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Camarate: CDS e Freitas forçam novo inquérito

PSD e CDS desejam continuar o trabalho de Nuno Melo no Parlamento. Entretanto, o autor confesso da bomba e o operacional Farinha Simões continuam em contacto. O principal suspeito, Lee Rodrigues, está a monte.

 

Vinte e nove anos depois da queda do avião Cessna, em Camarate, que vitimou o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, o PSD e o CDS querem reabrir o inquérito parlamentar à misteriosa morte dos dois governantes e de suas companheiras.

 

Freitas do Amaral, que assumiu a chefia do Governo depois da morte de Sá Carneiro, vem agora pedir à Assembleia da República que retome as investigações: “Há três questões que não foram investigadas até ao fim e estas devem ser retomadas pela Assembleia da República”. Para o antigo governante e presidente do CDS,  o relatório dos peritos internacionais sobre os equipamentos técnicos do avião e explosivos, a investigação da venda de armas, em 1979-80, e do Fundo de Defesa Militar estão por esclarecer. Em declarações públicas no passado mês Freitas diz ainda que a falta de conclusões judiciais representa “uma nódoa na credibilidade e na seriedade do Estado português”, e defende que o Parlamento “é a única instituição que, através de sucessivas comissões parlamentares de inquérito, foi aprofundando as investigações” e que encontrou “indícios muito fortes para haver atentado”.

 

A mesma tese é defendida por Nuno Melo. Em declarações a O Diabo o antigo presidente da Comissão de Inquérito e agora eurodeputado do CDS defende que “o trabalho que está feito pode e deve servir de base a uma nova comissão”. Melo está convencido de que “é possível apurar a verdade” ou, pelo menos, “encontrar respostas” concretas às dúvidas expressas também por Freitas do Amaral. Melo, no entanto, alerta: “Se em relação a Camarate já se descobriu quase tudo o que seria possível pela via parlamentar, questão diversa é o Fundo de Defesa do Ultramar”.

 

Um dos advogados das famílias, Ricardo Sá Fernandes, está convencido de que só com uma investigação a este fundo será possível descobrir o que levou à queda do Cessna. Sá Fernandes lamenta que a investigação à venda de armas simultânea ao Irão e Iraque, “que estava a ser investigada por Adelino Amaro da Costa à data da sua morte, esteja ainda por esclarecer”.

 

Esteves e Farinha Simões ainda se encontram

 

Outro dos indícios que não foi seguido é o relatório dos peritos internacionais, que encontrou provas de que um objecto incendiário foi colocado dentro do Cessna e que os membros inferiores dos pilotos mostravam resíduos metálicos estranhos ao corpo do avião. José Esteves, autor confesso da bomba incendiária que lhe foi encomendada para colocar no Cessna, diz que o seu engenho “foi alterado” e adianta estar “arrependido” de ter feito o que fez. “Se soubesse que era para atingir Adelino Amaro da Costa, nunca tinha preparado esse engenho”. A pequena bomba foi feita para detonar assim que o avião começasse a sua subida. Mas Esteves, em declarações em 2006, a última vez que falou sobre o caso, adiantou que “o engenho foi alterado”, pois o que montou na sua marquise não provocaria a queda do aparelho.

 

A bomba terá sido entregue a Farinha Simões, outro dos nomes também citado no processo. Simões está hoje detido em consequência de uma condenação por sequestro e violação de domicílio da jornalista Margarida Marante. Continua a afirmar a sua inocência neste caso, mas já admitiu ter participado com José Esteves na Operação Camarate. Ainda hoje os dois continuam a ser amigos, tal como documenta a foto que O Diabo publica nesta edição – um encontro entre estes antigos operacionais de segurança, no Algarve, enquanto degustavam uma sapateira à mesa de uma conhecida cervejaria – pouco antes de Farinha Simões ter sido preso.

 

Cid sem esperança

 

Entretanto, o cartunista e ilustrador Augusto Cid declara-se sem esperança na reabertura judicial do processo. “A Assembleia concluiu pela teses de atentado e dificilmente poderia haver acordo para retomar os trabalhos. Foi pena que nesta investigação não tivessem sido ouvidos os peritos estrangeiros, porque não houve tempo, com a queda do Governo [de Santana Lopes]”, disse.  O caso está agora nas mãos do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e Cid vê, nessa última instância, alguma luz: “É aí que nós estamos à espera de uma decisão e de uma avaliação do que aconteceu aqui. Pode ser que com uma decisão positiva de Bruxelas venha a desencadear um outro processo de investigação”. 

 

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Kissinger e as armas

Frederico Duarte Carvalho, jornalista e investigador

 

O ex-secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, tem de ser ouvido sobre Camarate. O testemunho desta importante figura internacional é obrigatório para esclarecer as informações que o ex-chefe de Gabinete de Adelino Amaro da Costa, coronel Hugo Rocha, transmitiu em audiência à porta fechada durante os trabalhos da VIII comissão de inquérito parlamentar, em 2004. São informações que vieram a público através do livro editado pela Assembleia da República, em 2005, que reunia o essencial de todas as comissões. E, em Maio de 2007, essas informações surgiram com mais detalhe na biografia que Hugo Rocha publicou um ano antes de falecer.

O livro “Recordações – Militar, Diplomata, Governante”, editado pela Prefácio, teve pouca cobertura jornalística. Uma busca pela Internet com o nome “coronel Hugo Rocha” e “Camarate” não revelará qualquer notícia arquivada nos endereços electrónicos dos órgãos de Comunicação Social nacionais. Afinal, o que diz Hugo Rocha sobre Kissinger e qual a importância deste último no mistério de Camarate?

Hugo Rocha revela que, a 2 de Outubro de 1980, dois meses antes de Camarate, houve uma reunião secreta entre Henry Kissinger e Adelino Amaro da Costa, no ministério da Defesa, ao Terreiro do Paço. Foi só a 26 de Novembro, uma semana antes de Camarate, que Adelino Amaro da Costa revelou ao coronel, numa reunião à porta fechada, o conteúdo da conversa com Kissinger: o negócio de armas para o Irão. Afinal, a conclusão que, em 2004, a VIII comissão de inquérito parlamentar, na altura presidida pelo actual eurodeputado centrista Nuno Melo, afirmava ser o provável móbil do atentado. Adelino Amaro da Costa proibira essa venda, mas, no dia seguinte à sua morte, foram enviadas armas de Portugal para o Irão.

Hugo Rocha quando revelou a reunião pela primeira vez na biografia acrescentou: “Este encontro, só agora descrito, reveste-se de importância histórica. Para bem das famílias das pessoas que morreram. Para bem da verdade. Para bem da Justiça. Para bem de Portugal”.

