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Jornal O Diabo

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À falta de melhor, Ferreira Leite pode ter de continuar líder do PSD

Paulo Rangel está entalado:  o “professor” mostra-se cada vez mais renitente em correr e Passos Coelho não chega a metade dos votos. Os sociais-democratas arriscam-se a continuar com Manuela mais um ano.

 

As contas estão difíceis no partido da São Caetano à Lapa. Marcelo Rebelo de Sousa voltou a dizer que não é nem será candidato à liderança do PSD, a não ser que seja candidato único. O professor admitiu já, em círculo interno, que até admitia ter algumas figuras da candidatura de Passos Coelho consigo, mas não se quer meter numa campanha eleitoral que fragilize a já parca imagem do partido. Na noite de domingo, no seu comentário semanal, Marcelo franziu o sobrolho e respondeu, ríspido e enfadado: “Não sou nem serei candidato à liderança do PSD”. Esta frase, no entanto, lembra outra de há uns anos atrás:  que só seria candidato à liderança do PSD se Cristo descesse à Terra. Foi candidato e ganhou, apesar de Cristo, aparentemente, não ter regressado. Agora, os seus apoiantes acreditam mesmo que não há hipóteses de convencer o professor e já começaram a pressionar Paulo Rangel para concorrer contra Pedro Passos Coelho.

 

Paulo Rangel, que se retirou da corrida mesmo antes de esta começar, segundo revelações suas no programa Gato Fedorento, é a única esperança dos cavaquistas e apoiantes de Manuela Ferreira Leite. O seu capital político pode obrigar a uma votação renhida dentro do partido. Rangel, que está em Bruxelas, longe das implicações políticas nacionais, tem sido um apoiante de Marcelo. “Eu desejo Marcelo Rebelo de Sousa como líder do PSD”, confessou há dias numa conversa em Bruxelas. O mesmo já tinha dito em Lisboa, quando entrevistado pela RTP. Mas ultimamente, alguns sociais-democratas, confrontados com um Marcelo que tanto diz que sim como não, viraram-se para Rangel. O objectivo é responder às críticas de Passos Coelho e seus apoiantes. A semana passada, nestas páginas, Miguel Relvas rejeitava “uma eleição que fosse um regresso ao passado”. Compreendendo que Marcelo e Marques Mendes, por exemplo, seriam nomes atingidos por este argumento, alguns activos militantes voltaram-se para Rangel. No entanto, O Diabo sabe que o eurodeputado tem rejeitado a ideia junto de colaboradores e amigos, convencido de que este ainda não é o seu “tempo”.

 

Entretanto, a reeleição de Marco António Costa no Porto garantiu mais apoios a Passos Coelho. O renovado líder da distrital invicta parece ter em mente um plano estratégico para a negociação de apoios a Passos Coelho, em troca de lugares na direcção do partido. Mas Marco António não rejeitaria, também, um negócio com Marcelo ou Rangel. Pior: o próprio admite lançar-se numa candidatura à presidência do partido, caso não se reveja em nenhuma candidatura apresentada.

 

Lisboa discute liderança

Carlos Carreiras, que esteve com Ferreira Leite, não deve ser o único candidato às eleições para líder distrital. Jorge Bacelar Gouveia, próximo de Pedro Santana Lopes, também vai candidatar-se ao lugar, aproveitando o facto de Carreiras e Leite terem rompido o bom entendimento que mantinham. Carlos Carreiras esteve contra a inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas para deputados por parte da direcção do partido. Agora, corre sem o apoio de qualquer notável, o que é fatal para qualquer candidato à liderança da distrital de Lisboa. Bacelar Gouveia tem a seu lado os apoiantes de Santana Lopes e a neutralidade dos barões lisboetas, como Ferreira Leite ou Pacheco Pereira. Recorde-se que estes últimos, tal como António Preto, foram líderes da distrital do PSD na capital.

 

A vitória de Bacelar Gouveia pode vir a mudar o sentido de voto de Lisboa na eleição para líder. Se Carreiras seria favorável à ideia da renovação com Passos Coelho, não se conhece a Bacelar inclinação por qualquer candidato. Mas com Santana Lopes de boas relações com Ferreira Leite, pode ser possível que Gouveia aceite apoiar Marcelo ou Rangel, em detrimento de Passos.

