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Jornal O Diabo

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Quando acabámos com o Muro da Vergonha

Hugo Navarro

 

O derrube do Muro de Berlim, há 20 anos, simbolizou o desmoronamento do império soviético e o fim do comunismo europeu. Importa não esquecer o que foi esse regime de terror.

 

Completam-se no próximo dia 9 de Novembro vinte anos sobre o início do derrube do Muro de Berlim, a cerca de betão e arame farpado que durante quase três décadas enclausurou os berlinenses e impediu a fuga de "cidadãos do Leste" para o Ocidente. Podemos festejar o derrube do Muro como símbolo da queda do comunismo de inspiração soviética. Mas devemos igualmente preservar a memória do que foi esse regime odioso, honrando as suas vítimas. Para que não se repita.

 

O Muro foi um instrumento típico do período da Guerra Fria, a "entente" belicosa que manteve dois mundos à beira de disparar, sem nunca o fazerem. Terminada a II Guerra Mundial, a emblemática cidade de Berlim fora dividida em quatro fatias, cada uma delas administrada por uma das potências vencedoras: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética. Em 1949, as três fatias "capitalistas" de Berlim foram integradas na República Federal Alemã (RFA), enquanto a fatia soviética era incorporada na República "Democrática" Alemã (DDR). Isolada no território comunista, Berlim Ocidental tornou-se um oásis de liberdade e terra de exílio para mais de dois milhões de alemães que fugiram do Leste e das "maravilhas" do "socialismo real".

 

Na madrugada de 13 de Agosto de 1961, inquietos com a debandada geral, os governantes da DDR decidem pôr fim à livre circulação, selando as fronteiras de Berlim Ocidental. Começava a construção do Muro. O traçado cego cortou ruas pelo meio, dividiu famílias e reforçou o clima de terror comunista em que viviam os chamados "cidadãos do Leste". Electrificados e vigiados dia e noite por 300 postos de controlo, os 66 quilómetros de Muro eram a imagem viva do campo de concentração em que o espaço do Pacto de Varsóvia se tinha transformado.

 

Ao longo de 28 anos, dezenas de pessoas (entre elas inúmeras crianças) foram mortas pelo exército comunista quando tentavam galgar o Muro e refugiar-se no lado ocidental. Milhares de fugitivos foram presos antes de conseguirem transpôr as valas que acompanhavam o Muro, caçados como coelhos por matilhas de cães atiçados pela soldadesca. Imagens pungentes, captadas a partir de prédios de Berlim Ocidental e difundidas pelas televisões do mundo livre, mostravam a crueldade com que eram tratados todos os que esboçavam um gesto de aproximação. O Muro de Berlim era o Muro da Vergonha.

 

Mas a Cortina de Ferro que descera sobre a Europa Central começava a enferrujar. Incapaz de manter o seu império continental sem recurso a meios repressivos cada vez mais dispendiosos, a braços com uma crise económica que nenhum Plano Quinquenal poderia superar (e com bolsas de fome em várias províncias orientais), exaurida pela fuga de talentos e acossada pelo descrédito internacional, a União Soviética aproximava-se do colapso.

 

Compreendeu-o Mikhail Gorbatchev, o antigo protegido de Andropov que em 1985 ascendeu à chefia do Partido Comunista e do governo soviético. Três anos bastaram para que Gorbatchev pudesse anunciar aos países do Pacto de Varsóvia o fim da tutela de Moscovo: cada um deles seguiria o seu caminho. Na Alemanha, onde o comunismo nunca gozara de qualquer popularidade, nem mesmo remota, o regime cairia ao primeiro sopro. Caiu com o ignominioso Muro, em 9 de Novembro de 1989. Um ano depois, o comunismo deixava de existir no espaço do que tinha sido o "bloco soviético".

