Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Jornal O Diabo

jornalismo independente

jornalismo independente

Cristóvão Colombo

HERÓI PORTUGUÊS, NOBRE DE 5 ESTRELAS:

Desmontada a idiotice do plebeu genovês

 

Colombo é o segundo personagem sobre quem mais se escreveu até hoje, só perde para Cristo. Figura de incontornável importância na História da humanidade, tem dado origem ao maior número de parvoíces com que a “ciência” mente aos estudantes e as enciclopédias enganam o conhecimento.

 Reza a “verdade oficial” das páginas em que os Velhos do Restelo parecem ter medo de mexer que o descobridor da América era um plebeu nascido em Génova que depois de vinte anos naquela cidade, sem ter aprendido italiano (nunca soube falá-lo ou escrevê-lo), veio para Portugal e – milagre – em poucos anos aprendeu latim, português, espanhol, grego, hebraico, filosofia, cosmografia, cartografia, navegação… transformando-se numa das mentes mais cultas do seu tempo!

Além disso, como está documentado, tornou-se amigo pessoal de D. João II e frequentador assíduo da Corte, o que faria dele, enquanto plebeu e estrangeiro, um caso único nas monarquias do Século XV.

Mais ainda, casou com uma Dama nobre da Ordem de Santiago, D. Filipa Moniz de Perestrelo, que só podia casar com ordem do Rei e nunca com um homem abaixo da sua classe.

Só estas duas circunstâncias chegam para demonstrar a gigantesca idiotice de um zé-ninguém estrangeiro que de repente se vê com acesso pleno aos mais altos círculos de poder e aos mais bem guardados segredos de estado da nação mais poderosa do mundo, numa sociedade que não admitia mistura de classes.

Isso teria sido impossível!

 

O GENOVÊS E O PORTUGUÊS

Donde vem, então, a confusão?

De dois factos.

Em primeiro lugar, existiu efectivamente um Cristoforo Colombo genovês, só que nunca descobriu a América! Trata-se de duas personagens diferentes. Aliás, Colombo ele nunca se chamou, mas sim Colon, como vários documentos provam, incluindo uma bula papal de Alexandre VI, toda em latim, em que apenas duas palavras são portuguesas: Cristofõm Colon, o nome do navegador. O sufixo “fõm”, que mais tarde derivaria para o nosso “vão”, aparece acentuado com um til – nunca houve, nem há, nenhuma língua no mundo que acentue o “o” com um til, a não ser o português. Ou seja, o Papa não escreveu o nome dele em latim, nem em espanhol, nem em italiano, escreveu-o em português… porque seria?...

Por outro lado, o Colombo genovês nasceu em 1551, mas temos dois documentos escritos pelo punho de Colon que dão a sua data de nascimento como 1447.

Em segundo lugar, porque um nobre português, em determinada ocasião, mudou de nome e passou a usar o pseudónimo de “Cristovão Colon”, por não ter qualquer registo de pertencer à nobreza lusitana ou ligações de vassalagem ao rei português, o que permitiu enviá-lo a Castela e distrair a atenção dos Reis Católicos da coisa mais importante de então: a descoberta do caminho marítimo para a Índia, onde estavam todas as riquezas.

Foi o que sucedeu. Numa época em que Portugal liderava a expansão marítima, quase tudo era feito em segredo, porque não tínhamos povo suficiente para tomar posse de tantas terras, o que nos trazia os castelhanos sempre no encalço. O próprio Brasil foi alcançado pelos portugueses muitos anos antes da “descoberta oficial” em 1500.

Era necessário, portanto, que os espanhóis ficassem entretidos com novas terras e nos deixassem em paz para chegarmos à índia sem concorrência. Foi esse o papel de “Cristóvão Colombo”. Um êxito!

 

O INÍCIO DA CONFUSÃO

Com estas tramas e segredos, as páginas da História acabaram por embarcar numa teia de confusões que dura até hoje. A primeira foi assinada pelo historiador Rui de Pina, que lhe chamou “colombo italiano” – mas isso era de esperar, porque ele foi o escriba oficial de D. João II, a quem convinha que os espanhóis não relacionassem Colombo com a casa real portuguesa. Os quatro historiadores que se lhe seguiram limitaram-se a copiar Rui de Pina e a coisa manteve-se.