Com este pensamento na mente e como também estou a preparar um livro sobre Camarate, entrei recentemente em contacto com Henry Kissinger. Telefonei para o seu gabinete em Nova Iorque, falei com a secretária que me pediu que enviasse um e-mail a explicar o assunto, elaborei a missiva explicativa, traduzi as palavras de Hugo Rocha – anexei a cópia das páginas em causa - e fiz três perguntas que, fundamentalmente, pediam a confirmação da reunião em Lisboa, a 2 de Outubro de 1980, o teor da mesma e, por fim, um comentário ao caso para que se fizesse verdade histórica sobre o assunto. A resposta veio pouco tempo depois via e-mail: a secretária comunicava-me que o Dr. Kissinger apreciava a minha consideração pela sua pessoa, mas estava “indisponível” para participar numa entrevista sobre o caso.

Se Kissinger já tem em Van Rompuy a pessoa a quem telefonar quando quiser falar com a Europa, se um dia quiser falar sobre Camarate, tem igualmente agora o meu número de telemóvel…

Entrevista a José Ribeiro e Castro

“CDS deve chegar agora aos 20 por cento”

O histórico dirigente do CDS avisa que o partido não vai fazer acordos com o PS: “As pessoas rir-se-iam de nós se o fizéssemos” e aposta tudo na tomada do eleitorado do PSD. “Se o CDS fosse mais forte, não estávamos dependentes da esquerda, depois destas eleições”. Uma entrevista exclusiva, no regresso de José Ribeiro e Castro ao Parlamento.

 

O Diabo – Foi um candidato surpresa quando se apresentou nas listas pelo Porto, depois da luta interna que travou com Paulo Portas. Está contente?

José Ribeiro e Castro – Estou. E estou particularmente contente com a minha eleição mas, mais importante, com a eleição de mais dois deputados pelo círculo do Porto.

 

O Diabo – A união do partido, que o juntou a Paulo Portas e a Telmo Correia, foi fundamental para este resultado?

José Ribeiro e Castro – É um resultado de todo o partido e de todos os que fazem parte dele. O que se pode esperar agora é mais crescimento. O CDS perseguia há bastante tempo este objectivo, que era ultrapassar a fasquia psicológica de dois dígitos. Isto significa que o CDS entra definitivamente num outro campeonato.

 

O Diabo – Que campeonato é esse?

José Ribeiro e Castro – É um campeonato de ter a meta de passarmos para além dos 20 por cento. Não creio que seja já na próxima eleição, mas na seguinte, por exemplo. Estamos num caminho de crescimento para ser o mais forte referencial político em Portugal. Creio que é a isso que o partido deve aspirar. Esta votação é bastante encorajadora. Agora este caminho de que falo exige bastante trabalho e não se resume apenas a eleições, mas a crescimento em ligação com a sociedade civil, de intervenção, em aumentar a capacidade de propostas e reforçar o prestígio. Há um encorajamento nesta votação que o partido e toda a sociedade portuguesa têm de saber ler.

 

O Diabo – Que sinais são esses?

José Ribeiro e Castro – É o facto de ser a melhor votação do partido desde 1983. Regressámos a tempos históricos. Depois, desde 1985 que não tínhamos deputados sozinhos em Coimbra, nunca tínhamos tido em Faro, e na Madeira só em 1976… É um partido finalmente nacional. E embora não tenha conseguido eleger deputados no Alentejo, por exemplo, consegue ali votações muto interessantes e importantes. Consegue em muitos distritos duplicar a votação. Por isso, o CDS é hoje um partido nacional. Os eleitores sabem o que querem do CDS e o partido não os pode defraudar. Há um crescimento uniforme.

 

O Diabo – Sendo o CDS o único partido sozinho que pode dar maioria ao PS na Assembleia…

José Ribeiro e Castro -…não é verdade, o PSD também pode…

 

O Diabo –…é verdade, mas o PSD está prestes a ficar sem líder e o CDS tem uma liderança estável e um caderno de encargos claro. E perante isto, espera-se do seu partido uma possível viabilização de governo. Concorda?

José Ribeiro e Castro – Isso seria um desapontamento para o eleitorado do CDS. Creio que a verdade é que o País, sendo o CDS o grande vencedor político das eleições, virou à esquerda. O mais votado é o PS e a Assembleia voltará a ter uma maioria de esquerda. Sou um democrata mas lamento este resultado. É um mau resultado para Portugal, ninguém esperava que isto acontecesse, mas temos que respeitar. E se o eleitorado decidiu votar à esquerda, então é isso que deve ter. As tentações de bloco central que sejam procuradas com o PSD. O CDS tem um caminho a percorrer e não deve agora misturar as coisas. Nos próximos dias muito se vai falar do interesse do partido e do interesse nacional. Ora, eu julgo que o interesse nacional passa por um CDS forte na oposição e não a servir os interesses de outro partido. E o CDS deve fortalecer-se cada vez mais como opção à direita e isso é que cria prestígio e confiança dos portugueses na política. As pessoas rir-se-iam com outra posição do nosso partido e diriam: “lá estão eles, outra vez…”. Depois da linha que o CDS apresentou, depois de tudo o que fez, seria ridículo entrar numa entente com o PS. Face a este resultado extraordinário e brilhante, acho que o CDS deve seguir a sua linha própria.

 

O Diabo – É o primeiro passo, depois de 15 anos consigo, com Paulo Portas e Manuel Monteiro, para criar o grande partido democrata-cristão que substitua o PSD que está a esvaziar-se ideologicamente?

José Ribeiro e Castro – Eu sou do CDS e sempre tive o sonho — e mais do que o sonho, porque não me deitei a dormir —, que o partido deve ser a mais forte referência política em Portugal. O meu pensamento e a minha convicção é esta. Portanto, desejo que o CDS faça esse caminho que acaba de descrever. A votação deste domingo é um sinal nesse sentido e significa confiança e esperança para que o CDS consiga isso. Mas agora o partido tem de se preparar para conseguir responder às expectativas criadas – e tem todas as condições para o fazer. Não vejo no PSD um adversário, mas se o CDS tivesse ficado mais à frente nos resultados nas eleições de domingo, hoje o País não estaria refém destes resultados.

 

Paulo Portas a "O Diabo"

“Não quero o governo a qualquer preço”

 

 

Paulo Portas, líder do CDS, assegura que não vai deixar a liderança do partido e está pronto a apresentar um caderno de encargos ao PSD para poder viabilizar um governo de direita

 

O Diabo - A campanha eleitoral tem sido feita volta do TGV, dos espanhóis, das pequenas polémicas diárias sobre as escutas. Era isto que esperava? Que revela este discurso sobre a qualidade política do País?

