, pois certos sectores das “nações unidas” não queriam correr o risco de deixar um país estrategicamente tão importante como Portugal ao acaso de uma ocupação pelo Eixo e da subsequente perda de posição dos pontos nevrálgicos dos Açores e de Cabo Verde.

 

É nesta ambiência que se dá o encontro entre o Generalíssimo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde, o “caudillo” de todas as Espanhas, e o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Professor António de Oliveira Salazar.

 

À histórica conversa apenas assistiria Serrano Suñer, o recém-empossado Ministro das Relações Exteriores, líder da Falange, e cunhado de Franco.

 

O jogo é denso, quer por causa das pessoas em presença, quer por virtude das realidades políticas do momento.

 

Preparado para todas as eventualidades, Salazar não ignorava a manhosa habilidade de Franco que, em declarações sucessivas, parecia decisivamente inclinado para o lado do Eixo nazi fascista, enquanto, por outro lado, dava sinais contraditórios aos Aliados de que respeitaria a “não beligerância” que definira no advento do conflito.

 

Ainda para complicar a cena, no tablado da encenação política, Franco, que até então havia jogado no apagamento intencional da sua imagem, fazendo projectar à boca de cena, a do seu cunhado, Serrano Suñer, cuja germanofilia era mais do que patente, surpreendera agora tudo e todos com um golpe de asa, invertendo os papéis e assumindo agora um papel decisivo na condução dos negócios políticos exteriores.

 

Mas, para além das aparências da encenação política, Suñer era, naquele encontro, uma peça decisiva.

 

O seu passado quando da elaboração do Protocolo Adicional ao Tratado de não agressão havia deixado marcas indeléveis da sua má vontade contra a posição portuguesa. Negociado secretamente entre Teotónio Pereira e Juan Beigbeder Atienza, o documento havia sido aprovado por Franco, mau grado a fria oposição de Suñer, que para o efeito não desdenhara mesmo o animar uma campanha de imprensa hostil a Portugal.

 

Perante isto, Oliveira Salazar não ignora que parte decisiva do que disser ou fizer deve também visar o convencimento do cunhado do Generalíssimo, pois é dele que poderá vir o obstáculo definitivo a qualquer acerto que então se faça.

 

Neste particular a sua vitória pessoal foi total.

 

No plano político, a situação também não é fácil para um alinhamento da Espanha com a pretensão portuguesa de subsistência da neutralidade comum.

 

Internamente, eram cada vez mais activas as forças do regime que, confiadas numa vitória nazi, clamavam por um alinhamento militar ao lado de Berlim, a que se juntavam quantos pretendiam a oportunidade para concretizar uma anexação política de Portugal, viabilizando assim a formação de um bloco ibérico, mais satisfatório aos apetites hegemónicos imperiais de Castela.

 

Provocatoriamente, a Falange havia mesmo mandado imprimir, no Auxílio Social de Valladolid um mapa da península no qual Portugal aparecia como uma província de Espanha.

 

Exteriormente, a cada vez mais intensa colaboração militar dos Aliados com a União Soviética, aliciava o endémico anti-comunismo espanhol a não alinhar com aqueles que estão agora no mesmo campo dos vermelhos contra os quais se havia erigido, em três anos sanguinolentos, a guerra civil.

 

No meio deste “albergue espanhol” Franco, prudente e ardiloso.

 

Instintivamente, Salazar está convencido de que Franco, mau grado o espectáculo das suas declarações e da dos seus, não dará o passo final em favor de Hitler e apenas pretende sossegar o Führer, entretendo-o no eterno jogo das esperanças.

 

A origem de Franco explica a sua psicologia.

 

Fiel ao dito “se vires um galego numa escada nunca saberás se vai a subir ou a descer”, Salazar conta com a indefinição do seu interlocutor e não espera dele mais do que sinais.

 

Formal, a conversa entre os dois estadistas decorre com fluência.

 

Em atenção a Salazar, Franco fala no seu dialecto de origem, o galego, absolutamente compreensível pelo seu interlocutor.

 

Atento, Suñer surpreende-se pelo que lhe é dado observar.

 

Minado de preconceitos políticos, mas arguto observador, rende-se incondicionalmente ao Presidente do Conselho português.

