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Jornal O Diabo

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Marcello Caetano, “intolerante e intransigente” - A Ordem Nova

António Pina do Amaral

 

Em Setembro de 1974, apeado do poder pelo 25 de Abril, Marcello José das Neves Alves Caetano começa a escrever as suas memórias. Curiosamente o livro chamar-se-á ‘As Minhas Memórias de Salazar’. Só isso mostra a relação umbilical que o liga ao seu antecessor e a tensão problemática que a caracterizou. Salazar é um fantasma que perseguirá Marcello a vida toda. Afastá-lo-á da governação, remetendo-o para a Universidade. Não sonhava então que seria ele quem o substituiria.

 

No terceiro capítulo dessa obra anota discretamente: “Cedo comecei a escrever em jornais. Ainda estudante destaquei-me na acção católica, quer como militante do movimento de doutrinação monárquica, denominado Integralismo Lusitano, mantendo uma pequena revista combativa”.

 

Quem lê estas linhas não imagina o teor da publicação em causa, nem o lema de que a capa fazia bandeira. Sobretudo os que recordam de Marcello a imagem austera, o rictus míope de que fazia sorriso contido, a prudência jurídica de que fazia estilo na governação e no ensino.

 

A revista chamava-se ‘Ordem Nova’. Editaram-se doze exemplares, entre Março de 1926 e Fevereiro de 1927.

 

Em estilo gráfico modernista a capa ostentava provocatoriamente: “revista anti-moderna, anti-liberal, anti-democrática e anti-bolchevista, contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa”.

 

Marcello entrara na Faculdade de Direito com dezasseis anos. Licenciado, viria a ser paulatinamente uma figura grada do regime. O seu contacto com Salazar deu-se quando este o descobriu graças ao seu saber sobre Direito dos Seguros. Nomeou-o auditor jurídico do Ministério das Finanças. Tinha 23 anos de idade.

 

A ascensão dentro dos quadros do Estado Novo far-se-ia rápida mas com sobressaltos. Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, viria a ser ministro das Colónias (1944-1947), da Presidência (1955-1958), Presidente do Conselho de Ministros (1968-1974). Passaria para a História como um prudente conciliador. Os ultras do regime acham que foi pela sua tibieza que foi possível o 25 de Abril. Os liberais acusam a sua “evolução na continuidade” de ter bloqueado qualquer evolução democrática. Morreu amargurado no Brasil.

 

Estudante modesto, Marcello formar-se-ia em Direito a dar explicações, primeiro a alunos do Liceu, depois aos seus próprios colegas de curso. O jornalismo foi uma sua paixão de primícias.

 

Vista hoje a “revista de combate” mostra bem que houve um Marcello Novo, revolucionário, radical, de peito aberto. Atribui-se a Churchill a frase “se o meu filho aos vinte anos não for anarquista é porque não tem coração, se aos quarenta não for conservador é porque não tem cabeça”. É precisamente o que parece passar-se aqui. Naturalmente que na idade adulta Marcello teria dificuldade em rever-se nesses arroubos juvenis, daí a contenção nas “Memórias”. Mas há sempre um momento em que temos vinte anos.

 

A publicação é de pequeno formato, em oitavo, com quarenta páginas e alguns anúncios que prudentemente a sustentariam. A assinatura anual custava 24$00, mas os assinantes da revista Nação Portuguesa e os «eclesiásticos no Continente» pagariam só vinte.

 

Com redacção na Rua do Norte, n.º 57 em Coimbra e administração em Lisboa, no Largo do Directório, 8, 3º em Lisboa, anunciava-se mensal e cumpriu esse propósito durante um ano, embora com engasgamentos. Seus fundadores, além do próprio Marcello, Albano Pereira Dias de Magalhães; secretário, editor e proprietário, J. Fernandes Júnior.

 

No número inaugural Marcello escrevia uma pequena prosa chamada ‘A falência do senhor dos Passos’. É um Marcello místico, que escreve sobre a procissão do Senhor dos Passos à Graça. Censura-a como “exibição de vaidade colectiva duma instituição que foi cristã”. Todo o artigo é um apelo a uma regeneração moral do País: “Amor, Pobreza, Humildade: eis as grandes virtudes de que hoje necessitamos para a luta em que andamos empenhados contra as divindades torpes que se adoram nesta idade tristíssima sem Deus”, clama o jovem autor.

