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Jornal O Diabo

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Cura das doenças dos portugueses passa pela prevenção

Milhares de portugueses acumulam uma série de doenças que custam caro ao Estado. A situação poderia melhorar se a política de saúde apostasse mais na prevenção e sensibilização, como aconteceu com a gripe A.

 

O vírus H1N1 teve, pelo menos, o mérito de mostrar que o Governo, quando lhe interessa, é capaz de promover grandes campanhas de sensibilização e prevenção. Portugal é o país europeu mais atingido pela tuberculose, doença intimamente ligada às condições de pobreza da população, e que mata muito mais do que qualquer vírus gripal. O reumatismo afecta milhões de portugueses e as doenças cardíacas são responsáveis por centenas de mortes todos os anos. Contudo, as acções de prevenção são tímidas e pouco eficazes.

 

Mas há muitas outras doenças que afectam os portugueses e que igualmente mereceriam uma política de prevenção. O Diabo quis saber quais são se os portugueses, que tantos descontos fazem para alimentar um Serviço Nacional de Saúde, que consideram de má qualidade, podem ou não considerar-se um povo doente.

 

A acreditar nas estatísticas, saúde é coisa que não abunda. De acordo com a média matemática, todos padecem, pelo menos, de três doenças e meia. Como certamente há uma boa parte da população que não se queixa de nada, a restante, convenhamos, deve acumular muitas mazelas.

 

E são várias as combinações possíveis entre enfermidades que levam os portugueses a “arrastem-se” por serviços de urgência e consultórios médicos, a confidenciar ao farmacêutico ou ao padeiro o seu historial de saúde ou a disputar aos vizinhos o estatuto do mais doente que os outros.

 

Reumatismo, conjuntivite, insuficiência cardíaca? Hipertensão, colesterol, problemas digestivos? Todos estes “menus” são possíveis e podem ainda ser “aprimorados” com umas quantas incómodas ou recorrentes alergias, sejam elas provocadas pela ingestão de um qualquer alimento, não devidamente verificado pela ASAE, pela picada de uma abelha ou por ataques de asma que periodicamente reaparecem.

 

Dada a aparente falta de um padrão comum ao rastreio de cada uma das doenças que mais afectam os portugueses, a apreciação tem de ser feita com base nos relatórios sobre os números de baixas que cada uma causa e, sempre que possível, por outros elementos disponibilizados pelas estatísticas, como o número de consultas ou intervenções em situação de urgência. Ficam assim, praticamente, excluídos os elementos da população que, ou estão no desemprego, ou já atingiram a idade da reforma. Cerca de metade dos portugueses.

 

Relativamente à população activa, sabe-se que 10 em cada 100 trabalhadores faltam mensalmente pelas mais diversas razões um ou dois dias ao trabalho. Só quatro por cento o fazem por um período mais longo, devido a doença, acidente ou lesão suficientemente importante para que fiquem longe das suas ocupações profissionais.

 

Um relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR), regista 15 milhões de dias de baixas anuais devido a problemas respiratórios. De acordo com o mesmo documento estas afecções estão também na origem de cinco milhões de consultas e 1,8 milhões visitas aos serviços de urgências. Estima-se ainda que o número de portugueses com incapacidade de longa duração por doença respiratória ronda anualmente o milhão. Apesar de nos últimos anos se verificar uma tendência decrescente é a terceira causa de morte em Portugal.

 

As estatísticas revelam ainda que mais de três milhões de portugueses sofre de, pelo menos, uma alergia. Mas muitos são os que juntam rinites alérgicas às conjuntivites, a asma a eczemas e a urticária, ou apresentam ainda muitas de outras combinações possíveis. Isto sem esquecer os dois a cinco por cento que têm alergia alimentar ou são sensíveis a venenos de insectos e o número indeterminado que afirma sofrer de alergias provocadas por medicamentos que ingerem para curar outras maleitas.

 

Detectados três mil casos de tuberculose por ano

 

Outro relatório da ONDR relata que a tuberculose é “um importante problema de saúde pública, com níveis de incidência que colocam Portugal na cauda dos países da Europa Ocidental,” sendo também um dos motivos de baixas médicas dos portugueses.

 

Todos os anos são detectados no nosso país cerca de três mil casos. A doença caracteriza-se por uma marcada assimetria distrital, com apenas três distritos (Porto, Lisboa e Setúbal) com mais de 60 por cento de casos novos. Esta concentração deixa perceber a existência de graves problemas sócio-sanitários e insuficiências na estrutura organizativa de combate à doença.

