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Jornal O Diabo

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João Soares: “Não sou herdeiro do soarismo”

Corre por Faro nas próximas legislativas, embora mantenha o entusiasmo pelas suas missões internacionais. Orgulha-se do passado mas diz que o apelido lhe tem sido pesado. Em entrevista a “ Diabo”, o ex-presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, assume-se como homem livre, apenas limitado pela “lealdade afectiva” ao PS. E diz que, muitas vezes, não entende nem acompanha Manuel Alegre.

 

João Soares é um dos poucos portugueses que viajou este verão para o Algarve – para trabalhar. Sucedem-se reuniões, planeamentos, contactos de rua. A sua ligação à terra algarvia é conhecida, tem tradição familiar e o povo, a rua, acarinha o candidato a deputado. Mas João Soares não se acomoda e guarda surpresas: quer para a campanha, quer para a sua vida política futura. Certeiro, analisa a legislatura numa entrevista feita entre a azáfama da preparação da campanha e o sol algarvio.

 

O Diabo - Candidata-se por Faro, embora sempre tenha dito que a sua cidade era Lisboa. O que o convenceu a dar o rosto pelo PS no Algarve? 

João Soares - O nosso sistema eleitoral é o que é. Estou à vontade porque sempre me bati, às vezes sozinho dentro do PS, por mudanças que acabassem com o monopólio dos partidos e com a regra da proporcionalidade tal como existe. Defendo o modelo francês, candidaturas uninominais de cidadãos (assumidas, ou não, depois pelos partidos) e exigência de maioria absoluta, senão segunda volta. Agora, sendo as coisas o que são, nesta matéria, eu sou do PS e tenho consciência do que está em jogo nestas eleições legislativas. A opção entre uma estratégia de desenvolvimento e qualificação das pessoas, do território e da administração publica, num quadro de solidariedade social, ou o regresso ao “cavaquismo”  cru e duro, versão feminina. E quero, devo, participar neste combate pelo futuro da nossa terra. Sócrates convidou-me, aceitei. É tão simples como isto.


O Diabo - A candidatura por Faro, embora digna e importante, aparece num momento em que, de si, se podia esperar uma maior ambição política, atendendo aos cargos que desempenhou. Sente-se menos atraído pelos grandes desafios? 

João Soares - Este combate politico que temos pela frente, daqui a pouco mais de um mês, é um grande desafio para nós todos. E muito especialmente para aqueles que dão a cara na primeira linha, encabeçando as listas do PS. Para mim, o que está em causa é conseguir que a opção dos nossos compatriotas se faça na base de uma análise racional das propostas que se apresentam. E do que o passado recente representa, como garantia de efectiva realização dessas propostas. É, conhecendo as nossas idiossincrasias como povo, nomeadamente a falta de memória, e a tendência para a crítica permanente, uma tarefa de grande ambição política.


O Diabo - Como olha para a actuação de Manuel Alegre nos últimos dois anos dentro do PS? Julga que ajudou ou prejudicou o partido? 

João Soares - Respeito as opções que tem feito, como não podia deixar de ser. Mas não acompanho. Muitas vezes nem entendo, mas não tem importância. É, seguramente, um problema meu.

O Diabo - Ainda Manuel Alegre: a recusa de fazer campanha pelo PS, por dizer que há poucos apoiantes “alegristas” como candidatos a deputados, é uma justificação legítima, na sua opinião? 

João Soares – Essa, muito sinceramente, escapou-me. Para mim as campanhas fazem-se, ou não, com base em propostas e projectos.

O Diabo - A maior força dos “ismos” internos do PS deu-se com o “soarismo”, do qual João Soares passa por “herdeiro natural”. Ainda há “soarismo”, aquela esquerda sem terceiras vias, dentro do PS? 