No entanto, escritos da época referem-se a Colombo como “o Infante de Portugal”. Menéndez Pidal diz que “o seu vocalismo tende para o português” e o mesmo afirmam Simon Wiesenthal e Altolaguirre y Duval.

É curioso referir que juristas de há mais de quatro séculos não se deixaram enganar quando os descendentes dos Colombos genoveses tentaram deitar mão à herança do navegador, num processo que terminou com a entrega dos bens a D. Nuno de Portugal, neto de Diogo Colon…

 

AS TEORIAS

Quem era então Cristóvão Colombo, antes de ter assumido o pseudónimo?

Como os historiadores preferem a preguiça do que está escrito à investigação do que não bate certo, há muito por descobrir. Têm sido outros a arregaçar as mangas e pesquisar, sem apoios nem facilidades. Mascarenhas Barreto fez o primeiro estudo profundo e publicou vários livros, que inspiraram investigadores como Manuel Rosa e Manuel Luciano da Silva, sobre quem Manoel de Oliveira fez mesmo um filme, intitulado “Cristóvão Colombo, o Enigma”. Desde há 80 anos que mais de uma dezena de escritores se debruça sobre o tema, de Patrocínio Ribeiro a José Rodrigues dos Santos, de Pestana Júnior a Julieta Marques.

Um erro clássico tem sido procurar um “Cristóvão Colon” em Portugal antes de 1484: não existia, terá sido por essa ocasião que mudou de nome.

Uma coisa é certa: fosse qual fosse o seu nome antes disso, teria que ser um português de origem nobre, ou nada do que sucedeu depois poderia ter sucedido.

Na falta de documentos (ou da busca deles), várias teorias foram sendo construídas, como “puzzles” em que tudo faça sentido e tudo se explique. O mais credível deles, aquele em que nenhuma peça fica fora de encaixe, é o do filho bastardo de D. Fernando Duque de Beja e de Isabel Gonçalves Zarco, nascido na vila de Cuba, no Alentejo, com o nome de Salvador Fernandes Zarco.

Vista por esse ângulo, a História faz todo o sentido e ficam explicados todos os grandes e pequenos acontecimentos que viriam a acontecer nos anos seguintes e estão documentados. É uma teia sem buracos.

 

AS PROVAS

Há muitas, incluindo 477 análises de ADN feitas a todos os descendentes das famílias Colombo genovesas que conseguiram encontrar-se até hoje: todas negativas.

Seria exaustivo enumerar as centenas de “dicas” que atestam a portugalidade de Colon, como ser chamado de “nosso espicial amigo en sevilla” por D. João II ou ter dado às terras descobertas no novo mundo centenas de nomes portugueses, entre os quais 42 de localidades no Alentejo, portanto contarei apenas duas histórias que não precisam de explicação para que se faça luz.

 

A DESCOBERTA DA AMÉRICA

Factos concretos e documentados:

Após a descoberta do Novo Mundo ao serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Colombo não regressa a Espanha, regressa a Portugal. Vem para Lisboa, sobe o Tejo até ao Restelo, vai dormir a Sacavém e passa três dias com D. João II em Vale do Paraíso. Depois, vai encontrar-se com a Rainha em Vila Franca, dorme em Alhandra e levanta ferros… rumo a Faro, onde passa mais um dia. Ou seja, fica uma semana em Portugal antes de ir dar a boa nova aos “patrões”, numa época em que não havia internet ou telemóvel e ninguém sabia ainda que o Novo Mundo havia sido descoberto!

 

UM INSIGNIFICANTE ENTRE NOTÁVEIS

A mais indesmentível das afirmações de que Colombo é português está bem à frente dos nossos olhos há 280 anos… e foi preciso que Julieta Marques o descobrisse, num país que parece tratar o seu património como folclore para turistas, ao invés de aprender o que encerra para nos ensinar a nossa própria história.

No Palácio Nacional de Mafra existe a “Sala dos Heróis Portugueses” também conhecida como “Sala das Descobertas”, cujo tecto reproduz um fresco de Cirilo Machado mandado pintar por D. João V, onde podem ver-se quatro notáveis heróis portugueses, dois dos quais identificados por uma legenda pessoal.

