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À falta de melhor, Ferreira Leite pode ter de continuar líder do PSD

Paulo Rangel está entalado:  o “professor” mostra-se cada vez mais renitente em correr e Passos Coelho não chega a metade dos votos. Os sociais-democratas arriscam-se a continuar com Manuela mais um ano.

 

As contas estão difíceis no partido da São Caetano à Lapa. Marcelo Rebelo de Sousa voltou a dizer que não é nem será candidato à liderança do PSD, a não ser que seja candidato único. O professor admitiu já, em círculo interno, que até admitia ter algumas figuras da candidatura de Passos Coelho consigo, mas não se quer meter numa campanha eleitoral que fragilize a já parca imagem do partido. Na noite de domingo, no seu comentário semanal, Marcelo franziu o sobrolho e respondeu, ríspido e enfadado: “Não sou nem serei candidato à liderança do PSD”. Esta frase, no entanto, lembra outra de há uns anos atrás:  que só seria candidato à liderança do PSD se Cristo descesse à Terra. Foi candidato e ganhou, apesar de Cristo, aparentemente, não ter regressado. Agora, os seus apoiantes acreditam mesmo que não há hipóteses de convencer o professor e já começaram a pressionar Paulo Rangel para concorrer contra Pedro Passos Coelho.

 

Paulo Rangel, que se retirou da corrida mesmo antes de esta começar, segundo revelações suas no programa Gato Fedorento, é a única esperança dos cavaquistas e apoiantes de Manuela Ferreira Leite. O seu capital político pode obrigar a uma votação renhida dentro do partido. Rangel, que está em Bruxelas, longe das implicações políticas nacionais, tem sido um apoiante de Marcelo. “Eu desejo Marcelo Rebelo de Sousa como líder do PSD”, confessou há dias numa conversa em Bruxelas. O mesmo já tinha dito em Lisboa, quando entrevistado pela RTP. Mas ultimamente, alguns sociais-democratas, confrontados com um Marcelo que tanto diz que sim como não, viraram-se para Rangel. O objectivo é responder às críticas de Passos Coelho e seus apoiantes. A semana passada, nestas páginas, Miguel Relvas rejeitava “uma eleição que fosse um regresso ao passado”. Compreendendo que Marcelo e Marques Mendes, por exemplo, seriam nomes atingidos por este argumento, alguns activos militantes voltaram-se para Rangel. No entanto, O Diabo sabe que o eurodeputado tem rejeitado a ideia junto de colaboradores e amigos, convencido de que este ainda não é o seu “tempo”.

 

Entretanto, a reeleição de Marco António Costa no Porto garantiu mais apoios a Passos Coelho. O renovado líder da distrital invicta parece ter em mente um plano estratégico para a negociação de apoios a Passos Coelho, em troca de lugares na direcção do partido. Mas Marco António não rejeitaria, também, um negócio com Marcelo ou Rangel. Pior: o próprio admite lançar-se numa candidatura à presidência do partido, caso não se reveja em nenhuma candidatura apresentada.

 

Lisboa discute liderança

Carlos Carreiras, que esteve com Ferreira Leite, não deve ser o único candidato às eleições para líder distrital. Jorge Bacelar Gouveia, próximo de Pedro Santana Lopes, também vai candidatar-se ao lugar, aproveitando o facto de Carreiras e Leite terem rompido o bom entendimento que mantinham. Carlos Carreiras esteve contra a inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas para deputados por parte da direcção do partido. Agora, corre sem o apoio de qualquer notável, o que é fatal para qualquer candidato à liderança da distrital de Lisboa. Bacelar Gouveia tem a seu lado os apoiantes de Santana Lopes e a neutralidade dos barões lisboetas, como Ferreira Leite ou Pacheco Pereira. Recorde-se que estes últimos, tal como António Preto, foram líderes da distrital do PSD na capital.

