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Entrevista a Maria José Nogueira Pinto: “O casamento gay sem adopção é uma medida hipócrita”

Maria José Nogueira Pinto voltou à ribalta por se ter irritado com um socialista durante um debate parlamentar. Farta da discussão política “asséptica”, contra ataca e, em entrevista a O Diabo, esclarece que o casamento gay é um erro sem precedentes.

 

O Diabo - Foi protagonista de um picante incidente no Parlamento, quando chamou “palhaço” a um deputado do PS em plena Comissão de Saúde. Arrepende-se?

 

Maria José Nogueira Pinto - Não falo sobre isso, já disse o que tinha a dizer. Fartei-me de dar explicações.

 

O Diabo - Insistimos: foi atacada pela linguagem e pelas mudanças políticas que tem feito. Considera que a linguagem política anda muito sensível?

 

Maria José Nogueira Pinto - Isso acho. A sociedade portuguesa foi invadida de um poeticamente correcto, de uma correcção política lamentável. Estas reacções estão a impedir que se faça política em Portugal de outra forma, mais leal, mais directa e mais franca.

 

O Diabo - Culpa dos políticos?

 

Maria José Nogueira Pinto - Tenho de dizer que sim, mas também com muitas responsabilidades para os jornais, rádios e televisões. Introduziu-se uma ideia de absoluta correcção no discurso político que o torna asséptico. Há demasiados preconceitos e isso acaba por se reflectir no discurso e no trabalho político.

 

O Diabo - O PSD, partido pelo qual foi eleita, está em mudança. É mais que provável que mude de líder e de políticas. Como membro do grupo parlamentar, o que defende para o partido?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu não sou do PSD. Aceitei ser deputada porque estimo muito Manuela Ferreira Leite, que me fez o convite. Acredito nas ideias e nas propostas que ela defendeu e que, com o tempo, se têm tornado inevitáveis e cheias de razão. O que eu quero para o PSD é que saiba manter e potenciar essas ideias, que não se desvie desse rumo que Manuela Ferreira Leite definiu – não só nas políticas económicas, mas naqueles campos menos conhecidos, como as políticas sociais, de educação e de saúde…

 

O Diabo - Vai manter-se como deputada, se o rumo e o líder mudarem?

 

Maria José Nogueira Pinto - Estou convencida de que há muitas linhas políticas que se irão manter neste ou no futuro PSD, em qualquer circunstância. O conjunto de preocupações será o mesmo, independentemente da forma, com qualquer novo líder que seja escolhido.

 

O Diabo - Faz parte do movimento que recolhe assinaturas para forçar um referendo sobre o casamento homossexual, a Plataforma Casamento e Cidadania. Quer o referendo por quê?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todas as iniciativas que façam discutir esta questão são importantes. Estamos perante algo que se baseia em valores milenares e não de circunstância. A proposta de referendo, como se sabe, pode apenas obrigar o Parlamento a discutir a adopção ou não da medida que é realizar o referendo. Não implica obrigatoriamente que se realizar a consulta às pessoas. Mas a verdade é que seria importante ouvir e, acima de tudo, debater este problema, que não é sequer religioso, e que levanta outras questões como a da adopção…

 

O Diabo - O PS alega que a adopção ficará de fora

 

Maria José Nogueira Pinto - Pois alega - o que é juridicamente uma hipocrisia. A adopção não pode ficar de fora da admissão do casamento entre homossexuais. É hipócrita, juridicamente. Se se está a legislare ara combater uma aparente desigualdade, não se pode depois introduzir uma nova descriminação em todos os Códigos. A adopção para os homossexuais é algo que entra imediatamente em vigor, mal a lei seja aprovada.

 

O Diabo - Não admite, assim, que os homossexuais se casem, mesmo no respeito pelas diferenças na sociedade?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu respeito imenso as minorias, as diferenças. Não é isso que está em causa. Não se está a discutir a homossexualidade. O que estamos a discutir e uma alteração de valores e costumes muito antigos, com razões para existirem. Não se pode agora fazer tábua rasa da História, sem sequer a debater. E muito menos faz sentido aprovar uma lei sem que tudo o que advém dela esteja clarificado.

 

O Diabo - O Parlamento actual tem capacidade para essa discussão ou é necessário um referendo?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todos os Parlamentos estão capacitados para discutir este tema, são representantes legais e directos dos eleitores. O problema não é esse. As poucas sondagens que existem sobre o assunto mostram claramente que as pessoas até admitem que duas pessoas do mesmo sexo vivam em comum, com um certo reconhecimento social – ou do Estado -, perante essa opção. Quanto à adopção, aí é que a maioria da população está contra. Ora, com uma lei aprovada nestes termos, não se pode ter uma discussão séria. Eu bem sei que isto fazia parte do programa eleitoral do PS, mas apresentar a lei nestas circunstâncias é uma perda de debate que vai afectar gravemente a sociedade. Depois, deixe-me dizer, a relação custo-benefício da adopção desta medida também não está estudada nem explicada. 

 

PSD atrasa liderança, Aguiar Branco mais candidato

O líder parlamentar do PSD, José Pedro Aguiar-Branco, está a ser pressionado para aceitar uma eventual candidatura à liderança do partido.

O arrastar da decisão de Marcelo Rebelo de Sousa e o seu trabalho como líder parlamentar têm dado ao advogado do Porto um terreno fértil para se afirmar como o candidato mais consensual dentro do grupo de apoiantes de Ferreira Leite. Esta semana Rui Machete, presidente da Mesa do Congresso do PSD, recusou antecipar as eleições directas para a liderança, ao arrepio do que Marcelo defendeu. “É natural que haja pessoas um pouco nervosas e ansiosas por iniciar a corrida, mas penso que devemos fazer o processo com tranquilidade, porque o momento é complicado, em termos de partido e de país, e portanto teremos de ter o cuidado de não cometer erros e de encontrar uma solução que seja satisfatória”, disse o reputado social-democrata, que acrescentou: “Os partidos não são apenas dos seus membros, têm uma função política e, portanto, de algum modo são responsáveis perante o país”.

Também esta semana Aguiar Branco se pronunciou sobre a liderança. Diz, sobre o calendário eleitoral interno: ”Estamos no Outono, um bom período de reflexão, mas é na Primavera que veremos o desabrochar de novas lideranças. A próxima liderança não pode falhar porque o país precisa da nossa responsabilidade”, afirma.

Questionado ainda sobre a sua eventual candidatura, Aguiar Branco abre um largo sorriso, faz uma pausa e dispara: “Eu quando me candidato a um cargo não penso em mais nenhum. Não actuo com reserva mental e, por agora, só penso neste cargo”, diz, lacónico, quanto à apresentação de uma alternativa a Pedro Passos Coelho.

Perante as críticas a que o PSD tem sido submetido, por parte dos comentadores e adversários políticos, Aguiar Branco é claro: “Eu fico com pele de galinha quando vejo a facilidade com que comentadores, analistas e quem se presta a falar do PSD fala do partido como se fosse uma 'instituiçãozinha' qualquer, sem grande expressão no país e que está em vias de desaparecer”.

