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Jornal O Diabo

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Há mais pessoas paradas do que a trabalhar

O número é surpreendente. Pela primeira vez na história do País há mais pessoas sem fazer nada do que a trabalhar. O cenário pode provocar a ruptura das contas do Estado.

 

Em Portugal, desde Outubro, há mais pessoas paradas do que a trabalhar. Segundo números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, e cruzando-os com os números oficiais do desemprego, existem apenas 4 913 500 portugueses que trabalham, contra 5 179 700 que estão inactivos. Entre estes últimos estão estudantes, pensionistas, donas de casa e quase 700 mil pessoas desempregadas, numa taxa de desemprego que chega quase aos 12 por cento.

 

Os desempregados à procura de emprego há menos de um ano, cujo número aumentou 34,6 por cento (74,7 mil indivíduos), engrossam estas fileiras, ainda que o número dos que  procuram emprego há um e mais anos tenha  aumentado menos, numa taxa de 18,5 por cento (o que corresponde a 39,6 mil).

 

Já no 3º trimestre de 2009, o aumento do desemprego revela-se mais demolidor para os homens, principalmente acima dos 45 anos. São trabalhadores pouco especializados ou, então, empregados de grandes fábricas que acabaram por falir. Afectados estão também os indivíduos com nível de escolaridade correspondente ao ensino obrigatório, à procura de novo emprego, sobretudo os provenientes da indústria, construção, energia e água, e à procura de emprego há menos de um ano – trabalham muitas vezes por biscates, a recibos verdes ou com contratos a prazo.

 

A população desempregada em Portugal era estimada em 547,7 mil pessoas no 3º trimestre de 2009, mas os números reais dão por certo que, pelo menos, 652 mil portugueses estão inactivos mas dentro do quadro de população considerada apta para trabalhar. Esta taxa verificou um acréscimo homólogo de 26,3% em relação a 2008.

 

Custo de 21 mil milhões

 

O pagamento de subsídio de desemprego custa a Portugal, por ano, 21 mil milhões de euros – mais do que qualquer mega-obra prevista até 2020, como o TGV, o novo Aeroporto e a nova ponte de Lisboa. Este número pode aumentar ainda mais caso o governo decida estender o prazo em que os portugueses têm direito ao subsídio. Os casos mais graves estão, neste momento, a atingir as populações das regiões interiores. Algarve e Alentejo, por exemplo, registam taxas de desocupação acima dos 50 por cento da população residente. Na Beira Interior o caso é semelhante, sem que haja investimentos quer de privados, quer do Estado.

 

OCDE prevê recuperação só em 2011

 

Um recente relatório da OCDE avisa que o cenário deve continuar negro no próximo ano. O estudo indica que os valores de desemprego vão subir aos nove por cento já no ano que vem – o que pode projectar a taxa real para perto do 14 por cento – e só em 2011 é que deve descer. Para a OCDE, a melhor taxa de 2011 deve rondar os 8,8 por cento. Este número é semelhante ao cenário vivido hoje.


O investimento estrangeiro em Portugal e o aumento das exportações são caminhos apontados para fazer melhorar a situação. O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, pede rapidamente um “aumento do sector produtivo de bens, que possam ser transaccionáveis nos mercados internacionais”. Já o primeiro-ministro José Sócrates, numa visita a uma fábrica de componentes eléctricos, este fim-de-semana, disse em declarações à saída que “a palavra de ordem é exportar, exportar, exportar”. Se estão de acordo com o caminho a seguir, os dois titulares públicos sabem também que a recuperação económica do País não dá resultados imediatos. Basílio Horta, presidente da  AICEP, confia-nos a sua opinião sobre o assunto: "Creio que durante algum tempo teremos de nos habituar a taxas que não eram habituais, até porque o crescimento económico tem um efeito desfasado no tempo em relação ao aumento do emprego", explicou.

 

Sócrates, no entanto, mostra-se mais optimista: “Tenho a convicção de que, à medida que a recuperação da economia prossiga, possa ter finalmente efeitos no desemprego, que ainda não se começaram a fazer sentir, mas que espero que se façam sentir em 2010”. Mesmo assim, o primeiro-ministro sabe que a falta de emprego preocupa quase todas as famílias. Por isso, promete dar dinheiro a quem não trabalha: “Num momento em que o desemprego sobe em todo o mundo, a mensagem que eu tenho para os portugueses é que não deixaremos os desempregados sozinhos, que tudo faremos para desenvolver os mecanismos sociais que permitam acompanhar essas pessoas e que permitam ao estado desenvolver actividades necessárias para que essas pessoas possam recuperar o emprego”.

 

Há dias, a ministra do Trabalho, Helena André, mostrou-se surpreendida com os números reais de desempregados em Portugal. Teresa Caeiro, deputada do CDS, respondeu-lhe: “Quando acordar da surpresa, o Governo terá de deixar de agir como o 'Rei Pasmado', perante uma realidade que está a dilacerar o nosso país”.