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Jornal O Diabo

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A difícil escolha de Guterres entre Angelina Jolie e a corrida a Belém

O antigo primeiro-ministro,  alto comissário da ONU e “chefe” de Angelina Jolie,  está longe de desejar ser candidato contra Cavaco Silva, mas o PS, que detesta Alegre, está a fazer-lhe a vida negra.

Os telefonemas começaram a tornar-se mais frequentes quando os socialistas perceberam que Cavaco Silva pode ser batido nas eleições presidenciais, em Janeiro de 2011. Desde Novembro que António Guterres, ex-primeiro ministro de Portugal e actual alto-comissário da ONU para os refugiados, tem recebido apelos vários para que considere ser candidato à Presidência da República. “Compreendo que ele esteja reticente em aceitar”, diz a O Diabo um destacado socialista, que ocupou lugar no antigo Governo do PS. “Ser chefe da Angelina Jolie  e desistir disso para regressar a Portugal deve ser uma opção difícil”, graceja. No entanto, este militante do PS, mais a sério, considera “pouco provável que ele [Guterres] se apresente a eleições se não for para ganhar, e o PS ainda tem de resolver o problema do Manuel Alegre antes de queimar alguém”.

A questão é exactamente esta. Qualquer candidatura que apareça do quadrante socialista tem de compensar o efeito do cada vez mais candidato Manuel Alegre. O poeta da Anadia tem recolhido fortes apoios de base nos últimos meses. Cada vez que José Sócrates perde uma batalha pública ou se vê envolvido, involuntariamente, em qualquer escândalo público, uma boa parte dos socialistas (em que se revêem guterristas, sampaístas e até alguns antigos apoiantes de Salgado Zenha), batem palmas por ver que Alegre ganha estatuto. Mas o que tem acontecido a Alegre não é simpático. O Diabo apurou que, depois do jantar de 11 de Dezembro, a campanha está já com um fundo de maneio razoável para começar a pensar em lançar acções de financiamento a uma candidatura independente. Mas a verdade é que os principais financiadores, como os bancos e as construtoras civis, não se entendem com Manuel Alegre. Julgam que o poeta faria um magistério pró-estatizante, com mais impostos sobre as empresas e menos obras públicas de vulto. O medo é tal que têm sido estes mesmos financiadores a sugerir, em privado, a José Sócrates, que encontre outro candidato a Belém que não Alegre. Guterres é, para eles, o melhor nome.

E quem concorda com estes grandes apoiantes das candidaturas é Mário Soares. O velho “pai” dos socialistas está a fazer tudo para convencer os seus mais fiéis seguidores a rejeitar qualquer apoio ao seu antigo amigo. Soares ainda não engoliu a pesada derrota que teve às mãos de Alegre, perante Cavaco Silva. Sim, porque Soares não aceita que perdeu contra Cavaco por culpa própria – foi Alegre quem lhe tirou votos e o impediu de forçar uma segunda volta, que levaria de vencida a Aníbal Cavaco Silva…

Perante tamanha confusão, seria justo pensar que José Sócrates estaria pelos cabelos com estes nomes em luta. Guterres, sabe O Diabo, seria a escolha que não deixaria dúvidas a Sócrates: é seu amigo e companheiro de anos, têm uma belíssima ligação pessoal, muito embora Guterres não se reveja totalmente nas opções políticas do seu amigo – como o casamento homossexual.

Para aplacar a voragem alegrista, Sócrates tem vindo a admitir que vários nomes circulem se aparente controlo de informação partidária. Primeiro foi o de Jaime Gama, que não tem hipóteses nas urnas, mas é sempre um aparente incontornável quando se começa a falar de presidenciáveis. Depois, surgiram vozes a favor de Víctor Constâncio e de Guilherme de Oliveira Martins. Mais recentemente regressou em força a teoria de que António Vitorino é que teria o mote certo para chegar a Belém, batendo Cavaco Silva. E faltam ainda os nomes da “sociedade civil” que orbitam o PS, como António Barreto, que aos olhos dos socialistas seria um oponente de peso para… Manuel Alegre.


PS deseja Vitorino

Mesmo assim, de todos os nomes ventilados, o que recolhe maior registo de realidade é o de António Vitorino. Longe de estar na calha para secretário-geral do PS, lugar que poderia ser seu caso o tivesse desejado já – mas que sempre recusou -, o comentador que faz contraponto a Marcelo Rebelo de Sousa na RTP está bem cotado quer à esquerda do PS, quer no grande “centrão”. Perante as dificuldades que o mandato de Cavaco Silva atravessou, os socialistas estão convencidos de que, melhor que Alegre, era ter um homem de craveira e bom senso em Belém, que soubesse confrontar um eventual governo PSD com estratégia e inteligência e, depois, lidar tranquilamente com um futuro primeiro-ministro PS. Em suma: Alegre só traria problemas, Vitorino seria um sossego, Guterres era ouro sobre azul.


Sem oposição de Cavaco, qualquer um

Uma coisa é certa: se Cavaco Silva não se recandidatasse – hipótese que parece cada vez mais afastada -, qualquer socialista teria hipóteses de conquistar Belém. Sem opções claras, o PSD teria que passar tempo demais a discutir quem iria dar a cara para salvar uma eventual “irregularidade”, mesmo em democracia: ter um presidente em primeiro mandato que não se recandidatasse. Nesse caso, o nome mais óbvio é o de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas como lembram os seus críticos, Marcelo nunca ganhou nada nas urnas, a não ser a sua luta pelo “Não” nos referendos da Interrupção Voluntária da Gravidez e da Regionalização.

Casamentos gay podem ser motivo de referendo

 

Presidente não gosta do caminho que o PS está a seguir: é que depois do casamento dos gays, vai apoiar direitos dos transexuais e a eutanásia. A oposição prepara-se para exigir um referendo sobre a matéria.

A guerra entre o Presidente da República e José Sócrates está cada vez mais dura. Aníbal Cavaco Silva está à procura de todos os meios legais para travar o casamento entre homossexuais, a última iniciativa dos socialistas, que está aprovada pelo governo e que, em meados de Janeiro, vai ser votada na Assembleia da República. O Diabo sabe que o Presidente está contra a aprovação da lei que permite a dois homens casarem-se com a bênção do Estado, sem antes ter sido o tema discutido abertamente na sociedade portuguesa. Cavaco Silva já pediu vários pareceres jurídicos para compreender ser a adopção da proposta do Governo está de acordo com a Constituição da República Portuguesa. Mas mesmo que os juristas e constitucionalistas nada oponham ao texto de José Sócrates em defesa do casamento de homossexuais, o mais alto magistrado da Nação pode vetar, politicamente, a iniciativa.

