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Jornal O Diabo

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Camarate: CDS e Freitas forçam novo inquérito

PSD e CDS desejam continuar o trabalho de Nuno Melo no Parlamento. Entretanto, o autor confesso da bomba e o operacional Farinha Simões continuam em contacto. O principal suspeito, Lee Rodrigues, está a monte.

 

Vinte e nove anos depois da queda do avião Cessna, em Camarate, que vitimou o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, o PSD e o CDS querem reabrir o inquérito parlamentar à misteriosa morte dos dois governantes e de suas companheiras.

 

Freitas do Amaral, que assumiu a chefia do Governo depois da morte de Sá Carneiro, vem agora pedir à Assembleia da República que retome as investigações: “Há três questões que não foram investigadas até ao fim e estas devem ser retomadas pela Assembleia da República”. Para o antigo governante e presidente do CDS,  o relatório dos peritos internacionais sobre os equipamentos técnicos do avião e explosivos, a investigação da venda de armas, em 1979-80, e do Fundo de Defesa Militar estão por esclarecer. Em declarações públicas no passado mês Freitas diz ainda que a falta de conclusões judiciais representa “uma nódoa na credibilidade e na seriedade do Estado português”, e defende que o Parlamento “é a única instituição que, através de sucessivas comissões parlamentares de inquérito, foi aprofundando as investigações” e que encontrou “indícios muito fortes para haver atentado”.

 

A mesma tese é defendida por Nuno Melo. Em declarações a O Diabo o antigo presidente da Comissão de Inquérito e agora eurodeputado do CDS defende que “o trabalho que está feito pode e deve servir de base a uma nova comissão”. Melo está convencido de que “é possível apurar a verdade” ou, pelo menos, “encontrar respostas” concretas às dúvidas expressas também por Freitas do Amaral. Melo, no entanto, alerta: “Se em relação a Camarate já se descobriu quase tudo o que seria possível pela via parlamentar, questão diversa é o Fundo de Defesa do Ultramar”.

 

Um dos advogados das famílias, Ricardo Sá Fernandes, está convencido de que só com uma investigação a este fundo será possível descobrir o que levou à queda do Cessna. Sá Fernandes lamenta que a investigação à venda de armas simultânea ao Irão e Iraque, “que estava a ser investigada por Adelino Amaro da Costa à data da sua morte, esteja ainda por esclarecer”.

 

Esteves e Farinha Simões ainda se encontram

 

Outro dos indícios que não foi seguido é o relatório dos peritos internacionais, que encontrou provas de que um objecto incendiário foi colocado dentro do Cessna e que os membros inferiores dos pilotos mostravam resíduos metálicos estranhos ao corpo do avião. José Esteves, autor confesso da bomba incendiária que lhe foi encomendada para colocar no Cessna, diz que o seu engenho “foi alterado” e adianta estar “arrependido” de ter feito o que fez. “Se soubesse que era para atingir Adelino Amaro da Costa, nunca tinha preparado esse engenho”. A pequena bomba foi feita para detonar assim que o avião começasse a sua subida. Mas Esteves, em declarações em 2006, a última vez que falou sobre o caso, adiantou que “o engenho foi alterado”, pois o que montou na sua marquise não provocaria a queda do aparelho.

 

A bomba terá sido entregue a Farinha Simões, outro dos nomes também citado no processo. Simões está hoje detido em consequência de uma condenação por sequestro e violação de domicílio da jornalista Margarida Marante. Continua a afirmar a sua inocência neste caso, mas já admitiu ter participado com José Esteves na Operação Camarate. Ainda hoje os dois continuam a ser amigos, tal como documenta a foto que O Diabo publica nesta edição – um encontro entre estes antigos operacionais de segurança, no Algarve, enquanto degustavam uma sapateira à mesa de uma conhecida cervejaria – pouco antes de Farinha Simões ter sido preso.

