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Jornal O Diabo

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As promessas dos “empana-parvos”: Aquilino Ribeiro

António Pina do Amaral

 

Vindo das zonas de Viseu, em 1902, Aquilino Ribeiro estudava no Seminário de Beja. Em 1906 convivia já em Lisboa com meios revolucionários. Foi preso no ano seguinte acusado de bombista e carbonário. Levado ao juiz Veiga, do Juízo de Instrução Criminal, seguiu-se a cadeia e o exílio. O juiz cairia com ele, jogado para a aridez dos processos na Relação

 

 

“Passei a vida dobrado sobre a banca de escritor e só há pouco dei conta que estava velho. Como foi isso?”, perguntava-se o criador do Malhadinhas. Quem lê esta frase fica sem imaginar sequer o que foi uma vida de turbulência, que meteu cadeia e exílio.

 

No dia 17 de Novembro de 1907 o jovem escritor, na sua sossegada casa na Rua do Carrião à Passadiço, em Lisboa, fabricava bombas. O material improvisado era feito com as pinhas de ferro com que se enfeitavam as sacadas das casas, o explosivo, pólvora negra e carda miúda de sapateiro. Clandestino, o pequeno grupo integrava o Dr. Gonçalves Lopes e o Belmonte de Lemos, comerciante da Rua dos Fanqueiros.

 

Tinha sido mobilizado pelo Luz de Almeida, da Alta Venda da Carbonária, associação secreta para a imposição das ideias à lei da bomba, a “artilharia civil”.

 

De súbito, a explosão. Num ápice estava preso, levado para a esquadra de polícia. “Manso como um cordeiro”, submisso, como relatou na sua memorável auto-biografia ‘Um Escritor Confessa-se’, Aquilino é surpreendido em plena Rua de São José pelo “fotógrafo universal” que a todos aprisionava no seu daguerrotipo, “Joshua Benoliel, fotógrafo beduíno, tanto tira a D. Manuel como tira a Bernardino”. Destino, Esquadra da Parreirinha. Entre “iscarióticos esbirros que vinham, como no Jardim Zoológico, contemplar o gerifalte que caíra no laço”, ei-lo levado para as Amoreiras “ao juiz Veiga, o célebre juiz Veiga, o grande papão dos republicanos, o terror dos anarquistas, o alcoviteiro do rei, a divindade colérica e tutelar que pairava sobre a Monarquia e as instituições, armada de tridente e coriscos”.

 

A cena do interrogatório é um momento magistral. Raposa velha, Veiga faz apelo à compreensão e ao espírito de tolerância cristã para com aquele moço, ainda agora vindo das serranias para os estudos eclesiásticos. Aquilino, não menos versátil, fazia-se da ingénua da peça: “Já confessei tudo a V. Ex.ª. Eu sou um serrano em Lisboa… Mal assentei o pé, pus-me a ler Kropoktine e, por desgraça, a minha condição, pobre, desamparado, sem futuro, deixei-me contaminar pelas ideias extremistas. Logo aqueles amigos aproveitaram a minha inexperiência e meteram-me nesta camisa-de-onze-varas”.

 

Não tardaria a ser levado à Morgue, a reconhecer os amigos que no estado em que estavam já não se poderiam aproveitar de ninguém. Em pleno teatro anatómico, empestado a cheiro de fénico e de formol, ali estavam a “carcaça pavorosa” de um e o Dr. Gonçalves Lopes “a fronte escaqueirada, o peito com um rombo cavernoso, e uma das mãos reduzidas a coto sangrento”.

 

Seguem-se os curros da investigação, “um chefe de polícia néscio e um juiz reles e troca-tintas”. Era o Dr. Alves Ferreira, de que o escritor que se arriscaria em ‘Quando os Lobos Uivam’ daria um retrato violento como urros: “com a pelagem totalmente branca de cobaia e pele lisa dum poupon, tinha andado pelas ilhas, pela província, sempre em comarcas de rebotalho, até que João Franco o caçou ali em Sintra, pau para toda a colher”.

 

Mestre Aquilino evadir-se-ia do cárcere. Esconder-se-ia numas águas furtadas de um prédio pombalino, a 150 metros da Parreirinha, “pelas escadinhas de S. Francisco, e menos de 200 metros do Ministério do Reino, podendo ouvir, se não houvesse a interferência acústica das paredes, os espirros do Sr. João Franco”.

 

Chega a Paris no dia 3 de Junho de 1908, fugido. “Turista sem cheta nem bagagem, transportava, porém, um alforge de promessas de ‘irmãos’ e ‘primos’, que lhe haviam jurado com os pés em esquadria – a ele raposo, beirão, que jamais se iludiu com empana-parvos”, assim o descreve Jorge Reis ao compilar-lhe as ‘Páginas do Exílio’.

 

A Carbonária que o recrutara levara-o ao crime. Fundada pelo bibliotecário da Câmara Municipal de Lisboa, Artur Augusto da Luz Almeida, que havia sido iniciado na Maçonaria, em 1897, na Loja Luís da Camões, n.º 226, em Lisboa, como nome simbólico de ‘Desmoulins’, em 1908 a organização tinha 20 mil adeptos, estando através da loja maçónica ‘Montanha’ infiltrada nas estruturas do Grande Oriente Lusitano.

 

O ‘caso da Rua do Carrião’ como foi chamado levou à perda de influência do juiz Veiga. As conjuras e suspeitas não se conseguiram provar. Veiga segue para a Relação, e dali para o Supremo Tribunal de Justiça, onde se reforma.

 

Conhecedor dos meandros do Paço e das antecâmaras dos republicanos, perguntado pelo jornalista Rocha Martins sobre se não escreveria memórias, respondeu através de um papel rabiscado, símbolo da sua discrição: “nunca!”