Este fim-de-semana foi Freitas do Amaral a entrar em cena com comentários à situação interna do PSD. Numa entrevista extensa ao Diário de Notícias, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates diz que ainda acredita na possibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa voltar atrás com aquilo que, por ora, parece um “não” definitivo à liderança dos sociais-democratas. “Eu já o ouvi dizer que não seria presidente do partido nem que Cristo voltasse à Terra. Tanto quanto sei, com muita pena minha, Cristo não voltou à Terra, mas ele foi presidente. Temos de interpretar as suas declarações, e dos líderes políticos em geral, sempre com a cláusula "neste momento, acho que não vou avançar" “, diz o também ex-líder do CDS. Sobre Manuela Ferreira Leite, Freitas demonstra até uma certa simpatia: “É uma pessoa com muitas qualidades pessoais e profissionais, mas, possivelmente, não nasceu para aquilo. Tive a sensação de que não iria triunfar - estou à vontade para falar disto porque também nunca triunfei em eleições em Portugal - no dia em que anunciou a candidatura à liderança do PSD. Disse que a decisão tinha sido a mais difícil da sua vida, com ar muito sério e um pouco triste quando nesse momento deveria dizer "esta foi a decisão que mais alegria me deu".

As eleições para a liderança do PSD ainda não estão marcadas. A liderança de Ferreira Leite prefere que sejam apenas em Março, depois da votação do Orçamento de Estado de 2010, mas a oposição interna exige que se antecipe calendário para Janeiro, dando possibilidades a vários candidatos se apresentarem numa campanha interna alargada, que promova o debate sobre o futuro do partido. Do lado dos que querem antecipar estão, curiosamente, Marcelo Rebelo de Sousa, Passos Coelho e Luís Filipe Menezes.

À falta de melhor, Ferreira Leite pode ter de continuar líder do PSD

Paulo Rangel está entalado:  o “professor” mostra-se cada vez mais renitente em correr e Passos Coelho não chega a metade dos votos. Os sociais-democratas arriscam-se a continuar com Manuela mais um ano.

 

As contas estão difíceis no partido da São Caetano à Lapa. Marcelo Rebelo de Sousa voltou a dizer que não é nem será candidato à liderança do PSD, a não ser que seja candidato único. O professor admitiu já, em círculo interno, que até admitia ter algumas figuras da candidatura de Passos Coelho consigo, mas não se quer meter numa campanha eleitoral que fragilize a já parca imagem do partido. Na noite de domingo, no seu comentário semanal, Marcelo franziu o sobrolho e respondeu, ríspido e enfadado: “Não sou nem serei candidato à liderança do PSD”. Esta frase, no entanto, lembra outra de há uns anos atrás:  que só seria candidato à liderança do PSD se Cristo descesse à Terra. Foi candidato e ganhou, apesar de Cristo, aparentemente, não ter regressado. Agora, os seus apoiantes acreditam mesmo que não há hipóteses de convencer o professor e já começaram a pressionar Paulo Rangel para concorrer contra Pedro Passos Coelho.

 

Paulo Rangel, que se retirou da corrida mesmo antes de esta começar, segundo revelações suas no programa Gato Fedorento, é a única esperança dos cavaquistas e apoiantes de Manuela Ferreira Leite. O seu capital político pode obrigar a uma votação renhida dentro do partido. Rangel, que está em Bruxelas, longe das implicações políticas nacionais, tem sido um apoiante de Marcelo. “Eu desejo Marcelo Rebelo de Sousa como líder do PSD”, confessou há dias numa conversa em Bruxelas. O mesmo já tinha dito em Lisboa, quando entrevistado pela RTP. Mas ultimamente, alguns sociais-democratas, confrontados com um Marcelo que tanto diz que sim como não, viraram-se para Rangel. O objectivo é responder às críticas de Passos Coelho e seus apoiantes. A semana passada, nestas páginas, Miguel Relvas rejeitava “uma eleição que fosse um regresso ao passado”. Compreendendo que Marcelo e Marques Mendes, por exemplo, seriam nomes atingidos por este argumento, alguns activos militantes voltaram-se para Rangel. No entanto, O Diabo sabe que o eurodeputado tem rejeitado a ideia junto de colaboradores e amigos, convencido de que este ainda não é o seu “tempo”.

 

Entretanto, a reeleição de Marco António Costa no Porto garantiu mais apoios a Passos Coelho. O renovado líder da distrital invicta parece ter em mente um plano estratégico para a negociação de apoios a Passos Coelho, em troca de lugares na direcção do partido. Mas Marco António não rejeitaria, também, um negócio com Marcelo ou Rangel. Pior: o próprio admite lançar-se numa candidatura à presidência do partido, caso não se reveja em nenhuma candidatura apresentada.

 

Lisboa discute liderança

Carlos Carreiras, que esteve com Ferreira Leite, não deve ser o único candidato às eleições para líder distrital. Jorge Bacelar Gouveia, próximo de Pedro Santana Lopes, também vai candidatar-se ao lugar, aproveitando o facto de Carreiras e Leite terem rompido o bom entendimento que mantinham. Carlos Carreiras esteve contra a inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas para deputados por parte da direcção do partido. Agora, corre sem o apoio de qualquer notável, o que é fatal para qualquer candidato à liderança da distrital de Lisboa. Bacelar Gouveia tem a seu lado os apoiantes de Santana Lopes e a neutralidade dos barões lisboetas, como Ferreira Leite ou Pacheco Pereira. Recorde-se que estes últimos, tal como António Preto, foram líderes da distrital do PSD na capital.

 

A vitória de Bacelar Gouveia pode vir a mudar o sentido de voto de Lisboa na eleição para líder. Se Carreiras seria favorável à ideia da renovação com Passos Coelho, não se conhece a Bacelar inclinação por qualquer candidato. Mas com Santana Lopes de boas relações com Ferreira Leite, pode ser possível que Gouveia aceite apoiar Marcelo ou Rangel, em detrimento de Passos.

 

Entretanto, todas as vozes do PSD parecem afinar pelo mesmo pedido: as eleições directas não podem esperar pelo Orçamento de Estado de 2010, que apenas deve ser aprovado em Março do próximo ano. Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e Marco António Costa foram apenas três de muitas pessoas que desejam ver Manuela Ferreira Leite sair antes de Março, o mais tardar em Janeiro, para que o novo líder tenha condições de assumir o partido antes do Verão.

 

Porém, caso nenhum candidato apareça a combater Passos Coelho, o PSD pode ter que arrastar o processo eleitoral para ver se convence um retardatário credível. Em última instância, Manuela Ferreira Leite pode mesmo ter que ir a votos contra Passos Coelho, caso a direcção assim o exija – e isto se nem sequer Aguiar Branco estiver para enfrentar o jovem social-democrata.