 

Na mesma linha, louvado agora na doutrina social da Igreja, citando Leão XIII e a sua encíclica Rerum Novarum, Marcello publica no número dois uma breve nota em que censura “o procedimento de alguns industriais de Lisboa que fecharam as suas fábricas nos três dias solenes da Semana Santa sem que os pagassem aos operários que assim ficaram reduzidos a metade da sua féria habitual”. Está aí reiterada a sua ideia tomista dos detentores de riqueza como “depositários do tesouro dos pobres”, o reparo à injustiça, à avareza.

 

Polimorfo, Marcello entra pela recensão literária no número três da publicação, comentando o livro e contos ‘Ana a Kalunga’ o livro de Hipólito Raposo – “na nossa língua ‘Os Filhos do Mar’ – belo exemplo de literatura colonial, como por exemplo a de Carlos Selvagem, que considera “um bom livro quer sob o aspecto literário quer sob o aspecto nacionalista”, aproveitando para fustigar o desprezo que o Estado votada então às colónias, lembrando que havia quem pensasse que o ideal para a salvação financeira do País era… vendê-las.

 

É no número conjunto quatro e cinco que Marcello se estende já um pouco mais. A revista viveria já dificuldades financeiras. Num folheto que visava a sua publicidade anunciava-se como “a revista-panfleto mais reaccionária que hoje se publica em Portugal”.

 

É aí que vem publicado o seu anátema contra o livro ‘Sodoma Divinizada’, de Raúl Leal, as ‘Canções’, “dum tal” António Botto, e o ‘Decadência’ “duma desavergonhada chamada Judit Teixeira”. “Livros obscenos” lhes chama o crítico. Lembrando Marcello que graças à intervenção dos estudantes de Lisboa se tinha posto cobro a este estado de coisas, indo os autores parar ao Governo Civil onde “sem escolha, se procedeu à cremação daquela papelada imunda”, sublinha que esta “degradação” havia voltado agora,“grave sintoma que nos oferece o estado em que se encontra a sociedade burguesa, que resume os últimos gestos de energia na tentativa de endireitar as pernas anquilosadas firmando-se nos chinelos de corda”.

 

O tom moralista estava dado. O número seis traz, sob o título ‘Satan ressurge’ um texto apocalíptico em que se anuncia o combate contra “o reino das trevas”, texto em que Marcelo vê os reflexos do Maligno na literatura, nos costumes, na sociedade, na administração do Estado.

 

Texto furibundo surgiria no número seguinte, ante a notícia que a “a Snrª Dª Aldegundes de Bragança, invocado o nome do seu ex-pupilo, o Príncipe D. Duarte Nuno, agraciou o impagável snr. António Cabreira com o título de…Conde de Lagos”. Iracundo com o acto que gerara mas este “grande do Reino”, Marcello, que considera o novo Dom um “titular de opereta”, comenta: “A Causa Monárquica em Portugal está reduzida a um preciosismo de salões, em que se movem muitas marquesas e baronesas cujos maridos votam no sr. Carvalho da Silva e são amigos de ‘tu’ dos estadistas republicanos. É um monarquismo de recepções e de bilhetes de visita, em que ficam bens os títulos e as coroas respectivas.

 

Estava dado o tom. Combativo, o jovem doutor pugnava por uma purga de costumes e contra o aviltamento das instituições. Anti-republicano, estava no lugar certo. Nesse número sete, Pedro Teotónio Pereira iniciava a publicação de um texto em que a propósito da liberdade de imprensa citava Mussolini, prenunciava a falência da democracia e ridicularizava a “farçada groetsca do parlamentarismo” e verberava “o papel pernicioso da imprensa, que perturba, agrava e envenena, esta mistificação de uma opinião pública quotidiana, a três tostões, caprichosa, ociosa e tagarela como as comadres do saolheiro”. Chamava-se ‘A Alavanca do Progresso’.