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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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Obama em Oslo

Gary J. Schmitt*

 

Muitas coisas positivas podem ser ditas sobre o discurso do Presidente Obama em Oslo, no momento da aceitação do Prémio Nobel da Paz. Como outros referiram, fazem sentido os argumentos sobre a necessidade de pontualmente se utilizar a força para manter a paz, os limites da não violência para o relacionamento com os piores regimes do globo, e a necessidade das nações do mundo  pensarem seriamente em sanções eficazes para  evitarem entrar em guerra. Globalmente, foi um discurso mais variado e aparentemente mais realista que as prévias intervenções de Obama e mesmo que os proferidos pelo seu predecessor, o maligno George W. Bush.

 

Dito isto, há  em particular um elemento sofístico no discurso quando faz referência aos direitos humanos e à preocupação dos Estados Unidos em os promover. O Presidente disse:

 

“Atendendo aos horrores da Revolução Cultural, o encontro de Nixon com Mao pode parecer inaceitável – e, no entanto, certamente ajudou a China a enveredar por uma via em que milhões dos seus cidadãos deixaram para trás a pobreza e a ir ao encontro de sociedades abertas. O compromisso do Papa João Paulo II com a Polónia permitiu criar espaço não só para a Igreja Católica, mas também para que surgissem líderes como Lech Walesa. Os esforços de Ronald Reagan para o controlo do armamento e apoio à perestroika não só permitiram um avanço nas relações com a União Soviética como encorajaram as dissidências em toda a Europa de Leste. Nesta matéria não há fórmulas simples. Mas devemos tentar o melhor que podemos encontrar um equilíbrio entre isolamento ou compromisso e pressão ou incentivos para que o os direitos humanos e a dignidade progridam”.

 

Pondo as coisas de uma maneira simples, esta é uma forma de dizer que“compromisso” em vez de “confrontação” é a melhor maneira para se obterem verdadeiras reformas liberais dos governos que tratam os seus povos mais como sujeitos que como cidadãos. Por outras palavras, as muitas vozes, de ambos os campos partidários, que  se queixam que Barak Obama parece não estar particularmente preocupado com os direitos humanos em locais como a Birmânia, a China ou o Irão, estão erradas. Na realidade, a sua política de compromisso e de profundo silêncio nestes assuntos, como a história recente mostra, é de facto a melhor ferramenta para afastar para longe as reformas.

 

O problema está em que os exemplos que deu ou são simplesmente errados ou, na melhor das hipóteses, duvidosos.

 

O compromisso de Nixon com a China não abriu a porta às reformas. Nixon e Kissinger podiam ter-se preocupado menos. Foi apenas depois da época de Mao que o mercado interno começou a desenvolver-se e assim a ajudar a reconstruir o país dos muitos desastres que Mao impôs aos chineses. Este foi um rumo que seria sempre tomado, independentemente da visita de Nixon a Pequim. Claro que é verdade que o compromisso económico da China com o resto do mundo permitiu que centenas de milhões de chineses saíssem da pobreza. O que não é coisa pouca. Mas esse mesmo compromisso não conseguiu acabar com o sistema monopartidário ou a aumentar as liberdades políticas ou religiosas que supostamente deveriam surgir com a liberalização económica da China.

 

Mais absurdo é o argumento  “o compromisso do Papa João Paulo II com a Polónia  permitiu criar espaço não só para a Igreja Católica, mas também para que surgissem líderes como Lech Walesa”.

 

O falecido pontífice ficaria certamente muito surpreendido ao ouvir a sua política ser descrita desta maneira. A estratégia de João Paulo foi, desde o princípio, passar por cima dos governantes da altura e falar directamente aos polacos, e foi o que fez. Pensou que qualquer negociação com os governantes polacos não passavam de um expediente necessário e não seriam certamente a via para uma maior liberdade na Polónia. Tendo vivido sob dois regimes totalitários, o Papa, determinado, não podia pensar de outra maneira. Nem, certamente, os comunistas polacos, desvairados com o que o Papa estava a conseguir, o que é uma das justificações para que subsista a teoria de que por detrás da tentativa de assassinato estiveram Varsóvia e Moscovo.

 

E, finalmente, há a alegoria liberal que Ronald Reagan foi a chave para o aparecimento das dissidências, levando ao fim do estado soviético e da Guerra Fria. Mas não mencionou a construção de armamento que precedeu esse compromisso, a resultante crise interna de confiança no seio da cúpula governativa soviética e o terem-se voltado para Gorbachev como último e desesperado esforço para reformar o sistema e salvá-lo. Uma aposta que perdeu. Reagan orientou a política norte-americana no sentido de nada fazer para prevenir que o colapso ocorresse. E para isso foram tomadas uma série de medidas – como a Emenda Jackson-Vanik, regimes de controlo de exportações, sucessos militares na América Central e no Afeganistão, e argumentações contundentes do próprio Reagan – que contribuíram muito mais para o fim do regime soviético que o “compromisso”.

 

Obama é cauteloso a criar espaço para poder manobrar ao afirmar que “nesta matéria não há fórmulas simples”. De facto não. Como deixam perceber os casos de Ronald Reagan e do Papa João Paulo II, e a política de compromisso com a China continua actualmente a confirmar. Criar uma dinâmica para reformas liberais é muitas vezes uma tarefa de estadista séria e multifacetada. Até agora o esforço de Obama não tem nada disso.

 

*Director do programa de estratégias avançadas do AEI-American Enterprise Institute for Public Policy Research