Camarate: CDS e Freitas forçam novo inquérito

PSD e CDS desejam continuar o trabalho de Nuno Melo no Parlamento. Entretanto, o autor confesso da bomba e o operacional Farinha Simões continuam em contacto. O principal suspeito, Lee Rodrigues, está a monte.

 

Vinte e nove anos depois da queda do avião Cessna, em Camarate, que vitimou o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, o PSD e o CDS querem reabrir o inquérito parlamentar à misteriosa morte dos dois governantes e de suas companheiras.

 

Freitas do Amaral, que assumiu a chefia do Governo depois da morte de Sá Carneiro, vem agora pedir à Assembleia da República que retome as investigações: “Há três questões que não foram investigadas até ao fim e estas devem ser retomadas pela Assembleia da República”. Para o antigo governante e presidente do CDS,  o relatório dos peritos internacionais sobre os equipamentos técnicos do avião e explosivos, a investigação da venda de armas, em 1979-80, e do Fundo de Defesa Militar estão por esclarecer. Em declarações públicas no passado mês Freitas diz ainda que a falta de conclusões judiciais representa “uma nódoa na credibilidade e na seriedade do Estado português”, e defende que o Parlamento “é a única instituição que, através de sucessivas comissões parlamentares de inquérito, foi aprofundando as investigações” e que encontrou “indícios muito fortes para haver atentado”.

 

A mesma tese é defendida por Nuno Melo. Em declarações a O Diabo o antigo presidente da Comissão de Inquérito e agora eurodeputado do CDS defende que “o trabalho que está feito pode e deve servir de base a uma nova comissão”. Melo está convencido de que “é possível apurar a verdade” ou, pelo menos, “encontrar respostas” concretas às dúvidas expressas também por Freitas do Amaral. Melo, no entanto, alerta: “Se em relação a Camarate já se descobriu quase tudo o que seria possível pela via parlamentar, questão diversa é o Fundo de Defesa do Ultramar”.

 

Um dos advogados das famílias, Ricardo Sá Fernandes, está convencido de que só com uma investigação a este fundo será possível descobrir o que levou à queda do Cessna. Sá Fernandes lamenta que a investigação à venda de armas simultânea ao Irão e Iraque, “que estava a ser investigada por Adelino Amaro da Costa à data da sua morte, esteja ainda por esclarecer”.

 

Esteves e Farinha Simões ainda se encontram

 

Outro dos indícios que não foi seguido é o relatório dos peritos internacionais, que encontrou provas de que um objecto incendiário foi colocado dentro do Cessna e que os membros inferiores dos pilotos mostravam resíduos metálicos estranhos ao corpo do avião. José Esteves, autor confesso da bomba incendiária que lhe foi encomendada para colocar no Cessna, diz que o seu engenho “foi alterado” e adianta estar “arrependido” de ter feito o que fez. “Se soubesse que era para atingir Adelino Amaro da Costa, nunca tinha preparado esse engenho”. A pequena bomba foi feita para detonar assim que o avião começasse a sua subida. Mas Esteves, em declarações em 2006, a última vez que falou sobre o caso, adiantou que “o engenho foi alterado”, pois o que montou na sua marquise não provocaria a queda do aparelho.

 

A bomba terá sido entregue a Farinha Simões, outro dos nomes também citado no processo. Simões está hoje detido em consequência de uma condenação por sequestro e violação de domicílio da jornalista Margarida Marante. Continua a afirmar a sua inocência neste caso, mas já admitiu ter participado com José Esteves na Operação Camarate. Ainda hoje os dois continuam a ser amigos, tal como documenta a foto que O Diabo publica nesta edição – um encontro entre estes antigos operacionais de segurança, no Algarve, enquanto degustavam uma sapateira à mesa de uma conhecida cervejaria – pouco antes de Farinha Simões ter sido preso.

 

Cid sem esperança

 

Entretanto, o cartunista e ilustrador Augusto Cid declara-se sem esperança na reabertura judicial do processo. “A Assembleia concluiu pela teses de atentado e dificilmente poderia haver acordo para retomar os trabalhos. Foi pena que nesta investigação não tivessem sido ouvidos os peritos estrangeiros, porque não houve tempo, com a queda do Governo [de Santana Lopes]”, disse.  O caso está agora nas mãos do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e Cid vê, nessa última instância, alguma luz: “É aí que nós estamos à espera de uma decisão e de uma avaliação do que aconteceu aqui. Pode ser que com uma decisão positiva de Bruxelas venha a desencadear um outro processo de investigação”. 

 

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Kissinger e as armas

Frederico Duarte Carvalho, jornalista e investigador

 

O ex-secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, tem de ser ouvido sobre Camarate. O testemunho desta importante figura internacional é obrigatório para esclarecer as informações que o ex-chefe de Gabinete de Adelino Amaro da Costa, coronel Hugo Rocha, transmitiu em audiência à porta fechada durante os trabalhos da VIII comissão de inquérito parlamentar, em 2004. São informações que vieram a público através do livro editado pela Assembleia da República, em 2005, que reunia o essencial de todas as comissões. E, em Maio de 2007, essas informações surgiram com mais detalhe na biografia que Hugo Rocha publicou um ano antes de falecer.

O livro “Recordações – Militar, Diplomata, Governante”, editado pela Prefácio, teve pouca cobertura jornalística. Uma busca pela Internet com o nome “coronel Hugo Rocha” e “Camarate” não revelará qualquer notícia arquivada nos endereços electrónicos dos órgãos de Comunicação Social nacionais. Afinal, o que diz Hugo Rocha sobre Kissinger e qual a importância deste último no mistério de Camarate?

Hugo Rocha revela que, a 2 de Outubro de 1980, dois meses antes de Camarate, houve uma reunião secreta entre Henry Kissinger e Adelino Amaro da Costa, no ministério da Defesa, ao Terreiro do Paço. Foi só a 26 de Novembro, uma semana antes de Camarate, que Adelino Amaro da Costa revelou ao coronel, numa reunião à porta fechada, o conteúdo da conversa com Kissinger: o negócio de armas para o Irão. Afinal, a conclusão que, em 2004, a VIII comissão de inquérito parlamentar, na altura presidida pelo actual eurodeputado centrista Nuno Melo, afirmava ser o provável móbil do atentado. Adelino Amaro da Costa proibira essa venda, mas, no dia seguinte à sua morte, foram enviadas armas de Portugal para o Irão.

Hugo Rocha quando revelou a reunião pela primeira vez na biografia acrescentou: “Este encontro, só agora descrito, reveste-se de importância histórica. Para bem das famílias das pessoas que morreram. Para bem da verdade. Para bem da Justiça. Para bem de Portugal”.