Paulo Portas - Revela partidos que, durante os últimos quatro anos, nunca falaram seriamente de temas como a Segurança, a Agricultura, ou que só neste Verão se lembraram das PMEs. Destes partidos, não se pode esperar muito mais. A questão do investimento do TGV é importante se, e apenas, se apresentar – como fez o CDS – as alternativas. Eu esperava que se falasse no desemprego. Afinal Portugal tem, neste momento meio milhão de pessoas desempregadas, uma percentagem assustadora de jovens qualificados no desemprego… a esquerda esquece-se sempre que quem cria o emprego são os empresários, que são constantemente maltratados.

 

O Diabo – Afinal, qual a sua ideia para Portugal? Onde quer que Portugal chegue, caso tenha a oportunidade de liderar o País?

Paulo Portas - O País, que José Sócrates nos deixou, está mais endividado e tem menos crescimento, tem mais desemprego e menos empresas, mais dependência do exterior e menos exportações, mais rendimento mínimo e menos pensões, mais criminalidade e menos justiça. Queremos um país com mais motivação dos professores e mais exigência nos alunos, como mais autoridade e menos violência. Uma comunidade que possa acreditar na Justiça, com segurança para haver liberdade, com reguladores financeiros que dêem confiança no sistema financeiro. O CDS quer valorizar quem trabalha, com menos impostos e impostos mais amigos da Família, um País que não abandone o mundo rural nem os recursos do mar.

 

O Diabo - Que temas quer ver ainda discutidos na campanha?

Paulo Portas - A Família, é um bom exemplo de um tema que tem estado longe da discussão política, assim como a óbvia falta de confiança na Justiça ou os problemas da Saúde. Acreditamos que, na Educação, se tem de lutar pela autoridade dos professores nas salas de aulas e avaliar também os programas escolares actuais. Um tema que o CDS tem levantado, mais uma vez, é a importância, para um País como o nosso, das políticas do Mar.

 

O Diabo - O CDS teve o papel de moderador do PSD a partir de 2002, nos governos liderados por Durão Barroso e Santana Lopes. Está disposto a repetir a experiência?

Paulo Portas - Já o disse, sei o que é estar no Governo e não tenho a ambição de lá voltar a qualquer preço. Só vale a pena se o CDS tiver mais força, nos votos, para podermos cumprir o que chamamos o nosso “caderno de encargos”, as nossas prioridades para Portugal.

 

O Diabo - Caso o CDS consiga ser Governo assume a pasta da Agricultura?

Paulo Portas - O desastre do ministro actual é tão grande, tão terrível, que uma coisa lhe asseguro, vamos ter de ter um ministro que lute pelos agricultores, não contra eles, que fale com quem trabalha a terra, não os ignore, que lute pelos apoios comunitários para Portugal, não os desperdice, que seja activo, em vez de atrasar todos os prazos, que acredite na agricultura, e não um que desista do sector agrícola.

 

O Diabo – Viabilizará um governo minoritário do PS ou do PSD, sem estar no Governo?

Paulo Portas -  O CDS já provou que é um partido que dá estabilidade e que tem responsabilidade, mas não abandonamos as nossas exigências nem os valores em que acreditamos. Está na altura de virar a página deste governo socialista, não podemos perder mais oportunidades nem desprezar quem trabalhou uma vida toda e vê as pensões mínimas esquecidas.

 

O Diabo – O seu apelo ao voto indica que há pessoas que concordam consigo mas não querem votar no CDS. Como explica isto?

Paulo Portas - Deve votar-se no partido que pensa o mesmo que nós, em que nos identificamos no discurso e damos razão. Quem pensa o mesmo que o CDS tem razões para acreditar que faremos um bom trabalho… o nosso trabalho, ao longo da última legislatura, mostrou bem que somos o partido mais trabalhador, com mais iniciativas. O voto serve também para censurar quem merece ser censurado e premiar quem merece ser premiado. José Sócrates governou mal, tem de levar um cartão vermelho. O CDS foi quem mais trabalhou na Oposição, por isso, agora, pedimos mais força.

 

O Diabo – Se o CDS mantiver o número de deputados,  já fica contente?

Paulo Portas -  O CDS vai subir, vamos ter mais votos, mais deputados.  Estou a percorrer o País e posso garantir-lhe que há cada vez mais pessoas a pensar como nós. O CDS tem de ter mais votos que a esquerda radical, é a única forma de impedir o regresso a um tempo arcaico – de nacionalizações e controlo estatal – que alguns continuam, em 2009, a propor.

 

O Diabo – E se tiver menos votos que nas eleições legislativas anteriores, abandona o cargo de presidente do Partido?

Não se preocupe, isso não vai acontecer. Ouça, nas últimas eleições davam 2 por cento ao CDS e tivemos quatro vezes isso!

 

As ligações politicamente perigosas das grandes empresas

Há empresas privadas que apoiam financeiramente um partido. Às vezes, não vá um qualquer outro Diabo tecê-las, distribuem dinheiro por dois e mesmo mais forças políticas. As ligações do PS e PSD a essas entidades estão também em jogo nas legislativas.

 

Jorge Coelho é, talvez, a face mais visível da questão. Ex-ministro de António Guterres, o socialista estendeu o tapete vermelho a José Sócrates, quando este ambicionou conquistar o lugar de líder do PS. Aquele que uma vez disse “quem se mete com o PS, leva”, é hoje o homem-forte de uma das maiores empresas portuguesas de construção civil, a Mota Engil. A entrega até 2042 do terminal de carga de contentores de Lisboa à empresa de Coelho levantou dúvidas políticas à oposição. A câmara da capital, liderada por socialistas, tal como o País, foi acusada de entregar de mão beijada a um antigo camarada um valor 407 milhões de euros. Mão beijada, entenda-se, dizia a oposição por o contrato ter sido por ajuste directo.

 

Mas a Mota Engil não é um exclusivo do PS. Apesar de Jorge Coelho ser a sua face, fonte do CDS garante a “O Diabo” que a empresa fez “um pequeno contributo” para financiar a campanha do CDS. Uma opção comum às grandes empresas que, em tempo eleitoral, decidem entregar quinhões diferenciados aos partidos.

 

O PS guarda, porém, mais trunfos na manga. A administração do Banco Comercial Português, agora Millennium, está do seu lado. O primeiro Vice-presidente da instituição é Armando Vara, velho amigo do actual primeiro-ministro, que chegou a ser colega de Governo de Sócrates, nos tempos em que António Guterres era chefe do executivo. Ao grupo juntava-se Joaquim Raposo, ora presidente da Câmara da Amadora e Edite Estrela, agora eurodeputada.