No canto inferior direito está Pedro Álvares Cabral e por cima uma figura que os estudiosos se dividem entre atribuir a Vasco da Gama, Bartolomeu Dias ou Duarte Pacheco Pereira.

Os dois retratos identificados, porém, não deixam dúvidas: logo a abrir o painel, está o Príncipe Navegador, com a legenda: “Infante D. Henrique de Portugal”. Abaixo, amargurada pelas correntes de Bobadilha, a figura do descobridor da América, identificada pelos dizeres “A CASTILLA Y A LEON NUEVO MUNDO DIÒ COLON”.

Então, que estaria um plebeu cardador de lãs de Génova a fazer no meio de tão ilustres nobres, na “Sala dos Heróis Portugueses”?...

Que é o descobridor do Novo Mundo, é ponto assente. Que se chamava Cristóvão Colon, está documentado... que é um “Herói Português” deixa de ser objecto de dúvida!

Probato est !!!

 

O QUE FALTA

Falta seriedade, falta pesquisa, falta interesse! Falta honra!

Quando se descobre que o que se julgava saber está errado, procura-se a verdade! Os documentos que nos faltam só aparecerão se forem procurados!

 

A MADEIRA

Quando apresentei o livro “O Alentejano que descobriu a América” na Madeira, chamei a atenção para o facto de Colombo ali ter vivido, casado e tido o primeiro filho. Se existem documentos relacionados com a sua vida no Arquipélago, com o casamento ou com o nascimento de Diogo Colon, o mais provável é que estejam na Madeira.

Convidei já Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva para uma visita de estudo e uma pesquisa profunda aos espólios da Ilha, depois de uma promissora conversa com Miguel Albuquerque, em que o Presidente da Câmara do Funchal me garantiu apoio total e acesso incondicionado ao que possa existir e vir a ser descoberto.

 

O LIVRO

Quando decidi escrever sobre este tema, descobri que os livros sobre Cristóvão Colombo têm centenas de páginas e dificilmente interessarão leitores fora dos circuitos académicos. Portanto, resolvi fazer um livro que pode ler-se em poucas horas, contando o essencial da história e a cronologia dos factos numa linguagem acessível, no intuito de chegar, não só à opinião pública em geral, como aos estudantes em particular.

Saiu já em inglês e espanhol, está a ser traduzido para outras seis línguas e esgotou duas edições em português. A próxima vai incluir uma emissão especial para a Madeira, apropriadamente intitulada “O Zarco que descobriu a América”, apelando à memória histórica dos madeirenses (à semelhança do que próprio Rei Juan Carlos de Espanha fez à poucos dias, num discurso em português ao receber a Medalha de Ouro do Funchal), porque se trata de uma terra maravilhosa descoberta por João Gonçalves Zarco (1419), figura de grande prestígio nas Ilhas e que antecedeu em 73 anos outra grande descoberta, a da América, esta pelo seu neto de sangue que a História ficaria a conhecer como Cristóvão Colombo.

 

Pedro Laranjeira [página pessoal]

RTP encaixa 104 milhões na conta da luz

Entre taxa encapotada, financiamento oficial e publicidade, a televisão do Estado recebe anualmente 264 milhões de euros – uma verba que ultrapassa o orçamento do Ministério da Cultura. Mesmo assim, dá um prejuízo de 47 milhões. Para onde vai, afinal, o dinheiro do contribuinte?

 

A factura da EDP chega a todas as casas com electricidade em Portugal. Na conta, em letra miúda, figura um valor com a descrição ambígua de “Contribuição audiovisual”: 1,84 euros. Muitos portugueses não sabem que, desta forma, estão a contribuir para alimentar uma das máquinas mais comilonas do sector público: a RTP. Por minúscula que possa parecer aquela “contribuição audiovisual”, ela multiplica-se por todos os contadores de electricidade existentes no país. Todos contribuem para a Rádio e Televisão de Portugal. Em 2008, os portugueses pagaram à RTP 104 milhões de euros nesta taxa de televisão escondida nos recibos da electricidade.

