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Entrevista a Maria José Nogueira Pinto: “O casamento gay sem adopção é uma medida hipócrita”

Maria José Nogueira Pinto voltou à ribalta por se ter irritado com um socialista durante um debate parlamentar. Farta da discussão política “asséptica”, contra ataca e, em entrevista a O Diabo, esclarece que o casamento gay é um erro sem precedentes.

 

O Diabo - Foi protagonista de um picante incidente no Parlamento, quando chamou “palhaço” a um deputado do PS em plena Comissão de Saúde. Arrepende-se?

 

Maria José Nogueira Pinto - Não falo sobre isso, já disse o que tinha a dizer. Fartei-me de dar explicações.

 

O Diabo - Insistimos: foi atacada pela linguagem e pelas mudanças políticas que tem feito. Considera que a linguagem política anda muito sensível?

 

Maria José Nogueira Pinto - Isso acho. A sociedade portuguesa foi invadida de um poeticamente correcto, de uma correcção política lamentável. Estas reacções estão a impedir que se faça política em Portugal de outra forma, mais leal, mais directa e mais franca.

 

O Diabo - Culpa dos políticos?

 

Maria José Nogueira Pinto - Tenho de dizer que sim, mas também com muitas responsabilidades para os jornais, rádios e televisões. Introduziu-se uma ideia de absoluta correcção no discurso político que o torna asséptico. Há demasiados preconceitos e isso acaba por se reflectir no discurso e no trabalho político.

 

O Diabo - O PSD, partido pelo qual foi eleita, está em mudança. É mais que provável que mude de líder e de políticas. Como membro do grupo parlamentar, o que defende para o partido?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu não sou do PSD. Aceitei ser deputada porque estimo muito Manuela Ferreira Leite, que me fez o convite. Acredito nas ideias e nas propostas que ela defendeu e que, com o tempo, se têm tornado inevitáveis e cheias de razão. O que eu quero para o PSD é que saiba manter e potenciar essas ideias, que não se desvie desse rumo que Manuela Ferreira Leite definiu – não só nas políticas económicas, mas naqueles campos menos conhecidos, como as políticas sociais, de educação e de saúde…

 

O Diabo - Vai manter-se como deputada, se o rumo e o líder mudarem?

 

Maria José Nogueira Pinto - Estou convencida de que há muitas linhas políticas que se irão manter neste ou no futuro PSD, em qualquer circunstância. O conjunto de preocupações será o mesmo, independentemente da forma, com qualquer novo líder que seja escolhido.

 

O Diabo - Faz parte do movimento que recolhe assinaturas para forçar um referendo sobre o casamento homossexual, a Plataforma Casamento e Cidadania. Quer o referendo por quê?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todas as iniciativas que façam discutir esta questão são importantes. Estamos perante algo que se baseia em valores milenares e não de circunstância. A proposta de referendo, como se sabe, pode apenas obrigar o Parlamento a discutir a adopção ou não da medida que é realizar o referendo. Não implica obrigatoriamente que se realizar a consulta às pessoas. Mas a verdade é que seria importante ouvir e, acima de tudo, debater este problema, que não é sequer religioso, e que levanta outras questões como a da adopção…

 

O Diabo - O PS alega que a adopção ficará de fora

 

Maria José Nogueira Pinto - Pois alega - o que é juridicamente uma hipocrisia. A adopção não pode ficar de fora da admissão do casamento entre homossexuais. É hipócrita, juridicamente. Se se está a legislare ara combater uma aparente desigualdade, não se pode depois introduzir uma nova descriminação em todos os Códigos. A adopção para os homossexuais é algo que entra imediatamente em vigor, mal a lei seja aprovada.

 

O Diabo - Não admite, assim, que os homossexuais se casem, mesmo no respeito pelas diferenças na sociedade?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu respeito imenso as minorias, as diferenças. Não é isso que está em causa. Não se está a discutir a homossexualidade. O que estamos a discutir e uma alteração de valores e costumes muito antigos, com razões para existirem. Não se pode agora fazer tábua rasa da História, sem sequer a debater. E muito menos faz sentido aprovar uma lei sem que tudo o que advém dela esteja clarificado.

 

O Diabo - O Parlamento actual tem capacidade para essa discussão ou é necessário um referendo?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todos os Parlamentos estão capacitados para discutir este tema, são representantes legais e directos dos eleitores. O problema não é esse. As poucas sondagens que existem sobre o assunto mostram claramente que as pessoas até admitem que duas pessoas do mesmo sexo vivam em comum, com um certo reconhecimento social – ou do Estado -, perante essa opção. Quanto à adopção, aí é que a maioria da população está contra. Ora, com uma lei aprovada nestes termos, não se pode ter uma discussão séria. Eu bem sei que isto fazia parte do programa eleitoral do PS, mas apresentar a lei nestas circunstâncias é uma perda de debate que vai afectar gravemente a sociedade. Depois, deixe-me dizer, a relação custo-benefício da adopção desta medida também não está estudada nem explicada. 

 

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