João Soares - Eu não sou, felizmente, herdeiro de coisa nenhuma. Tudo o que tenho feito ao longo da vida, em termos políticos, fi-lo sempre a pulso, muitas vezes quase sozinho, e ao contrário do que muitos pensam, contra o peso terrível do apelido  - apelido de que me orgulho muito, mas lá que pesa negativamente sobre mim, pesa. Sobretudo dentro do PS, mas não só. Isto dito, orgulho-me de alguns contributos que tenho dado, nomeadamente no plano de responsabilidade internacional que tenho tido, por exemplo na Assembleia Parlamentar da OSCE, para a afirmação dos valores de esquerda. Sem a treta das terceiras vias que deram o que se sabe.


O Diabo - E a propósito: ainda faz sentido existirem partidos socialistas ou, como diz Levy, o futuro da esquerda está nos movimentos de cidadãos? 

João Soares - Os movimentos de cidadãos de estrutura informal, ou inexistente, são parte importante do futuro que começamos a viver. Vi-o nos EUA durante a campanha de Obama. E vemo-lo um pouco por toda a parte, a Ocidente e a Oriente, através da Internet. Mas os partidos continuam a ser a espinha dorsal dos sistemas políticos democráticos. Não obstante os vícios e perversidades, de que estão cheios. Aqui é caso para adaptar aquela celebre frase do Churchill sobre a democracia. Os partidos são os pior de tudo, à excepção de todas as outras coisas…


O Diabo - Em Lisboa, de cuja Câmara foi Presidente, o PS escolheu como aliados de lista Helena Roseta e José Sá Fernandes. Este último, recorde-se, atrapalhou a sua última campanha autárquica, fazendo alarido contra o elevador que queria instalar da Baixa ao Castelo. Sente-se confortável com a entrada de Sá Fernandes numa lista do seu partido, precisamente na cidade onde foi prejudicado?  

João Soares - Eu impus-me a regra, a que quase não abro excepções, de não comentar Lisboa. Desejo ao António Costa, meu camarada de partido, boa sorte e paciência. Já agora, por razões de mera verdade histórica: José Sá Fernandes, a mim, como autarca de Lisboa, não me prejudicou nunca.


O Diabo - Fará apelo ao voto em António Costa

João Soares - Fiz. Está feito. E tornarei a fazer se for julgado útil. Como camarada, como é evidente. E também porque adoro a mãe dele…

O Diabo - O PS encara as eleições legislativas a 27 de Setembro com sondagens que dão empate técnico. O que, na sua opinião, correu mal para que o PS não chegue forte a estas eleições, depois de quatro anos de maioria na Assembleia? 

João Soares - Uma crise económica e financeira internacional que foi, como disse José Socrates, a “Tempestade”, sem George Clooney… O início de reformas que puseram em causa interesses corporativos e levantaram o tradicional clamor. A tradicional má-língua portuguesa e a acrimónia de treinador de bancada de que sofremos como povo – aliás desde os romanos, que o notaram na época. Alguns erros menores, sobretudo de atitude, por parte do Governo. O combate que aí vem é difícil. Mas também por isso é mais saboroso. E importante.


O Diabo - Caso o PS perca as eleições, deve haver novo líder do partido, congresso extraordinário, ou deixar ficar a mesma equipa directiva, apesar da derrota? 

João Soares - Nessa conversa não entro. Era o que mais faltava, agora. Vamos a isto, juntos! Como sempre disse, e alguns farão a justiça de lembrar…


O Diabo – E caso o PS vença as eleições, em que áreas julga essencial mudar para ir ao encontro das necessidades dos portugueses? 

João Soares - O rumo deve ser o mesmo. Qualificar as pessoas. Qualificar o território. Qualificar a administração pública. Não é pouco, nem muito, é o essencial. É desta linha estratégica, a nunca esquecer, que devem sair as opções possíveis em matéria de trabalho do novo governo. E com a consciência, que muitas vezes nos falta, de quais são os nossos limites. Que, no caso, é a que resulta da aplicação da celebre frase do Kennedy: o que podes tu, e eu, fazer por Portugal?

 

[continua na edição impressa]