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Jornal O Diabo

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Exageros dos defensores de animais

De acordo com uma nova lei os circos deixarão de ter feras ou cavalos e as touradas estão mais ameaçadas. As associações de defesa dos animais aplaudem e querem mais. Quem sabe, um dia seremos proibidos de ter pássaros em gaiolas ou de passear um cão à trela.

 

A Associação Animal considera que os cães, gatos e cavalos deveriam ser proibidos de “mostrar a sua arte” em circos, por ser uma forma de exploração dos animais pelo homem. Para os defensores dos animais, a nova lei que proíbe a compra e reprodução de espécies selvagens peca por não ir mais longe: não incluiu os animais domésticos e permite a manutenção dos animais selvagens por mais uns anos nos circos.

 

Os criadores de cavalos e de cães consideram “absurda” e “despropositada” esta reivindicação. Para eles, a saga persecutória dos chamados “amigos dos animais” está a ultrapassar os limites do bom senso, podendo “descambar para a idiotice”.

 

Rui Rosado, criador de cavalos lusitano e antigo cavaleiro tauromáquico, salienta que, desde sempre, os circos utilizaram cavalos nos seus espectáculos, não existindo notícias de maus tratos desses animais. Pelo contrário, refere, na maioria dos casos os animais são tratados “principescamente”

 

A nova lei – já contestada pelos proprietários dos principais circos, nomeadamente Cardinali e Chen – poderá ainda ser utilizada pelas associações defensoras dos animais para pressionarem o poder político a por fim às touradas em Portugal, afiançam elementos ligados aos movimentos de defesa dos direitos dos animais.

 

Considerada como uma vitória para os defensores dos animais, nomeadamente para a Associação Animal, a portaria 1226/2009, de 12 de Outubro, da autoria dos Ministérios do Ambiente e da Agricultura e Pescas é considerada como uma “lança em África” que poderá permitir um recrudescer da luta contra todo o tipo de “exploração e utilização dos animais pelos humanos”, designadamente as touradas.

 

A portaria em causa divulga uma lista de espécies consideradas perigosas, pelo seu porte ou por serem venenosas, que só podem ser detidas por parques zoológicos, empresas de produção animal autorizadas e centros de recuperação de espécies apreendidas, sendo que os circos, assim como as lojas de animais não fazem parte da lista de excepções. Não poderão ser vendidas cobras de grande porte ou venenosas, algumas aranhas ou lagartos. Aos circos impõe-se ainda a proibição de compra de novas espécies ou a reprodução das que já tem.

 

O Ministério do Ambiente, que avançou com a proposta, justifica a nova lei com motivos relacionados com a conservação dessas espécies, com o bem-estar e saúde dos exemplares e também com a garantia de segurança dos cidadãos. O mesmo entendimento não tem os proprietários dos circos.

 

Miguel Chen, que reagiu com alguma ironia à notícia de que a exibição de animais nos circos terá os dias contados por causa da proibição de compra de novos animais selvagens, considera que quem fez a portaria “esqueceu-se de mandar fabricar preservativos para os tigres” e outras espécies.

 

Como aqueles animais do circo “vivem em família”, Miguel Chen entende que a reprodução não pode ser impedida e que, por isso, não sabe o que poderá acontecer com os animais que vierem a nascer no circo.

 

Chen critica a lei que “feita à pressa”, “em segredo” e divulgada após as eleições pode comprometer o futuro do circo, considerando que os animais são a principal atracção dos espectadores, principalmente das crianças.

 

No entanto, Miguel Chen ainda acredita que “alguma coisa” poderá ser revista nesta portaria, de que ele e os restantes directores de circo não tinham conhecimento prévio já que não “houve debate” sobre o assunto.

 

Hugo Cardinali, por seu turno, refere: “vivemos num país de touradas. Acho que estamos a ser discriminados porque somos o elo mais fraco. Depois, também há muita portaria que sai e não é aplicada. Vai-se a Jardim Zoológico de Lisboa ou ao Zoo Marine e vêem-se lá golfinhos e focas. Qual é a diferença entre eu ter um elefante e o Zoo Marine ter um golfinho ou uma foca? Estão todos em cativeiro... os golfinhos também deviam andar no mar. Os passarinhos também deviam andar soltos e estão em gaiolas”.

 

Para os responsáveis pelos circos, as associações de defesa dos direitos dos animais são contra tudo e todos que trabalhem com animais, é o caso das touradas e dos circos.

 

Hugo Cardinali, desmentindo algumas denúncias de maus-tratos dos animais, salienta: “os animais têm de ser tratados como animais: com dignidade, bem tratados, mas como animais”, aconselhando os defensores dos animais a preocuparem-se “com os 25 mil idosos que este país tem em lares, com as 10 mil crianças em instituições sem que ninguém as adopte e com dois milhões de pobres no nosso pais. Os animais que temos vivem melhor do que os dois milhões de pobres deste país. Têm comida a horas, são lavados e desinfectados”.

 

Um porta-voz da Associação Animal garantiu a O Diabo que esta portaria não poderá ser utilizada para combater as touradas. “Não há nenhuma ligação entre a legislação que saiu e o problema das touradas. Não queremos que se ligue uma coisa à outra, até porque são situações distintas”, refere, para de imediato acrescentar: “mas iremos continuar a lutar para que as touradas sejam proibidas em Portugal”.

 

Os ganaderos portugueses, por seu turno, consideram “pouco preocupante” esta declaração de princípios da Associação Animal. João Andrade, presidente da Associação Portuguesa de Criadores de Touros de Lide, desvaloriza as declarações que têm sido feitas pelos defensores dos direitos dos animais, realçando que “os ganaderos são os maiores amigos das reses bravas”.

 

João Grave, da ganadaria Murteira Grave, recorda o papel importante que as ganaderias têm na preservação da genética de um animal único e também “no respeito pelo equilíbrio ecológico”, nomeadamente na manutenção do montado de zinho e sobreiro.

 

 

Para João Andrade e João Grave, a legislação que saiu não vai interferir em nada com o touro bravo. Uma coisa são os anseios dos militantes anti-touradas, outra coisa é a tradição e a realidade cultural e regionalista do país, estando-se a assistir a aumento significativo dos números de espectadores de espectáculos tauromáquicos.