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Entrevista com Vera Jardim: “Não é tempo de maioria absoluta para o PS”

Ex-ministro da Justiça de António Guterres e “histórico” do PS, Vera Jardim reconhece que a política de Sócrates causou “abcessos” na sociedade portuguesa, entende a rebeldia de Manuel Alegre, afasta um cenário de Bloco Central e desaconselha alianças ou coligações. Se ganhasse, o PS devia tentar um Governo minoritário – defende, numa entrevista concedida a “O Diabo” no último dia da legislatura.

 

O Diabo - Quatro anos depois, qual o balanço que faz do desempenho do Partido Socialista no Governo?

Vera Jardim - No geral, julgo que o trabalho pode ser considerado positivo, perante as circunstâncias. A direcção do Partido Socialista enfrentou com coragem, muitas vezes, problemas que existiam na sociedade portuguesa. Alguns que não tinham solução, como a Saúde, por exemplo, ou mesmo aspectos da Educação. Corríamos o risco de ter um Estado Social impossível. O PS conseguiu manter esse Estado Social e esse foi um trabalho importante. Acontece, agora, que este trabalho não se vê. Não se vê agora, no imediato. São tudo coisas que não são de resultados imediatos e as pessoas não os vêem.

 

O Diabo - Mesmo assim, corporações como farmacêuticos e professores têm vindo a público criticar o trabalho do PS. Reconhece erros?

Vera Jardim -Naturalmente que esta tendência reformista do Governo criou abcessos, forças que se opuseram ao governo vigorosamente e que hoje estão a castigar este Executivo. Não aceitam nem as medidas nem as reformas. Alguns interesses estabelecidos não gostaram e têm vindo a público dizê-lo, até. Ao fim de quatro anos e muito, sei que houve erros do Governo. Reconheço isso, até nas reformas que se tentaram fazer. O meu balanço, mesmo assim, é positivo.

 

O Diabo - A divisão aparente do Partido Socialista, a partir da segunda metade do mandato, com violentas críticas internas, como as de Manuel Alegre, é penalizadora para o partido?

Vera Jardim - Acho que acaba por não ser. O Manuel Alegre e as críticas que fez – ele e alguns deputados que o acompanharam – são próprias do PS. Estou aqui há 30 anos e sempre me habituei a estas coisas. Lembro-me das lutas do “ex-secretariado” contra o que a gente chamava “o soarismo”, à época. Portanto, o PS sempre foi um partido de homens livres. A maior parte deles, os fundadores e nos primeiros anos, vinham da resistência à ditadura, e portanto é essa cultura de liberdade e crítica que se mantém. Não foi só o Manuel Alegre…

 

O Diabo - …o senhor, também…

Vera Jardim -…pois. Os deputados deram aqui ou ali sinais claros de forte crítica interna. Em alguns casos, foram ouvidos. Em outros, nem por isso. Ao longo da legislatura há imensas declarações de voto que mostram uma cultura de crítica, de liberdade, fiel ao que o PS é. Agora, não estou a dizer que todos os que votaram com o Partido não eram homens livres… Mas outros estariam em desacordos pontuais com a política do Governo. A minha concordância pessoal, e agora falo só por mim, é com o sentido geral da política da direcção.

 

O Diabo - E está ao lado do secretário-geral?

Vera Jardim - Ele é o chefe da equipa, portanto é ele que dá o tom, é o regente da orquestra. Por isso, é ele que afronta quando há necessidade de afrontar. A responsabilidade do que acontece depois ao PS é dele.

 

O Diabo - Nas próximas eleições legislativas pode não existir número de deputados suficiente para suportar um Governo com apoio maioritário no Parlamento. Que deve fazer o PS? Alianças à esquerda, à direita? Ou tentar um Governo minoritário?

Vera Jardim -Tentar um Governo minoritário, mas sem alianças, sem coligações. Com entendimentos pontuais, sim. O PS deve depois encontrar no quadro parlamentar, consoante as situações, convergência de votos. Coligações, nem pensar. Acordos, à direita e à esquerda, pontuais, sim. O país não tem interesse em ver grandes coligações.

 

O Diabo - E um novo Bloco Central, PS e PSD juntos, para garantir a governabilidade durante uma legislatura?

Vera Jardim - Não, nem pensar nisso. Uma coligação PS/PSD, um novo bloco central, seria muito prejudicial para o país. Estou contra. Precisamos de situações claras, quer de um partido quer de outro. Hoje, sinceramente, julgo que há distinções entre o PS e o PSD… Quer dizer, eu julgo que há. Falta ver que medidas o PSD propõe…

 

O Diabo - Será um programa minimalista, dizem.

Vera Jardim - Pois, minimalista, mas tem de haver soluções para o país. Agora, o PSD pode ir buscar ideias do PS, dar-lhes uma cara fresca (porque não estão no poder) e apresentá-las ao País. Não sei como reagirá o eleitorado a uma OPA sobre algum eleitorado do PS. Espero que a maior parte dessas pessoas possa reconhecer trabalho ao Partido Socialista. Aceito perfeitamente, no entanto, que este não é um cenário de maioria absoluta para nós.

 

O Diabo - Vai manter-se candidato como candidato. Admite ser Presidente da Assembleia da República numa próxima legislatura?

Vera Jardim – Não. Basta olhar para mim para saber que o meu candidato, se ganharmos, é o dr. Jaime Gama.