Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jornal O Diabo

jornalismo independente

jornalismo independente

Miguel Relvas a O Diabo: “Este é o PSD dos gabinetes. Não fala às pessoas nem tem propostas”

Miguel Relvas é um dos principais apoiantes de Pedro Passos Coelho para líder dos sociais-democratas. Está contra o casamento entre homossexuais e exige o fim do trauma do partido em querer eleger pessoas do passado.


Está activo como nunca na busca de apoios para Pedro Passos Coelho, que acredita ser o próximo presidente do PSD. Miguel Relvas foi afastado das listas à Assembleia da República por Manuela Ferreira Leite. Resiste em Santarém à passagem do “manelismo” e rejeita Marcelo, que diz ser um regresso a um passado que já não faz sentido. O homem que se destacou com Durão Barroso como uma das maiores promessas do partido explica a O Diabo o seu mapa para a vitória.

 

O Diabo - O caso “Face Oculta” é mais um episódio a envolver o senhor primeiro-ministro, sem que, no entanto, nada pareça provar o envolvimento do Eng. José Sócrates em actos ilícitos ou ilegais. Como político, como olha para estes sucessivos casos que envolvem o chefe do Executivo?

Miguel Relvas - Estas investigações, estes casos, fazem sempre com que se prejudique naturalmente a imagem de todos aqueles que estão envolvidos. E isto é ainda mais verdade para os que estão na vida pública. Aqui a Justiça deve ser muito célere e ter todos os meios necessários para que se possa investigar até ao fim.



O Diabo - Por causa do caso anterior – e de outros – há uma descrença dos eleitores, quer no sistema político, quer na Justiça. É pelo menos essa a vox populi das cidades, nos cafés, nas ruas. Também sente isso? E, se sim, como julga que se podia reconquistar essa confiança? Que medidas imediatas julga que podiam ser tomadas?

Miguel Relvas - O que se passa hoje contribui em muito para a descrença das pessoas na Justiça, mas também na vida política e partidária. As medidas a tomar passam, por exemplo, pela alteração imediata na escolha de quem se candidata a cargos públicos. Devemos bater-nos por círculos uninominais, para que os escolhidos e propostos pelos partidos sejam, de facto, pessoas que tenham proximidade com as pessoas que os elegem. Isto aumenta a responsabilização quer dos eleitores quer dos eleitos. Não podemos continuar a ter escolhas feitas longe das pessoas.

 

O Diabo - Ora, por exemplo, no seu caso, que ficou de fora, apesar de apoiado localmente…

Miguel Relvas - Mas o Miguel Relvas agora não interessa para nada. O importante é que esta deve ser uma medida tomada em todas as áreas em que há eleitos. Devem ser as estruturas locais a decidir quem são os nomes. Os partidos não podem continuar a decidir em gabinetes alcatifados e longe dos eleitores. Não são meia dúzia de iluminados e menos iluminados que devem fazer essas escolhas. Temos de evoluir, de facto, para um sistema de representatividade.

O Diabo –  Segundo parece, a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo será mesmo votada na Assembleia da República. Concorda com esta "liberalização" do casamento?

Miguel Relvas - Concordo que as pessoas que têm deveres iguais tenham direitos iguais. Aceito que se compreenda esta extensão no campo dos direitos jurídicos, mas tenho enorme respeito pela instituição que é o casamento.

O Diabo – As diferenças entre PS e PSD nem sempre são claras para os eleitores. Quais as que lhes encontra para que, ainda hoje, seja militante do PSD e não do PS?

Miguel Relvas - Essas semelhanças são meramente conjunturais… O PS tem uma política que depende exclusivamente do Estado, está sempre apoiado neste e tudo o que faz é baseado nele. Ora, o PSD tem uma visão de fundo completamente diferente da sociedade. O PSD acredita nas pessoas, nas empresas e na iniciativa dos cidadãos. Esta é uma diferença marcante, porquanto não tenha sido, nos últimos meses, a diferença marcada pelo próprio partido perante o eleitorado. Sou e serei do PSD porque acredito nisto.


O Diabo – Os arautos da desgraça do PSD têm dito que, ou o partido se organiza, ou corre o risco de ver o seu eleitorado dispersar-se para o PS e para o CDS. Há, na sua opinião, um risco real disto acontecer ou, afinal, são apenas arrufos dos dias seguintes às eleições?
Miguel Relvas - O PSD tem, de facto, de conquistar os 11 deputados que perdeu para o CDS nas últimas eleições. E perdeu-os porque não falou dos problemas concretos. Não falou do desemprego, das necessidades das pessoas, da carga fiscal, da educação e da saúde. Estas são as preocupações reais dos eleitores e dos portugueses e o PSD não lhes soube dar respostas. O futuro do PSD passa, exactamente, por aqui. Não podemos mais continuar com pensamentos do passado, pensamentos e pessoas que não apresentam propostas concretas.


O Diabo – O senhor é, porventura, uma das caras mais conhecidas no apoio à candidatura do dr. Passos Coelho à liderança do PSD. Qual é a estratégia certa para toda a equipa que se propõe liderar o partido, e em que está inserido: manter o silêncio até ao acto eleitoral interno ou, pelo contrário, ir pontuando com comentários à actuação da actual líder?

Miguel Relvas - Assim que forem marcadas eleições, o candidato que eu apoio, e todos nós, temos obrigação de apresentar propostas e falar com o partido. Mas fazê-lo, não é a partir de Lisboa para o partido. É ir aos locais, perceber o que os militantes e simpatizantes querem e exigem. O que temos de conseguir neste novo ciclo é discutir, a fundo, os princípios e as ideias mobilizadoras para o partido e o País. E temos de conseguir estancar esta má ideia que é reeleger sempre figuras do passado, personalidades que já tiveram o seu tempo à frente do partido. O PSD tem mesmo de se rejuvenescer, de ter pessoas novas à frente. Senão, pode estar, de facto, em perigo.