 

A calma imposta pelo governo PS ao BCP, banco antes liderado pelos conservadores Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, foi o resultado do exercício do poder socialista. O BCP debatia-se com graves problemas, que levaram os accionistas a pelejarem-se na praça pública. O acordo para instalar uma nova administração foi negociado entre os dois partidos do Bloco Central. Quando o PS assumiu influência da administração do BCP, um antigo ministro de Aníbal Cavaco Silva tomou a cadeira do poder do maior banco público: a Caixa Geral de Depósitos.

 

Aliás, as influências partidárias nos bancos não acabam aqui. Mira Amaral, ex-ministro do PSD, dirige o maior banco privado angolano em Portugal, o BIC. Fernando Ulrich, do BPI, é um simpatizante social-democrata. E Ricardo Espírito Santo, que se colocou várias vezes do lado das opiniões laranjas, tem agora sorrido aos socialistas, colando assim o “seu” BES ao lado dos do PS. Só Nuno Amado, do Santander Totta, se tem mantido fora das discussões políticas nacionais – mas, afinal, o seu banco é controlado a partir de Espanha.

 

Do outro lado da fronteira também chegou um dia a nomeação de Pina Moura, ex-ministro de Guterres, para a Mediacapital, quando a Prisa, empresa espanhola, adquiriu o canal de televisão TVI a Miguel Paes do Amaral. Os três canais portugueses têm, aliás, um alinhamento político suave mas definido. A SIC é liderada pelo antigo primeiro-ministro do PSD, Pinto Balsemão. A TVI está entregue à Prisa, próxima do PSOE, partido socialista espanhol, mas nos seus quadros intermédios pontificam ainda muitos directores e gestores escolhidos por Paes do Amaral: Isaias Gomes Teixeira ou Luís Nobre Guedes – e essa maioria é afecta ao CDS. Já a RTP é, na velha versão nacional, de quem a apanhar. A direcção da informação do canal está com José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. O primeiro sem expressão pública política, mas com uma guerra aberta com o PSD sobre a independência da estação.

 

Há nas empresas privadas mais amigos dos dois maiores partidos. A Compta, por exemplo, que lida com sistemas informáticos e largos e chorudos contratos com o Estado. Armindo Monteiro, o dono da empresa, admitiu já financiar as campanhas dos dois principais partidos, PSD e PS.

 

O PSD recebeu já dinheiros da empresa Somague. A confissão pública foi feita depois da campanha dos sociais-democratas, com Durão Barroso a concorrer a primeiro-ministro. A Somague é uma das cinco maiores empresas de construção portuguesa e depende, como as outras, das grandes obras públicas para sustentar os seus negócios. À época, o “Público” relatava que o PSD mal assumiu o poder, mandou suspender todas as obras de auto-estradas adjudicadas pelo PS, desejo expresso pela empresa durante a campanha eleitoral.

 

A Bragaparques é outra empresa que, em 2005, financiou com cerca de 20 mil euros a campanha do PSD em Lisboa. A detentora dos terrenos da antiga Feira Popular viu-se envolvida num processo judicial por tentativa de corrupção, quando tentou convencer José Sá Fernandes, o ex-vereador do Bloco de Esquerda, recorrendo a meios informais e pecuniários, a ser-lhe favorável em votações futuras.

 

Os sociais-democratas têm também figuras do passado interessadas nas obras futuras. O ex-ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, é hoje presidente da Lusoponte, que domina em exclusivo as travessias sobre o rio Tejo que sirvam a grande Lisboa. Ferreira do Amaral é um dos principais impulsionadores da mudança do Aeroporto da Ota para Alcochete e, por arrasto, da terceira travessia do Tejo, a construir-se entre o Barreiro e Chelas. Coincidência ou não, a nova ponte é aquela em que PSD e PS estão totalmente de acordo. Pode vir a ser construída pela Mota Engil – por causa da larga experiência da empresa nesse campo –, e gerida pela Lusoponte. Embora haja mais concorrentes à obra, como a Somague.


Por fim, os pequenos partidos.

 

O CDS tem em Pires de Lima, gestor da UNICER, um benemérito reconhecido. O gestor admitiu já entregar várias quantias de dinheiro aos partidos, entre os quais o “seu” CDS. Foi deputado pelos populares e chegou a ser falado com sucessor de Paulo Portas, até acontecer o fenómeno Ribeiro e Castro. Pires de Lima tem uma carreira brilhante no sector das bebidas engarrafadas, tendo resgatado a Compal de um caminho perigoso e ter conduzido a empresa a um sucesso seguro.

 

Também António Lobo Xavier, administrador da Sonae, admite contribuir pessoalmente para os fundos do CDS, partido ao qual pertence. Mas a Sonae, de Belmiro de Azevedo, não admite defesa de qualquer tendência política. Já o filho e provável sucessor de Belmiro, Paulo Azevedo,  declarou publicamente que sente “simpatia” pelo actual primeiro-ministro, José Sócrates.

 

Lóbi sem regulação

 

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, onde as empresas dão abertamente dinheiro aos partidos – e são escrutinadas por isso -, em Portugal as doações partem muitas vezes dos cofres pessoais dos gestores. Uma empresa raramente entrega dinheiro e se liga a um partido, mas é comum os empresários pagarem às cores por quem nutrem maior simpatia.

 

Documentos consultados por “O Diabo” no Tribunal de Contas não revelam a origem real das “doações” que os partidos sustentam ter recebido – quer para as campanhas eleitorais, quer para seu fundo maneio. A verdade é que, apesar de existir, a actividade de lóbi não está legalizada nem reconhecida em Portugal. A vida profissional de um ex-ministro é sempre mais frutuosa do que era antes de assumir uma pasta governativa. Assim o confessou Dias Loureiro, ex-ministro da Adminsitração Interna de Cavaco Silva, que foi administrador no grupo Banco Português de Negócios. O BPN era tido como “o banco do PSD”, porque no seu quadro dirigente pontificavam ex-ministros e ex-secretários de Estado da maioria cavaquista. A sua derrocada e subsequente nacionalização foi um duro golpe para os sociais-democratas, que temeram fortes consequências políticas. Mas a mudança de caras   com Paulo Rangel nas Europeias a fazer a despesa toda de tentar olvidar a Comissão de Inquérito ao BPN –, salvou o PSD de sofrer golpe político nas urnas.

 

Por fim, a esquerda radical. O PCP financia-se fortemente pelas quotas e por cativar parte do ordenado dos cargos electivos que os seus militantes ocupam. A sua maior receita pontual provém da festa promovida pelo jornal “Avante!”. E foi por causa dessa receita sem recibos que esteve para ser aprovada uma lei de financiamento que permitia aos partidos receber um milhão de Euros sem prestar contas da sua origem. A lei passou na Assembleia mas não passou por Cavaco, que a vetou.