 

Em entrevista posterior com o Embaixador alemão em Madrid, não hesita em declarar a sua opinião. Para si, Salazar é um “homem extremamente simpático, extremamente bem-educado, culto, amável, duma perfeita dignidade”. Mais tarde a amigos dirá que Salazar é “um homem de primeira ordem, com todo o rigor de um catedrático e a paixão de um místico”.

 

Do lado de Franco o desconcerto é algo evidente.

 

Cioso de um encontro com pompa e circunstância, fica desarmado por aquela discretíssima embaixada.

 

Uma década volvida, em 13.01.58, em entrevista ao jornal conservador francês Le Figaro, o Generalíssimo não esconderá os seus sentimentos acerca de Salazar que, para ele é “o mais completo e mais digno de respeito estadista que conheci. Olho-o como uma personalidade extraordinária pela sua inteligência, o seu senso político a sua humanidade. O seu único defeito é a modéstia”.

 

Exercício de sedução, a conversa entre os estadistas não foi fácil.

 

Violando a regra estratégica de que uma força cercada não faz manobras, Franco, fugindo para a frente, tenta convencer Salazar de que os Aliados preparam a invasão de Portugal, facto que a Espanha tomará então, a acontecer, como um acto de agressão contra si própria.

 

No plano interno, mostra a funda preocupação pela aliança dos Aliados aos comunistas, face ao que só a esperança de que o III Reich liquide a Rússia lhe dá algum alento.

 

Inteligente, Salazar percebe o equívoco acerca da eventual vitória a Leste e desloca o problema para o campo onde poderá estar mais à vontade.

 

E adquire a certeza de que a única razão decisiva que fará a Espanha entrar na guerra contra os Aliados serão razões vitais de abastecimento, caso os víveres que lhe chegam através dos intencionais “buracos” ao bloqueio económico, se venham a mostrar insuficientes. E isso é algo que está ao alcance do Ministério da Guerra Económica (MEW) britânico definir. E a política de bloqueio aligeirou.

 

Regressado de Sevilha no dia seguinte, esgotado pela viagem e pela vertigem do que negociara, Salazar trazia a mais formidável certeza para o futuro próximo da guerra: sabe que a não beligerância espanhola se manterá.

Rolão Preto: “Isto vai, com Deus!”

António Pina do Amaral

 

A ideia de que só a esquerda é revolucionário nasce da incultura histórica de uns e da propaganda de outros. A equação direita = conservadorismo é uma simplificação grosseira. O caso de Rolão Preto mostra-o bem. Quis uma Revolução Nacional a duas velocidades, tranquila e veloz. Não contava tal motor anímico com uma embraiagem legalista chamada António de Oliveira Salazar. Em 1934 a União Nacional proclamava a homogeneidade e a coesão. No ano seguinte Rolão Preto revoltava-se e era preso. Queremos o Rei e os Sovietes, foi um dos seus lemas. Magnífico!

 

 

Em 1916 um jovem português estudante da Universidade de Toulouse recebia a visita de uma ilustre figura bem mais velha do que ele, um dos Apóstolos da República de 1910.

 

O visitante chamava-se Sebastião Magalhães Lima, o visitado Francisco Barcelos Rolão Preto. Este nascera em 1893 – alguns dizem 1894, outros 1896 - , aquele em 1851, o primeiro era socialista, jacobino e maçon – seria desde 1907 Grão-Mestre daquela obediência – o segundo, fundador do Integralismo Lusitano e anarco-sindicalista, nacionalista sempre.

 

Num livro que publicaria em 1942 e a que chamou ‘Para Além da Guerra’ – a Segunda Guerra Mundial estava então no auge – Rolão Preto dá conta desse encontro. Lima procurara-o “para conhecer o verdadeiro sentido de inquietação da Mocidade do meu tempo”.

 

“Ao velho apóstolo assaltara-o amargo de receio de que a minha geração fosse fútil e vã, não conseguindo libertar-se, esboçada uma atitude do pecado de snobismo e superficialidade de que a acusavam”, confidencia.

 

Nesse instante o jovem estudante formava-se interiormente para a Nova Ordem, contra o individualismo burguês de um Estado de eleitores, contra o capitalismo de uma Nação de mercadores amorais.

 

Idealista inflamado, ainda estudante saíra de Portugal para se unir às forças de Paiva Couceiro que, a partir da Galiza, protagonizara um levantamento contra a República. Oficial distinto, Henrique Mitchell de Paiva Couceiro, apoiante de João Franco, liderara as incursões monárquicas contra o regime republicano e chefiara a Monarquia do Norte em 1919. O seu carácter bravio levou a que o alcunhassem como ‘O Paladino’. Estaria condenado ao exílio pelo Salazarismo.