 

Entretanto, todas as vozes do PSD parecem afinar pelo mesmo pedido: as eleições directas não podem esperar pelo Orçamento de Estado de 2010, que apenas deve ser aprovado em Março do próximo ano. Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e Marco António Costa foram apenas três de muitas pessoas que desejam ver Manuela Ferreira Leite sair antes de Março, o mais tardar em Janeiro, para que o novo líder tenha condições de assumir o partido antes do Verão.

 

Porém, caso nenhum candidato apareça a combater Passos Coelho, o PSD pode ter que arrastar o processo eleitoral para ver se convence um retardatário credível. Em última instância, Manuela Ferreira Leite pode mesmo ter que ir a votos contra Passos Coelho, caso a direcção assim o exija – e isto se nem sequer Aguiar Branco estiver para enfrentar o jovem social-democrata.

Marcelo quer forçar Passos a desistir

O desejado avança se o jovem sair de cena. A candidatura de Passos Coelho  ainda não sabe o que o professor quer para o PSD e, por isso, por enquanto, não capitula.

 

Marcelo Rebelo de Sousa quer que Pedro Passos Coelho desista da candidatura à presidência do PSD. O comentador só admite candidatar-se ao cargo se houver uma lista única no partido, encabeçada por si ou, pelo menos, com um candidato consensual entre as várias facções.

 

Os apoiantes de Pedro Passos Coelho recusam desistir. Miguel Relvas é claro nas críticas e atem-se apenas a Ferreira Leite: “A actual liderança do PSD não teve oposição interna que lhe prejudicasse a estratégia. Para o que aconteceu não há álibis”, diz. Passos Coelho não vai retirar a candidatura apesar das palavras de Marcelo.

 

No seu programa de Domingo, Rebelo de Sousa não quis admitir uma candidatura. “Se sou candidato caso Passos Coelho desista? Oiça, se a minha avó tivesse rodas seria um autocarro…”, disse o professor de direito e ex-líder do PSD. Marcelo critica duramente os apoiantes de Manuela Ferreira Leite por estarem já a empurrá-lo para a liderança, considerando que é cedo para tomar posições. “A questão não é ser candidato. A questão é haver ou não condições para a unidade. Pode ser candidato uma pessoa qualquer”, sustentou o analista. E disparou: “Foi uma semana pouco feliz para o PSD, em que se discutiram nomes e se digladiaram facções. Não é isso que defendo, não foi isso que defendi”. Marcelo recusa ainda qualquer unidade aparente do partido, quando acusa os apoiantes de Passos e de Manuela de não sossegarem.

 

De facto, o clima dentro do PSD é volátil. O eurodeputado Paulo Rangel veio a público dizer que está “fora de hipótese qualquer candidatura à presidência do PSD” e apoiar uma eventual corrida de Marcelo. Mas, ao mesmo tempo, criticou Passos Coelho, o que deu ao professor de Direito o pretexto para afirmar que continua a luta de facções. Outro dos homens que veio a público solicitar Rebelo de Sousa para a corrida à liderança foi José Luís Arnaut, que considerou Marcelo o melhor candidato. O mesmo fez José Eduardo Martins: “Não há ninguém em melhores condições de ser presidente do partido, nem há melhor candidato a primeiro-ministro”, sustentou o deputado. Já Nogueira Leite diz que o professor chega numa “lógica de passado” e que a corrida de Marcelo seria uma aposta em “candidaturas gastas”.

 

Empate

 

As contas não estão fáceis. Passos Coelho já as fez e os seus apoiantes calculam que consiga, pelo menos, 50 por cento dos votos directos caso concorra contra Marcelo. Num cenário com outro candidato, Passos acredita que pode mesmo vencer à primeira volta, sem qualquer problema – mesmo contra Paulo Rangel.

 

Braga, Bragança, Porto e Santarém são distritais consideradas seguras pela candidatura de Passos, o que faz qualquer outro candidato pegar na calculadora. Lisboa continua a ser a maior distrital e Carlos Carreiras, o presidente, já veio dar o apoio a Marcelo. Mas se Passos Coelho continuar a ganhar apoios a norte, ficará muito perto de uma maioria absoluta: basta somar Vila Real, Viseu e Aveiro para fechar as contas a seu favor. Isto tendo em conta que as eleições são por voto secreto e que nas restantes distritais que apoiassem outro candidato, Passos ainda assim receberia votos.