 

O documento menciona ainda que Portugal é “o país da Europa Ocidental com a mais elevada taxa de incidência de tuberculoses, tendo um ritmo de decréscimo insuficiente”.

 

Um outro dado preocupante divulgado revela que o cancro de pulmão continua a aumentar em Portugal. É a primeira causa da morte oncológica em Portugal, acima do cancro do estômago, do cólon e da mama.

 

Reumáticos e cardíacos

 

Os portugueses respiram mal mas também têm dificuldades em se mexer. É o que indica a estimativa da Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas que classifica o reumatismo, nas suas mais variadas manifestações, como a terceira causa de “baixa” dos portugueses, em especial os do sexo feminino. Incluem-se nesta análise não apenas as pessoas que necessitam de acompanhamento médico regular, mas qualquer outra com queixas do foro reumático que obrigue a consultar um médico.

 

Os especialistas acreditam que, no futuro, as doenças reumáticas têm tendência para aumentar e vão continuar a ser as mais frequentes, principalmente, devido ao aumento de esperança de vida da população. Mas lembram: “ter um problema reumático não tem a ver com idade. Essa é uma ideia errada”. Há novos medicamentos para as doenças reumáticas, “mais caros, mas também muito mais eficazes” dizem ainda, lamentando logo de seguida “mas não estão a chegar a todos os doentes que deles necessitam”.

 

Quanto às doenças cardiovasculares, elas afectam meio milhão de portugueses e representam a quinta causa de incapacidade. As medidas preventivas e as campanhas de sensibilização têm apresentado resultados animadores. Contudo, a Federação Portuguesa de Cardiologia alerta para o facto de haver cada vez mais pessoas incapacitadas em consequência de problemas cardíacos. “A mortalidade está a diminuir, o que quer dizer que o Serviço Nacional de Saúde está a responder bem, que as terapêuticas estão a ser boas, mas não significa que os doentes deixem de sofrer”.

 

Embora, oficialmente, ainda não sofram de problemas de coração, há cerca de 40 por cento da população que tem um nível de colesterol demasiadamente elevado e/ou é hipertenso. Em breve, muitos deles poderão contribuir para o aumento dos números estatísticos. Na perspectiva dos especialistas, este tipo de doenças tem vindo a aumentar em todo o mundo nos últimos anos. A este crescimento não são estranhas as alterações do estilo de vida, o sedentarismo, o aumento da poluição atmosférica, modificações dos regimes alimentares e a obesidade.

 

Devido à complexidade de cuidados dispensados e da medicamentação prescrita, os doentes cardíacos são dos que mais despesas representam para o Estado.

 

Mais de um milhão de alcoólicos

 

Em Portugal, não se sabe ao certo quantas pessoas existem com doença hepática: os rastreios são deficientes e escassos, os sintomas aparecem tardiamente e não existem números fidedignos respeitantes às patologias hepáticas mais conhecidas. No entanto, a partir dos números de baixas que originam, calcula-se que cerca de 1,5 por cento da população esteja infectada com os vírus de hepatites B e C. Há cerca de 170.000 doentes diagnosticados com a primeira e cerca de 120 a 130 mil com a segunda. Receia-se igualmente que existam mais de 1,3 milhões de alcoólicos e de bebedores excessivos e estimam-se em150 mil os doentes com doença hepática alcoólica.

 

O excesso de peso, poderá atingir 46 por cento da população e que 3 por cento venha a desenvolver uma doença ligada à sobrecarga de gordura no fígado. Ou seja, a realidade aponta para que as patologias hepáticas mais comuns aumentem entre os portugueses.

 

Médicos e enfermeiros contactados por “O Diabo” lamentam que Portugal seja o um dos países da OCDE onde a comparticipação do Estado nas despesas total de saúde é mais baixa e defendem que a única forma de inverter este panorama negro do estado de saúde dos portugueses passa pela melhoria do sistema de prevenção da doença e por um maior investimento do Estado. “Nascemos com determinado capital de saúde e se não investirmos na sua preservação e manutenção perdemos nós, perde o SNS e a economia nacional” dizem.

 

Como é praticado noutros países europeus, o controlo das despesas de saúde passa fundamentalmente por políticas e programas nacionais e individuais de prevenção, promoção e educação. Os profissionais de saúde, e o próprio Ministério da Saúde, acreditam que os males dos portugueses podem diminuir com uma correcta política de prevenção. No entanto, os governos têm vindo a desinvestir no sector. Entre 2004 e 2007 as transferências aumentaram apenas 2,2 por cento, enquanto o Produto Interno Bruto, no mesmo período, cresceu 10,7 por cento.