 

88 milhões em propaganda nas Legislativas e Autárquicas

A democracia paga-se

 

O custo, em euros, da propaganda política no próximo mês e meio pagava dois hospitais. Do bolso do contribuinte saem 61 milhões.

 

A campanha para as eleições autárquicas vai custar 75 milhões de euros. Destes, 60 milhões são gastos por PSD e PS: 30 milhões a cada um. A CDU vai pagar 10 milhões, o CDS 700 mil e o Bloco de Esquerda perto de dois milhões.

 

O gasto dos principais partidos subiu em relação às últimas eleições locais, com a excepção do CDS, que concorre a um grande número de autarquias em coligação com o PSD e aproveita a boleia da propaganda, poupando aqui para apostar nas legislativas.

 

Quando se soma o custo das autárquicas com o das legislativas, o valor da propaganda política ascende a 88 milhões de euros. É o valor dos lucros do BPI este ano, ou o custo de dois hospitais iguais àquele cuja primeira pedra o Governo lançou na semana passada, em Lamego.

 

A subvenção estatal para as eleições autárquicas será de 61 milhões de euros. É o voto mais caro de todas as eleições. Por votante, o Estado gasta 12,2 euros por voto nas autárquicas, 1,8 euros nas legislativas e apenas 86 cêntimos nas europeias.

 

O orçamento deste ano para as eleições autárquicas aumentou 15 milhões de euros face a 2005. O CDS, porém, quer acabar com estes gastos. Paulo Portas propôs já o fim dos cartazes de campanha, enquanto Pedro Santana Lopes irá apostar em menos cartazes, substituindo-os por painéis electrónicos, o que permite mudar a mensagem ao longo dos 12 dias de campanha.

 

Só em Lisboa, mesmo assim, o PSD vai gastar 670 mil euros na campanha, dos quais 78 mil oriundos de donativos. Os restantes 592 são dinheiro de impostos. Já o PS gasta com António Costa 540 mil euros, com 80 mil euros a entrar nos cofres, via donativos.

 

A campanha eleitoral para as eleições autárquicas começa na segunda-feira, 28 de Setembro, imediatamente depois das legislativas. Grande parte dos suportes de campanha vai ser usado pelos partidos para colar nova propaganda. Vai ser assim em todas as cidades capital de distrito.

 

Quem fica a ganhar é o PSD e o CDS, que se coligaram em 60 municípios. Estas coligações vão duplicar o número de cartazes, pois as estruturas de suporte de propaganda, até ali divididas em duas mensagens, passarão a ser usadas por uma única candidatura.

O que mais tem custado ao PS, no entanto, é o custo de produção e concepção das campanhas. Os autores de fotografias, desenho de cartazes e concepção global de imagens ganham nove milhões de euros com os socialistas. Curiosamente, o PSD apenas paga 205 mil euros a estes profissionais, o que revela o afastamento do partido das agências de comunicação e dos assessores de imprensa externos.

 

 

O CDS gasta, mesmo assim, 70 mil euros em concepção de campanha, contra os 24 mil euros do Bloco de Esquerda. Só a CDU é que não paga um tostão a designers, assessores e equiparados. Zero absoluto é quanto o PCP e Os Verdes gastam a desenhar cartazes. A explicação é simples: o PCP tem um departamento gráfico e de concepção de campanhas dentro do partido, há mais de 35 anos, profissionalizado e com ajuda de voluntários.

Cenários pós-eleitorais

Resultados ditam futuro dos líderes

 

E se eu perder? – perguntam-se os líderes dos principais partidos concorrentes às legislativas. Sócrates teria de engolir a derrota e carregar o partido às costas, numa penosa travessia do deserto. Manuela sairia pelo seu pé. E Portas avançaria com uma surpresa na noite das eleições…

 

A 25 dias das eleições legislativas já se afiam facas para a noite eleitoral. No CDS, alguns destacados militantes esperam avidamente o resultado para saber se se “colam” ao poder (no caso de uma vitória) ou se avançam com um pedido de congresso extraordinário, caso Paulo Portas obtenha um resultado inferior ao das eleições passadas. “O Diabo” sabe que um conjunto de apoiantes do jovem João Almeida está apenas à espera de um mau resultado para pedir uma reunião magna do partido e tentar substituir o líder.

 

Os rivais de Paulo Portas arriscam-se, contudo, a enfrentar duas surpresas. A primeira, com os próprios resultados eleitorais: “O CDS vai ter melhor resultado que nas eleições anteriores”, garante um dirigente do partido a “O Diabo”. “A campanha está a correr melhor. Isto não quer dizer que venhamos a somar, com o PSD, uma maioria que dê para governar. Mas que vamos subir de votos, isso vamos”.

 

Mas Paulo Portas, que não entrega a terceiros a gestão da sua carreira política, tenciona antecipar-se com uma outra surpresa: a convocação de um congresso extraordinário na própria noite das eleições, qualquer que seja o resultado.

 

“É natural que um líder que ganha se queira ver novamente legitimado”, explicou um dirigente do CDS a “O Diabo”. Mas se perder em toda a linha, Portas pode mesmo sair. Outro militante do partido assegura ao nosso jornal: “Não há oposição interna que se veja, as coisas estão unidas, mas Paulo Portas já disse que ou conseguia um bom resultado e era governo, ou ia-se embora. O problema é que Paulo sente que uma dezena de anos depois, ou as pessoas entendem a mensagem, ou o problema é do mensageiro, e então deve afastar-se”.

 

Coelho e Rangel

 

Já no PSD, as contemplações face a uma hipotética derrota de Manuela Ferreira Leite não seriam grandes. Caso a líder perdesse para o PS as eleições, o partido avançaria mesmo para congresso extraordinário. Depressa e em força. Tanto mais que é conhecida a determinação de Manuela Ferreira Leite de não se eternizar na liderança num cenário de oposição. O que preocupa a oposição interna é o pouco tempo que restaria ao novo líder até às próximas legislativas. Marcelo Rebelo de Sousa já avisou, sobre o programa do PSD: “É um programa para as eleições de 27 de Setembro, mas é programa que me parece pensado para a hipótese possível, plausível, de sair um Governo minoritário e de haver novas eleições dois anos depois”, previu o comentador.