Mas não bastou: generoso, o Governo concedeu-lhe ainda mais 160 milhões de euros antes de impostos. Ao todo, e sem contar com a publicidade que entra nos cofres da televisão de Chelas, contam-se 264 milhões de euros de receitas. A publicidade ronda, em média, 50 milhões de euros. Pelo menos é isso que diz o ministro Augusto Santos Silva, responsável pela área da Comunicação Social no Governo socialista: “A retirada da publicidade à RTP1 custaria cerca de 50 a 60 milhões por ano aos contribuintes”. Somando a publicidade, temos a RTP com um orçamento de 314 milhões de euros por ano. Mais do que Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura, tem orçamentado num ano – para promover todas as artes a nível nacional. Segundo uma notícia da agência Lusa, datada de 24 de Julho de 2009, o valor que o Estado dá às associações humanitárias e de Bombeiros voluntários no País é de 100 milhões de euros. A RTP recebe, assim, quase três vezes mais do que os bombeiros voluntários.

Arons de carvalho, doutorado em Serviço Público de Televisão, defende que a taxa devia ser revista: “Neste momento, o valor determinado é uma decisão entre a RTP e o Governo. A minha proposta é que deveria ser a Entidade Reguladora da Comunicação a fazer uma avaliação sobre a taxa a cobrar, assim havia mais transparência no financiamento da estação pública”, diz. Apesar de considerar que "a taxa de 1,71 euros é das mais baixas da Europa”, o ex-governante do PS alerta para a simplicidade da lógica: “Os portugueses, na prática, pagam mais, porque a RTP é paga pela taxa, por parte da publicidade e por indemnizações compensatórias. E aí os portugueses pagam indirectamente, sobretudo os mais ricos, ao pagarem impostos”.

 

Serviço pouco público

 

Mas o elevado valor das dotações orçamentais e das taxas, mesmo assim, não chega para pagar o que a RTP produz. Só em 2008, a radiotelevisão atingiu 46,9 milhões de euros em prejuízos, mais dez milhões do que no ano anterior. Diz Guilherme Costa, presidente da televisão: “Isto deve-se aos capitais negativos que a empresa tem”. Em 2008, os “capitais negativos” da RTP totalizavam 696 milhões de euros: metade do orçamento do Ministério do Ensino Superior e três vezes mais do que o Estado gasta com bolseiros nas universidades portuguesas. Com o mesmo dinheiro que a RTP recebe anualmente, as empresas do sector privado mantêm seis canais de televisão e outros tantos de rádio. Em nenhum dos meios a empresa pública é líder de audiência. Na televisão, o seu melhor canal é a RTP1, que ocupa a segunda posição de audiências nacionais.

Vejamos agora em que é aplicado o dinheiro do contribuinte. Esta terça-feira, por exemplo, a RTP tem 13 horas de emissão de concursos, desportos, variedades e telenovelas. O programa “Nós”, transmitido às seis da manhã, sobre a integração da comunidade imigrante, gasta apenas 23 minutos. E a informação conta cinco horas e meia, distribuída entre o jornal da manhã, o da tarde e o Telejornal. De resto, sobram televendas e a redistribuição do canal Euronews, este durante meia-hora, das 05h30 às 06h05.

Já o segundo canal, a RTP2, nesse mesmo dia, gasta dez horas da programação em desenhos animados, com um bloco matinal a arrancar às 07h15 e a acabar às 14h00. São 405 minutos seguidos (sete horas) de bonecos para entreter as crianças, que estão de férias. As séries da RTP2, entre produção internacional e caseira, ocupam cinco horas de emissão: três comédias e uma série policial. Somam 200 minutos.

Há, no entanto, no segundo canal, uma centelha do que se pode designar de “serviço público”, contrato estabelecido entre o Estado e a RTP para a “formação, informação e desenvolvimento sociocultural” do público. São os documentários, três no total, divididos em 168 minutos: duas produções da National Geographic e uma da britânica BBC. A informação gasta quarenta e cinco minutos no total do dia. E resta um programa de entretenimento apresentado por comediantes nacionais, à meia-noite, e um programa religioso, de 30 minutos, às seis e meia da tarde. Das duas e meia da manhã até regressarem os desenhos animados, às sete, a RTP2 oferece outra vez o canal Euronews, que a sua irmã RTP1 também transmite. O que quer dizer que entre as cinco e meia da manhã e as seis, o serviço público de televisão oferece exactamente o mesmo programa nos dois canais.

