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Jornal O Diabo

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Entrevista a José Ribeiro e Castro

“CDS deve chegar agora aos 20 por cento”

O histórico dirigente do CDS avisa que o partido não vai fazer acordos com o PS: “As pessoas rir-se-iam de nós se o fizéssemos” e aposta tudo na tomada do eleitorado do PSD. “Se o CDS fosse mais forte, não estávamos dependentes da esquerda, depois destas eleições”. Uma entrevista exclusiva, no regresso de José Ribeiro e Castro ao Parlamento.

 

O Diabo – Foi um candidato surpresa quando se apresentou nas listas pelo Porto, depois da luta interna que travou com Paulo Portas. Está contente?

José Ribeiro e Castro – Estou. E estou particularmente contente com a minha eleição mas, mais importante, com a eleição de mais dois deputados pelo círculo do Porto.

 

O Diabo – A união do partido, que o juntou a Paulo Portas e a Telmo Correia, foi fundamental para este resultado?

José Ribeiro e Castro – É um resultado de todo o partido e de todos os que fazem parte dele. O que se pode esperar agora é mais crescimento. O CDS perseguia há bastante tempo este objectivo, que era ultrapassar a fasquia psicológica de dois dígitos. Isto significa que o CDS entra definitivamente num outro campeonato.

 

O Diabo – Que campeonato é esse?

José Ribeiro e Castro – É um campeonato de ter a meta de passarmos para além dos 20 por cento. Não creio que seja já na próxima eleição, mas na seguinte, por exemplo. Estamos num caminho de crescimento para ser o mais forte referencial político em Portugal. Creio que é a isso que o partido deve aspirar. Esta votação é bastante encorajadora. Agora este caminho de que falo exige bastante trabalho e não se resume apenas a eleições, mas a crescimento em ligação com a sociedade civil, de intervenção, em aumentar a capacidade de propostas e reforçar o prestígio. Há um encorajamento nesta votação que o partido e toda a sociedade portuguesa têm de saber ler.

 

O Diabo – Que sinais são esses?

José Ribeiro e Castro – É o facto de ser a melhor votação do partido desde 1983. Regressámos a tempos históricos. Depois, desde 1985 que não tínhamos deputados sozinhos em Coimbra, nunca tínhamos tido em Faro, e na Madeira só em 1976… É um partido finalmente nacional. E embora não tenha conseguido eleger deputados no Alentejo, por exemplo, consegue ali votações muto interessantes e importantes. Consegue em muitos distritos duplicar a votação. Por isso, o CDS é hoje um partido nacional. Os eleitores sabem o que querem do CDS e o partido não os pode defraudar. Há um crescimento uniforme.

 

O Diabo – Sendo o CDS o único partido sozinho que pode dar maioria ao PS na Assembleia…

José Ribeiro e Castro -…não é verdade, o PSD também pode…

 

O Diabo –…é verdade, mas o PSD está prestes a ficar sem líder e o CDS tem uma liderança estável e um caderno de encargos claro. E perante isto, espera-se do seu partido uma possível viabilização de governo. Concorda?

José Ribeiro e Castro – Isso seria um desapontamento para o eleitorado do CDS. Creio que a verdade é que o País, sendo o CDS o grande vencedor político das eleições, virou à esquerda. O mais votado é o PS e a Assembleia voltará a ter uma maioria de esquerda. Sou um democrata mas lamento este resultado. É um mau resultado para Portugal, ninguém esperava que isto acontecesse, mas temos que respeitar. E se o eleitorado decidiu votar à esquerda, então é isso que deve ter. As tentações de bloco central que sejam procuradas com o PSD. O CDS tem um caminho a percorrer e não deve agora misturar as coisas. Nos próximos dias muito se vai falar do interesse do partido e do interesse nacional. Ora, eu julgo que o interesse nacional passa por um CDS forte na oposição e não a servir os interesses de outro partido. E o CDS deve fortalecer-se cada vez mais como opção à direita e isso é que cria prestígio e confiança dos portugueses na política. As pessoas rir-se-iam com outra posição do nosso partido e diriam: “lá estão eles, outra vez…”. Depois da linha que o CDS apresentou, depois de tudo o que fez, seria ridículo entrar numa entente com o PS. Face a este resultado extraordinário e brilhante, acho que o CDS deve seguir a sua linha própria.

 

O Diabo – É o primeiro passo, depois de 15 anos consigo, com Paulo Portas e Manuel Monteiro, para criar o grande partido democrata-cristão que substitua o PSD que está a esvaziar-se ideologicamente?

José Ribeiro e Castro – Eu sou do CDS e sempre tive o sonho — e mais do que o sonho, porque não me deitei a dormir —, que o partido deve ser a mais forte referência política em Portugal. O meu pensamento e a minha convicção é esta. Portanto, desejo que o CDS faça esse caminho que acaba de descrever. A votação deste domingo é um sinal nesse sentido e significa confiança e esperança para que o CDS consiga isso. Mas agora o partido tem de se preparar para conseguir responder às expectativas criadas – e tem todas as condições para o fazer. Não vejo no PSD um adversário, mas se o CDS tivesse ficado mais à frente nos resultados nas eleições de domingo, hoje o País não estaria refém destes resultados.

 

O Diabo que o carregue: Jaime Silva

Não há memória, nos anais do actual regime, de um tão grande descalabro no sector da agricultura como aquele que presentemente se vive. Só uma pessoa parece não concordar com este retrato factual: Sua Excelência, o ministro Jaime Silva. Quase semanalmente os agricultores têm saído à rua, clamando por atenção, por rapidez nas decisões, por justiça mínima para quem, contra ventos e marés, ainda insiste em dedicar-se aos nobres trabalhos da terra. Nos últimos dias, mais uns milhares de produtores se manifestaram na Póvoa de Varzim. E de novo denunciaram: “É a mais grave crise de que há memória, com mais de mil explorações leiteiras em situação de falência” e “sete mil agricultores à espera de ajudas directas”, já enviadas para Lisboa pelos organismos europeus mas aguardando uma “análise” final nos gabinetes do Terreiro do Paço. Sua Excelência insiste em que “não haverá atrasos” na entrega desses dinheiros comunitários, que poderiam salvar ainda muitas explorações. E tem razão: não “haverá” atrasos – porque já os há. E graves. E criminosos. Soubemo-lo esta semana pela boca do antigo líder centrista Ribeiro e Castro, que revelou termos já perdido 600 milhões de euros de ajudas da União Europeia por desleixo do Governo. E outros tantos poderemos ainda vir a perder, se se mantiver a incapacidade do Ministério da Agricultura para dar despacho ao problema. “É uma factura escandalosa cobrada à agricultura portuguesa, que revela o estado de desinteresse e desleixo, e também nalguns casos de incompetência, deste Governo”. Já sabíamos que, nos dias que correm, a principal missão do ministro português da Agricultura é apressar a liquidação da agricultura e das pescas, em benefício dos interesses de outros países. Só não sabíamos que, nessa missão macabra, se podia ser tão insensível e tão mesquinho.    

 

FRA DIAVOLO