 

A vitória de Bacelar Gouveia pode vir a mudar o sentido de voto de Lisboa na eleição para líder. Se Carreiras seria favorável à ideia da renovação com Passos Coelho, não se conhece a Bacelar inclinação por qualquer candidato. Mas com Santana Lopes de boas relações com Ferreira Leite, pode ser possível que Gouveia aceite apoiar Marcelo ou Rangel, em detrimento de Passos.

 

Entretanto, todas as vozes do PSD parecem afinar pelo mesmo pedido: as eleições directas não podem esperar pelo Orçamento de Estado de 2010, que apenas deve ser aprovado em Março do próximo ano. Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e Marco António Costa foram apenas três de muitas pessoas que desejam ver Manuela Ferreira Leite sair antes de Março, o mais tardar em Janeiro, para que o novo líder tenha condições de assumir o partido antes do Verão.

 

Porém, caso nenhum candidato apareça a combater Passos Coelho, o PSD pode ter que arrastar o processo eleitoral para ver se convence um retardatário credível. Em última instância, Manuela Ferreira Leite pode mesmo ter que ir a votos contra Passos Coelho, caso a direcção assim o exija – e isto se nem sequer Aguiar Branco estiver para enfrentar o jovem social-democrata.

Miguel Relvas a O Diabo: “Este é o PSD dos gabinetes. Não fala às pessoas nem tem propostas”

Miguel Relvas é um dos principais apoiantes de Pedro Passos Coelho para líder dos sociais-democratas. Está contra o casamento entre homossexuais e exige o fim do trauma do partido em querer eleger pessoas do passado.


Está activo como nunca na busca de apoios para Pedro Passos Coelho, que acredita ser o próximo presidente do PSD. Miguel Relvas foi afastado das listas à Assembleia da República por Manuela Ferreira Leite. Resiste em Santarém à passagem do “manelismo” e rejeita Marcelo, que diz ser um regresso a um passado que já não faz sentido. O homem que se destacou com Durão Barroso como uma das maiores promessas do partido explica a O Diabo o seu mapa para a vitória.

 

O Diabo - O caso “Face Oculta” é mais um episódio a envolver o senhor primeiro-ministro, sem que, no entanto, nada pareça provar o envolvimento do Eng. José Sócrates em actos ilícitos ou ilegais. Como político, como olha para estes sucessivos casos que envolvem o chefe do Executivo?

Miguel Relvas - Estas investigações, estes casos, fazem sempre com que se prejudique naturalmente a imagem de todos aqueles que estão envolvidos. E isto é ainda mais verdade para os que estão na vida pública. Aqui a Justiça deve ser muito célere e ter todos os meios necessários para que se possa investigar até ao fim.



O Diabo - Por causa do caso anterior – e de outros – há uma descrença dos eleitores, quer no sistema político, quer na Justiça. É pelo menos essa a vox populi das cidades, nos cafés, nas ruas. Também sente isso? E, se sim, como julga que se podia reconquistar essa confiança? Que medidas imediatas julga que podiam ser tomadas?

Miguel Relvas - O que se passa hoje contribui em muito para a descrença das pessoas na Justiça, mas também na vida política e partidária. As medidas a tomar passam, por exemplo, pela alteração imediata na escolha de quem se candidata a cargos públicos. Devemos bater-nos por círculos uninominais, para que os escolhidos e propostos pelos partidos sejam, de facto, pessoas que tenham proximidade com as pessoas que os elegem. Isto aumenta a responsabilização quer dos eleitores quer dos eleitos. Não podemos continuar a ter escolhas feitas longe das pessoas.

 

O Diabo - Ora, por exemplo, no seu caso, que ficou de fora, apesar de apoiado localmente…

Miguel Relvas - Mas o Miguel Relvas agora não interessa para nada. O importante é que esta deve ser uma medida tomada em todas as áreas em que há eleitos. Devem ser as estruturas locais a decidir quem são os nomes. Os partidos não podem continuar a decidir em gabinetes alcatifados e longe dos eleitores. Não são meia dúzia de iluminados e menos iluminados que devem fazer essas escolhas. Temos de evoluir, de facto, para um sistema de representatividade.