Não é, no entanto, apenas o casamento entre gays que está a preocupar o mais alto magistrado da Nação. A ameaça do PS em levar à Assembleia da República, já no princípio do ano, uma proposta para legalizar a eutanásia, está também a preocupar Belém. Para Cavaco Silva, a situação económica, financeira e fiscal do País é suficientemente preocupante que será difícil a sociedade aceitar que os políticos agora se concentrem em outras coisas que não a crise.

O actual debate gay já é suficientemente incómodo para Belém, que acompanha a reacção social à proposta socialista. Nos últimos dias as vozes contra o casamento entre dois homens ou duas mulheres têm saído a público para protestar contra o secretismo em que a medida aparentemente foi aprovada.

O referendo é agora a arma que a oposição tem contra José Sócrates e o Bloco de Esquerda. A plataforma Cidadania/Casamento já tem as assinaturas suficientes para pedir, legalmente, um referendo sobre o assunto, o que pode levantar um problema maior a Sócrates durante 2010: juntar-se a Francisco Louçã nos palcos do País a defender o casamento entre os gays e lésbicas.

Os apoiantes do referendo, no entanto, não temem a luta política. José Ribeiro e Castro, deputado do CDS e subscritor da iniciativa referendária, explica as razões porque discorda da adopção sem discussão pública do casamento gay e lésbico: “O casamento e família não são palavras criadas e definidas pelo Estado. Não são o Cartão do Cidadão, nem uma direcção-geral ou instituto público. São palavras - e realidades - nucleares e estruturantes da própria sociedade. O Estado recebe-as para o que lhe importa; mas deves-lhe respeito, não domínio”, diz o deputado, que acrescenta: “Em regime democrático, aberto constitucionalmente à democracia directa, dificilmente se pode conceber um tipo de decisão em que o referendo tanto seja exigível”.

Não é o único a defender o referendo nem a criticar a falta de respeito do Estado pelo casamento. João César das Neves, professor universitário, ataca o coração dos esquerdistas: “Que é mais corajoso, lutar por causas libertinas que toda a opinião pública tolera, ou defender os valores exigentes do casamento, família e vida? Quem são realmente rebeldes, os membros do Bloco de Esquerda que a imprensa exalta e os intelectuais apoiam, ou os que enfrentam as teses politicamente correctas? Onde está hoje a verdadeira heterodoxia, rebeldia, atrevimento? Quando a esquerda se torna estabelecida, burguesa, dominante, quem é realmente revolucionário?”, afirma César das Neves.

D. José Ortiga, presidente da Conferência episcopal, também acusa os socialistas de tentar legislar contra o conhecimento dos cidadãos. “A sociedade portuguesa está muito alheira a esta discussão e os políticos estão a decidir sozinhos”, dispara o prelado. D. José Ortiga quer o referendo: “Se o referendo servir para as pessoas reflectirem na ideia, concerteza que o defendo. Está por aí muita gente incomodada, e não devia estar. Estes assuntos não devem ser tratados desta forma”, diz o líder da Conferência Episcopal Portuguesa.

Mas nem só o arco cristão da sociedade está preocupado com a mudança legislativa que os socialistas preparam.  Abdul Vakil, presidente da comunidade islâmica de Lisboa, está contra uma medida legal que admita o casamento gay. Diz Vakil: “Eu não condeno os homossexuais, mas a religião islâmica não admite a homossexualidade. Eu respeito o cidadão homossexual enquanto indivíduo, mas a minha religião não admite casamentos homossexuais ou lésbicos”. O líder dos islamitas portugueses vai mais longe: “Os meus, são valores abraâmicos: casamentos são sempre entre pessoas de sexos diferentes. Mas lei é lei e se o Governo quer passar a lei, passam-na concerteza. Nós, os muçulmanos, não acreditamos em casamentos homossexuais" – esclarece, peremptório.

Por isso, Abdul Vakil propõe uma tomada de posição conjunta das várias religiões existentes em Portugal. “Julgo que deveríamos concertar-nos com os abraâmicos, com os judeus e cristãos - e ver se fazemos chegar a nossa voz, de uma forma ordeira - não vamos fazer manifestações - , mas fazendo chegar essa nossa opinião junto do Governo de uma forma concertada com outras religiões", propõe.

 

Até o PCP tem dúvidas

O líder dos comunistas portugueses saiu à rua contra a oportunidade da proposta de José Sócrates em casar homossexuais através do Estado. Disse Jerónimo de Sousa: “Deve haver uma definição e uma clarificação sobre as prioridades [do País], que são a crise económica, os salários dos trabalhadores, os desempregados e o acesso da juventude ao trabalho". O comunista esclarece: “Não ponho isso em termos dicotómicos mas parece não haver tempo para discutir a destruição do aparelho produtivo nacional" mas haver tempo para debater o casamento gay. Curiosamente, foi o único líder partidário que defendeu Cavaco Silva, perante um ataque dos socialistas: “Considero que o Presidente da República manifestou preocupações que são justas". Jerónimo de Sousa referia-se à defesa da natalidade em Portugal, que tem vindo a decrescer nas últimas décadas.

Numa visita ao Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, dois dias depois de se saber da intenção socialista de autorizar gays e lésbicas a casar, o Presidente defendeu a importância “da família tradicional” . Alega o Chefe de Estado: “Neste momento, o número de filhos por mulher em Portugal é 1,35. Para conseguir uma reconversão de gerações é preciso dois filhos por cada mulher. São precisas políticas e iniciativas para ajudar os pais, as mulheres empregadas, a poderem cuidar dos seus bebés”, disse o Presidente, que adendou: “Um país sem crianças é um país sem futuro, por melhores que sejam as políticas económicas, por melhores que sejam os aeroportos, os portos, as estradas que nós tenhamos. Se não existem crianças, nós avançamos rapidamente para o envelhecimento da população e todos sabemos que a consequência do rápido envelhecimento da população é um baixo crescimento económico e uma grande dificuldade em satisfazer os apoios sociais aos mais idosos”, esclareceu o Presidente.

Poucas horas passavam destas declarações quando o jovem deputado socialista Sérgio Sousa Pinto acusou Cavaco Silva de se “intrometer na agenda do PS” sobre o casamento entre homossexuais. Sousa Pinto, regressado há pouco de cinco anos como eurodeputado, admoestou Cavaco: “O Presidente da República, como qualquer cidadão português, tem a liberdade de ter a sua posição pessoal relativa ao diploma respeitante à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas já não terá o direito de se intrometer na agenda dos partidos e no caso vertente do PS», disse. Mais acrescentou: “O Presidente, assim, estará a contribuir inutilmente para a dramatização da vida nacional e a pôr em causa as condições de estabilidade política, que são indispensáveis para dar resposta a problemas que preocupam o senhor Presidente da República, como preocupam o Governo e o PS”. Para rematar, Sousa Pinto deixou o aviso: “Os portugueses não escolheram o PS para formar Governo para que a agenda do Governo e do PS fosse determinada pelo senhor Presidente da República”.