Com este pensamento na mente e como também estou a preparar um livro sobre Camarate, entrei recentemente em contacto com Henry Kissinger. Telefonei para o seu gabinete em Nova Iorque, falei com a secretária que me pediu que enviasse um e-mail a explicar o assunto, elaborei a missiva explicativa, traduzi as palavras de Hugo Rocha – anexei a cópia das páginas em causa - e fiz três perguntas que, fundamentalmente, pediam a confirmação da reunião em Lisboa, a 2 de Outubro de 1980, o teor da mesma e, por fim, um comentário ao caso para que se fizesse verdade histórica sobre o assunto. A resposta veio pouco tempo depois via e-mail: a secretária comunicava-me que o Dr. Kissinger apreciava a minha consideração pela sua pessoa, mas estava “indisponível” para participar numa entrevista sobre o caso.

Se Kissinger já tem em Van Rompuy a pessoa a quem telefonar quando quiser falar com a Europa, se um dia quiser falar sobre Camarate, tem igualmente agora o meu número de telemóvel…

Miguel Relvas a O Diabo: “Este é o PSD dos gabinetes. Não fala às pessoas nem tem propostas”

Miguel Relvas é um dos principais apoiantes de Pedro Passos Coelho para líder dos sociais-democratas. Está contra o casamento entre homossexuais e exige o fim do trauma do partido em querer eleger pessoas do passado.


Está activo como nunca na busca de apoios para Pedro Passos Coelho, que acredita ser o próximo presidente do PSD. Miguel Relvas foi afastado das listas à Assembleia da República por Manuela Ferreira Leite. Resiste em Santarém à passagem do “manelismo” e rejeita Marcelo, que diz ser um regresso a um passado que já não faz sentido. O homem que se destacou com Durão Barroso como uma das maiores promessas do partido explica a O Diabo o seu mapa para a vitória.

 

O Diabo - O caso “Face Oculta” é mais um episódio a envolver o senhor primeiro-ministro, sem que, no entanto, nada pareça provar o envolvimento do Eng. José Sócrates em actos ilícitos ou ilegais. Como político, como olha para estes sucessivos casos que envolvem o chefe do Executivo?

Miguel Relvas - Estas investigações, estes casos, fazem sempre com que se prejudique naturalmente a imagem de todos aqueles que estão envolvidos. E isto é ainda mais verdade para os que estão na vida pública. Aqui a Justiça deve ser muito célere e ter todos os meios necessários para que se possa investigar até ao fim.



O Diabo - Por causa do caso anterior – e de outros – há uma descrença dos eleitores, quer no sistema político, quer na Justiça. É pelo menos essa a vox populi das cidades, nos cafés, nas ruas. Também sente isso? E, se sim, como julga que se podia reconquistar essa confiança? Que medidas imediatas julga que podiam ser tomadas?

Miguel Relvas - O que se passa hoje contribui em muito para a descrença das pessoas na Justiça, mas também na vida política e partidária. As medidas a tomar passam, por exemplo, pela alteração imediata na escolha de quem se candidata a cargos públicos. Devemos bater-nos por círculos uninominais, para que os escolhidos e propostos pelos partidos sejam, de facto, pessoas que tenham proximidade com as pessoas que os elegem. Isto aumenta a responsabilização quer dos eleitores quer dos eleitos. Não podemos continuar a ter escolhas feitas longe das pessoas.

 

O Diabo - Ora, por exemplo, no seu caso, que ficou de fora, apesar de apoiado localmente…

Miguel Relvas - Mas o Miguel Relvas agora não interessa para nada. O importante é que esta deve ser uma medida tomada em todas as áreas em que há eleitos. Devem ser as estruturas locais a decidir quem são os nomes. Os partidos não podem continuar a decidir em gabinetes alcatifados e longe dos eleitores. Não são meia dúzia de iluminados e menos iluminados que devem fazer essas escolhas. Temos de evoluir, de facto, para um sistema de representatividade.

O Diabo –  Segundo parece, a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo será mesmo votada na Assembleia da República. Concorda com esta "liberalização" do casamento?

Miguel Relvas - Concordo que as pessoas que têm deveres iguais tenham direitos iguais. Aceito que se compreenda esta extensão no campo dos direitos jurídicos, mas tenho enorme respeito pela instituição que é o casamento.

O Diabo – As diferenças entre PS e PSD nem sempre são claras para os eleitores. Quais as que lhes encontra para que, ainda hoje, seja militante do PSD e não do PS?

Miguel Relvas - Essas semelhanças são meramente conjunturais… O PS tem uma política que depende exclusivamente do Estado, está sempre apoiado neste e tudo o que faz é baseado nele. Ora, o PSD tem uma visão de fundo completamente diferente da sociedade. O PSD acredita nas pessoas, nas empresas e na iniciativa dos cidadãos. Esta é uma diferença marcante, porquanto não tenha sido, nos últimos meses, a diferença marcada pelo próprio partido perante o eleitorado. Sou e serei do PSD porque acredito nisto.


O Diabo – Os arautos da desgraça do PSD têm dito que, ou o partido se organiza, ou corre o risco de ver o seu eleitorado dispersar-se para o PS e para o CDS. Há, na sua opinião, um risco real disto acontecer ou, afinal, são apenas arrufos dos dias seguintes às eleições?
Miguel Relvas - O PSD tem, de facto, de conquistar os 11 deputados que perdeu para o CDS nas últimas eleições. E perdeu-os porque não falou dos problemas concretos. Não falou do desemprego, das necessidades das pessoas, da carga fiscal, da educação e da saúde. Estas são as preocupações reais dos eleitores e dos portugueses e o PSD não lhes soube dar respostas. O futuro do PSD passa, exactamente, por aqui. Não podemos mais continuar com pensamentos do passado, pensamentos e pessoas que não apresentam propostas concretas.


O Diabo – O senhor é, porventura, uma das caras mais conhecidas no apoio à candidatura do dr. Passos Coelho à liderança do PSD. Qual é a estratégia certa para toda a equipa que se propõe liderar o partido, e em que está inserido: manter o silêncio até ao acto eleitoral interno ou, pelo contrário, ir pontuando com comentários à actuação da actual líder?

Miguel Relvas - Assim que forem marcadas eleições, o candidato que eu apoio, e todos nós, temos obrigação de apresentar propostas e falar com o partido. Mas fazê-lo, não é a partir de Lisboa para o partido. É ir aos locais, perceber o que os militantes e simpatizantes querem e exigem. O que temos de conseguir neste novo ciclo é discutir, a fundo, os princípios e as ideias mobilizadoras para o partido e o País. E temos de conseguir estancar esta má ideia que é reeleger sempre figuras do passado, personalidades que já tiveram o seu tempo à frente do partido. O PSD tem mesmo de se rejuvenescer, de ter pessoas novas à frente. Senão, pode estar, de facto, em perigo.

 

Aguiar a caminho de aliança com Passos

Um acordo entre Aguiar Branco e Marco António Costa põe o líder parlamentar no caminho de uma aliança com Passos Coelho. Marcelo está mais isolado, apesar das sondagens que o dão como preferido.