 

O derrube do Muro de Berlim culminou um processo de meses, durante os quais grandes manifestações pela liberdade abalaram o governo comunista e prenunciaram o seu desmoronamento. Incapazes de conterem a onda leste-alemã, e numa última tentativa para manterem o controlo do poder, as autoridades anunciaram o fim das restrições de trânsito entre as duas zonas de Berlim. Às 11 da noite de 9 de Novembro, uma multidão em festa atravessou o posto fronteiriço da Bornholmer Straße e pôs fim a quase 30 anos de isolamento. Pela noite fora, e ao longo dos dias e semanas que se seguiram, largos milhares de berlinenses, do Leste e do Oeste, acompanhados por militantes anti-comunistas que chegavam de todo o mundo, foram demolindo com as suas mãos o Muro da Vergonha. Pedaços de betão eram guardados como lembrança do regime de terror instaurado em 1917 em Moscovo.

 

Vinte anos depois dessa noite histórica em que o Muro e a ideia comunista ruíram, a Alemanha unificada prepara-se para grandes celebrações em que participarão estadistas de todo o Ocidente (e também Gorbatchev, o antigo comunista que, ao trair o Partido, precipitou o fim do regime em que deixara de acreditar). Mas esta ocasião deve também ser aproveitada para recordar o terror do império comunista, uma pílula de cianeto que velhos revisionistas tentam ainda dourar com as cores da fantasia.

Para as novas gerações, nascidas já depois da queda da União Soviética, a memória de um regime torcionário, amordaçado pela censura e mantido a ferros pelo KGB, reduzido à materialidade "científica" de uma existência de que o espírito e o pensamento estavam banidos, que erigia a miséria colectiva como "ideal igualitário", pode surgir hoje sob o aspecto de uma "utopia" banalizada pela internet. Sob o aspecto "inofensivo" de uma curiosidade da História.

 

Importa, por isso, insistir na divulgação do que realmente foram o regime comunista e a sua malignidade de raiz. As celebrações da queda do Muro de Berlim não podem ser apenas uma festa colorida. Porque o Muro da Vergonha permanece como lição de História e de Política.

 

O Diabo que o carregue: Francisco Anacleto Louça

Há em Portugal um mestre-escola disposto a ensinar-nos a viver em democracia: é o trotsquista Francisco Louçã, dirigente de uma coligação de extrema-esquerda que reúne “a nata” dos velhos defensores da ditadura do proletariado.

 

Ainda agora, mais uma vez a propósito de declarações de Alberto João Jardim, a luminária veio esclarecer o povo ignaro: “A democracia é a liberdade e diferença de opinião”. Isso, por acaso, até nós já sabíamos. O que não sabíamos era que ele sabia.

 

Que dissera Jardim? Apenas isto: já que a próxima legislatura terá poderes constituintes, aproveite-se para rever a Constituição da República no ponto em que ela condena um totalitarismo (“o fascismo”, expressão que hoje se presta a todos os equívocos e aproveitamentos) ignorando outros totalitarismos (como o comunismo).

 

Mestre Louçã não gostou. Compreendemos: embora aproveitando-se das liberdades que a democracia lhe concede, o chefe do Bloco de Esquerda não deixou, aparentemente, de ser um fervoroso adepto do totalitarismo comunista – ou então deixou e ainda não consegue confessá-lo. Vai daí, como é seu timbre, enveredou pelo ataque pessoal e pelo mero insulto.

 

“Como sabe, Alberto João Jardim foi um homem da União Nacional, fez parte do partido da ditadura em Portugal”, disse Louçã, “e portanto tem algum conhecimento por dentro da forma como se impõe uma ditadura e por isso creio que devia aprender um pouco mais com a democracia”.

 

É curioso ser Louçã a dar lições de democracia ao presidente democraticamente eleito do Governo Regional da Madeira. Não só pelo insólito da “acusação” em si mesma mas, sobretudo, pela óbvia falta de autoridade de Sua Excelência na matéria. Quem tem “algum conhecimento por dentro da forma como se impõe uma ditadura” – é precisamente ele, que a vem coerentemente defendendo desde os tempos de rapaz. Honra lhe seja: não se desviou um milímetro dessa linha, nem mesmo quando seu pai, o comandante Louçã, era ainda comandante do vaso de guerra que em 25 de Abril tentou disparar sobre as forças de Salgueiro Maia no Terreiro do Paço.

 

Há “democratas” que faziam melhor figura se ficassem calados.

 

FRA DIAVOLO

 

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