 

Adopção não, padrinhos sim

 

Entretanto, o PS veio já esclarecer que a futura lei não vai permitir aos homossexuais adoptar crianças. Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência, assegurou este fim-de-semana que o Código Civil será adaptado para que, agora, impeça que dois homens casados adoptem menores de idade para viverem em conjunto consigo. Mas o problema pode vir a levantar-se perante o apadrinhamento civil, uma nova figura legislativa criada pelos socialistas e que é apenas uma adopção sem tantos requisitos legais e que dá aos adultos a hipótese de conviver domesticamente com as crianças. O ministro também não esclareceu o que virá a acontecer quando um pai separado e com a guarda de um filho menor decidir casar depois com outro homem. É neste ponto que os esquerdistas do Bloco de Esquerda preparam argumentação para defender, posteriormente, a legalização da adopção de crianças por gays e lésbicas. O Bloco prepara-se, entretanto, para apresentar em Janeiro uma proposta para igualar os direitos dos transexuais aos das pessoas que sempre mantiveram o mesmo sexo – e que deverá ainda propor alguma defesa contra o preconceito de alguns empregadores. Isto é, o Bloco defenderá que um empresário que contrate, por exemplo, uma educadora para cuidar dos seus filhos não a poderá despedir essa pessoa se um dia em vez de uma educadora for um educador a apresentar-se ao serviço.

O amigo americano: Rui Mateus, o homem que sabe demais

António Pina do Amaral

  

Na semana passada perguntava-se aqui que era feito de Rui Mateus e porque nada acontecera após o livro que escreveu. Perceber o mistério passa não só por estar a par dos escândalos de Macau, mas também do lado oculto de uma história ainda por contar.

 

Lê-se o livro do socialista Rui (Fernando Pereira) Mateus e dá-se logo conta das referências que nele se contêm à Central Intelligence Agency, os serviços de informações no exterior do Governo dos EUA. Ele sabe do que está a falar. Vê-se que a literatura sobre espionagem faz parte das suas preferências. Até aqui, ainda pertencia ao historiador José Freire Antunes o melhor palmarés das revelações sobre a CIA em Portugal. Os seus dois livros da série ‘Os Americanos e Portugal’ foram recebidos com frieza nos meios ligados ao PS.

 

A sua revelação mais escandalosa e controversa tinha então a ver com as alegadas ligações objectivas da CIA a Mário Soares. O caso causaria sensação mas lentamente cairia no olvido. Antes dele, só o PCP se tinha dedicado ao assunto em geral, através de uma publicação organizada por Ruben de Carvalho que hoje é já uma raridade bibliográfica. Mas com o contributo de Rui Mateus há um filão que se abre, pejado de tantos detalhes de conhecimento pessoal que vai ser difícil aos visados rebaterem as imputações.

O interesse da CIA por Portugal não nasceu com o 25 de Abril, embora seja certo que a Revolução dos cravos apanhou os serviços da Agência completamente de surpresa. O lento esboroar do empenhamento da Agência na situação portuguesa veio a estar na origem no seu falhanço em prever o golpe do MFA.

 

Deposto Caetano, os comunistas tomaram a iniciativa. O primeiro 1º de Maio em liberdade marcou o início do PREC e a ascensão da influência soviética em Portugal. E então os americanos despertaram. E com eles a CIA, como o viria a reconhecer o próprio Director da Agência, William Colby.

 

No final de 1974 debatiam-se em Washington duas filosofias quanto ao caso português. A mais extremista era encabeçada pelo Secretário de Estado Henry Kissinger, para quem Portugal era um caso perdido e deveria funcionar como uma vacina, para imunizar outros países da Europa quanto a veleidades de se renderem aos encantos do socialismo revolucionário. Mas outros patrocinavam uma orientação diferente, de cunho intervencionista, por não terem perdido a esperança em contra-operarem uma mudança no curso do PREC. Entre eles destacou-se o general Vernon Walters, responsável pela indigitação de Frank Carlucci III como o novo Embaixador em Lisboa.

 

Mateus encontrar-se-ia com aquele em 1986.

 

Carlucci viria a ter um papel decisivo no apoio americano a todas as forças políticas que tinham real capacidade de enfrentarem a influência comunista no País. Chega a Lisboa em Janeiro de 1975. Sairia em 1978. No entretanto faz o que pode pelo combate anticomunista. E terá feito muito.

 

No campo partidário, o PS viria a ser o grande beneficiário dos apoios do Tio Sam, alguns chegados através da intermediação inglesa. Apoios que integrariam a vertente financeira mas igualmente ofensivos para fazer face a emergências como as que se viveram nesse Verão Quente.

 

Vinte anos depois dos acontecimentos, Mateus vem pretender reconstituir esse passado.

 

Neste particular, o seu livro é uma caixa de surpresas. Ele é o nome do homem da CIA destacado para seguir as actividades do PS, que é revelado ser Richard Melton, cabendo a Charles Thomas monitorar o PPD. Ele é a afirmação de que coube a Bernardino Gomes  - o chefe de gabinete de Mário Soares - e a Vítor da Cunha Rego - que desempenharia o cargo de Secretário de Estado da Presidência - os contactos entre o PS e a Agência. Ele é também a revelação de que para a própria Editora Perspectivas e Realidades - a que esteve ligado João Soares, o filho do Presidente - havia um “contacto americano”, na pessoa de um operacional das acções clandestinas da CIA, sendo por isso mesmo interessante a coincidência de a Cooperativa titular da editorial ter estado instalada num prédio onde antes havia estado a ITT. Ele é, enfim, a menção das relações privilegiadas de alguns militares do Grupo dos Nove com o Embaixador Carlucci.

 

O grande visado, no entanto, por esse livro demolidor é, como era aliás de esperar, Mário Soares. Em relação ao Presidente, o livro é um verdadeiro cilindro compressor, o elenco de acusações é politicamente grave e passam por colaboracionismo com todos os azimutes, primeiro em favor da causa soviética, mais tarde em favor dos interesses americanos e da CIA em particular.