 

José Pedro Aguiar Branco, o líder parlamentar do PSD, está disponível para conversar sobre apoios a dar à candidatura de Pedro Passos Coelho à presidência do PSD. Na última semana o advogado do norte, que se impôs como chefe da bancada dos sociais-democratas, começou conversas com a candidatura de Passos Coelho. O objectivo é aferir das condições que Passos terá para oferecer a Aguiar Branco - principalmente na estrutura partidária e na continuidade da liderança da bancada parlamentar.

 

Pedro Passos Coelho, sabe O Diabo, tem sido cauteloso na aproximação a Aguiar Branco, uma vez que este ainda é vice-presidente do PSD e foi escolhido por Manuela Ferreira Leite. Mas depois da pressão que Marcelo Rebelo de Sousa fez perante a candidatura de Passos Coelho, forçando quase a sua desistência, a táctica dos passistas mudou. O apoio do actual chefe dos deputados pode ser essencial para recuperar votos internos e, acima de tudo, ter uma boa presença na Assembleia - carente de vozes discordantes da actual direcção e que podem ser, caso Passos seja eleito, um grupo difícil de dominar.

 

Aguiar Branco, já pensou nisso deixou de fora da liderança da bancada nomes como José Pacheco Pereira e José Luís Arnaut - dois cavaquistas transformados em barrosistas que estão sentados agora na última fila da Assembleia.

 

Um acordo anterior às eleições legislativas está a facilitar o diálogo entre Aguiar Branco e Passos Coelho. O primeiro tem um entendimento do Marco António Costa, o chefe das hostes sociais-democratas a norte do País, onde se concentram mais votos militantes. O acordo incide numa estratégia mais lata: Marco António quer a Câmara de Gaia, despacha Luís Filipe Menezes para a Câmara do Porto e, ao mesmo tempo, ambiciona uma das vice-presidências partidárias – com Passos Coelho ou com outro candidato.

 

Aguiar Branco, para já, diz apenas que não virará as costas a qualquer tipo de combate, mas nem os apoiantes de Ferreira Leite, Marques Mendes ou Rui Rio querem o advogado do Porto queimado rapidamente. Assim, preferem que faça uma boa carreira contra Sócrates no Parlamento e se torne uma mais-valia para o partido, dentro de alguns anos.

 

Passos vira à direita

 

Compreendendo a necessidade de estancar votos que perdeu para o CDS, a candidatura de Passos Coelho está a preparar-se para apresentar um programa que ataque, já, a ala direita do partido - e o espaço curto que a separa do CDS. Miguel Relvas, de Londres, diz a O Diabo apenas que “está tudo a ser trabalhado ainda”, sem querer revelar mais pormenores. Mas O Diabo sabe que o programa de Passos Coelho agarra nas ideias de mais Estado na protecção social mas menos intervenção estatal na economia. Os casos “Face Oculta” e “Freeport” vêm a calhar para Passos Coelho, que demonstrará assim a necessidade de retirar ao Estado e ao Governo o controlo de empresas como a EDP, a Galp, a REN, a Refer ou os CTT – e com isto realizar receitas adicionais para equilibrar as finanças públicas.

 

Outro dos trunfos de Passos Coelho é apresentar uma equipa de direcção onde são varridos todos os nomes que ainda restam do cavaquismo. A saída de Deus Pinheiro da Assembleia sem aquecer lugar pode ser dada como exemplo de o que os cavaquistas entendem como poder: ou vão para lugares executivos ou acabam desistindo. Passos quer acabar com este tipo de comportamentos.

 

Morais Sarmento sossega

 

Outro dos nomes que estava em cima da mesa e que conta para a distribuição de votos é Nuno Morais Sarmento. O antigo ministro de Durão Barroso apareceu a sustentar uma mudança de rumo no partido, mas não assumiu qualquer candidatura. Sarmento, sabe O Diabo, deve apenas fazer uma declaração de apoio, que pode ser a Passos Coelho, se Marcelo, definitivamente, se afastar da corrida.

 

Um dos seus apoiantes revela: “O Nuno não quer agora entrar num combate que sabe só divide o partido. Vai afastar-se, para dar espaço à renovação. As pessoas sabem que podem contar com ele, mas está empenhadíssimo no seu escritório de advogados e não lhe conviria sair neste momento, a não ser que o cenário de liderança pusesse o partido em causa”. Um destes “cenários” é uma candidatura de Aguiar Branco contra Marcelo ou Passos. Seria apenas para marcar posição, mas queimaria o actual líder parlamentar aos olhos da opinião pública.

 

No entanto, uma recente sondagem encomendada por jornais portugueses, dá Marcelo em vantagem perante Passos Coelho, num resultado de 60 pontos para o professor contra 40 para o jovem social-democrata. Nada que preocupe a campanha de Passos Coelho: “Estamos cientes que a visibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa é muita. Mas assim que Pedro Passos Coelho começar a aparecer, as pessoas entenderão a nova mensagem”, diz um destacado apoiante.

 

Até Janeiro, no entanto, o candidato a líder – o único até agora assumido – marcará apenas pelo silêncio. As hostilidades para a campanha interna devem começar no final do primeiro mês de 2010, daqui a 45 dias.

Marcelo quer forçar Passos a desistir

O desejado avança se o jovem sair de cena. A candidatura de Passos Coelho  ainda não sabe o que o professor quer para o PSD e, por isso, por enquanto, não capitula.

 

Marcelo Rebelo de Sousa quer que Pedro Passos Coelho desista da candidatura à presidência do PSD. O comentador só admite candidatar-se ao cargo se houver uma lista única no partido, encabeçada por si ou, pelo menos, com um candidato consensual entre as várias facções.

 

Os apoiantes de Pedro Passos Coelho recusam desistir. Miguel Relvas é claro nas críticas e atem-se apenas a Ferreira Leite: “A actual liderança do PSD não teve oposição interna que lhe prejudicasse a estratégia. Para o que aconteceu não há álibis”, diz. Passos Coelho não vai retirar a candidatura apesar das palavras de Marcelo.

 

No seu programa de Domingo, Rebelo de Sousa não quis admitir uma candidatura. “Se sou candidato caso Passos Coelho desista? Oiça, se a minha avó tivesse rodas seria um autocarro…”, disse o professor de direito e ex-líder do PSD. Marcelo critica duramente os apoiantes de Manuela Ferreira Leite por estarem já a empurrá-lo para a liderança, considerando que é cedo para tomar posições. “A questão não é ser candidato. A questão é haver ou não condições para a unidade. Pode ser candidato uma pessoa qualquer”, sustentou o analista. E disparou: “Foi uma semana pouco feliz para o PSD, em que se discutiram nomes e se digladiaram facções. Não é isso que defendo, não foi isso que defendi”. Marcelo recusa ainda qualquer unidade aparente do partido, quando acusa os apoiantes de Passos e de Manuela de não sossegarem.