 

Ordenados milionários

 

O contrato de serviço público de televisão termina em 2019, com uma “revisão intercalar” de controlo programada para 2011. Caberá ao Governo que consiga ser eleito a 27 de Setembro uma primeira apreciação, mas dificilmente o acordo com a RTP poderia ser anulado sem graves prejuízos para o contribuinte. Este contrato, que sempre foi atribuído pelo Estado à estação RTP, é contestado pelos operadores privados, que dizem ser desleal a concorrência de uma estação que recebe dinheiro da publicidade e dos contribuintes. Francisco Pinto Balsemão, presidente da SIC, já defendeu que o serviço público da SIC-Notícias é melhor do que o de qualquer canal por cabo da RTP. Curioso é que, até há nove meses, a produtora SP Filmes tinha um contrato com a RTP para a produção de vários documentários, mas nada avançava. Havia dinheiro, mas “não havia ideias nem argumentos que merecessem a pena”, segundo os responsáveis da estação pública de televisão.

Outra das críticas que a RTP tem recebido refere-se aos salários milionários que paga às estrelas da estação televisiva. Notícias deste ano atribuíam um ordenado mensal de 15.999 euros ao director de Informação, José Alberto de Carvalho; 14.720 euros à jornalista Judite de Sousa; e 14.644 euros a José Rodrigues dos Santos. Os três somados, e multiplicando por 14 meses, custam anualmente ao orçamento da RTP 635 mil euros. Mas se o trabalho destes três jornalistas é conhecido e reconhecido, há quem aufira menos com maiores responsabilidades. O director de programas, por exemplo, recebe 12.836 euros por mês, menos do que qualquer pivô de informação. Entretanto, a RTP debate-se com uma dívida de médio/longo prazo de 720 milhões de euros – um pesadelo para qualquer Governo.

[continua na edição impressa]

 

 

Francisco Moita Flores: “Ser militante PSD? Nem pensar!”

Recandidata-se à Câmara Municipal de Santarém o mais mediático ex-polícia português. A semana passada foi acusado de fazer favores a amigos autarcas e maçons. Responde: “Conheço bem as intenções de quem escreveu e do seu informador”.

 

Francisco Moita Flores mantém uma boa disposição serena. O seu nome voltou de novo à ribalta: a polícia apanhou-o nas escutas ao caso da venda de um imóvel dos CTT em Coimbra por um valor muito superior ao que valia. Moita Flores foi escutado e apontado,  pela revista “Sábado” como maçon que faz favores a amigos. A “O Diabo”, o autarca de Santarém responde a esta e a outras questões, e explica porque voltou atrás na decisão de abandonar a Câmara Municipal de Santarém. Para quem o critica por estar mais tempo na televisão do que na Câmara, também tem resposta.

 

O Diabo - Recandidata-se à Câmara Municipal de Santarém depois de, a meio do mandato, ter chegado a afirmar que não o faria. O que o fez mudar de ideias?

 

Francisco Moita Flores - Alteraram-se as circunstâncias. Não só se geraram em vários sectores sociais e políticos vários movimentos de apoio à minha recandidatura, como começaram a chegar novos projectos, sobretudo depois das negociações com o governo e as autarquias a propósito da transferência do aeroporto para Alcochete, que abrem desafios que Santarém tem de vencer. E assim, abandonando o meu próprio egoísmo, que me interpela no sentido de regressar à minha vida como escritor e professor, decidi-me pela recandidatura.

 

O Diabo - Vai a votos 15 dias depois das legislativas. Considera que o sentido de voto a 27 de Setembro pode condicionar depois os eleitores a 11 de Outubro, com a teoria de “não por os ovos no mesmo cesto”? Se o PSD ganhar as legislativas é pior para si?

 

Francisco Moita Flores -  Não, não acho. São coisas distintas. É pena serem duas campanhas sem intervalos, mas é bom que se realizem em dias diferentes. Ao contrário de uma certa análise de sofá, de analistas que não conhecem o palpitar do país, as pessoas são inteligentes e percebem aquilo que está em jogo. As eleições autárquicas estão bem longe do carácter ideológico que vive no centro do debate para as legislativas. A política de proximidade não admite outra coisa que não seja resolver problemas concretos. Daí, que pesem pouco as maiorias que funcionam no Parlamento. Sempre existiram bons presidentes de câmara de todos os partidos e existem incompetentes em todos os partidos. Se o PSD ganhar as eleições, terei a mesma forma de actuar que tenho com a actual maioria. Aquilo que for bom para Santarém merece o nosso aplauso. Aquilo que não for bom para Santarém, terá a resposta que cada problema merecer. Enquanto autarca, o meu compromisso é com Santarém e nada mais. Foi assim que aceitei ser apoiado pelo PSD. É assim que continuará a ser com ou sem PSD no Governo.

