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Jornal O Diabo

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Telenovelas

Domingo, hora do jantar. Num dos países mais pobres da Europa, com a agricultura na falência, as pescas em saldo e a escassa indústria em crise, num país à beira da improdutividade, onde todos os dias fecham empresas e aumenta o rol dos miseráveis – milhares de automobilistas acotovelam-se a caminho das pontes que dão acesso à capital. De onde vêm e para onde vão? Terão acabado de fazer horas extraordinárias? Decidido começar a trabalhar mais cedo? Haverá distribuição-extra na sopa dos pobres? Nada disso: vêm do Algarve e regressam a suas casas, após um merecido fim-de-semana de repouso e peixe grelhado. Como burgueses endinheirados de Hamburgo ou Oslo, transportam-se em automóveis que ultrapassam, em luxo e extras, a frota de qualquer telenovela. Pois é a uma telenovela que assistimos: um enredo escrito num momento de demência para povoar o nosso ‘zapping’ sonâmbulo. Nesta ficção em que Portugal se transformou, somos todos esbeltos e milionários, ganhamos os campeonatos mundiais e vamos a caminho de um estúdio de gravações no céu. Guardámos o sentido das realidades no porta-luvas do bmw. Deixámos o tino e o raciocínio na casa de praia. Quem pode censurar-nos? O guião deste “Simplesmente Maria” está a ser escrito, todos os dias, por uma Imprensa que tem por caneta uma seringa de anestesia. Os nossos heróis são “socialites”, estrelas da bola e políticos que aprenderam a safar-se. Portugal já não está doente: enlouqueceu e fugiu da clínica psiquiátrica. Por isso, no domingo, à hora do jantar, num dos países mais pobres da Europa, vamos todos a caminho das cenas dos próximos capítulos. O pior é se um dia acordamos!

FRA DIAVOLO