 

O primeiro Soares era, para Mateus, tipicamente vermelho. Assim, quando do primeiro Governo Provisório, Soares não daria, segundo Mateus garantias de tranquilidade aos governos aliados e à NATO, os quais só confiariam de modo suficiente no general Spínola, primeiro Presidente da República após o 25 de Abril. Depois, já Ministro dos Negócios Estrangeiros, teria feito um périplo destinado a convencer os dirigentes ocidentais de que os comunistas iriam estar no Governo, ante a consabida má recepção que tal iria despertar junto desses círculos. Mateus insinua, aliás, que a própria presença de Cunhal no primeiro governo provisório teria sido obra da persuasão de Soares, dado o proverbial anticomunismo de Spínola.

 

Mateus colecciona aliás no livro referências múltiplas a situações ambíguas a partir das quais se projecta sobre Soares a suspeita de colaboracionismo com a causa de Moscovo. Uma das situações teria a ver com o amigo alemão, mein Freund Willy Brandt, um dos grandes apoios a Mário Soares durante os tempos difíceis da Oposição e da Acção Socialista

 

Só que, coincidência irónica, exactamente no dia 24 de Abril, Brandt havia sofrido um dos mais duros revezes na sua carreira, ao ver prender pelos serviços da contra espionagem o seu colaborador mais próximo, Günter Guillaume, acusado de, durante anos, ter sido uma infiltração leste-alemã e um poderoso agente de influência em favor dos interesses estratégicos de Moscovo. O chanceler, já então olhado com suspeição nos meios americanos pela sua Ost Politik, de abertura a Leste, viria a ficar agora completamente a descoberto. Em Maio pediria a demissão. Na euforia que se vivia então em Portugal, o evento passou despercebido. A Rui Mateus não.

 

O mesmo Soares teria consentido em que o PS tivesse sido financiado por fontes tão insólitas como Kadafi da Líbia, a quem teria escrito em Setembro de 1975 uma carta de respeitosa veneração, de que no livro se edita uma reprodução.

 

Finalmente, só após o assalto ao jornal ‘República’ Soares entraria “no bom caminho” e aceitaria a intervenção americana. Mateus não perde a oportunidade para comentar que não “perceberia (…) qual a razão pela qual Mário Soares sempre foi tão sensível aos seus contactos com a CIA”.

 

É por causa disso que Mateus acusa Soares, chefe do primeiro Governo Constitucional, de seguidismo em relação às posições da Agência no que respeita ao dossier Angola.

 

Enfim, segundo Mateus, não só a CIA estaria com Soares - isso já o tinha afirmado Freire Antunes - como Soares teria estado com a CIA. Mas, aparentemente, não só Soares.

 

Fica claro face ao livro que a própria génese da UGT - a central sindical alternativa à CGT/Intersindical - foi, segundo ele, uma criação americana e nomeadamente da CIA, uma vez mais com a intermediação de Mário Soares.

É que, de novo citando, o interesse da CIA em Soares, “que vinha já dos anos setenta”, seria mantido em Paris precisamente através de Irving Brown, então representante na capital francesa da American Federation of Labour/Congress of Industrial Organisations e “principal agente da CIA no Controlo da Confederação Europeia de Sindicatos Livres”.

 

Irving Brown e Michael Boggs - dois homens “conotados com as actividades dos serviços secretos americanos”  - chegariam aliás a Portugal precisamente em Maio de 1975 e daí recomendariam ao governo americano a constituição de uma confederação sindical alternativa, ideia em cuja implantação teria papel decisivo Maldonado Gonelha, que desempenharia o cargo de Ministro do Trabalho.

 

O espectro da CIA perseguirá a figura de Soares ao longo de todo o livro. Mesmo na fase pré-presidencial, Soares candidato é dado como tendo pedido a Mateus que se encarregue de obter o apoio da CIA através de contacto com Skidmore. E a este propósito Rui Mateus lança uma das suas flechas mais envenenadas, na forma de uma pergunta.

 

Demos a palavra a Mateus: “Depois há toda a confusão por esclarecer à volta do escândalo da venda de armas ao Irão, que, dizem, passaria por Lisboa. Será que quando se soube que os americanos hesitaram em ajudar financeiramente o PS e a campanha de Mário Soares, o Governo abriu os olhos para as missões humanitárias, provocando em Langley algum agastamento?” E, como se já não bastasse esta insinuação, remata: “O recém-empossado governo de Cavaco Silva recusara autorização a esta operação e assim se explica o desesperado telefonema do homem da CIA em Lisboa, na manhã de 23 de Novembro, querendo falar com Mário Soares e fazendo promessas de que esse apoio seria bem visto em Washington”.

 

Eis Rui Mateus no seu melhor.

 

Mas há mais quem tenha motivos para recear. Ele é o homem que sabe demais: na noite de 11 de Março, Otelo Saraiva de Carvalho, o major comandante do COPCON, avisa o Embaixador americano Frank Carlluci de que não se responsabilizará pela sua segurança. Para bom entendedor, o recado estava dado. Só que, Mateus dixit, Carlucci convida Otelo para “um encontro na Embaixada”. A partir daí Otelo fica de “boas relações” com ele. Que conversa teria sido essa que dera azo a tal mudança de atitude do jovem revolucionário graduado em General? A História o revelará. Neste particular, o livro de Ruben de Carvalho é interessante. Reporta esse contacto como tendo sido na forma de um telefonema. Mas diz que, após ele, Carlucci haveria ficado com “inteira confiança em que o brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho e o Governo de Portugal são capazes e têm a intenção de assegurar a minha segurança”.

 

O fim dos Colégios Militares?

João José Brandão Ferreira *



"Fazia parte do manifesto eleitoral do PS, quando foi formado, a extinção dos colégios militares. O PS, aliás, dá-se mal com tudo o que cheire a fardas, autoridade e disciplina”

 

O Colégio Militar (CM) é, entre as instituições existentes, uma das mais antigas da nação. Tem provas dadas, lastro, tradição e deu ao País e às Forças Armadas, um conjunto alargado de cidadãos de qualidade, que se distinguiram nas mais diversas profissões.


Os problemas do CM começam dentro da própria Instituição Militar. A primeira grande questão, tem a ver com o facto de que, há muito, se devia ter encontrado uma fórmula equilibrada para os três estabelecimentos militares de ensino secundário dependerem do CEMGFA, com os custos repartidos pelos três ramos, em vez do ónus recair exclusivamente no Exército.


Depois é necessário que exista um orçamento adequado para gerir e manter três colégios de qualidade com ensino personalizado e um conjunto de actividades que mais nenhuma escola pública, ou privada, dispõe no país. Neste âmbito tem que se alterar também as restrições à contratação de civis, nomeadamente vigilantes, uma das causas, seguramente, dos problemas analisados pela PGR.


Os problemas sociais que a sociedade actual comporta e a desestruturação acelerada das famílias, fizeram aumentar os problemas do foro psíquico e social. Isso exige determinadas valências, que os meios ao dispor dos colégios dificilmente comportam. Não é a mesma coisa ter alunos enquadrados fora do colégio em termos familiares e outros que, pura e simplesmente, são “despejados” nos internatos.