 

O Diabo - A sua independência é para manter ou já sente o apelo de militar no partido que o apoia, o PSD?

 

Francisco Moita Flores - Cada vez mais independente. Há uns anos ainda hesitei. Agora, nem pensar. Apesar do respeito pela importância dos partidos no funcionamento do sistema democrático, aquilo a que tenho assistido, vivido e testemunhado nos últimos quatro anos convenceu-me definitivamente que não estou disponível para ser militante de causas encarceradas nas perspectivas imediatas deste ou daquele partido. Apoio aquilo que acho bem feito ou bem desenhado do ponto de vista estratégico, estou fora de coisas que não me entusiasmam e, na maioria dos casos, nem me interessam.

[continua na edição impressa]

 

o diabo que o carregue: Iberismo

As luminárias da estatística aplicada acabam de chegar a mais uma brilhante conclusão: 30 por cento dos espanhóis e 40 por cento dos portugueses “apoiariam” uma “federação ibérica”. Dito assim, até parece verdade. Tendo ouvido “os portugueses” e “os espanhóis”, o extraordinário “barómetro” reflectiria de facto uma opinião, uma tendência, uma conclusão. Mas já todos sabemos que entre as “sondagens” e a realidade há um abismo difícil de transpor.

Carimbos de certificação académica não faltam a este “Barómetro de Opinião Luso-Espanhol” há dias divulgado (em Madrid, claro): vem chancelado pelo Instituto de Estudos Sociais da Universidade de Salamanca e pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa de Lisboa. Mas vai uma pessoa a ver a letra miudinha da sondagem e logo depara com a ficha técnica. E então percebe como se cozinham as grandes “federações ibéricas”. Pois, para chegarem ao inacreditável corolário, os estatísticos aplicados ouviram um total de… 876 pessoas, das quais 363 portuguesas e 513 espanholas! E ouviram-nas ao telefone!

Com base nesta pequena ficção, o “barómetro” tece intrincados raciocínios sobre as relações entre os dois países, o aproveitamento da água dos rios, os investimentos empresariais, as ligações ferroviárias e a eficácia policial. Se, em vez de terem ouvido 876 almas, tivessem ouvido 1.000, quase podiam dar a solução para o conflito israelo-árabe!

Perante o desconchavo, até o Bloco de Esquerda esboçou um sorriso de troça, ao dizer que uma hipotética federação ibérica “não se coloca hoje em dia”. O eurodeputado Capoulas Santos foi mais directo: pura e simplesmente, “não acredita nos resultados do estudo”!

Desta vez, os “federadores” estatísticos não tiveram mesmo jeitinho nenhum. Mas o que eles querem sabe a gente…

FRA DIAVOLO

 

A verdadeira dimensão de Portugal

A proverbial imagem de Portugal como pobre e pequena nação periférica, sem recursos, numa Europa exuberante de riqueza, capacidade e centralidade, é pura miopia. Miopia tão mais grave quanto, imposta essa imagem por terceiros, estrangeiros ou tão só estrangeirados, hoje, para nós próprios, assim nos figuramos e representamos, sem mínima hesitação e ainda menos reflexão sobre a veracidade ou adequabilidade de tão abstrusa afirmação como disparatada figuração e representação.

[continuar a ler no Albergue Português]

O grande retrato da pobreza em Portugal

Seis milhões de portugueses vivem abaixo do que a Europa considera o limiar de pobreza. Um terço não tem dinheiro para aquecer a casa. A esmagadora maioria ganha menos de mil euros por mês. As previsões são assustadoras: até 2017, Portugal vai marcar passo e perder ainda mais poder de compra.

 

Comparados com a maioria dos seus compatriotas da Zona Euro, seis milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza. E as perspectivas de futuro são negras: Portugal é, de todos os membros da União Europeia, o país em que os salários aumentarão menos nos próximos 18 anos. As empresas e o Estado pagam mal e os produtos são caros, deixando as famílias sem dinheiro no bolso.

