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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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Quinta Coluna: Salazalhães

A mensagem circula massivamente pela Internet: “Eu também tive um Salazalhães, e com muito orgulho!”. Para quem já não se lembra, esta saudosa versão antecipada do “Magalhães” socialista, que milhões de portugueses usaram desde o século XVII até aos tempos de Salazar, cumpriu garbosamente a sua função de auxiliar didáctico – não ficando nada atrás, em resultados práticos, dos “PCs” que hoje ajudam a formar doutores da mula ruça. Muito pelo contrário. Era também portátil, mas o seu “sistema operativo” tinha a vantagem da simplicidade: um “disco rígido” em caixilho de madeira, enquadrando uma “mother board” em xisto argiloso servida por um “joystick” no mesmo material (embora mais macio), ou por um “rato” feito de carbonato de cálcio (o insuperável giz). A aversão crescente às tolices falsamente “desenvolvidas” da “era tecnológica” está a transformar a velha pedra de ardósia num caso sério de revivalismo em todo o mundo ocidental. Tanto, que uma empresa de Valongo decidiu pôr mãos à obra e passou a fabricar “Salazalhães” em larga escala. E até os anuncia com argumentos “politicamente correctos”: é um produto 100 por cento “verde”, que não precisa de electricidade e “permite poupar muito dinheiro gasto em papel de rascunho, protegendo desta forma a natureza”. Infelizmente, dos 4 mil quadros pretos que todos os dias saem da linha da produção de Valongo (mais de um milhão por ano), muito poucos se destinam ao nosso País: vão quase todos para as escolas de França, Alemanha, Holanda e Estados Unidos, onde a ausência do inenarrável “Magalhães” parece não incomodar os pedagogos. Gente por certo “atrasada”, que não segue os conselhos desses grandes líderes da política e dos negócios informáticos que são José Sócrates e Hugo Chávez…

FRA DIAVOLO   

 

Telenovelas

Domingo, hora do jantar. Num dos países mais pobres da Europa, com a agricultura na falência, as pescas em saldo e a escassa indústria em crise, num país à beira da improdutividade, onde todos os dias fecham empresas e aumenta o rol dos miseráveis – milhares de automobilistas acotovelam-se a caminho das pontes que dão acesso à capital. De onde vêm e para onde vão? Terão acabado de fazer horas extraordinárias? Decidido começar a trabalhar mais cedo? Haverá distribuição-extra na sopa dos pobres? Nada disso: vêm do Algarve e regressam a suas casas, após um merecido fim-de-semana de repouso e peixe grelhado. Como burgueses endinheirados de Hamburgo ou Oslo, transportam-se em automóveis que ultrapassam, em luxo e extras, a frota de qualquer telenovela. Pois é a uma telenovela que assistimos: um enredo escrito num momento de demência para povoar o nosso ‘zapping’ sonâmbulo. Nesta ficção em que Portugal se transformou, somos todos esbeltos e milionários, ganhamos os campeonatos mundiais e vamos a caminho de um estúdio de gravações no céu. Guardámos o sentido das realidades no porta-luvas do bmw. Deixámos o tino e o raciocínio na casa de praia. Quem pode censurar-nos? O guião deste “Simplesmente Maria” está a ser escrito, todos os dias, por uma Imprensa que tem por caneta uma seringa de anestesia. Os nossos heróis são “socialites”, estrelas da bola e políticos que aprenderam a safar-se. Portugal já não está doente: enlouqueceu e fugiu da clínica psiquiátrica. Por isso, no domingo, à hora do jantar, num dos países mais pobres da Europa, vamos todos a caminho das cenas dos próximos capítulos. O pior é se um dia acordamos!

FRA DIAVOLO

Quinta Coluna: António Costa

Pode ser que agora, finalmente, os eleitores percebam porque é que Costa “investiu” em Saramago, oferecendo-lhe a Casa dos Bicos, como foi que o cançonetista Carlos do Carmo apoiou o PS e, em particular, porque é que os comunistas mantiveram um “low profile” em Lisboa, durante toda a campanha autárquica da Capital.

 

Costa apercebeu-se da mudança de tendência política que a Europa vive e receou que a popularidade inesperada de Portas e do PP pudessem retirar-lhe o brilho de ser o socialista que ganha. As Legislativas vieram confirmar que estava certo. E ele vai continuar ali, ao lado da Praça do Comércio, de que não percebe nem a essência nem o sentido, mas que fez questão em mudar, para a glória da sua pessoa. Costa perdeu independência, capacidade de decisão e ficou enfeudado a uma esquerda ainda mais caduca do que aquela que representa. Lisboa, essa, arrisca-se a ficar ainda mais periférica do que já é.

 

Se cumprir o que anunciou, a capital fica sem Portela, terá pontes escusadas e os lisboetas arriscam-se a ser obrigados a fazer figuras ridículas, como as do candidato socialista durante a campanha, e pedalar inúteis bicicletas, trajando um equipamento de Eddy Merxx das avenidas (verde!), numa cidade em que, quase sempre, ou se sobe ou se desce. Muito.

Quinta Coluna: As máscaras dos governantes

A PSP apreendeu a máscara de ‘Darth Vader’, personagem célebre da saga “Guerra das Estrelas”, usada por um grupo de monárquicos que há uma semana subiu ao varandim da Câmara de Lisboa para agitar as águas tépidas da política portuguesa de Verão.