 

De facto, o clima dentro do PSD é volátil. O eurodeputado Paulo Rangel veio a público dizer que está “fora de hipótese qualquer candidatura à presidência do PSD” e apoiar uma eventual corrida de Marcelo. Mas, ao mesmo tempo, criticou Passos Coelho, o que deu ao professor de Direito o pretexto para afirmar que continua a luta de facções. Outro dos homens que veio a público solicitar Rebelo de Sousa para a corrida à liderança foi José Luís Arnaut, que considerou Marcelo o melhor candidato. O mesmo fez José Eduardo Martins: “Não há ninguém em melhores condições de ser presidente do partido, nem há melhor candidato a primeiro-ministro”, sustentou o deputado. Já Nogueira Leite diz que o professor chega numa “lógica de passado” e que a corrida de Marcelo seria uma aposta em “candidaturas gastas”.

 

Empate

 

As contas não estão fáceis. Passos Coelho já as fez e os seus apoiantes calculam que consiga, pelo menos, 50 por cento dos votos directos caso concorra contra Marcelo. Num cenário com outro candidato, Passos acredita que pode mesmo vencer à primeira volta, sem qualquer problema – mesmo contra Paulo Rangel.

 

Braga, Bragança, Porto e Santarém são distritais consideradas seguras pela candidatura de Passos, o que faz qualquer outro candidato pegar na calculadora. Lisboa continua a ser a maior distrital e Carlos Carreiras, o presidente, já veio dar o apoio a Marcelo. Mas se Passos Coelho continuar a ganhar apoios a norte, ficará muito perto de uma maioria absoluta: basta somar Vila Real, Viseu e Aveiro para fechar as contas a seu favor. Isto tendo em conta que as eleições são por voto secreto e que nas restantes distritais que apoiassem outro candidato, Passos ainda assim receberia votos.

 

Esta semana o PSD deve virar-se para a análise crítica ao Programa de Governo, que será apresentado na Assembleia da República. Até à apresentação do Orçamento de Estado, já se sabe, não haverá marcação de eleições directas para líder dos sociais-democratas. Ora, o Governo prevê apenas apresentar o documento no início de Dezembro. Depois, somam-se 45 dias de discussão na generalidade e especialidade. O que atira para final de Janeiro a votação das contas para 2010. A publicação do Orçamento só deverá ser feita em Março de 2010. É então que o PSD deverá marcar eleições para a liderança. Se as facções se aguentarem mais 140 dias.

 

Entretanto, na Assembleia

 

Ao mesmo tempo que o partido discute o futuro líder, na Assembleia, os funcionários estão a viver um clima que apelidam de “tensão permanente”. Numa reunião a semana passada, o líder da bancada parlamentar, José Pedro Aguiar Branco, estabeleceu novas regras de funcionamento e admitiu recorrer a dispensas, caso os colaboradores não se sentissem bem com essas novas regras. Um antigo funcionário do PSD no Parlamento admitiu a O Diabo que os colaboradores sociais-democratas estão “irritados e desgostosos”. “A reunião deixou pessoas em baixo, pessoas com mais de 20 anos de casa que agora podem ter o emprego em risco. É que a maioria não tem direito a subsídio de desemprego”.

 

As ligações politicamente perigosas das grandes empresas

Há empresas privadas que apoiam financeiramente um partido. Às vezes, não vá um qualquer outro Diabo tecê-las, distribuem dinheiro por dois e mesmo mais forças políticas. As ligações do PS e PSD a essas entidades estão também em jogo nas legislativas.

 

Jorge Coelho é, talvez, a face mais visível da questão. Ex-ministro de António Guterres, o socialista estendeu o tapete vermelho a José Sócrates, quando este ambicionou conquistar o lugar de líder do PS. Aquele que uma vez disse “quem se mete com o PS, leva”, é hoje o homem-forte de uma das maiores empresas portuguesas de construção civil, a Mota Engil. A entrega até 2042 do terminal de carga de contentores de Lisboa à empresa de Coelho levantou dúvidas políticas à oposição. A câmara da capital, liderada por socialistas, tal como o País, foi acusada de entregar de mão beijada a um antigo camarada um valor 407 milhões de euros. Mão beijada, entenda-se, dizia a oposição por o contrato ter sido por ajuste directo.

 

Mas a Mota Engil não é um exclusivo do PS. Apesar de Jorge Coelho ser a sua face, fonte do CDS garante a “O Diabo” que a empresa fez “um pequeno contributo” para financiar a campanha do CDS. Uma opção comum às grandes empresas que, em tempo eleitoral, decidem entregar quinhões diferenciados aos partidos.

 

O PS guarda, porém, mais trunfos na manga. A administração do Banco Comercial Português, agora Millennium, está do seu lado. O primeiro Vice-presidente da instituição é Armando Vara, velho amigo do actual primeiro-ministro, que chegou a ser colega de Governo de Sócrates, nos tempos em que António Guterres era chefe do executivo. Ao grupo juntava-se Joaquim Raposo, ora presidente da Câmara da Amadora e Edite Estrela, agora eurodeputada.

 

A calma imposta pelo governo PS ao BCP, banco antes liderado pelos conservadores Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, foi o resultado do exercício do poder socialista. O BCP debatia-se com graves problemas, que levaram os accionistas a pelejarem-se na praça pública. O acordo para instalar uma nova administração foi negociado entre os dois partidos do Bloco Central. Quando o PS assumiu influência da administração do BCP, um antigo ministro de Aníbal Cavaco Silva tomou a cadeira do poder do maior banco público: a Caixa Geral de Depósitos.

 

Aliás, as influências partidárias nos bancos não acabam aqui. Mira Amaral, ex-ministro do PSD, dirige o maior banco privado angolano em Portugal, o BIC. Fernando Ulrich, do BPI, é um simpatizante social-democrata. E Ricardo Espírito Santo, que se colocou várias vezes do lado das opiniões laranjas, tem agora sorrido aos socialistas, colando assim o “seu” BES ao lado dos do PS. Só Nuno Amado, do Santander Totta, se tem mantido fora das discussões políticas nacionais – mas, afinal, o seu banco é controlado a partir de Espanha.

 

Do outro lado da fronteira também chegou um dia a nomeação de Pina Moura, ex-ministro de Guterres, para a Mediacapital, quando a Prisa, empresa espanhola, adquiriu o canal de televisão TVI a Miguel Paes do Amaral. Os três canais portugueses têm, aliás, um alinhamento político suave mas definido. A SIC é liderada pelo antigo primeiro-ministro do PSD, Pinto Balsemão. A TVI está entregue à Prisa, próxima do PSOE, partido socialista espanhol, mas nos seus quadros intermédios pontificam ainda muitos directores e gestores escolhidos por Paes do Amaral: Isaias Gomes Teixeira ou Luís Nobre Guedes – e essa maioria é afecta ao CDS. Já a RTP é, na velha versão nacional, de quem a apanhar. A direcção da informação do canal está com José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. O primeiro sem expressão pública política, mas com uma guerra aberta com o PSD sobre a independência da estação.