Num estudo realizado este ano pela associação TESE e pelo ISCTE e concluído em Junho passado, descobre-se que apenas 57,3 por cento dos portugueses têm trabalho. E que, destes, apenas 16,5 por cento ganham acima dos 1500 euros. Ou, se transformarmos estes números em pessoas, há nove milhões e vinte mil portugueses que ganham menos do que os antigos 300 contos. E meio milhão de desempregados.

O estudo do ISCTE, intitulado “Necessidades em Portugal”, revela mais: um terço dos portugueses não tem dinheiro para manter a sua casa aquecida durante os meses de frio e perto de seis milhões de pessoas não saem de casa nas férias, porque não têm dinheiro para isso. Metade da população, perto de cinco milhões de pessoas, vai trabalhar doente, porque o dinheiro da baixa não lhes dá para a despesa. Mais de um milhão de pessoas não tem dinheiro para comprar os medicamentos que os médicos receitam. E seis milhões de cidadãos “deixam de fazer coisas por falta de dinheiro”, entre elas a satisfação de necessidades básicas do dia-a-dia.

Comparados com os países europeus que usam o euro como moeda, os portugueses estão abaixo de todos os seus vizinhos: espanhóis, irlandeses, belgas, italianos, alemães e cipriotas, todos têm melhores salários e mais dinheiro no bolso. O salário médio em Portugal, segundo dados recentes do Governo, é de 840 euros. Em Espanha, considera-se pobre uma pessoa que receba abaixo dos 1.135 euros. Em Chipre, esse valor é de 1399 euros. Na Irlanda, o país que serviu tantas vezes de comparação com Portugal para os governantes desde Cavaco Silva, é pobre quem ganhe abaixo dos 1.817 euros por mês.

 

Pior que a Eslováquia

 

O número é mais preocupante no quadro do rendimento disponível de cada português e da taxa de esforço que é exigido ao cidadão para comprar os produtos essenciais. Por exemplo, um litro de leite em Portugal custa o mesmo do que na maioria dos países europeus. E, como o dinheiro disponível é menos no nosso país, os portugueses pagam mais pelos bens essenciais, se comparados com espanhóis, malteses ou irlandeses.

Em Portugal, o valor da pobreza está estimado abaixo dos 504 euros – isto é, menos de sessenta por cento do ordenado médio, mais ajudas sociais, segundo a regra estabelecida pela Comissão Europeia em 2004. O ordenado mínimo em Portugal é de 450 euros, já abaixo do chamado limiar de pobreza.

O Instituto Nacional de Estatistica (INE) indica outros números, ainda mais modestos quanto a rendimentos mas mais sorridentes quanto ao número de pobres que o País terá. O último estudo anual, também datado de Junho, estabelece que um rendimento pobre em Portugal é aquele que caia abaixo de 408 euros por mês. O ordenado médio teria de ser, neste caso, 571 euros – mas não é, segundo os números do próprio INE. O que está errado? Apenas isto: o Instituto faz as contas pela “mediana”, seguindo as regras dos estatísticos burocratas da União Europeia. E a “mediana” é, segundo o dicionário de português da Texto Editora, o “termo que, numa série estabelecida por ordem de grandeza, ocupa a posição central”. Isto é, considera a Estatística que, para calcular a pobreza, o importante é saber quanto, em média, a maioria recebe. Não quanto, em média, todos recebem.

Seja pelos dados do INE, seja pelos dados fornecidos no estudo “Necessidades em Portugal”, conclui-se que, com 408 euros de limiar de pobreza, Portugal está abaixo de todos os países da zona euro. Somos o último do pelotão. E o penúltimo, a Eslováquia, tem o valor estabelecido em 447 euros, mais 39 euros por mês.

 

Compras caras

 

O ordenado médio, em Portugal, como vimos, é (oficialmente…) de 840 euros. O estudo do ISCTE revela que 59 por cento dos portugueses vivem com menos de 900 euros por mês. Tomemos então o valor médio dos dois números, 870 euros, para encontrar o rendimento da esmagadora maioria dos portugueses. Daqui, partamos para a análise simples do custo de vida real.