 

Corpo docente

 

Arranjar instrutores e oficiais do Corpo de Alunos é outro problema. Além de nem todos terem perfil para prestar serviço num estabelecimento deste tipo, muitos não querem passar por lá. Preferem outras opções profissionais. Além disso, o Exército preparou oficiais para missões distintas – o seu “core bussiness” –, que custaram muito dinheiro e esforço, aptidões essas que não têm aplicação nos CM. Por outro lado, há questões do foro pedagógico de que é preciso dar a conhecer a oficiais que vão lidar com jovens dos 10 aos 17 anos.


Acresce a tudo isto que existe dificuldade de recrutamento de novos alunos e só uma muito pequena percentagem destes é que, depois, vão concorrer às Academias Militares.


As tradições académicas neste tipo de escolas têm vantagens evidentes – embora hoje em dia não seja politicamente correcto admiti-lo – mas que, para serem adequadas, necessitam de organização e supervisão. E estas não comportam qualquer tipo de agressão ou actividades indigna de um ser humano escorreito, que devem (e já são) ser excluídas e punidas.


É necessário ter a consciência que a situação dos colégios militares é bastante melhor do que a generalidade das escolas ou colégios secundários, de todo o país, cujas maleitas não caberiam descritos nas páginas do jornal!

 

Comichões imobiliárias?

 

Agora vamos à parte mais séria da questão. Com a Instituição Militar em diminuição constante e aperreada em constrangimentos humanos, materiais e financeiros, conjugam-se, a nível do país, várias forças para atacarem os colégios militares e, entre eles, especialmente o CM.


Em primeiro lugar o espectro partidário que vai do PS à extrema-esquerda odeia, em termos ideológicos, a ideia da existência de colégios militares. Causa-lhes até erupções de pele e outros fenómenos do foro psicossomático. Com uma nuance: o PCP não hostiliza (porque sabe o que anda a fazer) e não lhe desagradaria ter colégios militares, desde que, obviamente lá se ensinasse o materialismo dialéctico, o socialismo científico e o internacionalismo proletário.


Fazia parte do manifesto eleitoral do PS, quando foi formado (é bom lembrar…), a extinção dos colégios militares. O PS, aliás, dá-se mal com tudo o que cheire a fardas, autoridade e disciplina. Os bloqueiros estão muito activos, no momento. São uns infelizes desorientados, nunca construíram nem construirão coisa alguma, só sabem atear fogos. Ouve-se dizer que odeiam a sociedade, eu penso que se odeiam a si próprios.


Do PS para a direita, pura e simplesmente não existe ideologia: sente-se com a carteira e pensa-se com as tripas.

Estamos conversados, portanto.


A seguir temos a questão da especulação imobiliária. Os colégios ocupam terrenos privilegiados, novamente com destaque para o CM, cerca de 13 hectares em zona de grande valor. Ora isto representa milhões e milhões de euros; oportunidades de negócio para amigos, eventual atenuação de dívidas camarárias, chorudos financiamentos, etc., enfim o paraíso para os do costume.


Perante isto, que valem três colégios cuja mais valia é lançarem no mercado de trabalho ou nos cursos superiores, umas dezenas de cidadãos com formação de elite que tanta falta podem fazer ao nosso desfigurado país?


Acertaram.

São perfeitamente dispensáveis!

 

*Tenente-Coronel Piloto Aviador (reformado)

Alegre perde apoios

O socialista está sem fundos para a campanha presidencial e José Sócrates pondera os nomes de Guterres e Vitorino para o substituir contra Cavaco Silva.

 

O socialista Manuel Alegre está a ficar sem apoios para a sua candidatura à presidência da República. Nas últimas semanas vários foram os apoiantes financeiros do Partido Socialista que fizeram saber à direcção de José Sócrates que, caso decida apoiar o ex-deputado, não tencionam dar dinheiro para a campanha. Estes empresários consideram que Alegre pode não ter condições para fazer pontes com um eventual governo de direita que suceda à actual composição da Assembleia. Assim, Alegre tem tido alguns contactos com os potenciais apoios do Bloco de Esquerda e do Movimento independente de Cidadãos para deitar contas à campanha, que pode não custar menos de um milhão de euros.

 

Para reunir tais apoios Alegre precisa, pelo menos, de dois terços do dinheiro a entrar via fundos privados. Doações que podem ser feitas à futura candidatura.

 

Mas o PS já pensa em alternativas a Alegre – nome que está cada vez mais longe de ser o escolhido do partido da rosa. António Guterres e António Vitorino são os melhor posicionados para atacar Belém. Os apoios do PS vêm com bons olhos uma candidatura do antigo primeiro-ministro. O seu discurso de saída, acusando o País de ter entrado no “pântano” pode servir de conceito moralizador ao País e, inclusive, inibir alguns votos de centro-direita no candidato Cavaco Silva. Sondagens internas relatadas a O Diabo dizem, porém, que António Vitorino bateria candidatos como Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa ou mesmo Leonor Beleza, o que coloca o ex-comissário europeu também em boa posição. Vitorino, ao contrário de Manuel Alegre, reúne alargado consenso dos sectores privados de apoio financeiro para uma campanha eleitoral. E é outra figura que faz a ponte com a direita.

 

De fora, para já, estão Jaime Gama, Jorge Sampaio e Ferro Rodrigues, três personalidades socialistas cujos nomes foram atirados para a praça pública sem grande impacto. Gama é considerado demasiadamente conciliador e pode apenas concorrer se o PS quiser fazer o jeito a Cavaco e perder as eleições propositadamente. Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio, por seu lado, não querem correr a Belém. Sampaio, porque disse ao seu círculo interno que basta ter passado uma vez pelo cargo. Ferro, porque considera ainda não ter recuperado do escândalo kafequiano em que foi envolvido, aquando do processo Casa Pia. O candidato socialista contra Cavaco Silva (ou apesar de Cavaco Silva) deve ser escolhido em Maio do ano que vem, ao mesmo tempo que se conhecer o novo líder do PSD.

Sócrates cada vez mais cercado

O nome do primeiro-ministro foi envolvido em três processos mediáticos: Cova da Beira, Freeport e, agora, Face Oculta. Há socialistas que temem pela duração desta legislatura.

