Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jornal O Diabo

jornalismo independente

jornalismo independente

Um pequeno exercício sobre a política externa portuguesa

António Marques Bessa

 

O povo que vota jamais está atento à política externa. Importa-se com as coisas pequenas que lhe tocam, mas nunca se preocupa com o que diz respeito a todos. Aqui um balázio no candidato do PSD, ali um despiste com mortos, acolá uma operação da GNR, noutro lado os costumados e lamentáveis choros dos lavradores, onde não há lavoura.

 

Mas, prestar atenção às coisas que o vão afectar no médio o longo prazo, não é com os portugueses. As decisões que são tomadas nas costas do povo, sem ele sequer notar, são muitas e graves. Portugal aderiu à Nato. O governo assim o decidiu da mesma forma que tornou o País em membro integrante do Projecto Europeu. Subsidia Cabo-Verde, Timor e outras antigas colónias sem dar satisfações. Coloca representações diplomáticas dispendiosas em sítios inacreditáveis e sem sentido, certamente só para arrumar indesejáveis no Ministério Cor de Rosa. A política prosseguida no plano externo tem-se revelado como unilateral, dependente dos USA e secundariamente dos governos, sem isenção para nenhum. Os grandes temas foram perdidos e novos temas não têm interesse real.

 

Quem na política externa?

 

Um pequeno conjunto de gente.

 

A começar pelo ministro do Negócios Estrangeiros, pelos seus secretários de Estado, conselheiros e máquina assessora. Todo este aparelho é responsável perante o seu ministro e este responde face ao primeiro-ministro. Se a política externa tivesse que responder perante o povo a coisa seria diferente. Mas esta política é muito secreta, (parece que é negócio do Estado), feita por poucos e com poucos, mas com dinheiro que circula segundo as redes definidas pelo ministro. E aí vão os impostos para as ONG amigas, para os serviços secretos de nada, para os pacóvios dos conselheiros filhos de conselheiros ou amigos, mas trata-se do palco onde se debate ainda a virtualidade do mar e a possibilidade da continentalidade centrada em Bruxelas, onde todos nos podem gozar como o último da fila dos pobres e pequenos, passado pela Eslováquia. Na realidade é uma política escondida, que agora obriga o país a enviar homens armados para o Afeganistão enfrentar os estudantes de Teologia islâmica, que nos obriga a ir para o Iraque, para os Balcãs, arriscar vidas, vidas que eram muito contestadas quando perdidas na Guiné ou em Moçambique. Nesta política externa alinhada já morreram muitos franceses, espanhóis, ingleses, suecos e outros. Ainda não perceberam que a política americana está errada e não devemos segui-la como cães de fila. Trata-se uma guerra que os soviéticos perderam e que já chegou ao Irão e à Índia.

 

Bem se vê que a adesão ao Euro encareceu toda a nossa vida e que o essencial não foi acautelados pelos negociadores da política externa. Mas quem se importa? Não eram eles os técnicos? Mas de quê? Do partido? A política externa face à EU é das piores. O País paga multas porque é atrasado, não “saca” o que pode porque é estúpido, é explorado porque gosta e cultiva o masoquismo activo, como a malta do BE.

 

Mas fica-se a saber que um número pequeno de pessoas trata da “grande política”, enquanto o povão se ocupa de futebol e, quando é chamado, é para decidir quem vai fazer “pequena política”. E assim é que está bem no país dos engenheirozinhos e dos engenhosos.

 

As Políticas Públicas

 

Temos vindo a assistir ao colapso das políticas públicas, ou seja, às grandes orientações do Governo para determinadas áreas de acção tidas como essenciais, como a justiça, a saúde, a educação o emprego, a defesa, a produção, o mar. O relatório do Observatório da Justiça é risível. Cada vez que fazem um, recomendam o contrário, que é rapidamente citado como se o Boaventura Sousa Santos, Teólogo, fosse um pequeno deus das Coisas Grandes. Não é. Fizeram-no e agora que aturem o seminarista e sua vertente jesuítica de diálogo. É mau fazer deuses de Coisas grandes, como recomendaria o autor do Deus das coisas pequenas (Arundhati Roy). Bom, depois a educação: está visto e confirmado que é uma desgraça: sabe-se cada vez menos. Qualquer dia só sabem falar com mil palavras. E contas? Só com calculadora. Estamos atrás como disse o Presidente? Atrás de quê? O esforço feito para a qualificação das pessoas foi destruído num instante por um decreto. Bom: sempre teremos mão-de-obra barata como prometeu Lino, o Grande “jamais”. Saúde? Não brinquemos: talvez seja por isso que a Inglaterra descobriu que os nossos médicos eram bons para ir para lá enquanto o ministério descobria que os cubanos eram bons para vir para aqui, sobretudo para o Alentejo. Se há algum programa de exterminação da população velha em marcha é bom que sejamos informados. É delirante mas é verdade: formam-se médicos à custa do Estado e vão para Inglaterra e uns “podões de Cuba” vêm para o Alentejo, gente que eu vi em Moçambique tentar curar a lepra manifesta nos dedos com antibióticos! Claro que os dedos pouco depois caiam. A lepra não se trata assim e isso era uma coisa que até eu sabia.

 

Otto von Bismarck que seguiu sempre a clara divisão entre Grande Política (Macht Politik) e Política Paroquial, também escreveu esta velha verdade: “As pessoas nunca mentem tanto como depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição”. E na questão da política externa, como já se viu um número restrito, também se aplica a bela síntese de Simon Cameron, que afirma: “Político honesto é aquele que depois de comprado, permanece comprado”. E o melhor que se pode dizer sobre os governos desta terceira República é: os pobres aumentam.