 

Exilado na Bélgica, Rolão Preto muito jovem ainda seria o fundador em 1913 da revista ‘Alma Portuguesa’, órgão oficial do Integralismo Lusitano, de que seria secretário. Estudante em Lovaina, faria um bacharelato em Direito em França, na Universidade de Toulouse. Formara no estrangeiro o seu Patriotismo e o desdém pelo provincianismo complacente do seus concidadãos.

 

Cada vez mais activo no plano político colabora com o general Gomes da Costa, um dos chefes do 28 de Maio de 1926, sendo autor do manifesto programático distribuído em Braga que balizaria as principais ideias do Movimento.

 

Progressivamente mais radical fundaria em 1932 o jornal ‘Revolução’ e o ‘Movimento Nacional Sindicalista’. No tumulto organizacional que se desenvolveu até 1934 esteve sempre do lado activista, militante, combativo.

 

Comparativamente com movimentos congéneres na Alemanha e na Itália, o nacional-sindicalismo era, porém, de inspiração cristã. As próprias insígnias o demonstravam, a cruz de Cristo como emblema por cima das camisas azuis. A rondar o teocrático, a palavra de ordem do ‘isto vai, com Deus’, que se tornou em torno da sua milícia, o grito de guerra pelo revigoramento da Pátria, balizava as novas chegas de Ourique.

 

Revolucionário, Preto por um lado demarcava-se do intelectualismo de Sardinha e dos demais integralistas para privilegiar a acção política, por outro pela ênfase à área social e à movimentação das massas trabalhadoras, incompatibilizava-se com quantos queriam uma agitação a nível apenas da consciência das elites letradas da inteligência nacional.

 

Centrado numa zona em que a tradição cultural latina era vértice, e nisso afastado do nacional-socialismo alemão, Rolão Preto insiste em que o operariado haveria de ser subtraído à esfera de influência dos socialistas da Internacional, dos anarquistas e a partir de 1917 dos comunistas bolcheviques em favor, primeiro de um ‘sindicalismo orgânico’ e mais tarde de um ‘corporativismo integral’, sob um mando carismático. Ulteriormente, enfim, seduzido pelos avanços dos fascistas italianos, torna-se nacionalista puro, enquadrando como tal alguns dos que seriam os ‘tenentes do 28 de Maio’.

 

Seguro de que a ameaça revolucionária bolchevique estaria contida no nosso País por um pequenas burguesia conservadora, Rolão Preto constrói a militância precisamente no mesmo terreno sindical, com uma retórica análoga. Na aparência dos conceitos e na lógica do discurso é uma camaradagem socialista com a diferença de que tem os olhos postos em Deus e não na Dialéctica.

 

O triunfo atinge-o em 19 de Fevereiro de 1933 com um gigantesco banquete de mais de setecentas pessoas em pleno Parque Eduardo VII. Comício de exaltação e fé, com discursos vibrantes e palavras de ordem musculadas, o evento marca uma batalha pelo país. A própria Coimbra cinzenta e boémia, alfobre de caloiros, tricanas e veteranos, do CADC que dera ao País Salazar e Cerejeira, abre promissoramente alas em prol dos novos cruzados. O professorado radicaliza-se: Luís Cabral de Moncada, Carlos Moreira e João da Costa Leite Lumbrales, em Direito, Lopes de Almeida e Gonçalves Rodrigues em Letras, Eusébio Tamagnini em Ciências, todos se inscrevem e arregimentam. É “a preia-mar nacional-sindicalista”, escreve João Medina que o entrevistaria nos anos do fim.

 

Depressa, cada vez mais depressa, o movimento teria, porém, morte anunciada. Em 1934 Salazar marca o caminho. Organiza-se o IX Congresso da União Nacional. O lema é agregador e sobretudo esclarecedor dos caminhos que vai trilhar a Revolução Nacional, transformada agora em Estado Novo, dissuasor ostensivo de aventuras: “unidade, coesão, homogeneidade!

 

Pelas duas da madrugada do diz 12 Julho desse ano Rolão Preto, preso, é colocado com Alberto Monsaraz na fronteira espanhola. A ameaça que pairava sobre Salazar, pondo-lhe em causa a sobrevivência política, encontrava assim resposta. A PVDE de Agostinho Lourenço defendia o Chefe, localizando conspirações, em que o encontra referenciado.