 

Ora, com menos de dois anos para preparar alternativa, e sendo provável que um eventual Governo do PS não aguentaria, sequer, um ano, os candidatos Pedro Passos Coelho ou Paulo Rangel – vistos como os mais prováveis sucessores de Manuela teriam pouco tempo para conquistar o partido e o País. Em caso de fracasso eleitoral, se a líder não caísse a 27 de Setembro, por mão própria, cairia no congresso seguinte. Isto deixaria, ainda, o Presidente da República em maus lençóis políticos. Apesar de o “seu” PSD não o desapoiar caso decida avançar com a candidatura a um segundo mandato, Cavaco teria de esperar que Rangel ganhasse para ter apoio explícito. Se fosse Passos Coelho a vencer, Cavaco poderia muito bem ter que suar as estopinhas sozinho… contra um Manuel Alegre revigorado e candidato em pleno do PS.

 

“Carro-vassoura”

 

Quanto ao PS, mesmo que saísse vencedor das eleições do próximo dia 27, teria vida a prazo no poder, com José Sócrates fragilizado. Seria o primeiro líder do PS a não conseguir melhorar resultados de umas legislativas para as outras (excluindo, naturalmente, os casos em que foi derrotado), e teria de carregar o partido às costas” numa penosa travessia do deserto. António José Seguro, Paulo Pedroso, António Costa ou outro candidato que surgisse não quereria servir de carro-vassoura dos despojos socráticos. O jovem Tozé espera, no entanto, ser líder parlamentar na próxima legislatura, caso o PSD vença, preparando-se para futuros combates.

 

À esquerda, só um maremoto poderia afastar Jerónimo de Sousa da liderança do PCP. É cedo para o jovem Bernardino Soares e tarde para o sindicalista Carvalho da Silva, que se vem afastando dos comunistas desde que se doutorou. O maremoto seria, no entanto, ficar em quinto lugar, atrás do Bloco e do CDS. Nesse cenário, Jerónimo regressaria a Pirescoxe, abrindo caminho para a primeira sucessão no PCP na era pós-Cunhal – o maior desafio dos comunistas desde 1975. No entanto, as sondagens internas dos partidos ainda vão dando o PCP à frente do CDS – oxigénio suficiente para se afastarem as hipóteses de sucessão.

 

Resta o Bloco de Esquerda, alicerçado em Francisco Louçã, que habilidosamente vem “desgastando” as figuras de proa do partido e, aparentemente, não tem de enfrentar a oposição de tendências internas – ao contrário do que geralmente sucede nos partidos congéneres europeus. Um mau resultado para o Bloco seria voltar a ter dois ou três deputados. Mas uma votação que faça o BE descer para o quinto lugar – fruto do voto útil da esquerda moderada no PS e não nos bloquistas pode fazer com que Louçã apenas consiga um quarto lugar na tabela, atrás do PCP ou do CDS.

Campanha devora 14 milhões de euros – e o povo paga o grosso da factura

Os gastos dos partidos nas próximas legislativas vão atingir a soma de 14 milhões de euros. A fatia de leão vem dos impostos que todos pagamos: cerca de 9 milhões. Mas construtoras civis e cimenteiras não se fazem rogadas nos “donativos”, na esperança de que os vencedores se lembrem da sua “generosidade”. Conheça as contas dos partidos e saiba como vai ser usado tanto dinheiro.

 

Os cartazes e tempos de antena que dentro de um mês vão encher ruas e ecrãs por todo o País são pagos, em boa parte (mas não a maior), por empresas privadas que têm negócios com o Estado. António Mota, presidente da construtora Mota Engil admitiu já ter “passado cheques ao PS, PSD e CDS”. Não é o único, nem a Mota Engil a única empresa a financiar campanhas partidárias. O jogo das apostas é uma lotaria para quem tem interesses nas decisões do Estado. As empresas olham para este dinheiro, entregue aos partidos, como um investimento. Ao suportar parte dos custos das campanhas, esperam depois um “obrigado” por parte do interlocutor, seja ele da esquerda, da direita ou do centro.

 

A campanha eleitoral, que começa dentro de quinze dias, já tem um campeão de gastos previstos: o Partido Socialista. José Sócrates estima gastar 5,4 milhões de euros em propaganda, dos quais, acredita, 3,13 milhões vêm dos impostos cobrados aos portugueses. A subvenção estatal para os partidos é calculada depois dos votos contados. O PS presume, ao ter apresentado estes números na semana passada, que sairá vencedor das eleições.

 

Já o PSD vai gastar, ao todo, 3,34 milhões de euros em propaganda, dos quais 2,85 milhões serão oriundos dos impostos, ao abrigo da referida convenção.

 

A CDU está confiante que será o terceiro partido português, e estima ganhar um milhão de euros de subsídio estatal. Ao todo gastará 1,8 milhões na campanha. O Bloco de Esquerda diz que vai ser o quarto partido mais votado e, se assim suceder, receberá 900 mil euros estatais,  com um orçamento total de campanha de 994 mil euros. Isto é: dinheiro próprio do Bloco é apenas 94 mil euros. O valor de um pequeníssimo apartamento em Lisboa.

 

Por fim, o CDS. Paulo Portas considera ser “sua obrigação” bater o PCP e o BE, mas prevê gastar 3,34 milhões em campanha, dos quais apenas 807 mil euros provindos dos cofres do Estado – abaixo, portanto, dos seus mais directos rivais à esquerda.

 

Entretanto, o Movimento Esperança Portugal, prevê também receber dinheiro do Estado. O MEP candidatou Laurinda Alves às eleições europeias e ficou a escassos votos dos 50 mil, o número mágico para que o Estado comece a pagar. Para as legislativas, o partido diz que terá direito a 290 mil euros

 

O Estado prepara-se, assim, para gastar com os dois maiores partidos portugueses perto de seis milhões de Euros – dinheiro vindo dos impostos cobrados a todos. O dinheiro do Estado, no entanto, pode ter outras contas. Basta que o PSD consiga mais votos do que o PS, para este orçamento ficar baralhado. Ao todo, a subvenção estatal aos partidos chegará aos nove milhões de euros.

 

Estes números revelam que, apesar do pedido do Presidente da República, a 25 de Abril deste ano, para que os partidos fizessem menos despesas nas campanhas, o PS, o PCP e o BE não ouviram a chamada de atenção e aumentam todas as despesas em propaganda. Ao contrário, o PSD e o CDS reduzem os gastos em relação a anteriores eleições.

 

Pior ainda: o dinheiro que os partidos recebem referente às campanhas só lhes chega depois dos resultados, o que implica que todos os movimentos políticos sejam obrigados a ter dinheiro em caixa para gastar imediatamente.

 

Privados pagam

 

A fatia de leão vem do Estado, já se viu, mas o restante chega das empresas. Além de António Mota, como já se contou, outros empresários se chegam à frente com dinheiro. É o caso de Armindo Monteiro, presidente da Compta, empresa de sistemas informáticos que tem no Estado um grande cliente. Monteiro admite ter dado dinheiro aos principais partidos, apostando assim em vários “carrinhos”. Pires de Lima, antigo deputado do CDS e agora presidente da Unicer, também financia a título particular algumas campanhas. O mesmo acontece com outro destacado centrista, Lobo Xavier, que entrega dinheiro pessoal ao CDS. Na vida profissional, Lobo Xavier é, além de conhecido comentador do programa “Quadratura do Círculo”, administrador de várias empresas, entre as quais a Sonae, de Belmiro de Azevedo.

