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Jornal O Diabo

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História e encenação: Hermano Saraiva

António Pina do Amaral

 

O regime anterior oprimia? Ou eram as pessoas que queriam agradar? Um dia na vida de Hermano Saraiva ilustra do que se trata. A História passa a ser o que poderia ter sido.

 

 

Foi Advogado no princípio da sua vida. Proferiu em 1964 uma conferência na Ordem dos Advogados sobre a Crise do Direito que recentemente reeditou. A inteligência do que então disse mantém hoje plena actualidade.

 

Não seriam, porém, os tribunais que o animariam. Licenciado em Histórico-Filosóficas em 1941 – na altura o curso era comum – e em Ciências Jurídicas em 1942, acabaria por ser a História que lhe ocuparia o espírito, menos pelo que escreveu, embora seja o autor de uma ‘História de Portugal’, muito conhecida, e sobretudo de uma ‘História Concisa de Portugal’ que o popularizou. A opção pelo Direito havia sido pragmática. Uma vez disse que a História só lhe pagava o dia até à hora do almoço.

 

Não o ganho económico, mas a sua grande projecção deu-se, porém, graças aos programas de televisão em que os seus dotes de grande comunicador estavam presentes, sofrendo embora por vezes a acusação de fantasista.

 

Na verdade, os seus programas ‘O Tempo e a Alma’ (1972), ‘Horizontes da Memória’ (1996) e ‘A Alma e a Gente’, atraíram multidões e deram cultura àqueles que, por outro modo, não a teriam.

 

Espírito irrequieto, a sua vida política foi atribulada. