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Jornal O Diabo

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João Ferreira Rosa: “Não me importo nada de ser preso!”

Ainda os rapazes do site ‘31 da Armada’ não eram nascidos – e já o fadista João Ferreira Rosa hasteava todos os dias a bandeira azul e branca no mastro de sua casa. “O Diabo” foi ouvir um dos mais destacados defensores da Monarquia em Portugal.

 

“O Diabo” – A Monarquia é fácil de explicar ao povo, 99 anos depois da instauração da República?

João Ferreira Rosa – Facílima. Há doutores que podem fazê-lo com grandes tratados. Mas sabe quem pode explicá-la melhor? Os portugueses (e são mais de um milhão) que vivem e trabalham nos países onde há Monarquia: na Holanda, no Canadá, na Austrália, na Suécia, na Inglaterra, no Luxemburgo, em Espanha, na Bélgica. Só que esses não passam na televisão. Dantes havia uma censura, agora parece que cada qual tem a sua…

 

“O Diabo” – Porque é que é monárquico?

J.F.R. – Não quero ter um Chefe de Estado eleito. O Rei não é de facção nenhuma nem lhe sobe a importância à cabeça: é importante desde que nasce e representa todos. O Rei é o chefe natural da nossa família comum.

 

“O Diabo” – Acha que os monárquicos têm conseguido “fazer passar a mensagem”?

J.F.R. – Há por aí alguns condes e viscondes, falsos monárquicos, que dizem que o povo não está preparado. O único que está preparado é o povo. O povo está preparadíssimo! Eles é que não querem Rei. São uns snobs. Acham que ser monárquico é ser nobre. Nobre? Mas querem gente mais nobre do que o povo? A esses condes e viscondes, o Senhor D. Carlos não dava confiança. Queixavam-se de que o Rei não tinha Corte! Pois não: a Corte do Rei era o povo! Ele ia para Vila Viçosa e era com o povo que queria estar.

 

“O Diabo” – Quais são as desvantagens de um Presidente eleito?

J.F.R. – Desde logo, só se pode concorrer à Presidência apoiado por muito, muito dinheiro e um partido político. Portanto, ganha quem tem mais dinheiro e representa uma facção. Sabendo como a República foi feita, só uma pessoa desonesta pode querer candidatar-se a Presidente. A República foi feita por meia-dúzia de traidores, assassinos e ladrões. Quando assassinaram o Senhor D. Carlos e o Príncipe, em 1908, até os republicanos franceses disseram: ‘Mataram o Rei mais culto da Europa’. No dia 5 de Outubro, aquela Câmara Municipal de Lisboa, onde agora estes rapazes hastearam a bandeira nacional, era uma galeria de gente horrível. O José Relvas e todos os outros. Uns criminosos. Mataram gente. Não eles, pessoalmente: mandaram a Carbonária. São figuras sinistras. A instauração da República é um filme de terror. Por isso nunca a referendaram. Nenhum país no mundo tem uma ditadura com 100 anos, como nós temos. E não se pode dizer isto. Ninguém me convida para ir à televisão dizer isto. E quando me convidam para cantar, querem sempre que cante ‘O Embuçado’ e umas coisas inocentes. É tenebroso. Ainda no outro dia me fizeram uma entrevista para uma televisão e estiveram a gravar mais de uma hora. Eu só lhes dizia: ‘Mas para quê gravar tanto tempo, se não vai sair nada do que eu estou a dizer?’. Claro: saíram três frasesinhas, a respeito de Fado…

 

“O Diabo” – Portugal tinha uma boa Monarquia?

J.F.R. – Tinha uma Monarquia exemplar, comparada com as outras. Ainda há tempos estiveram aqui uns noruegueses e disseram a quem os quis ouvir: ‘Vocês, com a História que têm e com os Reis que tiveram, tinham obrigação se ser monárquicos’. A República assenta num lago de sangue. É um crime que nunca foi julgado. Não foi o povo que matou o Rei. Os maiores democratas que nós tínhamos eram o Senhor D. Carlos e a Família Real. O Alfredo Marceneiro contava isso. Ele era operário, nessa altura, vivia em Santa Isabel e assistiu ao 5 de Outubro. Houve um dia um programa de fados na televisão, feito em Pintéus, e gravaram uma conversa minha com o Marceneiro. Como era 5 de Outubro, eu perguntei-lhe: ‘Tio Alfredo, o que é que esta data lhe diz?’. E ele respondeu: ‘Sim, filho. Eles, primeiro, mataram o Rei e o Príncipe. Em Lisboa, o povo ficou a chorar. Passados dois anos, andaram grupos pelas ruas, aos tiros e aos gritos, a dizer ‘não saiam de casa, é uma revolução’. O povo acobardou-se e eles fizeram a República’. E foi mesmo assim. A República foi feita em Lisboa e o resto do País soube pelo telégrafo. O povo não teve nada a ver com isso. E ainda hoje eu vejo muito pouca gente a intitular-se republicana. São raros.

 

“O Diabo” – O povo é monárquico?

J.F.R. – Aqui em Alcochete, por exemplo, muito povo é monárquico. Depois do 5 de Outubro, o barco de ligação a Lisboa continuou durante anos a içar a bandeira real. E só acabaram por desistir porque, quando chegavam a Lisboa, tinham a Guarda Republicana em cima deles.

 

“O Diabo” – E continuam monárquicos?

J.F.R. – Eu até tenho amigos comunistas monárquicos!

 

“O Diabo” – O facto é que vivemos em República…

J.F.R. – Pois se a Constituição nem sequer permite que se ponha em causa o regime! É uma vergonha. E agora, na próxima Assembleia, que terá poderes constituintes, não acredito que tenham a coragem de mudar. O Medina Carreira é que os topa! Esse grande senhor daria um grande conselheiro do Rei de Portugal. Diz as verdades. Só que depois nada acontece. Ele chama-lhes ladrões, chama-lhes tudo, mas eles não têm a coragem de levar o senhor a tribunal. Se isto não levar uma volta, eu não vou morrer cidadão da República Portuguesa. Não há ninguém mais português do que eu. Mas morrer debaixo da bandeira da República, isso não. Mais vale ir morrer longe.

 

“O Diabo” – A República vai fazer 100 anos. Que acha que deviam os monárquicos fazer em 2010?

J.F.R. – Devíamos exigir o referendo. A melhor comemoração era fazer-se o referendo sobre o regime no dia 5 de Outubro de 2010. Isso é que era.

 

“O Diabo” – Acompanhou os casos dos jovens monárquicos que substituíram a bandeira republicana pela bandeira azul e branca…

J.F.R. – A mim nasceu-me uma alma nova com esta gente. Fiquei orgulhoso. Senti-me recuar aos 20 anos. O que incomoda ainda mais a corja republicana é que são jovens. Porque isto desmente a propaganda republicana de que a Monarquia é uma coisa de velhos. Eu sou monárquico desde que comecei a pensar, desde rapazinho. Sou monárquico por pensamento, não por herança de sangue.

 

“O Diabo” – Acha que este caso vai ter consequências?

J.F.R. – É preciso que estes bravos sejam julgados! É preciso fazer coisas, como eles fizeram, para sermos julgados e podermos dizer em tribunal o que se impõe que se diga! É uma infâmia não nos deixarem falar. Eu, com 72 anos, não me importo nada de ser preso como monárquico! Teria o maior orgulho! A República é um crime que continua por julgar.

 

Quando o animal feroz não era tão feroz assim…

É sabido que esse grande socialista e líder da esquerda europeia, José Sócrates, iniciou a sua interessante carreira política no Partido Popular Democrático, hoje PSD. O facto é geralmente omitido nas biografias oficiais – e caridosamente “esquecido” pela classe política, onde aliás abundam casos idênticos de “evoluções ideológicas”, piruetas e trocas de camisola.

 

Agora, na semana de abertura da campanha eleitoral para a Assembleia da República, há quem considere que o detalhe deve ser lembrado. E a Internet começou a ser inundada por reproduções da ficha de inscrição do “animal feroz” na sede do PPD na Covilhã, datada de 5 de Novembro de 1974.

 

O rapaz tinha então 17 anos feitos. Era já estudante universitário e, como habilitações académicas, indicava um modesto “curso geral dos liceus”, concluído na Covilhã (vinha ainda longe o dia em que concluiria a licenciatura, por sinal um domingo). No espaço reservado a “tempo disponível para trabalhar para o PPD”, escreveu voluntariosamente: “Sempre que possível”, nos “dias de semana”.

 

Pouco se sabe sobre os motivos que o terão levado a mudar de partido. Fossem quais fossem, aqui fica o histórico documento. Para memória futura.

O Grande comunicador e o grande encobridor

Newt Gingrich*

 

Antigo porta-voz da Senado, Newt Gingrich encoraja o Presidente Barak Obama a utilizar o seu dom de orador para esclarecer – e não encobrir – o público americano sobre as suas iniciativas económicas, de saúde e energéticas. Gingrich lembra-nos que muitos dos sucessos dos primeiros anos de Ronald Reagan foram devidos à sua capacidade de explicar sincera e metodicamente as suas ideias. Quanto mais Reagan falava, maior era o apoio dos americanos, o que prova que se estiver em acordo com os valores e os princípios partilhados pelos americanos, estes aderem.

 

Os republicanos são algumas vezes criticados por se centrarem muito no Presidente Ronald Reagan, assim, aqui está uma ideia: São os Democratas – em especial o Presidente Obama – quem mais precisa de aprender mais com o “actor”.

 

Fez a semana passada 28 anos, em 13 de Agosto de 1981, que Reagan assinou a lei da redução de impostos. O histórico corte de 25 por cento nas taxas foi a primeira redução que os americanos tiveram em vinte anos. Deixavam para trás um período de crescimento económico sem igual e apoiaram Reagan na definição da política interna.

 

Na campanha de 2008, Obama causou alguns suores frios nos seus amigos liberais quando expressou a sua admiração por Reagan, mas Obama tinha razões para o fazer.

 

Como Reagan, Obama propôs um programa de transformação de mudança económica para combater a recessão.

 

Mas ao contrário de Reagan, sete meses passados de presidência, o programa de Obama está a afundar-se enquanto que o de Reagan estava triunfante, após o mesmo período de tempo.

 

Obama deveria perguntar-se porquê.

 

A resposta reside numa só palavra: confiança.

 

Ronald Reagan confiou no povo americano. Costumava dizer que “confiar no povo” era “uma irrefutável lição” da desastrosa experiência do séc. XX do controle governamental da economia.

 

E mesmo se Reagan – ao contrário de Obama – teve de afrontar a Câmara dos Representantes, controlada pela oposição em 1981, foi a sua fé no povo americano que permitiu manter o seu calendário de reformas.

 

Reagan comunicava para esclarecer. Paciente e metodicamente explicou aos americanos os benefícios que a redução de impostos traria à liberdade e ao progresso.

 

Quanto mais Reagan falava, mais e maior o apoio que recebia dos americanos, provando que se se estiver em acordo com os valores e princípios partilhados pelos americanos, estes aderem.

 

Em contraste com isto, Obama comunica demasiadamente para esconder. Como os seus planos de energia e de saúde se baseiam na confiança no governo não partilhada pelos americanos, é obrigado a falar destes temas de maneira que encobre e confunde mais do que esclarece.

 

Como quando promete que a chamada opção pública resultará em “competitividade” no mercado das prestações de saúde.

 

Ou a sua certeza de que as suas propostas de aumentos orçamentais não provocarão novos impostos.

 

Ao contrário de Reagan, quanto mais Obama fala, menos apoio tem dos americanos.

 

Ainda mais confusa do que a maneira como Obama fala aos americanos é a forma como tenta limitar a nossa forma de contestar.

 

Na véspera do Senado ter votado a histórica redução de impostos, Reagan fez um apelo ao povo americano através da televisão e dirigido a todo o país.

 

Uma vez mais explicou porque defendia a redução de impostos. Depois pediu aos americanos que contactassem os seus senadores e representantes para expressarem as suas opiniões.

 

“Não vos venho roubar o vosso tempo esta noite apenas para vos pedir que confiem em mim” disse Reagan. “Em vez disso, peço-vos que confiem em vós próprios”.

 

Depois de 48 senadores democratas se terem juntado aos republicanos para fazer passar as reduções de impostos, um derrotado porta-voz democrata, Tip O’Neill, reconheceu a importância que tinha tido o apelo de Reagan para a vitória. “A intervenção de Reagen”, disse O’Neill, “provocou uma tempestade telefónica como a nação nunca tinha assistido”.

 

Reparem no contraste de confiança nos americanos mostrada por Reagan com a falta desta expressa pela administração Obama.

 

Em vez de ter a confiança para defender as suas ideias, Obama tem tentado apressar a sua agenda no Congresso, com pouco ou nenhum debate, demonizando os que não concordam com ela, e pedindo mesmo aos americanos que delatem os seus próximos que estão em desacordo.

 

Reagan é muitas vezes desprezado quando alguns lhe chamam desdenhosamente “o grande comunicador”, como se o seu estilo oratório e não as suas ideias fossem responsáveis pelo seu sucesso.

 

Os primeiros sete meses de Obama estão a provar que o talento como orador não é suficiente.

 

A lição que Reagan percebeu tão bem em 1981 é ainda verdade hoje.

 

Confiar no povo.

 

*Investigador sénior do American Enterprise Institute for Public Policy Research

 

Desemprego pode atingir os 20 por cento, alerta presidente das PMEs

Portugal tem mais de meio milhão de pessoas sem trabalho. O número, assustador, foi revelado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que o traduziu numa taxa de desemprego de 9,1 por cento. Mas há quem diga que a realidade ainda é pior, que já rondamos os 15 por cento e em breve atingiremos os 20 por cento de desempregados. Apenas José Sócrates minimiza o descalabro da sua política, fazendo comparações com outros países europeus, todos em melhor situação económica que o nosso.

 

Para Augusto Morais, presidente da Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas, “a taxa de desemprego real é já de 15 por cento” e até ao fim de ano vai atingir os 20 por cento. Segundo este responsável declarou a “O Diabo”, os dados agora divulgados pelo INE “não são reais, porque não contabilizam os chamados desempregados voluntários, nomeadamente os freelancer”.

 

As principais centrais sindicais, CGTP e UGT, têm a mesma opinião que Augusto Morais e também são críticas em relação aos números avançados oficialmente. Para a primeira, “nos dados agora divulgados, não são desagregados os inactivos disponíveis, pelo que o número de desemprego real é ainda mais elevado que os 507,7 mil desempregados”. A CGTP recorda que “ao aumento do desemprego junta-se a redução do emprego, com menos de 151,9 mil empregos num ano e perto de 30 mil nos últimos três meses”. Já a UGT, pela voz de Luís Correia, comentou a “O Diabo” o facto de Portugal, habitualmente com uma taxa de desemprego inferior à média comunitária, estar, neste momento, ao nível europeu. E mostrou-se preocupado “com o que pode acontecer a seguir ao Verão, devido à diminuição das actividades conjunturais e às muitas empresas em dificuldades que não vão reabrir após as férias”.

 

Mas o que assusta talvez ainda mais é a revelação, oficial, de que cerca de metade destes desempregados não recebe qualquer espécie de subsídio do governo socialista. Este não só endividou o país como nunca outro – Portugal deve mais do que o seu produto interno bruto, logo está tecnicamente falido – como contribuiu, os números mostram-no claramente, para o aumento das desigualdades sociais e para o aparecimento de um quarto de milhão de portugueses que hoje, e não se sabe até quando, vivem de expedientes vários para sobreviver, aumentando o já enorme número de pobres do país menos rico da Europa Comunitária (ver “O Grande Retrato da Pobreza em Portugal” na edição de “O Diabo” do passado dia 28 de Julho).

 

Os partidos políticos reagiram imediatamente. Á esquerda e à direita todos protestam. Pedro Mota Soares, líder parlamentar do CDS-PP, afirmou que os números de desemprego “representam acima de tudo o sinal, a marca de um país confrontado com uma enorme crise social e económica, devendo o primeiro-ministro dar a cara pelo que é o fracasso da sua governação”. Para Manuela Ferreira Leite, “o desemprego é o ‘sintoma’ das ‘políticas profundamente erradas’ do Governo” e acusou o primeiro-ministro de “fingir que já esperava uma taxa elevada” para dizer que “afinal foi mais baixa”. A deputada Helena Pinto, do Bloco de Esquerda, considera que o crescimento do desemprego é o maior flagelo da crise e desmente “em absoluto as declarações do primeiro-ministro sobre o princípio do fim da crise”. Sim, porque na véspera da revelação do aumento catastrófico do número de desempregados, o primeiro-ministro, sorridente, anunciara que a crise estava a chegar ao fim…

 

Em vez dos 150 mil empregos que prometia recuperar, Sócrates, é verdade que ajudado pela crise internacional, conseguiu um feito único na UE: destruir mais empregos num ano do que os que tinha conseguido criar em três.

 

E quem são estes desempregados? São sobretudo os jovens, com mais de 111 mil empregos destruídos na faixa etária dos 15 aos 34 anos. O fenómeno deixou, contudo, de ser exclusivo dos mais precários. A destruição de emprego foi mais forte entre os contratados a termo ou dependentes de vínculos mais frágeis (80 mil), mas atingiu também cerca de 22 mil contratados sem termo.

 

A saída de um número significativo de pessoas para uma situação de inactividade não impediu um acréscimo de 97,8 mil desempregados, com o número oficial a subir para o recorde de 507,7 mil pessoas. Segundo o INE, os homens, dos 15 aos 34 anos, com baixas qualificações, do sector da indústria e construção foram os que mais “contribuíram” para a diminuição da população empregada e, simultaneamente, para o aumento do desemprego.

 

E perante este cenário pouco animador, em que todos os parceiros sociais prevêem que o desemprego continue a aumentar e permaneça nos dois dígitos, surge o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, a admitir ao “Diário de Notícias” que isso aconteça, mas, “por estarmos a assistir a uma alteração da situação económica e por existir no terreno um conjunto muito alargado de políticas activas de emprego, o risco de atingirmos esses valores ficou agora mais afastado”.

 

Em resumo, qualquer que seja a composição governativa que saia das próximas eleições, ver-se-á a braços com a pesada herança de anos de Sócrates. Terá que criar empregos, dar de comer aos que não conseguirem trabalho, pagar a colossal dívida externa portuguesa, incentivar as PMEs, diminuir as desigualdades sociais, aumentar as exportações, reduzir a carga do Estado e, tudo isto, sem mexer nos impostos. É obra.

O Rei de Espanha visitou a Madeira

João José Brandão Ferreira

Tenente-Coronel Piloto-Aviador (Reformado)

 

Sua Muito Católica Majestade, o Rei D. Juan Carlos visitou o Arquipélago da Madeira, lacuna agora colmatada, dos seus tempos de juventude em Portugal e dos seus posteriores afazeres de Estado. Juanito, para os amigos, mostra-se sempre simpático para com Portugal e os portugueses – e também não tem razão nenhuma para não o ser – fala português, uma coisa quase impensável para um espanhol e sobretudo num castelhano, e pensamos que tem ganho jus à consideração geral como homem e como estadista. Excedeu até as expectativas quando mandou calar aquele senhor que dá pelo nome de Chávez.

 

Por isso não há razão nenhuma de ordem pessoal para que o monarca de cerca de três quartos da antiga Hispânia não seja bem recebido no antigo reino de Portugal e dos Algarves. Quando, porém, as questões de Estado se intrometem nas visitas oficiais e nos passeios o caso muda de figura. E quando fôr caso disso os nossos representantes têm que pôr a coluna erecta, levantar o queixo, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe o que for de justiça.

 

Durante a visita à Madeira decorreu o aniversário da banda de música de Câmara de Lobos, onde actuou a banda local e… a filarmónica de Olivenza (com “z”). Este evento foi promovido pela Secretaria de Estado Regional dos Assuntos Culturais.

 

Ora tal facto, à luz do diferendo que existe desde 1801/7 relativamente à ocupação ilegal daquela antiga e portuguesíssima vila – onde os espanhóis de resto, não têm razão alguma – só pode ser considerado uma provocação, ou uma distração de mau gosto. Aliás, de Espanha poderia ter vindo uma banda de 30000 localidades diferentes, mas escolheu-se a de Olivença. Não foi certamente por acaso. Moncloa sabe do seu ofício e é pena é que do lado português andem todos aparentemente a dormir na forma e ninguém faça o trabalho de casa.

 

Vejamos: a questão de Olivença é sistematicamente ignorada em todas as cimeiras luso-espanholas (e não ibéricas, um erro elementar!) que se realizam todos os seis meses – a próxima vai ser em Elvas. Mas, curiosamente, o primeiro-ministro Zapatero escreveu uma carta à direcção dos Amigos de Olivença (GAO) – patriótica associação constituída em 1938, e que desde então luta denodadamente pelo retorno de Olivença à sua Pátria – em que exortava o GAO “a participar positivamente na resolução do assunto”[1]. Mais tarde constituiu-se em Olivença o fórum “Além Guadiana” de iniciativa local para promover actividades de cariz cultural. Mas como se mostraram, de um modo geral, favoráveis a Portugal, tal não terá agradado às autoridades espanholas, que logo se moveram contra aquelas “irreverências”. No passado dia 11 de Julho, deram-se até ao desplante de inaugurar um busto dessa figura sinistra que foi Manuel Godoy – principal carrasco da Olivença portuguesa – numa das salas da Torre de Menagem do Castelo daquela vila, mandado construir por… D. Dinis.

 

Do lado de cá da raia, vários autarcas de municípios vizinhos, continuam a fazer e a dizer uma série de disparates, pois não há maneira de entenderem que têm que se desenvolver, juntando-se à costa portuguesa e não ao lado de lá da fronteira. É que no fim de serem chupados, os caramelos espanhóis deixam sempre uma grande amargo de boca...

 

Ora na Madeira a coisa fia ainda mais fino: os nossos “hermanos” – manda a boa higiene e os bons costumes que os irmãos, quando crescidos, devem viver em casas separadas – ainda alimentam reivindicações espúrias sobre as ilhas Selvagens e não devem gostar nada de actos de soberania portuguesa, como foi a recente visita de Jaime Gama, em Maio deste ano, enquanto presidente da Assembleia da República, àquele pedaço de território de grande importância estratégica .

 

E em tudo o que os espanhóis façam ou intentem, nós devemos desconfiar e é lamentável que os portugueses passassem a esquecer rapidamente os seus “segredos de família” e a andar com as “guardas” em baixo.

 

A banda de Olivença permaneceu quatro dias no Arquipélago e deu dois concertos, juntamente com a “Banda Recreio Camponês” de Câmara de Lobos: só fazia sentido recebê-la não como espanhola, mas como indo de território português… Mas tudo passou despercebido entre autoridades, população e meios de comunicação social.

 

Curiosamente, ou não, lá apareceu mais uma sondagem cretina, feita pela Universidade de Salamanca e publicitada pelo “El Pais” (tido como próximo do PSOE), em que se afirma que percentagens elevadas de portugueses e espanhóis pretendem a (maldita da) União Ibérica.

 

E houve até um conhecido banqueiro português que veio afirmar a necessidade de “amalgamar” tudo o mais possível. Já não chegavam os grotescos Saramago e Mário Lino, se auto-proclamarem traidores ao dizerem-se iberistas! O segundo, sendo ministro, continuou no governo; ao primeiro ofereceu-se-lhe uma fundação, paga com dinheiros públicos e com sede na casa dos bicos, moradia do grande Afonso de Albuquerque, que deve andar a ranger os dentes no túmulo.

 

Noutro âmbito, é ainda de reter que o Arquipélago da Madeira é aquele que pode, verdadeiramente, fazer concorrência em termos de turismo às ilhas Baleares e, sobretudo, às Canárias. E é curioso (e lamentável!) que a única ligação marítima entre o Continente e o arquipélago seja feita entre Portimão e o Funchal por um ferry-boat … espanhol.

 

Afinal o “manicómio em autogestão” não acabou nos tempos do famigerado PREC.[2]

 

 



[1] Carta entretanto enviada para o MNE e PR para os efeitos tidos por convenientes…

[2] Processo Revolucionário em Curso

 

Angola expulsou 150 mil num ano

Cerca de 150 mil pessoas, na maioria congoleses foram expulsos, entre o passado mês de Dezembro e meados de Julho, de Angola para a vizinha República Democrática do Congo (RDC), em “condições degradantes”, segundo a classificação empregue num relatório das Nações Unidas.

 

Segundo o mesmo documento “é urgente analisar a maneira como são efectuadas estas expulsões do norte de Angola, região rica em diamantes onde numerosos estrangeiros trabalham em minas”, afirmou à France Press o coordenador da ONU na RDC, a coberto do anonimato, por receio de represálias, mesmo em território não angolano.

 

Angola tem todo o interesse que casos destes não “transpirem” num momento em que pretende, cada vez mais, apresentar-se perante potenciais parceiros Ocidentais como um país em fase de democratização e respeitador dos Direitos Humanos.

 

Segundo as organizações humanitárias estabelecidas na RDC, muitos dos que foram expulsos de Angola passaram meses em prisões antes de serem conduzidos até cerca de uma centena de quilómetros da fronteira congolesa, que alcançaram após longa caminhada a pé. Registam-se igualmente casos de apropriação indevida dos parcos bens dos indesejáveis antes de serem largados à sua sorte em direcção à fronteira.

 

O organismo encarregue da coordenação dos assuntos humanitários das Nações Unidas (OCHA) teve igualmente conhecimento de violações e vistorias atentatórias da intimidade de mulheres que integram os grupos conduzidos até à fronteira, suspeitos pelas autoridades angolanas de esconderem diamantes.

 

A representante da ONU em Angola, Jocelline Bazile-Finely manteve recentemente um encontro com o ministro dos negócios estrangeiros do Presidente José Eduardo dos Santos, Assunção Anjos, para discutir e tentar encontrar uma solução para o problema.

 

Hamas não tolera concorrência

O Hamas, depois de uma ofensiva armada, exterminou a Ansar Jund Allah (Guerreiros de Deus), uma organização próxima da Al-Qaeda, que considerava o partido que controla a Faixa de Gaza demasiadamente brando na aplicação da “Charia” (Lei Islâmica).

 

Contudo, o mesmo Hamas começa a “islamizar” Gaza. Há relatos de grupos de jovens que entram em lojas e “aconselha” o dono a tirar os manequins das montras, a fazer desaparecer da vista de todos a roupa interior exposta, por muito antiquada e inestética que seja. A polícia controla casais que circulem nas ruas para saberem se são casados.

 

“A campanha estáem acordo com a nossa religião e tradições”, defende o ministro dos Assuntos Religiosos adiantando que “constatamos alguns perigos que ameaçam a nossa juventude e o nossa obrigação é prevenir sobre as coisas más”

Em muitas das ruas de Gaza vêem-se cartazes que incitam a não fumar. Mas segundo um refugiado do campo de Yabalia, próximo dos fundamentalistas, “quem o faz são sempre membros do Hamas”. O governo islamita decretou que a partir de 1 de Setembro todas as advogadas e pessoal feminino devem ir trabalhar de acordo com a Hiyab, o código fundamentalista para o vestuário feminino. As autoridades declaram que apenas se trata de aplicar uma lei que data de 1930. O Centro Palestiniano dos Direitos Humanos de Gaza criticou fortemente a ilegalidade flagrante da iniciativa.

 

Assim, parece que, mesmo em questões de fundamentalismo, o Hamas não tolera concorrência. Terá sido talvez por isso que matou dezanove “Guerreiros de Deus”, o seu líder o xeque Abelatif Musa e feriu mais cento e vinte pessoas depois de declarar ter tentado chamar para o “Islão moderado” este movimento próximo da Al-Qaeda.