 

Esta semana o PSD deve virar-se para a análise crítica ao Programa de Governo, que será apresentado na Assembleia da República. Até à apresentação do Orçamento de Estado, já se sabe, não haverá marcação de eleições directas para líder dos sociais-democratas. Ora, o Governo prevê apenas apresentar o documento no início de Dezembro. Depois, somam-se 45 dias de discussão na generalidade e especialidade. O que atira para final de Janeiro a votação das contas para 2010. A publicação do Orçamento só deverá ser feita em Março de 2010. É então que o PSD deverá marcar eleições para a liderança. Se as facções se aguentarem mais 140 dias.

 

Entretanto, na Assembleia

 

Ao mesmo tempo que o partido discute o futuro líder, na Assembleia, os funcionários estão a viver um clima que apelidam de “tensão permanente”. Numa reunião a semana passada, o líder da bancada parlamentar, José Pedro Aguiar Branco, estabeleceu novas regras de funcionamento e admitiu recorrer a dispensas, caso os colaboradores não se sentissem bem com essas novas regras. Um antigo funcionário do PSD no Parlamento admitiu a O Diabo que os colaboradores sociais-democratas estão “irritados e desgostosos”. “A reunião deixou pessoas em baixo, pessoas com mais de 20 anos de casa que agora podem ter o emprego em risco. É que a maioria não tem direito a subsídio de desemprego”.

 

O país dos 200

No dia a seguir ao debate televisivo entre Ferreira Leite e Sócrates, alguns jornais “de referência” apressaram-se a dar “a vitória” da noite ao chefe do PS. Baseados em quê? É simples: numa sondagem feita pela Aximage, segundo a qual 45,6 por cento dos portugueses achavam que Sócrates tinha “estado melhor” do que Ferreira Leite (30,2 por cento). Um ingénuo perguntar-se-ia, perante tão esmagador veredicto: para quê fazer eleições?

 

Mas o cidadão avisado lê as letras pequeninas. Foi o que fiz. Fiquei então a saber que a sentença cabal daqueles órgãos de Comunicação Social tinha como fundamento um “inquérito telefónico” junto de 200 pessoas (duzentas, leu bem!), assim distribuídas: 95 eram homens, 105 eram mulheres; 58 moravam em Lisboa, 41 no Porto e 101 no resto do país; 51 tinham idades entre os 18 e os 34 anos, 68 tinham entre 35 e 54 anos, e 81 tinham mais de 55 anos. Esfreguei os olhos e li outra vez. Mas não restava dúvida: os grandes títulos “Sócrates ganhou” e “Manuela derrotada” não passavam, afinal, de 200 chamadas telefónicas e muita falta de vergonha.

 

Costuma dizer-se que “as sondagens valem o que valem”. Não há generalização mais injusta, pois umas valem alguma coisa, outras valem pouco e outras não valem nada. Agora, resumir “a opinião pública” a uma loja dos 200 passa todos os limites. Há Comunicação Social que parece ainda não ter percebido que vamos eleger o Parlamento de que sairá um Governo – e não fazer um ‘casting’ para uma telenovela…

 

FRA DIAVOLO

 

As mulheres de Sócrates

A mãe, Testemunha de Jeová, que dificilmente aceitaria um segundo casamento do filho. A namorada, Fernanda Câncio, com quem o primeiro-ministro poderá casar em breve. A madrinha, Edite Estrela, em “natural disputa” pelas atenções do chefe do PS. Manuela Moura Guedes, o seu “ódio de estimação”. Manuela Ferreira Leite, o seu pesadelo…

 

O actual chefe do Governo está rodeado de mulheres. Foi, pelo menos, assim que ele quis ver-se retratado no cartaz eleitoral que o Partido Socialista tem nas ruas, e que já mereceu de José Pacheco Pereira o comentário ácido: “Um homem a olhar para nós e as mulheres a olhar para ele, uma delas com olhar embevecido, é de um machismo extraordinário!”, disse o analista no seu programa semanal “Ponto Contra Ponto”. O cartaz é político, mas a história que conta podia ser também a história pessoal do secretário-geral do PS. A sua vida está dominada por senhoras, que nem sempre se entendem, mas que querem que “o Zé” seja, de facto, um exemplo: um exemplo de filho, de companheiro, de amigo, de adversário e até de inimigo, para que possa dar troco à altura dos ataques.

[continua na edição impressa]