 

A Somague, outra empresa de construção, também dá dinheiro ao PSD – assim aconteceu no sufrágio em que Durão Barroso foi eleito primeiro-ministro, tendo à época causado incómodo esse financiamento. É que, relatava o jornal “Público”, mal o PSD chegou ao governo, mandou suspender concursos de auto-estradas, adjudicadas pelo PS e protestadas pela empresa financiadora da campanha.

 

Já o banco angolano BIC, dirigido por Mira Amaral, antigo ministro da Indústria do PSD, não está pelos ajustes. O banco, que tem como accionista a família presidencial angolana, tem uma posição muito clara, expressa pelo ex-governante português: “Não financio ninguém e hoje nem as quotas ao PSD pago”, diz, triste com o facto que “não haver transparência nas contas”.

 

Os “outros” financiamentos

 

Mas se as principais empresas, como as de construção, financiam os partidos e apresentam contas oficiais desses donativos, existe outra forma de ajudar os grupos políticos que não deixa rasto. Este ano, todos os partidos com assento parlamentar tentaram mudar a lei de financiamento partidário, que lhes permitia receber mais de um milhão de euros em dinheiro vivo, sem recibos nem justificações, sob total anonimato. A lei passou na Assembleia da República apenas com um voto contra – o do deputado socialista António José Seguro. Cavaco Silva viria a vetar a lei, abrindo mais um fosso entre a sua presidência e a câmara legislativa.

 

A ideia de receber dinheiro sem recibos até àquela quantia é da autoria do PS, mas era um claro favor aos comunistas do PCP, que não sabem onde encaixar o dinheiro recolhido durante a Festa do “Avante!”.

 

Outra forma de o dinheiro entrar nos partidos é através do pagamento de despesas tão simples como as quotas. Se, aparentemente, o pagamento de quotas é irrisório, uma vez que corresponde a uma pequena despesa mensal, torna-se relevante quando numa secção se está a escolher, por voto secreto, o nome que deverá ser apresentado como candidato a deputado… Aí, quanto mais votantes houver de uma lado da barricada, mais hipóteses esse candidato a candidato a deputado tem de vencer. E, por vezes, suspeita-se que não sejam os militantes a pagar as suas próprias quotas, mas algum altruísta que apareça de repente, para garantir a eleição do nome em causa.

 

É nestes lios, suspeitos de ilegalidades, que está metido António Preto, ex-coordenador do PSD de Lisboa, amigo de Manuela Ferreira Leite e contestado candidato a deputado. O Tribunal Central de Instrução Criminal confirmou na semana passada a acusação do Ministério Público a António Preto. Existem, segundo o tribunal, alegados crimes cometidos na campanha para a distrital do PSD de Lisboa, que António Preto ganhou. suspeita de que a recolha de fundos (dinheiro vivo entregue numa mala) tinha directamente a ver com o pagamento de quotas a vários militantes, para que estes pudessem votar.

 

O PS e a Fundação

 

Se no PSD é o caso de António Preto a agitar as águas, no PS é a Fundação para as Comunicações Móveis (FCM) que está sob suspeita. Paulo Rangel, no último debate que travou com o primeiro-ministro José Sócrates na Assembleia, disse que a Fundação tinha “objectivos obscuros”. Mais tarde, o deputado do PSD, e antigo secretário de Estado, Jorge Costa, pediu uma “intervenção imediata” do Tribunal de Contas para que fizesse uma auditoria. “A auditoria que pedimos tem de permitir conhecer o destino dado ao dinheiro público, como e em quê foi aplicado, que campanhas financiou”, alvitrou este social-democrata. O Governo esclareceu que a Fundação é formada pelas operadoras de comunicação nacionais e pelo Estado e que teve, entre outros objectivos, a compra e promoção do mini-computador Magalhães. O caso ainda não está esclarecido.

 

Criada em 2008 para apoiar o plano Tecnológico, a FCM junta o Estado a Sonaecom, a Vodafone Portugal e a TMN. Arrancou com um capital de 25 milhões de euros, tendo-lhe o Estado entregue alguns lucros da Autoridade Nacional das Comunicações (ANACOM) em 2007 e 2008, num valor total de 36,5 milhões de euros. Em Dezembro de 2008 a FCM encaixou 16,5 milhões de euros e, em Abril deste ano, outros 20 milhões.

 

* * *

Casos famosos

 

Em 2005, a empresa Bragaparques financiou a campanha do PSD para a Câmara Municipal de Lisboa, numa quantia estimada em 20 mil euros. Recorde-se que administradores da Bragaparques, detentores dos terrenos do Parque Mayer e envolvidos no negócio da permuta destes com os da Feira Popular, foram acusados pelo vereador Sá Fernandes de tentativa de corrupção para acto lícito.

 

Nesse mesmo ano, o ex-dirigente do CDS-PP Abel Pinheiro, constituído arguido no caso de tráfico de influências na herdade Vargem Fresca, disse ao extinto jornal "A Capital" que nenhum administrador do Banco Espírito Santo (BES) financiou a campanha eleitoral do CDS para as eleições legislativas desse ano. Mais tarde, nas contas do CDS, e durante a investigação deste caso, inspectores da Polícia Judiciária encontraram recibos de donativos passados a cidadãos com nomes tão peculiares como “Jacinto Leite Capelo Rego”. Em causa estava um cheque de um milhão de euros que ninguém sabia como tinha ido parar à conta do CDS.

 

A última conta de campanha mal feita, mas que não se liga directamente com financiamentos, foi de Aníbal Cavaco Silva. Durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, o seu staff usou uma casa em Oliveira de Azeméis cedida por um empresário português emigrado no Brasil. Só que o empresário, Licínio Basto, fora preso pela Polícia Federal brasileira, durante a Operação Hurricane (crime económico). “A casa estava inocente” – e a candidatura de Cavaco Silva garantiu não ter ideia do que fazia o seu benemérito apoiante.

O Sistema não tem inimigos

António Marques Bessa

 

Torna-se importante notar que, desde o Bloco de Esquerda até ao CDS, passando portanto pelo PCP, PSD e PS, não há qualquer posição que desafie o Sistema Político Instalado. Todos se dizem democratas e declaram aceitar as regras do jogo. Parece simples, mas não é.

