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Jornal O Diabo

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Quinta Coluna

A Comunicação Social tem destas coisas: à força de tanto agitar cada novo “escândalo”, torna-o banal e vacina a opinião pública, que acaba por diluí-lo na sua memória como “apenas mais um”. O caso é geralmente apresentado na fase da suspeita, de forma suficientemente personalizada para causar bruá mas suficientemente vaga para não ter os seus contornos gravados na memória do mês.

 

O caso do prolongamento do contrato com a Liscont é um exemplo típico. A notícia surgiu para embaraço momentâneo do ministro Mário Lino e do ex-ministro socialista Jorge Coelho: um favoreceu a empresa que o outro dirige ao conceder-lhe a exploração do parque de contentores de Alcântara por mais 27 anos. Este extraordinário prolongamento baseou-se em projecções económicas erradas, beneficiando a empresa concessionária e lesando os interesses do Porto de Lisboa e do Estado. Foi um negócio ruinoso, concluiu o Tribunal de Contas. E a comissão parlamentar de Obras Públicas enviou à Procuradoria-Geral da República toda a documentação, visando a abertura de inquérito.

 

Mal foi conhecido este “desfecho” mais do que provisório, o “grande escândalo” morreu instantaneamente nas televisões. E estava já a opinião pública a roer o osso seguinte quando foram revelados os pormenores mais escandalosos do negócio – nomeadamente o de que, pelo contrato assinado, o Estado terá de compensar a empresa se a exploração dos contentores der prejuízo; ou (igualmente bizarro) que Lino aceitou que fosse o Estado a pagar mais de um milhão de despesas com advogados e assessorias relativas à ampliação do terminal de Alcântara; ou, ainda, que o contrato concede à empresa uma generosíssima isenção de taxas!

 

Quer dizer: o escarcéu é muito quando ainda pouco se sabe; e desvanece-se quando começa a saber-se. Até parece de propósito…