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Jornal O Diabo

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Bispos pedem referendo a casamento de homossexuais

Os Bispos portugueses, reunidos em Fátima, afastam uma crítica formal ao Governo, mas pedem a consulta à população sobre o tema das uniões homossexuais.

 

Um referendo sobre a possibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo é uma das propostas apresentadas pelos bispos portugueses, que estão reunidos no Santuário de Fátima até ao final da semana. Para a Conferência Episcopal, que dará uma conferência de imprensa sobre este e outros assuntos esta quinta-feira, o tema não entra na agenda oficial do encontro, mas preocupa o episcopado. D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal deve pronunciar-se ainda esta semana contra a adopção da medida política sem que sejam auscultados os eleitores, por se tratar de um assunto de consciência moral e ética.

 

O Partido Socialista, entretanto, quer fazer passar a lei até ao final do ano e é acompanhado nesta matéria pelas propostas do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Este último, na sua proposta, vai apresentar ainda a possibilidade dos casais homossexuais civilmente casados poderem apresentar-se para a adopção de crianças institucionalizadas. Já no PSD, Manuela Ferreira Leite deve permitir liberdade de voto, porque o um tema  divide a bancada laranja. O CDS, em princípio, votará contra, mas, para já, afirma que o tema não é relevante nem urgente.

 

O casamento homossexual foi uma promessa de José Sócrates durante a campanha eleitoral e estava integrada quer no programa do PS quer, agora, no debatido programa de Governo. Nos últimos dois anos o tema tem estado na agenda central da maçonaria portuguesa, levando mesmo o Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, o professor António Reis, a advogar a medida como uma das grandes prioridades maçónicas do século XXI.

As promessas dos “empana-parvos”: Aquilino Ribeiro

António Pina do Amaral

 

Vindo das zonas de Viseu, em 1902, Aquilino Ribeiro estudava no Seminário de Beja. Em 1906 convivia já em Lisboa com meios revolucionários. Foi preso no ano seguinte acusado de bombista e carbonário. Levado ao juiz Veiga, do Juízo de Instrução Criminal, seguiu-se a cadeia e o exílio. O juiz cairia com ele, jogado para a aridez dos processos na Relação

 

 

“Passei a vida dobrado sobre a banca de escritor e só há pouco dei conta que estava velho. Como foi isso?”, perguntava-se o criador do Malhadinhas. Quem lê esta frase fica sem imaginar sequer o que foi uma vida de turbulência, que meteu cadeia e exílio.

 

No dia 17 de Novembro de 1907 o jovem escritor, na sua sossegada casa na Rua do Carrião à Passadiço, em Lisboa, fabricava bombas. O material improvisado era feito com as pinhas de ferro com que se enfeitavam as sacadas das casas, o explosivo, pólvora negra e carda miúda de sapateiro. Clandestino, o pequeno grupo integrava o Dr. Gonçalves Lopes e o Belmonte de Lemos, comerciante da Rua dos Fanqueiros.

 

Tinha sido mobilizado pelo Luz de Almeida, da Alta Venda da Carbonária, associação secreta para a imposição das ideias à lei da bomba, a “artilharia civil”.

 

De súbito, a explosão. Num ápice estava preso, levado para a esquadra de polícia. “Manso como um cordeiro”, submisso, como relatou na sua memorável auto-biografia ‘Um Escritor Confessa-se’, Aquilino é surpreendido em plena Rua de São José pelo “fotógrafo universal” que a todos aprisionava no seu daguerrotipo, “Joshua Benoliel, fotógrafo beduíno, tanto tira a D. Manuel como tira a Bernardino”. Destino, Esquadra da Parreirinha. Entre “iscarióticos esbirros que vinham, como no Jardim Zoológico, contemplar o gerifalte que caíra no laço”, ei-lo levado para as Amoreiras “ao juiz Veiga, o célebre juiz Veiga, o grande papão dos republicanos, o terror dos anarquistas, o alcoviteiro do rei, a divindade colérica e tutelar que pairava sobre a Monarquia e as instituições, armada de tridente e coriscos”.

 

A cena do interrogatório é um momento magistral. Raposa velha, Veiga faz apelo à compreensão e ao espírito de tolerância cristã para com aquele moço, ainda agora vindo das serranias para os estudos eclesiásticos. Aquilino, não menos versátil, fazia-se da ingénua da peça: “Já confessei tudo a V. Ex.ª. Eu sou um serrano em Lisboa… Mal assentei o pé, pus-me a ler Kropoktine e, por desgraça, a minha condição, pobre, desamparado, sem futuro, deixei-me contaminar pelas ideias extremistas. Logo aqueles amigos aproveitaram a minha inexperiência e meteram-me nesta camisa-de-onze-varas”.

 

Não tardaria a ser levado à Morgue, a reconhecer os amigos que no estado em que estavam já não se poderiam aproveitar de ninguém. Em pleno teatro anatómico, empestado a cheiro de fénico e de formol, ali estavam a “carcaça pavorosa” de um e o Dr. Gonçalves Lopes “a fronte escaqueirada, o peito com um rombo cavernoso, e uma das mãos reduzidas a coto sangrento”.

 

Seguem-se os curros da investigação, “um chefe de polícia néscio e um juiz reles e troca-tintas”. Era o Dr. Alves Ferreira, de que o escritor que se arriscaria em ‘Quando os Lobos Uivam’ daria um retrato violento como urros: “com a pelagem totalmente branca de cobaia e pele lisa dum poupon, tinha andado pelas ilhas, pela província, sempre em comarcas de rebotalho, até que João Franco o caçou ali em Sintra, pau para toda a colher”.