O Diabo –  Segundo parece, a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo será mesmo votada na Assembleia da República. Concorda com esta "liberalização" do casamento?

Miguel Relvas - Concordo que as pessoas que têm deveres iguais tenham direitos iguais. Aceito que se compreenda esta extensão no campo dos direitos jurídicos, mas tenho enorme respeito pela instituição que é o casamento.

O Diabo – As diferenças entre PS e PSD nem sempre são claras para os eleitores. Quais as que lhes encontra para que, ainda hoje, seja militante do PSD e não do PS?

Miguel Relvas - Essas semelhanças são meramente conjunturais… O PS tem uma política que depende exclusivamente do Estado, está sempre apoiado neste e tudo o que faz é baseado nele. Ora, o PSD tem uma visão de fundo completamente diferente da sociedade. O PSD acredita nas pessoas, nas empresas e na iniciativa dos cidadãos. Esta é uma diferença marcante, porquanto não tenha sido, nos últimos meses, a diferença marcada pelo próprio partido perante o eleitorado. Sou e serei do PSD porque acredito nisto.


O Diabo – Os arautos da desgraça do PSD têm dito que, ou o partido se organiza, ou corre o risco de ver o seu eleitorado dispersar-se para o PS e para o CDS. Há, na sua opinião, um risco real disto acontecer ou, afinal, são apenas arrufos dos dias seguintes às eleições?
Miguel Relvas - O PSD tem, de facto, de conquistar os 11 deputados que perdeu para o CDS nas últimas eleições. E perdeu-os porque não falou dos problemas concretos. Não falou do desemprego, das necessidades das pessoas, da carga fiscal, da educação e da saúde. Estas são as preocupações reais dos eleitores e dos portugueses e o PSD não lhes soube dar respostas. O futuro do PSD passa, exactamente, por aqui. Não podemos mais continuar com pensamentos do passado, pensamentos e pessoas que não apresentam propostas concretas.


O Diabo – O senhor é, porventura, uma das caras mais conhecidas no apoio à candidatura do dr. Passos Coelho à liderança do PSD. Qual é a estratégia certa para toda a equipa que se propõe liderar o partido, e em que está inserido: manter o silêncio até ao acto eleitoral interno ou, pelo contrário, ir pontuando com comentários à actuação da actual líder?

Miguel Relvas - Assim que forem marcadas eleições, o candidato que eu apoio, e todos nós, temos obrigação de apresentar propostas e falar com o partido. Mas fazê-lo, não é a partir de Lisboa para o partido. É ir aos locais, perceber o que os militantes e simpatizantes querem e exigem. O que temos de conseguir neste novo ciclo é discutir, a fundo, os princípios e as ideias mobilizadoras para o partido e o País. E temos de conseguir estancar esta má ideia que é reeleger sempre figuras do passado, personalidades que já tiveram o seu tempo à frente do partido. O PSD tem mesmo de se rejuvenescer, de ter pessoas novas à frente. Senão, pode estar, de facto, em perigo.

 

Aguiar a caminho de aliança com Passos

Um acordo entre Aguiar Branco e Marco António Costa põe o líder parlamentar no caminho de uma aliança com Passos Coelho. Marcelo está mais isolado, apesar das sondagens que o dão como preferido.

 

José Pedro Aguiar Branco, o líder parlamentar do PSD, está disponível para conversar sobre apoios a dar à candidatura de Pedro Passos Coelho à presidência do PSD. Na última semana o advogado do norte, que se impôs como chefe da bancada dos sociais-democratas, começou conversas com a candidatura de Passos Coelho. O objectivo é aferir das condições que Passos terá para oferecer a Aguiar Branco - principalmente na estrutura partidária e na continuidade da liderança da bancada parlamentar.