 

São dezenas de horas de conversa entre Armando Vara e José Sócrates que repousavam há mais de quatro meses em cima da secretária do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro. 'O Diabo' sabe que devem começar a ser investigadas esta semana, depois de a sua existência ter vindo a público. Nessas conversas, o primeiro-ministro e o vice-presidente do maior banco comercial português alvitram, diversas vezes, cenários sobre terceiras empresas. O Ministério Público quer agora confirmar ou infirmar se aquilo que José Sócrates e Armando Vara dizem nas conversas acabou por ser realizado ou se não passou, de facto, de uma conversa de amigos – como alegou o primeiro-ministro em declarações aos jornalistas.

 

Mas o cerco a José Sócrates não fica por aqui. Os investigadores britânicos, sabe também 'O Diabo', estão a 'apertar' com a polícia portuguesa para que esta apresente resultados no caso Freeport, que pode ainda envolver o nome do primeiro-ministro. A polícia britânica e a portuguesa querem agora, e de uma vez por todas, saber se o homem a quem (nas escutas e nos e-mails trocados entre os promotores do negócio) é dado o nome de código de “pinóquio” tem alguma coisa a ver com o actual líder do PS. A investigação corre em ritmo acelerado e pode haver constituição de novos arguidos nas próximas semanas, apurou o nosso jornal.

 

Há ainda um outro processo em que o secretário-geral do Partido Socialista pode vir de novo a ser chamado a depor. É o que envolve o licenciamento e atribuição de uma central de resíduos na Cova da Beira. Sócrates já depôs por escrito, mas o tribunal pode considerar-se pouco esclarecido e voltar a pedir depoimento ao primeiro-ministro.

 

Das três investigações em curso e em que José Sócrates aparece referido, nenhuma aponta, por ora, para a sua constituição como arguido. Até agora, a Justiça apenas conseguiu apurar que o seu nome era, de uma forma ou de outra, referenciado pelas pessoas que, alegadamente, terão cometido crimes de corrupção, tráfico de influências e subornos. Mas a verdade é que o nome do primeiro-ministro português será invocado publicamente em três processos.

 

É o pior início de mandato que José Sócrates poderia esperar para um governo minoritário. Entalado na Assembleia da República entre uma esquerda que não cede a acordos, uma direita sem liderança no PSD e aguerrida no CDS, Sócrates reage mal às críticas, irritando-se mesmo quando o deputado Pacheco Pereira, do PSD, lhe perguntou que comentário político tinha a fazer sobre a alegada utilização de cargos públicos de nomeação política no caso “Face Oculta” (ver páginas centrais, nesta edição). Sócrates não respondeu ao deputado, mandando-o discutir para a “Quadratura do Círculo”, programa de debate semanal em que Pacheco Pereira participa há mais de uma dezena de anos.

 

Entre os socialistas que sempre se opuseram a Sócrates, cresce o sentimento de insegurança em relação ao actual Governo. Manuel Alegre, que luta por ser o candidato presidencial apoiado pelo PS nas eleições de 2011, quer “mais meios para a investigação” e lança já o aviso: “Espero que José Sócrates tenha as condições necessárias para fazer as reformas [na Justiça] que sejam necessárias”.

 

Ana Gomes, a eurodeputada incómoda para Sócrates e que saiu derrotada nas eleições autárquicas, em que corria para a Câmara de Sintra, é irónica a comentar o caso “Face Oculta”: “Só o PS pode, sobressaltando-se, fazer o país dar esse salto à vara sobre o pântano”, diz no seu blogue 'Causa Nossa'. O “salto à vara” de que Ana Gomes fala é, tudo o indica, intencional.

 

Com o cerco da Justiça a rondar, cada vez mais, o nome de José Sócrates, a estratégia do PSD é, por ora, nem sequer falar no assunto. A direcção do partido, contactada por 'O Diabo', recusa qualquer comentário aos processos judiciais. O PSD quer assim evitar trazer para o palco político o problema judicial. Nos próximos dias, no entanto, o alvo deverá ser Pinto Monteiro, o Procurador-Geral da República que, aparentemente, nos últimos meses não tocou no 'dossier' das escutas a conversas entre Armando Vara e José Sócrates.

 

Uma das justificações avançadas para o facto é a falta de informação sobre a envolvência dessas escutas: não se saberia o que estava por detrás das conversas entre os dois amigos e, acima de tudo, o enquadramento legal em que estavam a ser feitas remetia para outra investigação. No entanto, nos últimos dias têm-se intensificado as críticas a Pinto Monteiro e a Cândida Almeida, a Procuradora-Geral Adjunta encarregue agora de todos os processos. O Procurador veio já a público dizer que espera tornar conhecidos todos os documentos que constam da investigação do processo “Face Oculta”. A decisão de levantar o segredo de Justiça cabe aos tribunais, a pedido do Ministério Público, ou às partes interessadas, caso consigam consentimento dos restantes actores do processo.

 

Quem se mete com o PS, leva

É o regime da impunidade para os amigos e da ameaça ou da retaliação para os inimigos. Desde os recentes excessos de velocidade das viaturas de campanha em que os processos de contra-ordenação são mandados, imediatamente, limpar, à interferência directa na justiça, passando por pressões sobre jornalistas ou a alteração de dados estatísticos, no governo de Sócrates vale tudo.

 

Jorge Coelho, ex-ministro socialista, já tinha avisado em 2001 que “quem se mete com o PS, leva!”. Num discurso inflamado de campanha, referia-se assim o actual presidente da Mota Engil a uma crítica do Bastonário da Ordem dos Advogados da época, António Pires de Lima, que acusou o governo socialista de interferir nos tribunais e na justiça. Coelho viria a dizer depois que o “leva” era, afinal, uma frase por concluir: “Leva uma resposta política, claro”, justificou-se.

 

Já neste mandato, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, declarou numa reunião do PS que o que gosta “é mesmo de malhar na direita” e nas forças da reacção. No saco metia o Bloco de Esquerda e a CDU. A “asfixia democrática” que o PSD acusa agora o PS de usar para governar o País começou, segundo os sociais-democratas, quando a polícia visitou o Sindicato dos Professores da Região Centro, na Covilhã, antes de uma manifestação contra a política educativa. A PSP foi saber o que preparavam os professores, uma vez que o primeiro-ministro José Sócrates se deslocava àquela cidade no dia da demonstração pública.

 

Já em campanha, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária limpou multas de excesso de velocidade à caravana do PS, autuada por agentes da GNR local. Em menos de 10 horas os socialistas foram perdoados.

 

O presidente do Instituto Sá Carneiro, Alexandre Relvas, foi também pressionado pelo gabinete do primeiro-ministro, segundo o advogado da instituição. Jorge Black afirmou que foi recordado a Relvas que este era gestor de uma empresa privada com contratos com o Estado e que, por isso, devia medir “com cuidado aquilo que iria dizer como presidente do Instituto”.

