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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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Receita para um desastre

Bruce Bueno de Mesquita*

 

Apesar de todas as expectativas criadas, a próxima Conferência sobre a Mudança Climática, marcada para Dezembro em Copenhaga, está destinada ao fracasso.

 

Nas décadas mais próximas, os líderes mundiais aprovarão 'standards-limite' de emissão de gases de estufa teoricamente mais exigentes do que os propostos (e geralmente ignorados) pelo Protocolo de Kyoto de 1997. Mas, ao mesmo tempo, diminuirá o seu verdadeiro apoio a uma regulamentação rigorosa. As razões são muitas, e óbvias. Mas pensemos apenas nesta: as potências energéticas emergentes, como o Brasil, a Índia e a China, simplesmente não aceitarão cortes drásticos nas suas emissões.

 

Como posso afirmar isto? Porque consigo prever o futuro. Não me interpretem mal: não sou bruxo nem tenho uma bola de cristal. Simplesmente, no meu mundo, a ciência é o meio usado para prever as escolhas dos povos e as consequências dessas escolhas no futuro. Por exemplo, posso prever que levar Kim Jong Il a conservar o seu programa nuclear em bolas de naftalina (e não a eliminá-lo completamente) é a melhor forma de lidar com a Coreia do Norte. Ou que tentar obter a paz no Médio Oriente através da entrega de terras não resultará. Ou que os Estados Unidos precisarão de gastar 1,5 mil milhões de dólares anuais em ajudas ao Paquistão para garantir que o governo deste país continuará a combater os Taliban e a Al Qaeda...

 

Então porque não prever talvez a mais controversa, e plena de consequências, questão do nosso tempo? O que nos diz a teoria do jogo sobre como – ou se – nós humanos vamos resolver o aquecimento global? O momento é perfeito: após anos de debate, parece que agora haver um amplo acordo entre a comunidade científica de que a temperatura da Terra está a aumentar. E que a vontade dos políticos fazerem alguma coisa sobre o problema também está a aumentar, ou assim parece. Vou explicar porque “parece” é o termo que melhor se ajusta neste caso, mas antes vejamos alguns antecedentes. Em Dezembro de 1997, 175 países, em que não estavam incluídos os Estados Unidos, assinaram o Protocolo de Kyoto. Este gerou um vasto mercado em que os poluidores e os não poluidores podiam vender e comprar “direitos de poluir”. Este bolsa ajudou a racionalizar decisões ao nível das firmas individuais, mas até agora falhou em atingir a amplitude de reduções previstas pelo Protocolo de Kyoto. Forçar o acordo de 1997 tornou-se virtualmente impossível.

 

Uma consequência das dificuldades encontradas desde esse ano foi um encontro em Bali, em Dezembro de 2007. A reunião na Indonésia tinha objectivos mais modestos que a de Kyoto. Era um patamar intermédio no caminho para Copenhaga, em que se espera seja assinado um novo acordo internacional. Depois de uma considerável resistência, e quase no final do encontro, o representante norte-americano em Bali concordou em fazer importantes concessões. Isto permitiu estabelecer o “Plano de Bali” para o futuro controlo do clima. A questão que agora se põe é: será que estes esforços darão resultados?

 

Investiguemos. Para percebemos o que envolve o controlo da emissão de gases a efeito de estufa, em especial dióxido de carbono, comecemos por alguns dados que reflectem a visão dos protagonistas do aquecimento global. Estes são governos e grupos que têm fortes interesses económicos. A probabilidade de um qualquer acordo ser atingido deverá ser encontrada principalmente entre estes. Incluem a União Europeia, os Estados Unidos (onde a opinião está dividida entre os que são a favor de uma regulação do dióxido de carbono e de outros gases a efeito de estufa e dos que são contra), a China e a Índia. Deste grupo fazem também parte outras economias relativamente grandes, como o Brasil, o Japão, a Rússia, o Canadá e a Austrália. Para se ter uma ideia correcta, na simulação também representei organizações não governamentais ambientalistas, por terem tido uma presença significativa em Bali, e corporações internacionais. Para cada um dos elementos deste grupo estimei a respectiva influência potencial nas negociações de um acordo que substitua o Protocolo de Kyoto.

