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Jornal O Diabo

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O amigo americano: Rui Mateus, o homem que sabe demais

António Pina do Amaral

  

Na semana passada perguntava-se aqui que era feito de Rui Mateus e porque nada acontecera após o livro que escreveu. Perceber o mistério passa não só por estar a par dos escândalos de Macau, mas também do lado oculto de uma história ainda por contar.

 

Lê-se o livro do socialista Rui (Fernando Pereira) Mateus e dá-se logo conta das referências que nele se contêm à Central Intelligence Agency, os serviços de informações no exterior do Governo dos EUA. Ele sabe do que está a falar. Vê-se que a literatura sobre espionagem faz parte das suas preferências. Até aqui, ainda pertencia ao historiador José Freire Antunes o melhor palmarés das revelações sobre a CIA em Portugal. Os seus dois livros da série ‘Os Americanos e Portugal’ foram recebidos com frieza nos meios ligados ao PS.

 

A sua revelação mais escandalosa e controversa tinha então a ver com as alegadas ligações objectivas da CIA a Mário Soares. O caso causaria sensação mas lentamente cairia no olvido. Antes dele, só o PCP se tinha dedicado ao assunto em geral, através de uma publicação organizada por Ruben de Carvalho que hoje é já uma raridade bibliográfica. Mas com o contributo de Rui Mateus há um filão que se abre, pejado de tantos detalhes de conhecimento pessoal que vai ser difícil aos visados rebaterem as imputações.

O interesse da CIA por Portugal não nasceu com o 25 de Abril, embora seja certo que a Revolução dos cravos apanhou os serviços da Agência completamente de surpresa. O lento esboroar do empenhamento da Agência na situação portuguesa veio a estar na origem no seu falhanço em prever o golpe do MFA.

 

Deposto Caetano, os comunistas tomaram a iniciativa. O primeiro 1º de Maio em liberdade marcou o início do PREC e a ascensão da influência soviética em Portugal. E então os americanos despertaram. E com eles a CIA, como o viria a reconhecer o próprio Director da Agência, William Colby.

 

No final de 1974 debatiam-se em Washington duas filosofias quanto ao caso português. A mais extremista era encabeçada pelo Secretário de Estado Henry Kissinger, para quem Portugal era um caso perdido e deveria funcionar como uma vacina, para imunizar outros países da Europa quanto a veleidades de se renderem aos encantos do socialismo revolucionário. Mas outros patrocinavam uma orientação diferente, de cunho intervencionista, por não terem perdido a esperança em contra-operarem uma mudança no curso do PREC. Entre eles destacou-se o general Vernon Walters, responsável pela indigitação de Frank Carlucci III como o novo Embaixador em Lisboa.

 

Mateus encontrar-se-ia com aquele em 1986.

 

Carlucci viria a ter um papel decisivo no apoio americano a todas as forças políticas que tinham real capacidade de enfrentarem a influência comunista no País. Chega a Lisboa em Janeiro de 1975. Sairia em 1978. No entretanto faz o que pode pelo combate anticomunista. E terá feito muito.

 

No campo partidário, o PS viria a ser o grande beneficiário dos apoios do Tio Sam, alguns chegados através da intermediação inglesa. Apoios que integrariam a vertente financeira mas igualmente ofensivos para fazer face a emergências como as que se viveram nesse Verão Quente.

 

Vinte anos depois dos acontecimentos, Mateus vem pretender reconstituir esse passado.

 

Neste particular, o seu livro é uma caixa de surpresas. Ele é o nome do homem da CIA destacado para seguir as actividades do PS, que é revelado ser Richard Melton, cabendo a Charles Thomas monitorar o PPD. Ele é a afirmação de que coube a Bernardino Gomes  - o chefe de gabinete de Mário Soares - e a Vítor da Cunha Rego - que desempenharia o cargo de Secretário de Estado da Presidência - os contactos entre o PS e a Agência. Ele é também a revelação de que para a própria Editora Perspectivas e Realidades - a que esteve ligado João Soares, o filho do Presidente - havia um “contacto americano”, na pessoa de um operacional das acções clandestinas da CIA, sendo por isso mesmo interessante a coincidência de a Cooperativa titular da editorial ter estado instalada num prédio onde antes havia estado a ITT. Ele é, enfim, a menção das relações privilegiadas de alguns militares do Grupo dos Nove com o Embaixador Carlucci.

 

O grande visado, no entanto, por esse livro demolidor é, como era aliás de esperar, Mário Soares. Em relação ao Presidente, o livro é um verdadeiro cilindro compressor, o elenco de acusações é politicamente grave e passam por colaboracionismo com todos os azimutes, primeiro em favor da causa soviética, mais tarde em favor dos interesses americanos e da CIA em particular.

 

O primeiro Soares era, para Mateus, tipicamente vermelho. Assim, quando do primeiro Governo Provisório, Soares não daria, segundo Mateus garantias de tranquilidade aos governos aliados e à NATO, os quais só confiariam de modo suficiente no general Spínola, primeiro Presidente da República após o 25 de Abril. Depois, já Ministro dos Negócios Estrangeiros, teria feito um périplo destinado a convencer os dirigentes ocidentais de que os comunistas iriam estar no Governo, ante a consabida má recepção que tal iria despertar junto desses círculos. Mateus insinua, aliás, que a própria presença de Cunhal no primeiro governo provisório teria sido obra da persuasão de Soares, dado o proverbial anticomunismo de Spínola.