 

Cid sem esperança

 

Entretanto, o cartunista e ilustrador Augusto Cid declara-se sem esperança na reabertura judicial do processo. “A Assembleia concluiu pela teses de atentado e dificilmente poderia haver acordo para retomar os trabalhos. Foi pena que nesta investigação não tivessem sido ouvidos os peritos estrangeiros, porque não houve tempo, com a queda do Governo [de Santana Lopes]”, disse.  O caso está agora nas mãos do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e Cid vê, nessa última instância, alguma luz: “É aí que nós estamos à espera de uma decisão e de uma avaliação do que aconteceu aqui. Pode ser que com uma decisão positiva de Bruxelas venha a desencadear um outro processo de investigação”. 

 

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Kissinger e as armas

Frederico Duarte Carvalho, jornalista e investigador

 

O ex-secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, tem de ser ouvido sobre Camarate. O testemunho desta importante figura internacional é obrigatório para esclarecer as informações que o ex-chefe de Gabinete de Adelino Amaro da Costa, coronel Hugo Rocha, transmitiu em audiência à porta fechada durante os trabalhos da VIII comissão de inquérito parlamentar, em 2004. São informações que vieram a público através do livro editado pela Assembleia da República, em 2005, que reunia o essencial de todas as comissões. E, em Maio de 2007, essas informações surgiram com mais detalhe na biografia que Hugo Rocha publicou um ano antes de falecer.

O livro “Recordações – Militar, Diplomata, Governante”, editado pela Prefácio, teve pouca cobertura jornalística. Uma busca pela Internet com o nome “coronel Hugo Rocha” e “Camarate” não revelará qualquer notícia arquivada nos endereços electrónicos dos órgãos de Comunicação Social nacionais. Afinal, o que diz Hugo Rocha sobre Kissinger e qual a importância deste último no mistério de Camarate?

Hugo Rocha revela que, a 2 de Outubro de 1980, dois meses antes de Camarate, houve uma reunião secreta entre Henry Kissinger e Adelino Amaro da Costa, no ministério da Defesa, ao Terreiro do Paço. Foi só a 26 de Novembro, uma semana antes de Camarate, que Adelino Amaro da Costa revelou ao coronel, numa reunião à porta fechada, o conteúdo da conversa com Kissinger: o negócio de armas para o Irão. Afinal, a conclusão que, em 2004, a VIII comissão de inquérito parlamentar, na altura presidida pelo actual eurodeputado centrista Nuno Melo, afirmava ser o provável móbil do atentado. Adelino Amaro da Costa proibira essa venda, mas, no dia seguinte à sua morte, foram enviadas armas de Portugal para o Irão.

Hugo Rocha quando revelou a reunião pela primeira vez na biografia acrescentou: “Este encontro, só agora descrito, reveste-se de importância histórica. Para bem das famílias das pessoas que morreram. Para bem da verdade. Para bem da Justiça. Para bem de Portugal”.

Com este pensamento na mente e como também estou a preparar um livro sobre Camarate, entrei recentemente em contacto com Henry Kissinger. Telefonei para o seu gabinete em Nova Iorque, falei com a secretária que me pediu que enviasse um e-mail a explicar o assunto, elaborei a missiva explicativa, traduzi as palavras de Hugo Rocha – anexei a cópia das páginas em causa - e fiz três perguntas que, fundamentalmente, pediam a confirmação da reunião em Lisboa, a 2 de Outubro de 1980, o teor da mesma e, por fim, um comentário ao caso para que se fizesse verdade histórica sobre o assunto. A resposta veio pouco tempo depois via e-mail: a secretária comunicava-me que o Dr. Kissinger apreciava a minha consideração pela sua pessoa, mas estava “indisponível” para participar numa entrevista sobre o caso.

Se Kissinger já tem em Van Rompuy a pessoa a quem telefonar quando quiser falar com a Europa, se um dia quiser falar sobre Camarate, tem igualmente agora o meu número de telemóvel…