 

Pelos vistos, depois de ter permitido que a troca da bandeira municipal pelo pavilhão monárquico se consumasse mesmo nas suas barbas, a polícia tomou agora o caso a peito, com a falta de jeitinho que lhe é peculiar. Dois marmanjos alçando uma escada, à meia-noite, a cinco metros da “segurança” dos Paços do Concelho e a dez metros de uma esquadra da PSP – isso parece não ter importância alguma. Indispensável, mesmo, era apreender a máscara usada por um dos ‘bloguistas’ do 31 da Armada durante a divertida operação (“a máscara utilizada para a concretização dos factos”, como pomposamente reza um comunicado oficial da Polícia de Segurança Pública).

 

Esta máscara, ainda assim, é metafórica. Mais reais são as máscaras usadas pelos governantes no exercício das suas funções políticas – embora em relação a estas, infelizmente, não tenha sido programada qualquer apreensão. E valeria a pena. Por exemplo: apreender a máscara de político impoluto com que o primeiro-ministro todos os dias se apresenta ao país; apreender a máscara de amigo dos pobres atrás da qual está o ministro da Solidariedade que corta na Segurança Social; apreender a máscara de dialogante com que a ministra da Educação (entretanto desaparecida em combate) se dirige aos professores; apreender a máscara de imparcial com que o ministro das Obras Públicas atribui a concessão dos contentores de Alcântara ao camarada Jorge Coelho; e até apreender a máscara de ministro da Agricultura com que um senhor chamado Jaime Silva comparece nos Conselhos de Ministros. Estas, sim, valia a pena apreender. Império do Mal por Império do Mal, e comparado com estes figurões, Darth Vader até parece um menino de coro…

FRA DIAVOLO

 

Quinta Coluna: Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC)

Há em Portugal uma estranha instituição que, em nome do Governo que lhe deu origem e a mantém, tomou em mãos o controlo ideológico dos órgãos de Informação. Chama-se Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e acaba de emitir a seguinte enormidade: para “garantir” uma suposta “igualdade de circunstâncias”, “recomenda” que os colaboradores e colunistas que escrevem regularmente nos jornais suspendam a sua actividade durante a campanha – ou que, alternativamente, esses jornais convidem também para as suas colunas colaboradores de opiniões opostas.

A tentação controleira do PS face à informação livre não é fenómeno novo: vem, na verdade, desde os tempos do 1º Governo Provisório, quando os novos senhores da Situação sentiram que, à falta de lápis azul, era melhor manterem os jornalistas à trela da pressão e do medo. Nunca tiveram grande sorte, diga-se em abono da verdade. Nas Redacções, a aversão aos “delegados” do poder sempre fez com que o “boomerang” das novas censuras acabasse por voar direitinho às cabeças dos grandes líderes que preferiam uma Imprensa manietada. Volta agora a suceder o mesmo: perante a “recomendação” de suas excelências, a maioria das direcções editoriais anunciou já que não tenciona obedecer. Aqui, n’O DIABO, nem de oura forma poderia ser: se a determinação tivesse força legal, que recomendaria a ERC que paginássemos ao lado dos artigos de Alberto João Jardim? Pensamentos célebres de Álvaro Cunhal? Em última análise, a estranha “recomendação” da não menos estranha Entidade equivaleria a transformar toda a Imprensa numa banda filarmónica em que todos tocaríamos pífaro. Das duas, uma: ou não se enxergam ou andam a consumir substâncias psicotrópicas!

 

F.D.

 

Quinta Coluna

A Comunicação Social tem destas coisas: à força de tanto agitar cada novo “escândalo”, torna-o banal e vacina a opinião pública, que acaba por diluí-lo na sua memória como “apenas mais um”. O caso é geralmente apresentado na fase da suspeita, de forma suficientemente personalizada para causar bruá mas suficientemente vaga para não ter os seus contornos gravados na memória do mês.

 

O caso do prolongamento do contrato com a Liscont é um exemplo típico. A notícia surgiu para embaraço momentâneo do ministro Mário Lino e do ex-ministro socialista Jorge Coelho: um favoreceu a empresa que o outro dirige ao conceder-lhe a exploração do parque de contentores de Alcântara por mais 27 anos. Este extraordinário prolongamento baseou-se em projecções económicas erradas, beneficiando a empresa concessionária e lesando os interesses do Porto de Lisboa e do Estado. Foi um negócio ruinoso, concluiu o Tribunal de Contas. E a comissão parlamentar de Obras Públicas enviou à Procuradoria-Geral da República toda a documentação, visando a abertura de inquérito.

 

Mal foi conhecido este “desfecho” mais do que provisório, o “grande escândalo” morreu instantaneamente nas televisões. E estava já a opinião pública a roer o osso seguinte quando foram revelados os pormenores mais escandalosos do negócio – nomeadamente o de que, pelo contrato assinado, o Estado terá de compensar a empresa se a exploração dos contentores der prejuízo; ou (igualmente bizarro) que Lino aceitou que fosse o Estado a pagar mais de um milhão de despesas com advogados e assessorias relativas à ampliação do terminal de Alcântara; ou, ainda, que o contrato concede à empresa uma generosíssima isenção de taxas!

 

Quer dizer: o escarcéu é muito quando ainda pouco se sabe; e desvanece-se quando começa a saber-se. Até parece de propósito…