 

Mateus colecciona aliás no livro referências múltiplas a situações ambíguas a partir das quais se projecta sobre Soares a suspeita de colaboracionismo com a causa de Moscovo. Uma das situações teria a ver com o amigo alemão, mein Freund Willy Brandt, um dos grandes apoios a Mário Soares durante os tempos difíceis da Oposição e da Acção Socialista

 

Só que, coincidência irónica, exactamente no dia 24 de Abril, Brandt havia sofrido um dos mais duros revezes na sua carreira, ao ver prender pelos serviços da contra espionagem o seu colaborador mais próximo, Günter Guillaume, acusado de, durante anos, ter sido uma infiltração leste-alemã e um poderoso agente de influência em favor dos interesses estratégicos de Moscovo. O chanceler, já então olhado com suspeição nos meios americanos pela sua Ost Politik, de abertura a Leste, viria a ficar agora completamente a descoberto. Em Maio pediria a demissão. Na euforia que se vivia então em Portugal, o evento passou despercebido. A Rui Mateus não.

 

O mesmo Soares teria consentido em que o PS tivesse sido financiado por fontes tão insólitas como Kadafi da Líbia, a quem teria escrito em Setembro de 1975 uma carta de respeitosa veneração, de que no livro se edita uma reprodução.

 

Finalmente, só após o assalto ao jornal ‘República’ Soares entraria “no bom caminho” e aceitaria a intervenção americana. Mateus não perde a oportunidade para comentar que não “perceberia (…) qual a razão pela qual Mário Soares sempre foi tão sensível aos seus contactos com a CIA”.

 

É por causa disso que Mateus acusa Soares, chefe do primeiro Governo Constitucional, de seguidismo em relação às posições da Agência no que respeita ao dossier Angola.

 

Enfim, segundo Mateus, não só a CIA estaria com Soares - isso já o tinha afirmado Freire Antunes - como Soares teria estado com a CIA. Mas, aparentemente, não só Soares.

 

Fica claro face ao livro que a própria génese da UGT - a central sindical alternativa à CGT/Intersindical - foi, segundo ele, uma criação americana e nomeadamente da CIA, uma vez mais com a intermediação de Mário Soares.

É que, de novo citando, o interesse da CIA em Soares, “que vinha já dos anos setenta”, seria mantido em Paris precisamente através de Irving Brown, então representante na capital francesa da American Federation of Labour/Congress of Industrial Organisations e “principal agente da CIA no Controlo da Confederação Europeia de Sindicatos Livres”.

 

Irving Brown e Michael Boggs - dois homens “conotados com as actividades dos serviços secretos americanos”  - chegariam aliás a Portugal precisamente em Maio de 1975 e daí recomendariam ao governo americano a constituição de uma confederação sindical alternativa, ideia em cuja implantação teria papel decisivo Maldonado Gonelha, que desempenharia o cargo de Ministro do Trabalho.

 

O espectro da CIA perseguirá a figura de Soares ao longo de todo o livro. Mesmo na fase pré-presidencial, Soares candidato é dado como tendo pedido a Mateus que se encarregue de obter o apoio da CIA através de contacto com Skidmore. E a este propósito Rui Mateus lança uma das suas flechas mais envenenadas, na forma de uma pergunta.

 

Demos a palavra a Mateus: “Depois há toda a confusão por esclarecer à volta do escândalo da venda de armas ao Irão, que, dizem, passaria por Lisboa. Será que quando se soube que os americanos hesitaram em ajudar financeiramente o PS e a campanha de Mário Soares, o Governo abriu os olhos para as missões humanitárias, provocando em Langley algum agastamento?” E, como se já não bastasse esta insinuação, remata: “O recém-empossado governo de Cavaco Silva recusara autorização a esta operação e assim se explica o desesperado telefonema do homem da CIA em Lisboa, na manhã de 23 de Novembro, querendo falar com Mário Soares e fazendo promessas de que esse apoio seria bem visto em Washington”.

 

Eis Rui Mateus no seu melhor.

 

Mas há mais quem tenha motivos para recear. Ele é o homem que sabe demais: na noite de 11 de Março, Otelo Saraiva de Carvalho, o major comandante do COPCON, avisa o Embaixador americano Frank Carlluci de que não se responsabilizará pela sua segurança. Para bom entendedor, o recado estava dado. Só que, Mateus dixit, Carlucci convida Otelo para “um encontro na Embaixada”. A partir daí Otelo fica de “boas relações” com ele. Que conversa teria sido essa que dera azo a tal mudança de atitude do jovem revolucionário graduado em General? A História o revelará. Neste particular, o livro de Ruben de Carvalho é interessante. Reporta esse contacto como tendo sido na forma de um telefonema. Mas diz que, após ele, Carlucci haveria ficado com “inteira confiança em que o brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho e o Governo de Portugal são capazes e têm a intenção de assegurar a minha segurança”.

 

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