Tomemos o exemplo de três países: Portugal, França e Irlanda. França é uma referência para a média europeia. A Irlanda, como se disse, foi o modelo político do PS e do PSD durante 20 anos, atirado em campanhas eleitorais como exemplo para a nossa economia.

Um estudo publicado pela Numbeo compara o poder de compra destes três países, tomando em conta, como referência, a cidade de Nova Iorque. Assim, estima-se que o valor 100 indica o poder de compra daquela cidade norte-americana: o dinheiro disponível para cada cidadão, a partir do ordenado médio.

Quem vive em França gasta mais 65 por cento do seu ordenado para comprar o que um novaiorquino compra. Na Irlanda, o valor é de 61 pontos, o que implica que o irlandês gasta mais 39 por cento para comprar a mesma coisa que um americano. Em Portugal, no entanto, o valor é de 27 pontos. Donde resulta que qualquer cidadão português gasta mais 73 por cento do que o cidadão estado-unidense. Numa conclusão simples: os portugueses fazem um esforço em mais de 73 por cento que os americanos de Nova Iorque, oito por cento mais pobres que os franceses e 34 por cento mais pobres que os irlandeses.

Alarmante é que o Índice de Preços de Consumo em Portugal seja muito semelhante ao da cidade norte americana. Façamos nova comparação. Se o custo das coisas em Nova Iorque é 100, em Lisboa ou no Porto é de 99,87 por cento desses 100, segundo dados da ONU. A diferença é que o salário médio da cidade norte americana é de 3.234 euros (em Portugal, como vimos, fica-se pelos 870 euros). Resultado: os americanos ganham 3,7 vezes mais do que os portugueses, mas gastam o mesmo – excluindo habitação.

Na habitação, o cenário não é melhor. Uma casa no centro de Lisboa, com duas assoalhadas, custa uma renda média de 450 euros. Em Madrid, Espanha, custa 700 euros. Mas como o ordenado médio em Espanha é de 1.893 euros, ganhando os espanhóis 2,1 vezes mais do que os portugueses, em Portugal o custo real das casas implica o dobro do esforço financeiro dos cidadãos lusitanos.

 

Cenário negro

 

As estimativas da OCDE para Portugal, no período de 2011 a 2017, dizem que o país vai crescer apenas 1,5 por cento em média. É o valor mais baixo de todos os países que compõem esta organização europeia dedicada à observação do crescimento socioeconómico. A média europeia será, no mesmo período, de 2,3 por cento.

Nigel Palin, o economista que, na OCDE, trata de olhar e analisar o nosso país, é arrasador para as políticas económicas e sociais do actual Governo. “Há necessidade de reformas estruturais para alterar a situação. Portugal tem de apostar na qualificação da população, melhorar o nível de inovação e investigação, diminuir os custos administrativos e aumentar a concorrência nas indústrias de rede, como as telecomunicações e a electricidade”. Tudo o que Palin afirma vai ao arrepio do discurso de José Sócrates.

“A acção do Governo é mais apreciada no estrangeiro do que aqui”, disse o primeiro-ministro na passada semana. No “estrangeiro”, contudo, a OCDE alerta para que o Produto Interno Bruto em Portugal irá crescer, em média, apenas 0,7 por cento até 2017, muito longe da média mundial e muito abaixo da média europeia.

O “estrangeiro” indica também que Portugal é o país da Zona Euro que tem 18 por cento de pobres absolutos no país, segundo dados da União Europeia. O estudo diz que Espanha, Itália e Grécia têm mais pobres em valores relativos, mas os pobres em Espanha ganham em média 1.135 euros, em Itália 1.092 euros e na Grécia 648 euros – contra os 408 euros nacionais.

Todo este cenário, no entanto, parece não se reflectir ainda na felicidade e no sentimento de privação subjectiva dos cidadãos. O estudo TESE/ISCTE indica que os portugueses, apesar de todos os indicadores de penúria, estão felizes. E adianta: “A satisfação pode estar relacionada com a felicidade, mas é comum o grau de felicidade ser superior ao grau de satisfação, demonstrando potencialmente um desfasamento maior entre condições objectivas de vida e percepção do bem-estar, como se pode observar na amostra, cujos valores de satisfação com a vida em geral são de 6,6  e 7,3 de felicidade (numa escala de 1 a 10)”.

Pág. 5/5