 

Mestre Aquilino evadir-se-ia do cárcere. Esconder-se-ia numas águas furtadas de um prédio pombalino, a 150 metros da Parreirinha, “pelas escadinhas de S. Francisco, e menos de 200 metros do Ministério do Reino, podendo ouvir, se não houvesse a interferência acústica das paredes, os espirros do Sr. João Franco”.

 

Chega a Paris no dia 3 de Junho de 1908, fugido. “Turista sem cheta nem bagagem, transportava, porém, um alforge de promessas de ‘irmãos’ e ‘primos’, que lhe haviam jurado com os pés em esquadria – a ele raposo, beirão, que jamais se iludiu com empana-parvos”, assim o descreve Jorge Reis ao compilar-lhe as ‘Páginas do Exílio’.

 

A Carbonária que o recrutara levara-o ao crime. Fundada pelo bibliotecário da Câmara Municipal de Lisboa, Artur Augusto da Luz Almeida, que havia sido iniciado na Maçonaria, em 1897, na Loja Luís da Camões, n.º 226, em Lisboa, como nome simbólico de ‘Desmoulins’, em 1908 a organização tinha 20 mil adeptos, estando através da loja maçónica ‘Montanha’ infiltrada nas estruturas do Grande Oriente Lusitano.

 

O ‘caso da Rua do Carrião’ como foi chamado levou à perda de influência do juiz Veiga. As conjuras e suspeitas não se conseguiram provar. Veiga segue para a Relação, e dali para o Supremo Tribunal de Justiça, onde se reforma.

 

Conhecedor dos meandros do Paço e das antecâmaras dos republicanos, perguntado pelo jornalista Rocha Martins sobre se não escreveria memórias, respondeu através de um papel rabiscado, símbolo da sua discrição: “nunca!”

 

Francisco Moita Flores: “Ser militante PSD? Nem pensar!”

Recandidata-se à Câmara Municipal de Santarém o mais mediático ex-polícia português. A semana passada foi acusado de fazer favores a amigos autarcas e maçons. Responde: “Conheço bem as intenções de quem escreveu e do seu informador”.

 

Francisco Moita Flores mantém uma boa disposição serena. O seu nome voltou de novo à ribalta: a polícia apanhou-o nas escutas ao caso da venda de um imóvel dos CTT em Coimbra por um valor muito superior ao que valia. Moita Flores foi escutado e apontado,  pela revista “Sábado” como maçon que faz favores a amigos. A “O Diabo”, o autarca de Santarém responde a esta e a outras questões, e explica porque voltou atrás na decisão de abandonar a Câmara Municipal de Santarém. Para quem o critica por estar mais tempo na televisão do que na Câmara, também tem resposta.

 

O Diabo - Recandidata-se à Câmara Municipal de Santarém depois de, a meio do mandato, ter chegado a afirmar que não o faria. O que o fez mudar de ideias?

 

Francisco Moita Flores - Alteraram-se as circunstâncias. Não só se geraram em vários sectores sociais e políticos vários movimentos de apoio à minha recandidatura, como começaram a chegar novos projectos, sobretudo depois das negociações com o governo e as autarquias a propósito da transferência do aeroporto para Alcochete, que abrem desafios que Santarém tem de vencer. E assim, abandonando o meu próprio egoísmo, que me interpela no sentido de regressar à minha vida como escritor e professor, decidi-me pela recandidatura.

 

O Diabo - Vai a votos 15 dias depois das legislativas. Considera que o sentido de voto a 27 de Setembro pode condicionar depois os eleitores a 11 de Outubro, com a teoria de “não por os ovos no mesmo cesto”? Se o PSD ganhar as legislativas é pior para si?

 

Francisco Moita Flores -  Não, não acho. São coisas distintas. É pena serem duas campanhas sem intervalos, mas é bom que se realizem em dias diferentes. Ao contrário de uma certa análise de sofá, de analistas que não conhecem o palpitar do país, as pessoas são inteligentes e percebem aquilo que está em jogo. As eleições autárquicas estão bem longe do carácter ideológico que vive no centro do debate para as legislativas. A política de proximidade não admite outra coisa que não seja resolver problemas concretos. Daí, que pesem pouco as maiorias que funcionam no Parlamento. Sempre existiram bons presidentes de câmara de todos os partidos e existem incompetentes em todos os partidos. Se o PSD ganhar as eleições, terei a mesma forma de actuar que tenho com a actual maioria. Aquilo que for bom para Santarém merece o nosso aplauso. Aquilo que não for bom para Santarém, terá a resposta que cada problema merecer. Enquanto autarca, o meu compromisso é com Santarém e nada mais. Foi assim que aceitei ser apoiado pelo PSD. É assim que continuará a ser com ou sem PSD no Governo.

 

O Diabo - A sua independência é para manter ou já sente o apelo de militar no partido que o apoia, o PSD?

 

Francisco Moita Flores - Cada vez mais independente. Há uns anos ainda hesitei. Agora, nem pensar. Apesar do respeito pela importância dos partidos no funcionamento do sistema democrático, aquilo a que tenho assistido, vivido e testemunhado nos últimos quatro anos convenceu-me definitivamente que não estou disponível para ser militante de causas encarceradas nas perspectivas imediatas deste ou daquele partido. Apoio aquilo que acho bem feito ou bem desenhado do ponto de vista estratégico, estou fora de coisas que não me entusiasmam e, na maioria dos casos, nem me interessam.

[continua na edição impressa]