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Espanhóis preparam-se para retirar água dos nossos rios

A seca atinge a maioria do território nacional. Especialistas prevêem que prolongue na próxima década. Os agricultores sofrem e as águas vão subir de preço. Os espanhóis, a braços com o mesmo problema, preparam-se para retirar água aos nossos rios, mas o Governo diz não saber de nada.


Perante a seca ibérica, os espanhóis estão já a tomar medidas. A Junta da Extremadura, entidade regional que controla o último troço de leito do Tejo em território castelhano, encomendou esta semana um novo estudo para mais um transvaze no maior rio da Península. Os espanhóis querem criar mais uma albufeira para armazenamento de água, com vista ao regadio e ao consumo.

 

O Governo português diz desconhecer esta intenção dos espanhóis, embora ela tenha sido anunciada na imprensa de Cáceres e de Madrid. "O Governo português está atento à situação e manifestará a sua posição no âmbito da Comissão para a Aplicação e o Desenvolvimento da Convenção de Albufeira (CADC)", diz o Ministério do Ambiente.

 

No entanto, a água que chega a Portugal pelos principais rios ibéricos degrada-se em quantidade e em qualidade.

 

Estudos recentes mostram que o caudal do Douro e Tejo terá descido cerca de 15 por cento nos últimos anos de seca. Paulo Constantino, responsável do Movimento Pelo Tejo diz, por exemplo, que a água de Valdecañas “é a última água limpa que entra no Tejo, porque o resto são águas sujas de Madrid. O que chega a Portugal são detritos”.

 

As águas internacionais estão também a prejudicar o enchimento da barragem do Alqueva. O Diabo apurou junto de fonte da barragem, que as cotas previstas para o enchimento deste ano estão aquém dos objectivos, o que atrasará a finalização do projecto “em meses largos”.

 

A situação é de extrema gravidade porque actualmente 92 por cento do território nacional está em estado de seca, segundo os dados do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica. O Verão de 2009, um dos períodos mais longos de temperaturas altas observado em território nacional, teima em acabar, apesar de alguns dias de chuva já em Outubro. Isto, apesar do mês de Julho deste ano ter sido aquele com mais chuva nos últimos 40 anos. Pouca alegria para os agricultores e para as terras, que já estão a encarquilhar por causa da falta de chuva.

 

Se não começar a chover rapidamente há um alerta sério sobre o consumo de água. O presidente do Instituto Nacional de Meteorologia, Adérito Simões, constata: “Desde Janeiro, a precipitação acumulada é inferior à média registada no período de referência (1971-2000)”, o que implica medidas especiais imediatas. Os especialistas estão a preparar-se para lançar alertas caso Novembro e Dezembro não tragam chuvas. Pode haver necessidade do consumo de água vir a ser cortado para permitir a produção de energia nas barragens.

 

Segundo dados do Instituto da Água (INAG), 21 das 56 barragens e albufeiras portuguesas têm um nível de armazenamento inferior a 40 por cento da sua capacidade. Apenas duas apresentam uma retenção superior a 80 por cento. O drama é mais profundo a sul, no Sado e no Arade, mas atinge também barragens que estão no norte alentejano – e é aqui que as reservas mais baixas se cruzam com a falta de chuva mais grave em todo o País.

 

O presidente do INAG, Orlando Borges, está “preocupado”: “As barragens estão a cumprir a sua função: armazenam água nos períodos chuvosos para garantir o abastecimento nos momentos de escassez. Estes armazenamentos garantem que de uma situação de seca meteorológica actual não se passe automaticamente para uma seca hidrológica (pouca água armazenada)”, declara o responsável.

 

Para já, Orlando Borges afasta a possibilidade de fechar as torneiras aos consumidores comuns: “"Nos abastecimentos, há reservas para dois anos. Não se prevê necessidade de restringir os usos da água", sossega.

 

O novo governo socialista ainda nada disse sobre a situação, mas o antigo ministro da agricultura, Jaime Silva, tinha ao seu dispor meios de apoio aos agricultores, se a situação se tornar ainda mais grave. Pouca resposta para os líderes da agricultura nacional, que já desesperam com o clima. João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), é taxativo: “Se o tempo quente persistir ao longo do mês de Outubro, será inevitável a concessão de apoios adicionais aos agricultores, sobretudo para as criações de gado”. São os animais que mais sofrem neste momento, uma vez que a água que os alimenta provem, normalmente, de furos e captações privadas. A água para beber e para as lavagens não pode ser adquirida à rede pública, sob pena de custos elevados.

 

Já João Diniz, da Confederação Nacional de Agricultores, é taxativo: “Os apoios governamentais já deveriam estar no terreno. Há que ter ajudas adicionais para o sector”.

 

A seca atinge todo o país. No Baixo Alentejo, de Serpa a Ficalho, por exemplo, os olivais e a criação de gado está em risco. No norte alentejano, António Almeida, um pensionista que se dedicou à agricultura depois da reforma, diz que já desistiu: “Há dois anos que não cai água suficiente para o terreno estar bom. O pequeno cultivo de subsistência está a ser afectado de forma caótica. As pessoas deixam de cultivar o campo e passam a comprar nas grandes superfícies, sai-lhes mais barato. Eu já deixei de tratar o terreno”.