 

Em 29 de Julho uma nota à imprensa convida os nacional-sindicalistas a integrarem a agremiação única. O grupo de José Cabral aderiria de bom grado. Assim falou Salazar. Sintomaticamente a Censura corta numa reportagem do jornal O Século sobre o Congresso uma menção a que, durante este, haveriam sido dados vivas a Rolão Preto. O regime começava a viver ‘tranquilamente’ depois de ter vivido ‘perigosamente’, ‘Tudo pela Nação, Nada Contra a Nação’.

 

O movimento nacional-sindicalista entra agora em clandestinidade. Um novo hino da Maria da Fonte circula, verdadeiro grito de revolta: “Viva Viva Rolão Preto/Que há-de salvar a Nação/Das garras do Usurário/E dar-lhe justiça e pão/Nesta luta tão renhida entre o Estado e a Nação/A vitória há-de ser desta/Comandada por Rolão!”.

 

Não foi. O princípio dos tempos iludira-o. Mas como ele diria mais numa carta a João Medina, escrita em 1975: “No princípio todos os deuses têm sede”.

 

Luís Lupi: O Correspondente Honorário

António Pina


Controverso, viveu no regime anterior, entre as informações e a propaganda. Homem das esferas do poder, tinha acesso directo ao Presidente do Conselho e ao Presidente da República. Em 1962 a PIDE diagnosticava-lhe tendências pró americanas e pró inglesas. O seu ocaso inicia-se com a morte de Salazar. O 25 de Abril trazer-lhe-ia a liquidação da ‘Lusitânia’, a agência noticiosa que criara em 1944, e o exílio. Na juventude recusara um emprego que Fernando Pessoa lhe sugerira, de correspondente em línguas estrangeiras em firmas comerciais.

 

Dia 4 de Dezembro de 1941. Aviões nipónicos atacam a base naval americana de Pearl Harbour, no Pacífico. Apanhos de surpresa, os yankees mal têm tempo para reagir. O resultado é o desastre.

 

Nessa noite o jornalista Luís Caldeira Lupi jantara no Gambrinus com sua mulher. Terminada a cuidada refeição seguiram para o cinema, a poucos passos dali. O Politeama era na altura um local aprazível.

 

O rápido evoluir da Guerra não o deixava, porém, tranquilo. Prevenindo qualquer eventualidade, deixara no escritório da agência de notícias de que era correspondente em Lisboa, a Reuter, indicação quanto ao local onde poderia ser encontrado.

 

A meio da exibição do filme dá-se o inesperado. Pelo altifalante do cinema “o senhor Lupi é convidado a ir ao telefone”. Surpresa entre todos os que assistiam à película. Que se passaria?

 

Era o seu colega da Associated Press, em Berna, lugar onde se centralizavam todas as informações oriundas do vários correspondentes na Europa, a dar conta do traiçoeiro ataque nipónico e a pedir uma reacção oficial portuguesa.

 

Os passos de Lupi haviam sido, no entanto, seguidos pelo engenheiro Espregueira Mendes, na altura Sub-Secretário de Estado das Comunicações. Atónito, registou os apressados apontamentos que elucidavam quanto ao que se passara. A notícia assustava, prevendo-se já as suas funestas consequências.

 

Haveria que prevenir. Dali mesmo se telefonou, por isso, para a residência de Oliveira Salazar, o Presidente do Conselho de Ministros, informando-o do sucedido. Pressuroso, Lupi acrescenta que ante esta situação a América já estava em guerra e o Alemanha “em breve seria liquidada”.

 

Tudo se passava então num círculo restrito.

 

Solitário na sua reclusão na Rua da Imprensa, o Presidente do Conselho não tinha o favor de conselheiros ou assessores que hoje em grande número coadjuvam os membros do Governo.

 

Com uma manta de lã em cima dos joelhos, para assim poupar energia em aquecimento, Salazar seguia o curso da guerra através do telégrafo que ia deixando notícia dos progressos militares e dos principais actos das chancelarias.

 

Activo, fiel, Lupi, que o Papa João XXIII elevaria à condição de Visconde Baçaim, vivia de alma e coração a sua profissão. Fundaria em 1944, dirigira durante anos o escritório da Associated Press em Lisboa. O jornalismo era a sua devoção, as informações o seu ‘métier’.