 

Pedro Passos Coelho, sabe O Diabo, tem sido cauteloso na aproximação a Aguiar Branco, uma vez que este ainda é vice-presidente do PSD e foi escolhido por Manuela Ferreira Leite. Mas depois da pressão que Marcelo Rebelo de Sousa fez perante a candidatura de Passos Coelho, forçando quase a sua desistência, a táctica dos passistas mudou. O apoio do actual chefe dos deputados pode ser essencial para recuperar votos internos e, acima de tudo, ter uma boa presença na Assembleia - carente de vozes discordantes da actual direcção e que podem ser, caso Passos seja eleito, um grupo difícil de dominar.

 

Aguiar Branco, já pensou nisso deixou de fora da liderança da bancada nomes como José Pacheco Pereira e José Luís Arnaut - dois cavaquistas transformados em barrosistas que estão sentados agora na última fila da Assembleia.

 

Um acordo anterior às eleições legislativas está a facilitar o diálogo entre Aguiar Branco e Passos Coelho. O primeiro tem um entendimento do Marco António Costa, o chefe das hostes sociais-democratas a norte do País, onde se concentram mais votos militantes. O acordo incide numa estratégia mais lata: Marco António quer a Câmara de Gaia, despacha Luís Filipe Menezes para a Câmara do Porto e, ao mesmo tempo, ambiciona uma das vice-presidências partidárias – com Passos Coelho ou com outro candidato.

 

Aguiar Branco, para já, diz apenas que não virará as costas a qualquer tipo de combate, mas nem os apoiantes de Ferreira Leite, Marques Mendes ou Rui Rio querem o advogado do Porto queimado rapidamente. Assim, preferem que faça uma boa carreira contra Sócrates no Parlamento e se torne uma mais-valia para o partido, dentro de alguns anos.

 

Passos vira à direita

 

Compreendendo a necessidade de estancar votos que perdeu para o CDS, a candidatura de Passos Coelho está a preparar-se para apresentar um programa que ataque, já, a ala direita do partido - e o espaço curto que a separa do CDS. Miguel Relvas, de Londres, diz a O Diabo apenas que “está tudo a ser trabalhado ainda”, sem querer revelar mais pormenores. Mas O Diabo sabe que o programa de Passos Coelho agarra nas ideias de mais Estado na protecção social mas menos intervenção estatal na economia. Os casos “Face Oculta” e “Freeport” vêm a calhar para Passos Coelho, que demonstrará assim a necessidade de retirar ao Estado e ao Governo o controlo de empresas como a EDP, a Galp, a REN, a Refer ou os CTT – e com isto realizar receitas adicionais para equilibrar as finanças públicas.

 

Outro dos trunfos de Passos Coelho é apresentar uma equipa de direcção onde são varridos todos os nomes que ainda restam do cavaquismo. A saída de Deus Pinheiro da Assembleia sem aquecer lugar pode ser dada como exemplo de o que os cavaquistas entendem como poder: ou vão para lugares executivos ou acabam desistindo. Passos quer acabar com este tipo de comportamentos.

 

Morais Sarmento sossega

 

Outro dos nomes que estava em cima da mesa e que conta para a distribuição de votos é Nuno Morais Sarmento. O antigo ministro de Durão Barroso apareceu a sustentar uma mudança de rumo no partido, mas não assumiu qualquer candidatura. Sarmento, sabe O Diabo, deve apenas fazer uma declaração de apoio, que pode ser a Passos Coelho, se Marcelo, definitivamente, se afastar da corrida.