 

Em 1974 e 1975, o PCP, como partido revolucionário, jogou para impor um Sistema diferente deste e semelhante ao que existia ao tempo na URSS. Vieram a perceber que não conseguiam e passaram a entrar no Sistema, que os seu dirigentes só formalmente criticam com um lista previsível de acusações, todas elas feitas ao nível prático. Segundo esse relato, o Sistema não está aperfeiçoado porque não garante uma lista enorme de direitos dos trabalhadores. O discurso não tem substância porque não ataca o sistema directamente numa linha leninista ou mesmo marxista, como devia ser a matriz do dito partido vermelho da foice e do martelo.

 

O recém criado Bloco, formado pelos trânsfugas de três partidos de extrema esquerda, cujo triunvirato ainda se nota com a hegemonia do demagogo Francisco Louçã, não teve senão que aceitar o Sistema e lutar por votos segundo “as regras do jogo”. Mas mais: vindos de um pensamento totalitário e claramente anti-democrata, passaram imediatamente ao acto de adoração latrêutica à democracia, que segundo eles está imperfeita.

 

Cadeia alimentar

 

O Partido Socialista, vindo dos exagerados excessos dos jovens exilados na Alemanha, como bem descreve Rui Mateus, perceberam desde cedo o significado da riqueza e o peso do dinheiro. E essa compreensão era incompatível com o marxismo que diziam professar. Por consequência, tiveram que enfrentar num combate mortal a máquina treinada e subversiva do PCP, que queria o poder em Portugal e julgava isso possível instrumentalizando o poder militar, e em seguida definir o Sistema em seu favor. Meteram o marxismo e até o socialismo na gaveta da secretária e banquetearam-se, quando no controle do Sistema, com os recursos do Sistema. Definiram a exploração a seu favor, colocando-se no topo da cadeia alimentar. Foram anos em que o Sistema tomava forma e em que quem passava pelo círculo do poder ficava rico, como é hoje manifesto. A diferença de pecúlio entre o momento da chegada ao círculo e o momento de saída é verdadeiramente notável e não se explica pelos ordenados. Com vocação para o Sistema, o PS ajudou fortemente a erguer o Sistema de que beneficia agora. É um defensor do Sistema.

 

O PSD fez uma longa caminhada com os mal vistos pelo Sistema. Forçou a entrada no Sistema contra o PS e o PCP e tratou de colaborar  na adequação do Sistema às suas necessidades alimentares. Na realidade, é um defensor do Sistema, porque o Sistema é também uma criação sua. Também entende que o Sistema tem que ser melhorado, com menos corrupção, mais transparência, mais emprego, mais seriedade. É o discurso do costume. Os slogans são pobres nesta campanha e todos intrinsecamente falsos ou ambíguos. A sua máquina desatinada defende o Sistema, só com alguns não alinhados a apontar o dedo ao sítio certo. São defensores do Sistema.

 

O CDS, depois de muitas mutações, conseguiu sair de uns pequenos papéis colados nas bocas de Metro da cidade de Lisboa e entrar no Sistema como parente pobre. Ensaiou na sua área de interesses todas as estratégias possíveis com Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Ribeiro e Castro e Paulo Portas. Foi do Centro (de quê?), foi partido democrata-cristão fora de tempo, foi a direita possível no Sistema, foi conservador, foi neoliberal, tornou a ser cristão e de direita. Bom, mas é do Sistema. Propõe mudanças no Sistema, mas é democrata.

 

Não se vê no espectro de partidos políticos com representação na Assembleia quem não seja do Sistema e esteja ali para derrubar o Sistema.

 

Oligarquia satisfeita

 

Isto significa o êxito da democracia em Portugal, mas não uma democracia de êxito, de sucesso. É o sucesso do Sistema, mas o Sistema não nos leva ao sucesso. É caro, inoperacional, pouco eficiente, facilmente corrompido e, acima de tudo, proporcionou a formação de uma oligarquia política que se alimenta do Estado e que desempenha essa função sem sentido de serviço a não ser o serviço que faz a si mesma.

 

A oligarquia existente tem mudado muito lentamente no tipo de pessoas, mas revela-se incapaz de se renovar verdadeiramente até pela presença de famílias, cujos descendentes parecem que herdam a faculdade de  subir ao círculo do poderio político.

 

É interessante estudar o modo como a oligarquia reage a uma ameaça de expulsão ou de renovação. A primeira feita com sentido foi a do partido dito PRD, que aproveitou a figura do General Eanes para se desenvolver e ganhar uma parte substancial da Assembleia, preparando-se, como é lógico, para partilhar os bens disponíveis no Sistema. Todos os partidos (claro que queremos significar os dirigentes contentes dos partidos) identificaram o inimigo: os despojos do dia, o festim, estava ameaçado porque chegavam uns sujeitos esfomeados. Tocaram as trombetas e o partido, depois de umas manhosas habilidades, desapareceu por onde veio, espalhando-se o pessoal dirigente por uns tachos adequados para os manter longe da grande gamela, mas satisfeitos. A mais recente experiência é a sanha com que tratam a rapaziada pouco cristã, cabeça rapada, fatos pretos, correntes, do partido nacionalista. Crêem piamente que ali há nazismo, xenofobia, que os miúdos e as miúdas têm quartos que em vez de exibir cartazes dos Bandemónio, ou dos figurões do heavy metal, têm é o preocupante hábito de pintar suásticas nas paredes, talvez meter umas fotos do tio Adolfo em vez do sorumbático e doente Lenine, e para mais são capazes de ter escondido algumas cópias proibidas do Mein Kampf. É tão preocupante que todos querem eliminá-los e nem sequer os querem deixar ter acesso ao Kindergarten político. Isto já é maldade ou querer mostrar serviço, quando o serviço deveria consistir em prender os criminosos que infestam o país e que, contra a opinião dos abalizados e indocumentados comentadores, no Sistema, na minha opinião só vai piorar.

 

Em jeito de resumo: o Sistema só pode ter inimigos nas cabeças quentes dos miúdos enquadrados pelo partido declarado inimigo. Os dependentes do Sistema: são os desempregados com subsídio, ciganos financiados, emigrantes assaltantes, bandidos, funcionários da máquina, enfim, tudo pequena gente. O que consta é que as alternativas a este Sistema nem sequer foram enumeradas ou formulados ou enunciadas. Isto significa que a oligarquia política está satisfeita. Não luta entre si, entende-se. O povão vê o espectáculo mediático da luta política que parece um jogo de futebol morno e sem craques. A oligarquia, depois da festa, vai fazer o festim. O que é importante para a oligarquia é enganar sistematicamente o povão composto infelizmente por uma percentagem razoável de gente boa que ainda não passou à floresta. Só isso preocupará a oligarquia impávida e arrogante.