 

Salazarista convicto, não deixaria de ter, porém, problemas com o regime ou pelo menos com alguns dos seus prosélitos. A entrevista de Salazar a António Ferro, que marcaria em 1938 um ponto alto na propaganda do Chefe, e que o Diário de Notícias publicou, seria resumida de modo considerado indesejável pelo colaboracionista e obediente Sindicato dos Jornalistas. Colocado em suspeita o jornalista autor das transcrições, o nome de Lupi acaba referenciado. Do relatório final elaborado pela PVDE consta esta informação de síntese, da autoria de Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes, o seu director: “(…) aparece uma vez mais o nome de Luís Lupi. O seu passado pouco recomendável leva-me a admitir que é capaz do que se suspeita e de muito mais. As suas afinidades e relações, que não se justificam pela sua categoria, o seu trem de vida muito e muito superior ao normal e sobretudo aos que desempenham idêntica profissão, fazem-me crer que o Lupi, esquecendo-se que é português, não tem dúvida em servir estranhos que lhe pagam bem, mesmo que seja para colaborar em campanhas contra a sua Pátria”.

 

Estava criada a suspeita que o homem que em 1944 viria a fundar a agência “Lusitânia” estaria a soldo de serviços estrangeiros de informações.

 

Mau grado o ciúme e o despeito, verdade que se tornaria indispensável. Na sua residência havia um telefone directo com que comunicava directamente com Salazar. Às quintas-feiras era recebido pelo Presidente da República.

 

A antipatia por Ferro marcar-lhe-ia muito do seu destino. Numa sua interessante biografia, editada em 1995 e prefaciada por Paradela de Abreu, Wilton Fonseca lembra um acontecimento desse turbulento ano de 1938. Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional haveria sugerido a Lupi que, através da Reuter, se passasse a falar “mais e melhor” de Portugal.

 

Agastado com o teor do convite e da sugestão, Lupi contra-ataca: “Em todas as circunstâncias, a Reuter é a única entidade com direito a decidir sobre qual o noticiário que deve ou não ser distribuído à imprensa e a ideia de nos oferecerem pagamento é absolutamente fora de questão”.

 

Estava criado o atrito. O “Lupi das barbas” como o individualizava Salazar tornava-se mais útil nas informações do que na propaganda. Sem aquelas não há poder, sem esta não há regime. O homem que em 1936 escrevera ‘Actung! Uma Civilização Ameaçada’ tornara-se o ‘informant’ e o conselheiro da Situação.

História e encenação: Hermano Saraiva

António Pina do Amaral

 

O regime anterior oprimia? Ou eram as pessoas que queriam agradar? Um dia na vida de Hermano Saraiva ilustra do que se trata. A História passa a ser o que poderia ter sido.

 

 

Foi Advogado no princípio da sua vida. Proferiu em 1964 uma conferência na Ordem dos Advogados sobre a Crise do Direito que recentemente reeditou. A inteligência do que então disse mantém hoje plena actualidade.

 

Não seriam, porém, os tribunais que o animariam. Licenciado em Histórico-Filosóficas em 1941 – na altura o curso era comum – e em Ciências Jurídicas em 1942, acabaria por ser a História que lhe ocuparia o espírito, menos pelo que escreveu, embora seja o autor de uma ‘História de Portugal’, muito conhecida, e sobretudo de uma ‘História Concisa de Portugal’ que o popularizou. A opção pelo Direito havia sido pragmática. Uma vez disse que a História só lhe pagava o dia até à hora do almoço.

 

Não o ganho económico, mas a sua grande projecção deu-se, porém, graças aos programas de televisão em que os seus dotes de grande comunicador estavam presentes, sofrendo embora por vezes a acusação de fantasista.

 

Na verdade, os seus programas ‘O Tempo e a Alma’ (1972), ‘Horizontes da Memória’ (1996) e ‘A Alma e a Gente’, atraíram multidões e deram cultura àqueles que, por outro modo, não a teriam.

 

Espírito irrequieto, a sua vida política foi atribulada. Chegou a Ministro da Educação entre 1968 e 1970, passando do governo de António de Oliveira Salazar para o de Marcelo Caetano. Foi protagonista, do lado do poder, da crise académica de 1969. A frase “em Coimbra a ordem será mantida”, dita de dentes cerrados, como ministro, ante as câmaras da RTP, persegui-lo-á como um ícone de autoritarismo.