 

Um dos seus apoiantes revela: “O Nuno não quer agora entrar num combate que sabe só divide o partido. Vai afastar-se, para dar espaço à renovação. As pessoas sabem que podem contar com ele, mas está empenhadíssimo no seu escritório de advogados e não lhe conviria sair neste momento, a não ser que o cenário de liderança pusesse o partido em causa”. Um destes “cenários” é uma candidatura de Aguiar Branco contra Marcelo ou Passos. Seria apenas para marcar posição, mas queimaria o actual líder parlamentar aos olhos da opinião pública.

 

No entanto, uma recente sondagem encomendada por jornais portugueses, dá Marcelo em vantagem perante Passos Coelho, num resultado de 60 pontos para o professor contra 40 para o jovem social-democrata. Nada que preocupe a campanha de Passos Coelho: “Estamos cientes que a visibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa é muita. Mas assim que Pedro Passos Coelho começar a aparecer, as pessoas entenderão a nova mensagem”, diz um destacado apoiante.

 

Até Janeiro, no entanto, o candidato a líder – o único até agora assumido – marcará apenas pelo silêncio. As hostilidades para a campanha interna devem começar no final do primeiro mês de 2010, daqui a 45 dias.

Marcelo quer forçar Passos a desistir

O desejado avança se o jovem sair de cena. A candidatura de Passos Coelho  ainda não sabe o que o professor quer para o PSD e, por isso, por enquanto, não capitula.

 

Marcelo Rebelo de Sousa quer que Pedro Passos Coelho desista da candidatura à presidência do PSD. O comentador só admite candidatar-se ao cargo se houver uma lista única no partido, encabeçada por si ou, pelo menos, com um candidato consensual entre as várias facções.

 

Os apoiantes de Pedro Passos Coelho recusam desistir. Miguel Relvas é claro nas críticas e atem-se apenas a Ferreira Leite: “A actual liderança do PSD não teve oposição interna que lhe prejudicasse a estratégia. Para o que aconteceu não há álibis”, diz. Passos Coelho não vai retirar a candidatura apesar das palavras de Marcelo.

 

No seu programa de Domingo, Rebelo de Sousa não quis admitir uma candidatura. “Se sou candidato caso Passos Coelho desista? Oiça, se a minha avó tivesse rodas seria um autocarro…”, disse o professor de direito e ex-líder do PSD. Marcelo critica duramente os apoiantes de Manuela Ferreira Leite por estarem já a empurrá-lo para a liderança, considerando que é cedo para tomar posições. “A questão não é ser candidato. A questão é haver ou não condições para a unidade. Pode ser candidato uma pessoa qualquer”, sustentou o analista. E disparou: “Foi uma semana pouco feliz para o PSD, em que se discutiram nomes e se digladiaram facções. Não é isso que defendo, não foi isso que defendi”. Marcelo recusa ainda qualquer unidade aparente do partido, quando acusa os apoiantes de Passos e de Manuela de não sossegarem.

 

De facto, o clima dentro do PSD é volátil. O eurodeputado Paulo Rangel veio a público dizer que está “fora de hipótese qualquer candidatura à presidência do PSD” e apoiar uma eventual corrida de Marcelo. Mas, ao mesmo tempo, criticou Passos Coelho, o que deu ao professor de Direito o pretexto para afirmar que continua a luta de facções. Outro dos homens que veio a público solicitar Rebelo de Sousa para a corrida à liderança foi José Luís Arnaut, que considerou Marcelo o melhor candidato. O mesmo fez José Eduardo Martins: “Não há ninguém em melhores condições de ser presidente do partido, nem há melhor candidato a primeiro-ministro”, sustentou o deputado. Já Nogueira Leite diz que o professor chega numa “lógica de passado” e que a corrida de Marcelo seria uma aposta em “candidaturas gastas”.

 

Empate

 

As contas não estão fáceis. Passos Coelho já as fez e os seus apoiantes calculam que consiga, pelo menos, 50 por cento dos votos directos caso concorra contra Marcelo. Num cenário com outro candidato, Passos acredita que pode mesmo vencer à primeira volta, sem qualquer problema – mesmo contra Paulo Rangel.

