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O Diabo que os carregue: Eles comem tudo

A indicação, esta semana divulgada pelos diários, de que "pelo menos 40 mil idosos em Portugal não têm dinheiro para comer", dá que pensar. Antes de mais, pelo seu significado intrínseco: confrange saber que, entre os mais velhos, entre aqueles que passaram uma vida a trabalhar e hoje são apanhados indefesos por uma miséria traiçoeira, as privações chegam ao prato da sopa. Mas dá que pensar, sobretudo, pela delicodoce expressão "pelo menos". Porque todos sabemos, por intuição e por termos olhos para ver e ouvidos para ouvir, que os propalados "40 mil" são apenas uma pálida amostra do número real. Porque todos os dias os vemos nos supermercados, a contar os cêntimos frente à vitrina dos carapaus de gato congelados para o 'banquete' de domingo. Porque à nossa volta, no nosso bairro, no nosso prédio, à hora do jantar, se sente o cheiro das sopas de pão com sopas de pão. Porque na farmácia vemos o seu olhar desesperado quando entregam na caixa a última nota de vinte, dobrada como um pergaminho de valor incalculável. Por isso quase ofende, ouvir falar em "40 mil". Um zero mais e estaríamos mais perto da verdade. Por esta verdade passam velozes, indiferentes e cínicos, nos carros do poder, com vidros fumados para que a vida real os não incomode, os grandes mentores de um regime iníquo e podre. Esses a quem, mais do que nunca, se aplicam hoje os versos que no passado lhes serviram de lema: "Eles comem tudo e não deixam nada". Nem uma migalha. Nem um gesto de compaixão verdadeira. Nem um pensamento bom. Nada. Por cima das nossas cabeças, sob o astro mudo, pairam hoje, mais do que nunca, os vampiros.

 

Fra Diavolo     

 

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