As pressões recaíram depois sobre António Balbino Caldeira, professor, que no seu blogue “Do Portugal Profundo” decidiu investigar como José Sócrates tirou a sua licenciatura. O autor disse ter sido vigiado durante o período da investigação. Agora, fez uma edição de autor de um livro que compila a sua investigação – obra que foi recusada por várias editoras, apesar do entusiasmo inicial de algumas, como a “Leya”. A “O Diabo”, Balbino Caldeira fala da pressão que sofreu: “A perseguição do poder é insidiosa e raramente ostensiva ou imediata. Mas a vingança virá. A pedagogia da vingança é uma marca do socratismo”, acusa.

 

Na investigação ao caso Freeport, o PS também foi acusado de pressionar os magistrados que investigam a eventual corrupção no caso que envolve o nome de José Sócrates – a acusação partiu do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma. Augusto Santos Silva, ministro socialista, reagiu imediatamente e exigiu explicações ao sindicalista. O caso está sob investigação.

 

Depois, José Sócrates elegeu Manuela Moura Guedes, a TVI e o jornal Público como alvos das críticas socialistas, no último congresso do PS, a 27 de Fevereiro deste ano. O Jornal de 6ª acabou cancelado pela administração da TVI. Agora, é a vez do jornal Público estar a ser colado a uma campanha de recados transformados em notícia, vindos do Palácio de Belém, pela mão do jornal rival “Diário de Notícias”.

As ligações politicamente perigosas das grandes empresas

Há empresas privadas que apoiam financeiramente um partido. Às vezes, não vá um qualquer outro Diabo tecê-las, distribuem dinheiro por dois e mesmo mais forças políticas. As ligações do PS e PSD a essas entidades estão também em jogo nas legislativas.

 

Jorge Coelho é, talvez, a face mais visível da questão. Ex-ministro de António Guterres, o socialista estendeu o tapete vermelho a José Sócrates, quando este ambicionou conquistar o lugar de líder do PS. Aquele que uma vez disse “quem se mete com o PS, leva”, é hoje o homem-forte de uma das maiores empresas portuguesas de construção civil, a Mota Engil. A entrega até 2042 do terminal de carga de contentores de Lisboa à empresa de Coelho levantou dúvidas políticas à oposição. A câmara da capital, liderada por socialistas, tal como o País, foi acusada de entregar de mão beijada a um antigo camarada um valor 407 milhões de euros. Mão beijada, entenda-se, dizia a oposição por o contrato ter sido por ajuste directo.

 

Mas a Mota Engil não é um exclusivo do PS. Apesar de Jorge Coelho ser a sua face, fonte do CDS garante a “O Diabo” que a empresa fez “um pequeno contributo” para financiar a campanha do CDS. Uma opção comum às grandes empresas que, em tempo eleitoral, decidem entregar quinhões diferenciados aos partidos.

 

O PS guarda, porém, mais trunfos na manga. A administração do Banco Comercial Português, agora Millennium, está do seu lado. O primeiro Vice-presidente da instituição é Armando Vara, velho amigo do actual primeiro-ministro, que chegou a ser colega de Governo de Sócrates, nos tempos em que António Guterres era chefe do executivo. Ao grupo juntava-se Joaquim Raposo, ora presidente da Câmara da Amadora e Edite Estrela, agora eurodeputada.

 

A calma imposta pelo governo PS ao BCP, banco antes liderado pelos conservadores Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, foi o resultado do exercício do poder socialista. O BCP debatia-se com graves problemas, que levaram os accionistas a pelejarem-se na praça pública. O acordo para instalar uma nova administração foi negociado entre os dois partidos do Bloco Central. Quando o PS assumiu influência da administração do BCP, um antigo ministro de Aníbal Cavaco Silva tomou a cadeira do poder do maior banco público: a Caixa Geral de Depósitos.

 

Aliás, as influências partidárias nos bancos não acabam aqui. Mira Amaral, ex-ministro do PSD, dirige o maior banco privado angolano em Portugal, o BIC. Fernando Ulrich, do BPI, é um simpatizante social-democrata. E Ricardo Espírito Santo, que se colocou várias vezes do lado das opiniões laranjas, tem agora sorrido aos socialistas, colando assim o “seu” BES ao lado dos do PS. Só Nuno Amado, do Santander Totta, se tem mantido fora das discussões políticas nacionais – mas, afinal, o seu banco é controlado a partir de Espanha.

 

Do outro lado da fronteira também chegou um dia a nomeação de Pina Moura, ex-ministro de Guterres, para a Mediacapital, quando a Prisa, empresa espanhola, adquiriu o canal de televisão TVI a Miguel Paes do Amaral. Os três canais portugueses têm, aliás, um alinhamento político suave mas definido. A SIC é liderada pelo antigo primeiro-ministro do PSD, Pinto Balsemão. A TVI está entregue à Prisa, próxima do PSOE, partido socialista espanhol, mas nos seus quadros intermédios pontificam ainda muitos directores e gestores escolhidos por Paes do Amaral: Isaias Gomes Teixeira ou Luís Nobre Guedes – e essa maioria é afecta ao CDS. Já a RTP é, na velha versão nacional, de quem a apanhar. A direcção da informação do canal está com José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. O primeiro sem expressão pública política, mas com uma guerra aberta com o PSD sobre a independência da estação.

 

Há nas empresas privadas mais amigos dos dois maiores partidos. A Compta, por exemplo, que lida com sistemas informáticos e largos e chorudos contratos com o Estado. Armindo Monteiro, o dono da empresa, admitiu já financiar as campanhas dos dois principais partidos, PSD e PS.

 

O PSD recebeu já dinheiros da empresa Somague. A confissão pública foi feita depois da campanha dos sociais-democratas, com Durão Barroso a concorrer a primeiro-ministro. A Somague é uma das cinco maiores empresas de construção portuguesa e depende, como as outras, das grandes obras públicas para sustentar os seus negócios. À época, o “Público” relatava que o PSD mal assumiu o poder, mandou suspender todas as obras de auto-estradas adjudicadas pelo PS, desejo expresso pela empresa durante a campanha eleitoral.

 

A Bragaparques é outra empresa que, em 2005, financiou com cerca de 20 mil euros a campanha do PSD em Lisboa. A detentora dos terrenos da antiga Feira Popular viu-se envolvida num processo judicial por tentativa de corrupção, quando tentou convencer José Sá Fernandes, o ex-vereador do Bloco de Esquerda, recorrendo a meios informais e pecuniários, a ser-lhe favorável em votações futuras.