 

Braga, Bragança, Porto e Santarém são distritais consideradas seguras pela candidatura de Passos, o que faz qualquer outro candidato pegar na calculadora. Lisboa continua a ser a maior distrital e Carlos Carreiras, o presidente, já veio dar o apoio a Marcelo. Mas se Passos Coelho continuar a ganhar apoios a norte, ficará muito perto de uma maioria absoluta: basta somar Vila Real, Viseu e Aveiro para fechar as contas a seu favor. Isto tendo em conta que as eleições são por voto secreto e que nas restantes distritais que apoiassem outro candidato, Passos ainda assim receberia votos.

 

Esta semana o PSD deve virar-se para a análise crítica ao Programa de Governo, que será apresentado na Assembleia da República. Até à apresentação do Orçamento de Estado, já se sabe, não haverá marcação de eleições directas para líder dos sociais-democratas. Ora, o Governo prevê apenas apresentar o documento no início de Dezembro. Depois, somam-se 45 dias de discussão na generalidade e especialidade. O que atira para final de Janeiro a votação das contas para 2010. A publicação do Orçamento só deverá ser feita em Março de 2010. É então que o PSD deverá marcar eleições para a liderança. Se as facções se aguentarem mais 140 dias.

 

Entretanto, na Assembleia

 

Ao mesmo tempo que o partido discute o futuro líder, na Assembleia, os funcionários estão a viver um clima que apelidam de “tensão permanente”. Numa reunião a semana passada, o líder da bancada parlamentar, José Pedro Aguiar Branco, estabeleceu novas regras de funcionamento e admitiu recorrer a dispensas, caso os colaboradores não se sentissem bem com essas novas regras. Um antigo funcionário do PSD no Parlamento admitiu a O Diabo que os colaboradores sociais-democratas estão “irritados e desgostosos”. “A reunião deixou pessoas em baixo, pessoas com mais de 20 anos de casa que agora podem ter o emprego em risco. É que a maioria não tem direito a subsídio de desemprego”.

 

Cenários pós-eleitorais

Resultados ditam futuro dos líderes

 

E se eu perder? – perguntam-se os líderes dos principais partidos concorrentes às legislativas. Sócrates teria de engolir a derrota e carregar o partido às costas, numa penosa travessia do deserto. Manuela sairia pelo seu pé. E Portas avançaria com uma surpresa na noite das eleições…

 

A 25 dias das eleições legislativas já se afiam facas para a noite eleitoral. No CDS, alguns destacados militantes esperam avidamente o resultado para saber se se “colam” ao poder (no caso de uma vitória) ou se avançam com um pedido de congresso extraordinário, caso Paulo Portas obtenha um resultado inferior ao das eleições passadas. “O Diabo” sabe que um conjunto de apoiantes do jovem João Almeida está apenas à espera de um mau resultado para pedir uma reunião magna do partido e tentar substituir o líder.

 

Os rivais de Paulo Portas arriscam-se, contudo, a enfrentar duas surpresas. A primeira, com os próprios resultados eleitorais: “O CDS vai ter melhor resultado que nas eleições anteriores”, garante um dirigente do partido a “O Diabo”. “A campanha está a correr melhor. Isto não quer dizer que venhamos a somar, com o PSD, uma maioria que dê para governar. Mas que vamos subir de votos, isso vamos”.

 

Mas Paulo Portas, que não entrega a terceiros a gestão da sua carreira política, tenciona antecipar-se com uma outra surpresa: a convocação de um congresso extraordinário na própria noite das eleições, qualquer que seja o resultado.

 

“É natural que um líder que ganha se queira ver novamente legitimado”, explicou um dirigente do CDS a “O Diabo”. Mas se perder em toda a linha, Portas pode mesmo sair. Outro militante do partido assegura ao nosso jornal: “Não há oposição interna que se veja, as coisas estão unidas, mas Paulo Portas já disse que ou conseguia um bom resultado e era governo, ou ia-se embora. O problema é que Paulo sente que uma dezena de anos depois, ou as pessoas entendem a mensagem, ou o problema é do mensageiro, e então deve afastar-se”.