 

Há nas empresas privadas mais amigos dos dois maiores partidos. A Compta, por exemplo, que lida com sistemas informáticos e largos e chorudos contratos com o Estado. Armindo Monteiro, o dono da empresa, admitiu já financiar as campanhas dos dois principais partidos, PSD e PS.

 

O PSD recebeu já dinheiros da empresa Somague. A confissão pública foi feita depois da campanha dos sociais-democratas, com Durão Barroso a concorrer a primeiro-ministro. A Somague é uma das cinco maiores empresas de construção portuguesa e depende, como as outras, das grandes obras públicas para sustentar os seus negócios. À época, o “Público” relatava que o PSD mal assumiu o poder, mandou suspender todas as obras de auto-estradas adjudicadas pelo PS, desejo expresso pela empresa durante a campanha eleitoral.

 

A Bragaparques é outra empresa que, em 2005, financiou com cerca de 20 mil euros a campanha do PSD em Lisboa. A detentora dos terrenos da antiga Feira Popular viu-se envolvida num processo judicial por tentativa de corrupção, quando tentou convencer José Sá Fernandes, o ex-vereador do Bloco de Esquerda, recorrendo a meios informais e pecuniários, a ser-lhe favorável em votações futuras.

 

Os sociais-democratas têm também figuras do passado interessadas nas obras futuras. O ex-ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, é hoje presidente da Lusoponte, que domina em exclusivo as travessias sobre o rio Tejo que sirvam a grande Lisboa. Ferreira do Amaral é um dos principais impulsionadores da mudança do Aeroporto da Ota para Alcochete e, por arrasto, da terceira travessia do Tejo, a construir-se entre o Barreiro e Chelas. Coincidência ou não, a nova ponte é aquela em que PSD e PS estão totalmente de acordo. Pode vir a ser construída pela Mota Engil – por causa da larga experiência da empresa nesse campo –, e gerida pela Lusoponte. Embora haja mais concorrentes à obra, como a Somague.


Por fim, os pequenos partidos.

 

O CDS tem em Pires de Lima, gestor da UNICER, um benemérito reconhecido. O gestor admitiu já entregar várias quantias de dinheiro aos partidos, entre os quais o “seu” CDS. Foi deputado pelos populares e chegou a ser falado com sucessor de Paulo Portas, até acontecer o fenómeno Ribeiro e Castro. Pires de Lima tem uma carreira brilhante no sector das bebidas engarrafadas, tendo resgatado a Compal de um caminho perigoso e ter conduzido a empresa a um sucesso seguro.

 

Também António Lobo Xavier, administrador da Sonae, admite contribuir pessoalmente para os fundos do CDS, partido ao qual pertence. Mas a Sonae, de Belmiro de Azevedo, não admite defesa de qualquer tendência política. Já o filho e provável sucessor de Belmiro, Paulo Azevedo,  declarou publicamente que sente “simpatia” pelo actual primeiro-ministro, José Sócrates.

 

Lóbi sem regulação

 

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, onde as empresas dão abertamente dinheiro aos partidos – e são escrutinadas por isso -, em Portugal as doações partem muitas vezes dos cofres pessoais dos gestores. Uma empresa raramente entrega dinheiro e se liga a um partido, mas é comum os empresários pagarem às cores por quem nutrem maior simpatia.

 

Documentos consultados por “O Diabo” no Tribunal de Contas não revelam a origem real das “doações” que os partidos sustentam ter recebido – quer para as campanhas eleitorais, quer para seu fundo maneio. A verdade é que, apesar de existir, a actividade de lóbi não está legalizada nem reconhecida em Portugal. A vida profissional de um ex-ministro é sempre mais frutuosa do que era antes de assumir uma pasta governativa. Assim o confessou Dias Loureiro, ex-ministro da Adminsitração Interna de Cavaco Silva, que foi administrador no grupo Banco Português de Negócios. O BPN era tido como “o banco do PSD”, porque no seu quadro dirigente pontificavam ex-ministros e ex-secretários de Estado da maioria cavaquista. A sua derrocada e subsequente nacionalização foi um duro golpe para os sociais-democratas, que temeram fortes consequências políticas. Mas a mudança de caras   com Paulo Rangel nas Europeias a fazer a despesa toda de tentar olvidar a Comissão de Inquérito ao BPN –, salvou o PSD de sofrer golpe político nas urnas.

 

Por fim, a esquerda radical. O PCP financia-se fortemente pelas quotas e por cativar parte do ordenado dos cargos electivos que os seus militantes ocupam. A sua maior receita pontual provém da festa promovida pelo jornal “Avante!”. E foi por causa dessa receita sem recibos que esteve para ser aprovada uma lei de financiamento que permitia aos partidos receber um milhão de Euros sem prestar contas da sua origem. A lei passou na Assembleia mas não passou por Cavaco, que a vetou.

 

88 milhões em propaganda nas Legislativas e Autárquicas

A democracia paga-se

 

O custo, em euros, da propaganda política no próximo mês e meio pagava dois hospitais. Do bolso do contribuinte saem 61 milhões.

 

A campanha para as eleições autárquicas vai custar 75 milhões de euros. Destes, 60 milhões são gastos por PSD e PS: 30 milhões a cada um. A CDU vai pagar 10 milhões, o CDS 700 mil e o Bloco de Esquerda perto de dois milhões.

 

O gasto dos principais partidos subiu em relação às últimas eleições locais, com a excepção do CDS, que concorre a um grande número de autarquias em coligação com o PSD e aproveita a boleia da propaganda, poupando aqui para apostar nas legislativas.

 

Quando se soma o custo das autárquicas com o das legislativas, o valor da propaganda política ascende a 88 milhões de euros. É o valor dos lucros do BPI este ano, ou o custo de dois hospitais iguais àquele cuja primeira pedra o Governo lançou na semana passada, em Lamego.

 

A subvenção estatal para as eleições autárquicas será de 61 milhões de euros. É o voto mais caro de todas as eleições. Por votante, o Estado gasta 12,2 euros por voto nas autárquicas, 1,8 euros nas legislativas e apenas 86 cêntimos nas europeias.

 

O orçamento deste ano para as eleições autárquicas aumentou 15 milhões de euros face a 2005. O CDS, porém, quer acabar com estes gastos. Paulo Portas propôs já o fim dos cartazes de campanha, enquanto Pedro Santana Lopes irá apostar em menos cartazes, substituindo-os por painéis electrónicos, o que permite mudar a mensagem ao longo dos 12 dias de campanha.

 

Só em Lisboa, mesmo assim, o PSD vai gastar 670 mil euros na campanha, dos quais 78 mil oriundos de donativos. Os restantes 592 são dinheiro de impostos. Já o PS gasta com António Costa 540 mil euros, com 80 mil euros a entrar nos cofres, via donativos.

