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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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A erosão das defesas sociais como projecto

António Marques Bessa


A sociedade portuguesa há muito que anda a ser desmantelada. Por quem sabe o que faz e tem intenção em fazê-lo até ao fim. Cumpre aos ainda cidadãos compreender o que se passa e tratar de arranjar uma resposta adequada.

 

É sabido desde o tempo dos grandes antropólogos, de Franz Boas a Malinowski, de Radcliff Brown até ao recentemente falecido Lévy Strauss, que as estruturas matrizes das sociedades constam de coisas imateriais ligadas em rede que nós chamamos valores. Os valores são eles próprios heranças culturais antigas que ajudaram as sociedades a sobreviver no tempo longo da sua história. Os valores ajudam a rejeitar o que faz mal ao grupo e a aceitar o que o fortifica, para lá de oferecerem uma rede de apoio pessoal para acção relevante e para o comportamento de grupo. As pessoas não pensam nos valores, mas eles encontram-se na matriz de cada membro da sociedade e são partilhados pelo grupo.

 

Por outro lado, a existência de tal matiz de valores não impede a mudança, porque os valores não são imutáveis na periferia da matriz e desenvolveram-se para impedir a autodestruição e aguentar a sociabilidade. Uns têm natureza moral, outros natureza religiosa, outros ainda natureza económica e social, mesmo política. Mas todos tendem a influir decisivamente nas atitudes e nos comportamentos deles derivados.

 

Portanto, a primeira linha de defesa das sociedades é esta malha de valores compartilhados e vividos nas diversas esferas da acção humana. O antigo prémio Nobel Konrad Lorenz dizia que uma boa parte deles encontra-se nos Dez Mandamentos dados a Moisés, porque as poucas coisas que não se podem fazer estão lá listadas, logo abaixo do maior comando que é de tipo religioso.

 

 

COMO DEBILITAR E MATAR

 

Todos os séculos mostraram que as nações não são eternas, isto é, que as sociedades são mortais. E morrem por diversas razões. Mas a mais comum é por fazerem escolhas erradas em momentos críticos para a sua sobrevivência. Tinham uma elite política sem discernimento, sem tempo histórico, arrogante, inculta ou cega. E isso é suficiente para preparar o epitáfio.

 

Mas as coisas podem-se acelerar. Um inimigo astuto sabe que as resistências se encontram fundamentalmente nas matrizes, chamadas por muitos estudiosos, estruturas latentes, e o problema é simples: mudar as matrizes para as convenientes ao Inimigo, debilitando ao máximo as antigas. É um trabalho longo mas divertido.

 

O teórico fundamental desta operação teve que ultrapassar a dogmática leninista e estalinista e as precauções do chefe do partido comunista italiano à altura, Togliatti. Com efeito Antonio Gramsci (1891- 1937) condenado a 20 anos de prisão no regime fascista de Mussolini, teve tempo para anotar as manobrar nos seus Cadernos do Cárcere que se vulgarizaram nos anos de 1940. Qual é a sua teoria estratégica?

 

É muito simples. Depois de verificar o fracasso do comunismo na Itália através das manobras clássicas da greve geral e do golpe de Estado, Gramsci apercebeu-se que a sociedade italiana resistia ao assalto e não se deixava tomar porque resistia a partir de uma rede de imaterialidades que não se viam a olho nu: valores. Por isso explicou que enquanto não se destruíssem os “valores burgueses”, ou seja, as defesas da sociedade, não se conseguiria tomar o Estado. O comunismo avançaria em Itália segundo um modelo específico que deu frutos até Berlinguer e o seu eurocomunismo. Tratava-se de atacar os valores antigos com  “valores proletários” e operar a substituição. A sociedade mudaria e tornar-se-ia mais permissiva. Mas como: infiltrando agentes nos Seminários, na comunicação social, nas Universidades, no Exército e tratando da intelectualidade do país. Os novos intelectuais, tratados e normalizados nas novas matrizes tratariam da operação e chamou-lhes “intelectuais orgânicos”. E a guerra começou a fazer-se nestes moldes em que o terreno deixou de ser a fábrica ou o campo para se transferir para as comunicações, a religião, as forças armadas, a criação de cultura. A operação correu bem. O caminho para uma nova elite na Itália foi barrado pela Democracia Cristã, que pois se desmoronou.

 

O ensaio em Portugal foi excessivo e não respeitou os tempos. Começou a aborrecer as pessoas que ainda não tinham sofrido a erosão da mente e que tinham noções de honestidade e decência. Falhou também no 25 de Novembro, embora esta reacção salva-se a elite do partido comunista.

 

O que há então: é que os restos da operação continuam activos e os vírus lançados na matriz não hibernaram. A operação mudança continua, por isso a palavra de moda é “desvalorizar”. As novelas desvalorizam o casamento católico. Só aparece cerimonioso para depois levar ao divórcio. Os protagonistas enfrentam as contrariedades bebendo copiosamente ou drogando-se. Parece não haver casamento civil. Mas isso é propositado. As estações dão grande importância a coisas que não interessam e voz a patetas de grande calibre. Raramente tratam do essencial e estão longe de levar a cabo programas para a cidadania: porque praticam e abusam do intox e da contra-informação. E tudo se desvaloriza com o apoio destes meios poderosos do quarto poder, mesmo a crença última num Ser Criador a que Igreja numa estratégia de pura imbecilidade veio dar resposta. Ficámos tão contentes.