 

Irmão do historiador da Literatura António José Saraiva, distinguiu-se deste pelo conservadorismo, apesar de confessar que, depois do 25 de Abril, tem votado sempre em candidatos socialistas. Homem de esquerda, António José, pai do director do SOL, acabou por sofrer as perseguições do regime que Hermano soube servir. Não foi fácil equilibrarem ambos a relação de sangue com a filiação política.

 

Não é porém linear a sua trajectória nos quadros políticos do Estado Novo. Em muitos aspectos tomou distâncias e acabou por encontrar incompreensões. Mas desde cedo se perfilou como uma figura com valor, possível quadro do regime de Salazar.

 

Talvez por isso o 40º Aniversários da Revolução Nacional viveu um dos episódios emblemáticos do modo de ser português. O regime concentrara-se na efeméride. Viajando de avião para Braga – aventura única neste ser sedentário –, Salazar proferiria uma alocução em que, criando irónico ‘suspense” lançara o repto: Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo”. Sentiam-se as moscas, a respiração contida. O Chefe parecia claudicar. Mas o homem que era o Estado Novo rematou, como se em gozo com o momento embaraçoso que gerara: “Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria”.

 

Para além do acto em Braga, a data iria ser oficialmente comemorada com uma cerimónia de Estado na Assembleia Nacional, envolvendo discursos, loas, apelos. Designado para falar o Dr. José Guilherme de Melo e Castro, líder da União Nacional, o partido único do regime, preparava o seu discurso quando foi decidido que o jovem e controverso Dr. Hermano também discursaria.

 

Nas suas memórias, Saraiva descreve o júbilo com que recebeu a notícia, acrescido ao saber que o Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, estaria presente no hemiciclo de São Bento. Foram tempos de ensaio, de declamação ao espelho, de antevisão do efeito, de representação teatral, aquilo que os telespectadores ainda hoje conseguem imaginar ao seguir-lhe o gesto, a expressão facial, a pose.

 

Vaidoso, sentiu-se levado ao Panteão da Glória quando julgou perceber, num dos momentos de maior arroubo retórico, uma furtiva lágrima que escapava da face inerte, fria e contida do homem que governou Portugal durante meio século.

 

A televisão, que haveria de ser o seu local de eleição, seguia atenta e cumpridora toda a cena, mas não gastara filme a gravar o discurso do jovem Dr. Saraiva, tendo optado, numa lógica de respeito pelas precedências, pelo do Dr. Melo e Castro, o qual se revelaria, porém, crítico em relação à Situação. Desconcertante, este ousara dizer que em relação a Salazarum grande serviço tem de pedir-se-lhe, após tantos e tamanhos que tem prestado... o de afeiçoar os mecanismos da governação... de modo que o país possa progredir à medida do tempo presente e sem que tenha de depender do impulso da sua autoridade ou de abrigar-se à sombra do seu prestígio”. Era um toque de inconformismo, que rematava com o apelo ousado a uma autêntica “via representativa”.

 

O azar escondia-se atrás da porta. Instruída nesse sentido, a RTP não passara o discurso controverso. Mas havia o de Saraiva que, consentâneo com a política oficial, poderia remediar o caso. Salazar não hesitou. Pegou no telefone e ei-lo em diálogo com o director da RTP.

 

Eis aqui, na sua melhor expressão, a mentalidade e o espírito do tempo. Incapaz de assumir que tinha optado por privilegiar o discurso do líder da União Nacional, o homem da RTP acabaria por mentir, afirmando que de modo algum o Dr. Saraiva havia sido esquecido. Que sim, que concordava que havia sido um bonito discurso. Que, claro, estava todo registado e que inclusivamente iria ser objecto de uma transmissão especial, dada a sua evidente importância. Salazar desligou agradecido, talvez convencido, sobretudo enganado.

 

Angustiado, o homem do Lumiar inventou a paródia da solução. Armado com um operador de câmara, ajuramentado para antes morrer que falar, fez-se a montagem farsolas do que não sucedera. De noite, em sigilo, ante as carteiras vazias, os deputados ausentes, tendo apenas o próprio filho como testemunha, Saraiva repetiu o discurso, tentando lembrar-se dos gestos e dos tiques, para que tudo parecesse natural e verdadeiro. Colaborou numa encenação em que a História passou a ser o que poderia ter sido. Eis como foi.

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