 

Tempo vai ser cada vez mais seco

 

Rita Durão é autora de um estudo climático sobre Portugal. Doutoranda no Instituto Superior Técnico, assinou para o Centro de Recursos Naturais e Ambiente a pesquisa que dita um futuro difícil.

 

“Estamos com bom tempo a mais”, diz a investigadora. “Podemos até confirmar isso sem pensar em estatística, porque o Verão está extenso. Neste caso as observações do senso comum valem tanto como qualquer outra”, brinca a especialista. No entanto, Rita Durão alerta que com o tempo é sempre difícil prever o futuro: “Está um clima pouco habitual. Daí a dizer que estes sintomas se incluem numa mudança climática global, vai um passo. Devemos ter cuidado na análise e na projecção dessa análise para o futuro”. A climatologista estudou os dados dos últimos quarenta anos. “Em relação a esses dados, é claro que estamos a registar resultados em que há um largo período de seca”. O estudo identificou quer a aridez, quer as súbitas águas que alagam tudo em pouco tempo. “Constatamos muitos extremos secos e húmidos. O que concluímos é que quando há um evento de seca, de ausência de precipitação, ele é comum a todo o território. Isto não acontecia em décadas anteriores, é novo. Sobretudo na década de 90, os dados são claros. Não há uma seca localizada, quando acontece, é em todo o território. Na década de 60, por exemplo, esse fenómeno não era homogéneo. Portalegre podia estar em seca, mas o Algarve não estava. O que agora acontece é a harmonização do fenómeno”.

 

O desafio do Centro de Recursos Naturais e Ambiente é agora compreender as mudanças, para poder chegar a melhores conclusões. “Nós verificamos os dados e temos consistência estatística. Agora, é difícil criar um modelo. Os modelos existentes são essencialmente britânicos e precisamos de os alterar para os poder aplicar ao nosso clima e território. Isso demorará tempo”, adianta a pesquisadora.

 

No entanto, Rita Durão afirma que os estudos existentes prevêem um cenário pouco agradável: “Não quero dizer taxativamente que vai chover menos, mas há estudos indicativos nesse sentido. O mês de Março, por exemplo, era chuvoso, agora deixou de o ser. Essa precipitação vai ocorrer se calhar noutra altura, ou não ocorrerá de todo”.

 

Perante isto, a especialista do Instituto Superior Técnico deixa um alerta: “As opções políticas gerais têm de levar isto em conta. Os gestores e os políticos não tinham estes dados que agora começamos a trabalhar. Os primeiros dados recolhidos são recentes”.

 

Comércio também se sente

 

As grandes colecções de moda, o pronto-a-vestir e as empresas têxteis estão também com um problema em mãos. A chegada tardia do tempo frio está a fazer armazenar milhares de peças de roupa que, por esta época, deviam já estar à venda. A lojista Paula Santos diz a O Diabo que na sua loja em Lisboa a venda de roupa estagnou: “Vendemos essencialmente roupa de criança e em Setembro e Outubro há sempre muitos pais que renovam as colecções por causa da escola. Este ano, com temperaturas a rondar os 30 graus, ninguém se arrisca a comprar o que quer que seja.

 

Não sentem necessidade”. Paula recorda que há 30 anos, nos seus primeiros dia de escola “havia sempre chuvadas, já se usavam botas para a chuva, já havia casacos e blusões”.

 

Como milhares de lojistas pelo país, Paula, tem as encomendas paradas. “A roupa de Inverno em armazém por enquanto ainda me chega. Só farei novas encomendas quando o tempo mudar de facto. Não faz sentido estar a gastar milhares de euros em roupa que vai estar parada e em stock”.

 

Nenhum dos grandes super e hipermercados começou já promoções da roupa de inverno. Numa visita rápida às grandes superfícies lisboetas, O Diabo constata que nos cabides repousam ainda colecções de verão e meia-estação. São milhares de encomendas por fazer a fábricas têxteis que ficam sem efeito, por causa do ano menos chuvoso dos últimos 40.

 

A Triste Debilidade das Associações

António Marques Bessa

 


Há uma realidade que não se pode escamotear neste mundo do Ocidente e trata-se de uma debilidade da cultura tecnocrática e individualista, que se veio a implantar associada ao uso de tecnologias que facilitam os divertimentos em casa.

 

Essa antiga realidade consistia na existência de associações fortes e respeitadas, formadas por homens e mulheres interessados nas coisas públicas e no seu próprio mundo. Embora o sociólogo americano Wright Mills tenha escrito que uma coisa que o alarmava era crise das associações de homens livres na América e a proliferação de estruturas escondidas de poder, o facto é que ainda subsistem algumas associações fortes que têm o poder de fazer recuar os partidos, os grandes bancos e as grandes cadeias alimentares. Nada comparado à DECO, nem às diversas associações de famílias em Portugal.