 

Coelho e Rangel

 

Já no PSD, as contemplações face a uma hipotética derrota de Manuela Ferreira Leite não seriam grandes. Caso a líder perdesse para o PS as eleições, o partido avançaria mesmo para congresso extraordinário. Depressa e em força. Tanto mais que é conhecida a determinação de Manuela Ferreira Leite de não se eternizar na liderança num cenário de oposição. O que preocupa a oposição interna é o pouco tempo que restaria ao novo líder até às próximas legislativas. Marcelo Rebelo de Sousa já avisou, sobre o programa do PSD: “É um programa para as eleições de 27 de Setembro, mas é programa que me parece pensado para a hipótese possível, plausível, de sair um Governo minoritário e de haver novas eleições dois anos depois”, previu o comentador.

 

Ora, com menos de dois anos para preparar alternativa, e sendo provável que um eventual Governo do PS não aguentaria, sequer, um ano, os candidatos Pedro Passos Coelho ou Paulo Rangel – vistos como os mais prováveis sucessores de Manuela teriam pouco tempo para conquistar o partido e o País. Em caso de fracasso eleitoral, se a líder não caísse a 27 de Setembro, por mão própria, cairia no congresso seguinte. Isto deixaria, ainda, o Presidente da República em maus lençóis políticos. Apesar de o “seu” PSD não o desapoiar caso decida avançar com a candidatura a um segundo mandato, Cavaco teria de esperar que Rangel ganhasse para ter apoio explícito. Se fosse Passos Coelho a vencer, Cavaco poderia muito bem ter que suar as estopinhas sozinho… contra um Manuel Alegre revigorado e candidato em pleno do PS.

 

“Carro-vassoura”

 

Quanto ao PS, mesmo que saísse vencedor das eleições do próximo dia 27, teria vida a prazo no poder, com José Sócrates fragilizado. Seria o primeiro líder do PS a não conseguir melhorar resultados de umas legislativas para as outras (excluindo, naturalmente, os casos em que foi derrotado), e teria de carregar o partido às costas” numa penosa travessia do deserto. António José Seguro, Paulo Pedroso, António Costa ou outro candidato que surgisse não quereria servir de carro-vassoura dos despojos socráticos. O jovem Tozé espera, no entanto, ser líder parlamentar na próxima legislatura, caso o PSD vença, preparando-se para futuros combates.

 

À esquerda, só um maremoto poderia afastar Jerónimo de Sousa da liderança do PCP. É cedo para o jovem Bernardino Soares e tarde para o sindicalista Carvalho da Silva, que se vem afastando dos comunistas desde que se doutorou. O maremoto seria, no entanto, ficar em quinto lugar, atrás do Bloco e do CDS. Nesse cenário, Jerónimo regressaria a Pirescoxe, abrindo caminho para a primeira sucessão no PCP na era pós-Cunhal – o maior desafio dos comunistas desde 1975. No entanto, as sondagens internas dos partidos ainda vão dando o PCP à frente do CDS – oxigénio suficiente para se afastarem as hipóteses de sucessão.

 

Resta o Bloco de Esquerda, alicerçado em Francisco Louçã, que habilidosamente vem “desgastando” as figuras de proa do partido e, aparentemente, não tem de enfrentar a oposição de tendências internas – ao contrário do que geralmente sucede nos partidos congéneres europeus. Um mau resultado para o Bloco seria voltar a ter dois ou três deputados. Mas uma votação que faça o BE descer para o quinto lugar – fruto do voto útil da esquerda moderada no PS e não nos bloquistas pode fazer com que Louçã apenas consiga um quarto lugar na tabela, atrás do PCP ou do CDS.

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