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Cayatte, o papa-contratos

Dois contratos em ajuste directo por 180 mil euros fizeram disparar as críticas contra o presidente do Centro Nacional de Design, Henrique Cayatte. A Comissão dos 100 anos da República defende-se, dizendo que pagou abaixo do preço de mercado.

 

Dois contratos feitos em ajuste directo, sem concurso, valeram ao atelier do designer Henrique Cayatte 189 mil euros. A tarefa, segundo consta no resumo que aparece na base de dados do Estado é simples: criar um site para a Comissão que está encarregue de celebrar os cem anos da República e, ainda, aplicar a imagem das comemorações em envelopes, papel de carta, cartões de visita, aquilo a que se chama, normalmente, o material “estacionário”. Os dois contratos estão à vista de toda a gente e representam apenas uma mínima fracção do dinheiro que o Estado empregou nestas comemorações dos cem anos da proclamação do regime: 10 milhões de euros, limpos, para durante um ano recordar a primeira república, suas glórias e, talvez, os seus erros.

 

É na Internet que os protestos são mais veementes. Aliás, Henrique Cayatte, ex-colaborador da editora comunista Caminho, autor dos sinais da Expo’98 e ainda colaborador de publicações como O Público, Ler e Egoísta, é o alvo preferencial das críticas. Ao acumular a presidência do Centro Português de Design com o seu estúdio, provoca a irritação de colegas de trabalho, que o criticam em dezenas de comentários online. Miguel Lobo, por exemplo, vai mais longe do que apenas a crítica comportamental e atira os números dos ajustes directos entre o Estado e Cayatte no último ano. Diz Lobo: “Quando se é craque as coisas surgem mais facilmente, 650.000€ de ajuste directo é obra, não está ao alcance da maioria e deixa-nos todos a pensar...”.

 

O número é correcto. O Estúdio de Henrique Cayatte arrecadou, desde Janeiro deste ano, mais de meio milhão de euros sem concurso nem necessidade de competir. Os clientes são câmaras municipais, a sociedade Frente Tejo, a Universidade de Lisboa ou ainda a Comissão para comemorar a República.

 

Um dos contratos recentes de Henrique Cayatte é ainda mais interessante. Para conceber graficamente um livro recebeu a quantia de 40 mil euros. A saber: “Aquisição de serviços para a concepção pré-impressão e acabamentos do livro sobre a história do Palácio Foz”, feitos pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social, num valor total de 40249 euros, num contrato assinado a sete de Agosto de 2009, por um período de obra de 100 dias. Passados 130 dias, a obra ainda nem sequer aparece anunciada no site do Gabinete.

 

Questionada por O Diabo sobre os dois contratos de ajuste directo que a Comissão Nacional para a Comemoração do Centenário da República fez com o designer Cayatte, a comissária Fernada Rollo nega qualquer pagamento acima do preço do mercado e estranha mesmo o criticismo dos outros designers. “Sabemos que existe essa crítica, mas o problema está nas pessoas que apenas lêem o sumário administrativo sobre os concursos, sem conhecer, de facto, o que foi pedido”. A historiadora sublinha: “Antes de fazermos um ajuste directo para a imagem da Comissão lançámos um concurso aberto, do qual tivemos pouca resposta e, aquela que recebemos, não se enquadrava no espírito das comemorações ou não apresentava a qualidade exigida”. Fernanda Rollo defende assim que a contratação directa de Cayatte foi uma garantia de qualidade e em último recurso: “O que pedimos ao estúdio de Henrique Cayatte não foi que fizesse um site e que aplicasse o logótipo no papel de carta. Para isso, seria um disparate pagar o preço que está exposto publicamente. O que lhe pedimos foi muito mais e, se fizermos as contas, percebemos que está bastante abaixo do que se costuma cobrar”.

 

Segundo Fernanda Rollo, os contratos englobam “a concepção, definição e maquetização do design global do estacionário da Comissão Nacional (serviços estes que se desdobram por várias alíneas, que identificam a diversidade de materiais abrangidos) e a concepção, definição e maquetização do design global dos materiais de suporte à comunicação de uma dezena de iniciativas”. O estúdio de Cayatte fará, entre outras coisas, “o design e concepção das exposições do Centenário em Lisboa e no Porto, a concepção das iniciativas República nas Escolas, República e Academia, República das Letras, República e Ciência, República e Cidadania, entre mais de uma dezena de eventos”, assegura a comissária.

 

Fernanda Rollo quer ainda descansar os que criticam o facto do sítio da Comissão na Internet estar orçado em quase cem mil euros e ser, afinal, construído numa tecnologia gratuita e com um design de base igualmente grátis. “O site não é este. Este é apenas temporário e que tem o essencial da informação. O site encomendado a Henrique Cayatte estará no ar a 31 de Janeiro de 2010 e não será um, apenas. Serão catorze sites, com variadas componentes e uma complexidade que justifica o gasto. A Comissão tem plena consciência de que os tempos estão difíceis para todos e que os gastos têm que ser feitos com retorno. Não desperdiçamos dinheiro nem o podemos fazer. Aceitamos as críticas, mas que sejam justas”, remata a comissária, ouvida por O Diabo.

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