 

A DEFESA JURÍDICA

 

A mesma ideia implantou-se firmemente num esquecido autor italiano, líder do pensamento político significativo. O convencional Professor Gaetano Mosca escreveu que a classe política só conhece um limite ma sua acção predatória sobre os bens públicos e o Estado. Esse limite é a capacidade de pressão por parte das associações de cidadãos livres. É isso que é a verdadeira defesa jurídica.

 

Só nos devemos perguntar que associações seriam essas. Por um lado as clássicas quando tinham poder de pressão: o Exército pelos poderes concentrados nos seus chefes; a Igreja como estrutura dos crentes; os Sindicatos, quando unidos e inteligentemente chefiados; a Universidade, como estrutura orgânica dos saberes; mesmo uma organização de criminosos a quem se possa recorrer para acertar coisas que a justiça morosa, lente, invertida e desviada, não faz.

 

O que sucedeu foi a lenta erosão destas associações fulcrais e a transformação do espaço político num monopólio de uma coisa que chamam “partidos”. Ora os Partidos não asseguram em parte alguma a defesa jurídica, porque são eles os principais interessados na pilhagem, sempre em nome de grandes ideais, com raras excepções, sobretudo nos países com pouca corrupção.

 

Mosca também lamentou que a classe política se estivesse a apropriar de todo um espaço de acção de homens livres e que as tradicionais instituições estivessem a perder força para os Sindicatos. Mas hoje, o dramático é que os Sindicatos perderam força para os Partidos. Tal como as Forças Armadas, a Igreja deixou de ter importância e as Organizações de puros bandidos continuam e aumentaram a sua acção. Não apareceram, entretanto, novas formas de associação a não ser as Ordens Técnicas de Profissionais, interessadas apenas nos seus assuntos particulares como horários de trabalho, salários e mordomias. A defesa jurídica, em sentido político, quase desapareceu ou não tem significado. Onde os Sindicatos intervêm não vêem mais que luta de classes e é certo o fracasso. Onde estiverem a empresa encerra. Em Portugal é muito pior. A luta sindical é um rotundo fracasso, porque os dirigentes são do nível dos dinossauros. Não percebem o que está acontecer para lá da linha do horizonte da clássica exploração. Não vão longe, para além de prolongarem a longa fila de desesperados despedidos.

 

QUE FAZER?

 

Esta é eterna pergunta de Lenine. E respondeu-lhe bem no seu tempo em termos de toma do poder total, para instalar um sistema totalitário e depois concentracionário (de campo de concentração). Mas a pergunta coloca-se também para todas questões que exigem uma resposta para a acção. Nos Estados Unidos, persistem associações poderosas baseadas na religião o que levou o ensaísta Kevin Phillips a escrever um livro intitulado American Theocracy (Penguin Books), em que se insurge contra o poder excessivo que exercem essas associações. Na verdade, estendem-se por todo o Estado Federal, pressionam Bancos que apoiam o ateísmo, cadeias de televisão que promovem o teísmo e a deterioração dos valores morais, punem pelo abandono de serviço cadeias de supermercados apoiam causas polémicas e não aprovadas por essas associações. A base religiosa sempre foi muito importante na América do Norte e tem garantido mesmo as liberdades fundamentais. Martin Luther King, como todo o movimento dos islamistas americanos, assenta e assentou na base religiosa. As Associações científicas costumam ser fortes e críticas, mas quando não há entendimento entre as três forças sociais (poder económico, poder militar e poder político) de forma a constituir uma Power elite (uma elite do poder) como pretendia Mills e Domhoff (Who Rules America Now), também elas podem travar o poder político. Uma elite do poder é intratável e pouco controlável.

 

O que fazer na Europa e entre nós? Não passa o caminho pelos lobbies, mas sim pela intervenção cidadã através de associações nacionais e europeias. Mas se os cidadãos não estão para dar tempo e cuidado gratuitos a uma Associação, preferindo divertimentos fornecidos ao domicílio, deixando as nomenclaturas agir à vontade, como o dono numa quinta, sem lhes tentar entravar algumas vias, não se podem depois queixar desse domínio asfixiante. Porém, com pouco esforço, cada um, sozinho, pode agir e ter influência nos resultados finais. Basta ver que instituições económicas apoiam programas televisivos com publicidade, que bancos patrocinam o quê, que jornais e revistam publicitam o quê, que sociedades apoiam o quê e depois boicotar. Podemos mudar de Banco, de Cartão de Crédito, de Livrarias, de Marcas, de Supermercado, de farmácia, de Médico, de Universidade, de Igreja. Esta acção daria que pensar aos donos do poder económico, o que se reflectiria nos apoios a partidos e a causas. Há remédios e respostas ao que fazer para todas as pessoas responsáveis. Estudar as suas opções e punir quem quiser, do ponto de vista económico. Onde dói directamente. Então está-se a assegurar a existência de defesa jurídica numa sociedade que carece dela.

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