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Jornal O Diabo

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Brandão Ferreira: “Em Nome da Pátria”

“Este livro sobre o Ultramar é à revelia da verdade Histórica”

 

Uma obra chocante com revelações inéditas defende que a intervenção militar portuguesa em África, nos anos 60 e 70, estava ganha do ponto de vista militar. Brandão Ferreira regressa à polémica, num livro documental.

 

Colaborador desde há anos de O Diabo, entre outros jornais, articulista e comentador, o Tenente-Coronel Brandão Ferreira tem sido uma voz solitária na defesa de uma nova versão sobre a intervenção das Forças Armadas em África no século XX. Recusa a verdade histórica e diz que há muitos combatentes que deviam deixar o silêncio e comodismo para contrapor a uma versão popularizada em 1974, mas que não corresponde ao que, de facto, aconteceu.

 

O seu livro “Em Nome da Pátria”, que acaba de sair, conta com o prefácio de Adriano Moreira. O Diabo conversa com o militar sem medo do contraditório.

 

O Diabo – Escreve este livro para provar que a intervenção no ultramar está mal contada?

Brandão Ferreira – O mais possível. Tudo o que está no livro é à revelia da verdade e discurso oficial, inclusive o de todos os partidos sentados na Assembleia da República. Escrevo o livro para repor essa verdade. O que podemos fazer hoje? Não podemos prender ninguém, não podemos julgar ninguém. Deve é existir um julgamento histórico. Isto pode, de facto, indispor muita gente.

 

O Diabo – Identifica o momento que, segundo diz, a verdade oficial deixou de corresponder à verdade histórica que agora defende?

Brandão Ferreira – Há uma muita gente que teve responsabilidades e que, se agora derem o dito por não dito, perdiam o pé. Uma quantidade de personagens alcandorou-se a pedestais aos quais não têm direito.

 

O Diabo – Por exemplo?

Brandão Ferreira – Todos os que tiveram responsabilidades a partir do dia 25 de Abril. Esse dia quebra a vontade de lutar por coisas pelas quais lutámos durante 600 anos. Não foram 600 dias. Isto nada tinha a ver com o Estado Novo, mas como uma forma de estar no Mundo, como Portugal, como Nação.

 

O Diabo – Defende que Portugal tinha condições militares para levar vencido os combates em África. Elas existiam realmente?

Brandão Ferreira – Julgo que sim, mas precisamos de que muitas pessoas que estão hoje caladas e que conheceram bem a situação venham falar sobre isso e deixem o seu comodismo. É evidente que há muitas opiniões sobre isto, mas seria bom que a instituição militar tivesse uma verdade oficial sobre o assunto. Não há porque as Forças Armadas estão dependentes do poder político e os chefes militares até já dependem da nomeação do poder político… Obviamente que se forem contra a verdade oficial são logo demitidos. Dizer a verdade é a coisa mais revolucionária que pode haver.

 

O Diabo – Ainda assim, regressemos às condições militares. Reafirma, apesar de tudo, que as situações na Guiné e em Angola podiam ter sido controladas militarmente?

Brandão Ferreira – Angola? A situação em Angola estava resolvida, hoje até o Partido Comunista o admite. A Guiné não estava perdida. O general Spínola deixou a Guiné em mau estado psicológico quando se veio embora. Tinha isto a ver com o moral da tropa – não a moral, que é diferente. Spínola entrou em contradição com o professor Marcelo Caetano e levou-a para o seu quartel na Guiné. Agora, isto leva tempo a explicar e por perceber que o debate do problema é extenso escrevi este livro.

 

O Diabo – A zanga entre Spínola e Caetano é o início do 25 de Abril?

Brandão Ferreira – Sim, podemos dizer isso. Eventualmente, a questão foi o Marechal Spínola não ter sido proposto para Presidente da República. E, talvez, por o professor Marcelo Caetano não ter levado em conta quando umas dicas para a Constituição que pediu ao Marechal Spínola. Pode ser aí o foco do problema.

 

O Diabo – Defende ainda nesta obra que a acção psicológica em África estava bem feita, mas no entanto há falhas…

Brandão Ferreira – Há. A acção psicológica no terreno estava bem feita, por toda a cadeia de comando, mas o governo esqueceu-se de fazer essa acção psicológica na Metrópole. Erro fatal. Esqueceu-se inclusive de fazer acção psicológica junto da população branca em algumas áreas de Angola e Moçambique. Em Moçambique, a população branca nunca sentiu a guerra, que era uma coisa a milhares de quilómetros. Ora, não podemos afrontar as pessoas que estão a combater por nós. Começaram a dizer em Lisboa que os militares não queriam acabar com a guerra porque aquilo lhes dava dinheiro. Isto é subversivo. O que falha é o comando político. E, no campo militar, era preciso explicar que isto era uma guerra de usura, de paciência… E seria sempre muito difícil extirpar toda a guerrilha. Até aqui na Metrópole isso era feito, recorde que no dia da inauguração da ponte sobre o Tejo, a DGS conseguiu travar um atentado aos pilares. E essas pessoas andam para aí agora, se calhar têm pensões à nossa custa ou até foram condecorados.

 

O Diabo – Por falar em pensões, como olha para o que o Estado dá agora, em compensação pecuniária, aos ex-combatentes?

Brandão Ferreira – Um erro. Foi uma demagogia do dr. Paulo Portas. Brincam com coisas sérias. E alguns ex-combatentes não se têm portado bem no meio disto tudo.

 

O Diabo – Tem esperança que os jovens portugueses, que não passaram por estes tempos, o compreendam agora, perante a propaganda que diz existir?

Brandão Ferreira – Há de tudo. As gerações são feitas de carne e osso e os jovens de hoje são iguais aos de ontem. Se se falar verdade, se se falar ao coração, as pessoas entendem. Agora, considero que a maioria dos cidadãos não tem bagagem histórica, matemática, política…

 

O Diabo – O senhor é uma voz dissonante. Convive bem com isso?

Brandão Ferreira – Sou uma voz dissonante, é verdade. Mas que quer que eu faça? Sou assim, estou de bem comigo. Já tive artigos apreendidos, já estou habituado à crítica. Prefiro que as pessoas me digam as coisas frontalmente e que não sejam cínicas. A maior reacção que há é “eu, esse gajo nem leio” - ou há pessoas que concordam e se manifestam.

 

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