 

A campanha eleitoral para as eleições autárquicas começa na segunda-feira, 28 de Setembro, imediatamente depois das legislativas. Grande parte dos suportes de campanha vai ser usado pelos partidos para colar nova propaganda. Vai ser assim em todas as cidades capital de distrito.

 

Quem fica a ganhar é o PSD e o CDS, que se coligaram em 60 municípios. Estas coligações vão duplicar o número de cartazes, pois as estruturas de suporte de propaganda, até ali divididas em duas mensagens, passarão a ser usadas por uma única candidatura.

O que mais tem custado ao PS, no entanto, é o custo de produção e concepção das campanhas. Os autores de fotografias, desenho de cartazes e concepção global de imagens ganham nove milhões de euros com os socialistas. Curiosamente, o PSD apenas paga 205 mil euros a estes profissionais, o que revela o afastamento do partido das agências de comunicação e dos assessores de imprensa externos.

 

 

O CDS gasta, mesmo assim, 70 mil euros em concepção de campanha, contra os 24 mil euros do Bloco de Esquerda. Só a CDU é que não paga um tostão a designers, assessores e equiparados. Zero absoluto é quanto o PCP e Os Verdes gastam a desenhar cartazes. A explicação é simples: o PCP tem um departamento gráfico e de concepção de campanhas dentro do partido, há mais de 35 anos, profissionalizado e com ajuda de voluntários.

Cenários pós-eleitorais

Resultados ditam futuro dos líderes

 

E se eu perder? – perguntam-se os líderes dos principais partidos concorrentes às legislativas. Sócrates teria de engolir a derrota e carregar o partido às costas, numa penosa travessia do deserto. Manuela sairia pelo seu pé. E Portas avançaria com uma surpresa na noite das eleições…

 

A 25 dias das eleições legislativas já se afiam facas para a noite eleitoral. No CDS, alguns destacados militantes esperam avidamente o resultado para saber se se “colam” ao poder (no caso de uma vitória) ou se avançam com um pedido de congresso extraordinário, caso Paulo Portas obtenha um resultado inferior ao das eleições passadas. “O Diabo” sabe que um conjunto de apoiantes do jovem João Almeida está apenas à espera de um mau resultado para pedir uma reunião magna do partido e tentar substituir o líder.

 

Os rivais de Paulo Portas arriscam-se, contudo, a enfrentar duas surpresas. A primeira, com os próprios resultados eleitorais: “O CDS vai ter melhor resultado que nas eleições anteriores”, garante um dirigente do partido a “O Diabo”. “A campanha está a correr melhor. Isto não quer dizer que venhamos a somar, com o PSD, uma maioria que dê para governar. Mas que vamos subir de votos, isso vamos”.

 

Mas Paulo Portas, que não entrega a terceiros a gestão da sua carreira política, tenciona antecipar-se com uma outra surpresa: a convocação de um congresso extraordinário na própria noite das eleições, qualquer que seja o resultado.

 

“É natural que um líder que ganha se queira ver novamente legitimado”, explicou um dirigente do CDS a “O Diabo”. Mas se perder em toda a linha, Portas pode mesmo sair. Outro militante do partido assegura ao nosso jornal: “Não há oposição interna que se veja, as coisas estão unidas, mas Paulo Portas já disse que ou conseguia um bom resultado e era governo, ou ia-se embora. O problema é que Paulo sente que uma dezena de anos depois, ou as pessoas entendem a mensagem, ou o problema é do mensageiro, e então deve afastar-se”.

 

Coelho e Rangel

 

Já no PSD, as contemplações face a uma hipotética derrota de Manuela Ferreira Leite não seriam grandes. Caso a líder perdesse para o PS as eleições, o partido avançaria mesmo para congresso extraordinário. Depressa e em força. Tanto mais que é conhecida a determinação de Manuela Ferreira Leite de não se eternizar na liderança num cenário de oposição. O que preocupa a oposição interna é o pouco tempo que restaria ao novo líder até às próximas legislativas. Marcelo Rebelo de Sousa já avisou, sobre o programa do PSD: “É um programa para as eleições de 27 de Setembro, mas é programa que me parece pensado para a hipótese possível, plausível, de sair um Governo minoritário e de haver novas eleições dois anos depois”, previu o comentador.

 

Ora, com menos de dois anos para preparar alternativa, e sendo provável que um eventual Governo do PS não aguentaria, sequer, um ano, os candidatos Pedro Passos Coelho ou Paulo Rangel – vistos como os mais prováveis sucessores de Manuela teriam pouco tempo para conquistar o partido e o País. Em caso de fracasso eleitoral, se a líder não caísse a 27 de Setembro, por mão própria, cairia no congresso seguinte. Isto deixaria, ainda, o Presidente da República em maus lençóis políticos. Apesar de o “seu” PSD não o desapoiar caso decida avançar com a candidatura a um segundo mandato, Cavaco teria de esperar que Rangel ganhasse para ter apoio explícito. Se fosse Passos Coelho a vencer, Cavaco poderia muito bem ter que suar as estopinhas sozinho… contra um Manuel Alegre revigorado e candidato em pleno do PS.

 

“Carro-vassoura”

 

Quanto ao PS, mesmo que saísse vencedor das eleições do próximo dia 27, teria vida a prazo no poder, com José Sócrates fragilizado. Seria o primeiro líder do PS a não conseguir melhorar resultados de umas legislativas para as outras (excluindo, naturalmente, os casos em que foi derrotado), e teria de carregar o partido às costas” numa penosa travessia do deserto. António José Seguro, Paulo Pedroso, António Costa ou outro candidato que surgisse não quereria servir de carro-vassoura dos despojos socráticos. O jovem Tozé espera, no entanto, ser líder parlamentar na próxima legislatura, caso o PSD vença, preparando-se para futuros combates.

 

À esquerda, só um maremoto poderia afastar Jerónimo de Sousa da liderança do PCP. É cedo para o jovem Bernardino Soares e tarde para o sindicalista Carvalho da Silva, que se vem afastando dos comunistas desde que se doutorou. O maremoto seria, no entanto, ficar em quinto lugar, atrás do Bloco e do CDS. Nesse cenário, Jerónimo regressaria a Pirescoxe, abrindo caminho para a primeira sucessão no PCP na era pós-Cunhal – o maior desafio dos comunistas desde 1975. No entanto, as sondagens internas dos partidos ainda vão dando o PCP à frente do CDS – oxigénio suficiente para se afastarem as hipóteses de sucessão.

 

Resta o Bloco de Esquerda, alicerçado em Francisco Louçã, que habilidosamente vem “desgastando” as figuras de proa do partido e, aparentemente, não tem de enfrentar a oposição de tendências internas – ao contrário do que geralmente sucede nos partidos congéneres europeus. Um mau resultado para o Bloco seria voltar a ter dois ou três deputados. Mas uma votação que faça o BE descer para o quinto lugar – fruto do voto útil da esquerda moderada no PS e não nos bloquistas pode fazer com que Louçã apenas consiga um quarto lugar na tabela, atrás do PCP ou do CDS.