 

Classifiquei as posições de cada um numa escala de 0 a 100. Um 50 equivale a prosseguir os objectivos de emissão de gases de estufa acordados em 1997, em Kyoto. Evidentemente, uma classificação inferior a 50 significa um enfraquecimento em relação ao mesmo momento. Se for superior a 50, como é o caso da China e da Índia, isso quer dizer que não se está sequer aos níveis de emissões definidas em Kyoto.

 

Porque muita coisa pode acontecer ao longo dos próximos 125 anos, salpiquei a minha simulação com acontecimentos aleatórios que podem alterar os comportamentos dos grandes poluidores, sejam os da obtenção de consensos, sejam os opostos, de apontar “armas”.

 

Grosso modo, a espessa linha negra no gráfico mostra o que jogo prediz virem a ser os futuros padrões de emissão de gases. De acordo com a simulação, as duas linhas ponteadas descrevem a variação de valores que podemos estar certos a 95 por cento serão a futura regulamentação. A variação é muito pequena, cerca de 5 por cento para cima ou para baixo, por alturas do ano 2050. Depois, como seria de esperar, a incerteza é maior, mas mesmo no futuro longínquo de 2130 a variação não excede os 10 pontos em ambos os sentidos.

 

A simulação gráfica conta-nos duas histórias. Em primeiro lugar, que a retórica dos próximos vinte ou trinta anos confirma padrões de emissão mais duros que os estabelecidos em Kyoto. Podemos dizer isto porque os valores previstos são acima de 50. Esta é a parte positiva. Em segundo lugar, o apoio a mais duras regulamentações cai à medida que o mundo se aproxima de 2050, uma data crucial no debate climático. Cerca do ano 2070 baixou para trinta pontos, tendência que se confirma em 2100 em que o valor se situa entre 20 e 25. No final, não há linha verde.

 

Tudo isto pode deixá-lo depressivo, mas talvez não devesse. Pelo meu lado estou mais optimista em relação ao futuro, apesar – sim, apesar –, dos acordos celebrados em Kyoto e Bali ou do que se prepara em Copenhaga. Serão esquecidos num piscar de olhos. Dificilmente causarão qualquer mossa no aquecimento global. Podem mesmo ser contra-produtivos por atrasarem mudanças importantes. Planos como o estabelecido em Bali fazem-nos sentir bem connosco próprios porque fizemos alguma coisa. O problema está em que acordos como os de Bali e Kyoto incluem quase todos os países do mundo. Para fazer com que concordem em algo potencialmente caro, esse algo em que acordam não pode ser nem muito exigente, nem muito caro. Se o for, muitos recusarão porque o custo é superior ao benefício.

 

Então, como podemos resolver a questão do aquecimento global e fazer com que os próximos cinco séculos sejam agradáveis para os nossos descendentes? Eis a minha resposta: as novas tecnologias vão resolver o problema por nós. Existirá um equilíbrio em que um aumento de aquecimento vai causar uma maior exposição solar em zonas frias, mais pluviosidade em zonas secas, aparecimento de ventos em locais calmos e, mais importante, melhores incentivos para a Humanidade que painéis solares, energia eléctrica obtida por meios hídricos, eólicos ou por tecnologias ainda desconhecidas, que substituirão com vantagem os combustíveis fósseis. Já provocamos um aquecimento global suficiente para lançar investigações de todos os géneros.

 

E, provavelmente, daqui a 500 anos, provavelmente teremos encontrado a forma de atingirmos planetas distantes onde poderemos recomeçar tudo, deixando para trás o nosso escaldante sistema solar e a nossa quente galáxia.

 

* Bruce Bueno de Mesquita é Professor de Ciência Política na Universidade de Nova Iorque e autor do livro "The Predictioneer's Game".