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Sócrates cada vez mais cercado

O nome do primeiro-ministro foi envolvido em três processos mediáticos: Cova da Beira, Freeport e, agora, Face Oculta. Há socialistas que temem pela duração desta legislatura.

 

São dezenas de horas de conversa entre Armando Vara e José Sócrates que repousavam há mais de quatro meses em cima da secretária do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro. 'O Diabo' sabe que devem começar a ser investigadas esta semana, depois de a sua existência ter vindo a público. Nessas conversas, o primeiro-ministro e o vice-presidente do maior banco comercial português alvitram, diversas vezes, cenários sobre terceiras empresas. O Ministério Público quer agora confirmar ou infirmar se aquilo que José Sócrates e Armando Vara dizem nas conversas acabou por ser realizado ou se não passou, de facto, de uma conversa de amigos – como alegou o primeiro-ministro em declarações aos jornalistas.

 

Mas o cerco a José Sócrates não fica por aqui. Os investigadores britânicos, sabe também 'O Diabo', estão a 'apertar' com a polícia portuguesa para que esta apresente resultados no caso Freeport, que pode ainda envolver o nome do primeiro-ministro. A polícia britânica e a portuguesa querem agora, e de uma vez por todas, saber se o homem a quem (nas escutas e nos e-mails trocados entre os promotores do negócio) é dado o nome de código de “pinóquio” tem alguma coisa a ver com o actual líder do PS. A investigação corre em ritmo acelerado e pode haver constituição de novos arguidos nas próximas semanas, apurou o nosso jornal.

 

Há ainda um outro processo em que o secretário-geral do Partido Socialista pode vir de novo a ser chamado a depor. É o que envolve o licenciamento e atribuição de uma central de resíduos na Cova da Beira. Sócrates já depôs por escrito, mas o tribunal pode considerar-se pouco esclarecido e voltar a pedir depoimento ao primeiro-ministro.

 

Das três investigações em curso e em que José Sócrates aparece referido, nenhuma aponta, por ora, para a sua constituição como arguido. Até agora, a Justiça apenas conseguiu apurar que o seu nome era, de uma forma ou de outra, referenciado pelas pessoas que, alegadamente, terão cometido crimes de corrupção, tráfico de influências e subornos. Mas a verdade é que o nome do primeiro-ministro português será invocado publicamente em três processos.

 

É o pior início de mandato que José Sócrates poderia esperar para um governo minoritário. Entalado na Assembleia da República entre uma esquerda que não cede a acordos, uma direita sem liderança no PSD e aguerrida no CDS, Sócrates reage mal às críticas, irritando-se mesmo quando o deputado Pacheco Pereira, do PSD, lhe perguntou que comentário político tinha a fazer sobre a alegada utilização de cargos públicos de nomeação política no caso “Face Oculta” (ver páginas centrais, nesta edição). Sócrates não respondeu ao deputado, mandando-o discutir para a “Quadratura do Círculo”, programa de debate semanal em que Pacheco Pereira participa há mais de uma dezena de anos.

 

Entre os socialistas que sempre se opuseram a Sócrates, cresce o sentimento de insegurança em relação ao actual Governo. Manuel Alegre, que luta por ser o candidato presidencial apoiado pelo PS nas eleições de 2011, quer “mais meios para a investigação” e lança já o aviso: “Espero que José Sócrates tenha as condições necessárias para fazer as reformas [na Justiça] que sejam necessárias”.

 

Ana Gomes, a eurodeputada incómoda para Sócrates e que saiu derrotada nas eleições autárquicas, em que corria para a Câmara de Sintra, é irónica a comentar o caso “Face Oculta”: “Só o PS pode, sobressaltando-se, fazer o país dar esse salto à vara sobre o pântano”, diz no seu blogue 'Causa Nossa'. O “salto à vara” de que Ana Gomes fala é, tudo o indica, intencional.

 

Com o cerco da Justiça a rondar, cada vez mais, o nome de José Sócrates, a estratégia do PSD é, por ora, nem sequer falar no assunto. A direcção do partido, contactada por 'O Diabo', recusa qualquer comentário aos processos judiciais. O PSD quer assim evitar trazer para o palco político o problema judicial. Nos próximos dias, no entanto, o alvo deverá ser Pinto Monteiro, o Procurador-Geral da República que, aparentemente, nos últimos meses não tocou no 'dossier' das escutas a conversas entre Armando Vara e José Sócrates.

 

Uma das justificações avançadas para o facto é a falta de informação sobre a envolvência dessas escutas: não se saberia o que estava por detrás das conversas entre os dois amigos e, acima de tudo, o enquadramento legal em que estavam a ser feitas remetia para outra investigação. No entanto, nos últimos dias têm-se intensificado as críticas a Pinto Monteiro e a Cândida Almeida, a Procuradora-Geral Adjunta encarregue agora de todos os processos. O Procurador veio já a público dizer que espera tornar conhecidos todos os documentos que constam da investigação do processo “Face Oculta”. A decisão de levantar o segredo de Justiça cabe aos tribunais, a pedido do Ministério Público, ou às partes interessadas, caso consigam consentimento dos restantes actores do processo.

 

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