 

Os sociais-democratas têm também figuras do passado interessadas nas obras futuras. O ex-ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, é hoje presidente da Lusoponte, que domina em exclusivo as travessias sobre o rio Tejo que sirvam a grande Lisboa. Ferreira do Amaral é um dos principais impulsionadores da mudança do Aeroporto da Ota para Alcochete e, por arrasto, da terceira travessia do Tejo, a construir-se entre o Barreiro e Chelas. Coincidência ou não, a nova ponte é aquela em que PSD e PS estão totalmente de acordo. Pode vir a ser construída pela Mota Engil – por causa da larga experiência da empresa nesse campo –, e gerida pela Lusoponte. Embora haja mais concorrentes à obra, como a Somague.


Por fim, os pequenos partidos.

 

O CDS tem em Pires de Lima, gestor da UNICER, um benemérito reconhecido. O gestor admitiu já entregar várias quantias de dinheiro aos partidos, entre os quais o “seu” CDS. Foi deputado pelos populares e chegou a ser falado com sucessor de Paulo Portas, até acontecer o fenómeno Ribeiro e Castro. Pires de Lima tem uma carreira brilhante no sector das bebidas engarrafadas, tendo resgatado a Compal de um caminho perigoso e ter conduzido a empresa a um sucesso seguro.

 

Também António Lobo Xavier, administrador da Sonae, admite contribuir pessoalmente para os fundos do CDS, partido ao qual pertence. Mas a Sonae, de Belmiro de Azevedo, não admite defesa de qualquer tendência política. Já o filho e provável sucessor de Belmiro, Paulo Azevedo,  declarou publicamente que sente “simpatia” pelo actual primeiro-ministro, José Sócrates.

 

Lóbi sem regulação

 

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, onde as empresas dão abertamente dinheiro aos partidos – e são escrutinadas por isso -, em Portugal as doações partem muitas vezes dos cofres pessoais dos gestores. Uma empresa raramente entrega dinheiro e se liga a um partido, mas é comum os empresários pagarem às cores por quem nutrem maior simpatia.

 

Documentos consultados por “O Diabo” no Tribunal de Contas não revelam a origem real das “doações” que os partidos sustentam ter recebido – quer para as campanhas eleitorais, quer para seu fundo maneio. A verdade é que, apesar de existir, a actividade de lóbi não está legalizada nem reconhecida em Portugal. A vida profissional de um ex-ministro é sempre mais frutuosa do que era antes de assumir uma pasta governativa. Assim o confessou Dias Loureiro, ex-ministro da Adminsitração Interna de Cavaco Silva, que foi administrador no grupo Banco Português de Negócios. O BPN era tido como “o banco do PSD”, porque no seu quadro dirigente pontificavam ex-ministros e ex-secretários de Estado da maioria cavaquista. A sua derrocada e subsequente nacionalização foi um duro golpe para os sociais-democratas, que temeram fortes consequências políticas. Mas a mudança de caras   com Paulo Rangel nas Europeias a fazer a despesa toda de tentar olvidar a Comissão de Inquérito ao BPN –, salvou o PSD de sofrer golpe político nas urnas.

 

Por fim, a esquerda radical. O PCP financia-se fortemente pelas quotas e por cativar parte do ordenado dos cargos electivos que os seus militantes ocupam. A sua maior receita pontual provém da festa promovida pelo jornal “Avante!”. E foi por causa dessa receita sem recibos que esteve para ser aprovada uma lei de financiamento que permitia aos partidos receber um milhão de Euros sem prestar contas da sua origem. A lei passou na Assembleia mas não passou por Cavaco, que a vetou.

 

Presente envenenado

A organização da Convenção do PS “preparou” uma prenda envenenada ao líder socialista, durante o grande encontro/comício que se realizou no Coliseu.

 

Sócrates, que fazia anos, ouviu os parabéns cantados em coro pelos militantes presentes, fez o número habitual de agradecer com ar triunfador e sentou-se para apreciar os vídeos que ilustram a sua acção governativa, uma montagem especialmente feita para lhe confortar o ego e convencer os apoiantes a não votarem noutro partido.

 

De repente, um duche frio nas hostes rosadas. No grande écran surge Carlos Pimenta, o primeiro secretário de Estado do Ambiente do já longínquo governo de Cavaco Silva, a defender o investimento nas energias renováveis.

 

É verdade que de todos os que passaram pela pasta do Ambiente, Sócrates incluído, Pimenta foi o que maior notoriedade alcançou e, como não se pode dizer que a política ambiental do actual executivo tenha dado muito que falar, durante os mais de quatro anos em que dirige os destinos do País, o engano explica-se.

 

Ou então, pura e simplesmente não havia nada para mostrar sobre a acção do PS neste domínio e, em alternativa, alguém decidiu, maliciosamente, recordar os bons tempos em que o antigo eurodeputado social-democrata fez da ecologia um verdadeiro “cavalo de batalha” e conseguiu despertar consciências para os problemas ambientais.

 

Seja o que for que tenha acontecido, é quase certo que Sócrates nunca mais esquecerá esta prenda de anos.

O Diabo que o carregue: Jaime Silva

Não há memória, nos anais do actual regime, de um tão grande descalabro no sector da agricultura como aquele que presentemente se vive. Só uma pessoa parece não concordar com este retrato factual: Sua Excelência, o ministro Jaime Silva. Quase semanalmente os agricultores têm saído à rua, clamando por atenção, por rapidez nas decisões, por justiça mínima para quem, contra ventos e marés, ainda insiste em dedicar-se aos nobres trabalhos da terra. Nos últimos dias, mais uns milhares de produtores se manifestaram na Póvoa de Varzim. E de novo denunciaram: “É a mais grave crise de que há memória, com mais de mil explorações leiteiras em situação de falência” e “sete mil agricultores à espera de ajudas directas”, já enviadas para Lisboa pelos organismos europeus mas aguardando uma “análise” final nos gabinetes do Terreiro do Paço. Sua Excelência insiste em que “não haverá atrasos” na entrega desses dinheiros comunitários, que poderiam salvar ainda muitas explorações. E tem razão: não “haverá” atrasos – porque já os há. E graves. E criminosos. Soubemo-lo esta semana pela boca do antigo líder centrista Ribeiro e Castro, que revelou termos já perdido 600 milhões de euros de ajudas da União Europeia por desleixo do Governo. E outros tantos poderemos ainda vir a perder, se se mantiver a incapacidade do Ministério da Agricultura para dar despacho ao problema. “É uma factura escandalosa cobrada à agricultura portuguesa, que revela o estado de desinteresse e desleixo, e também nalguns casos de incompetência, deste Governo”. Já sabíamos que, nos dias que correm, a principal missão do ministro português da Agricultura é apressar a liquidação da agricultura e das pescas, em benefício dos interesses de outros países. Só não sabíamos que, nessa missão macabra, se podia ser tão insensível e tão mesquinho.    

 

FRA DIAVOLO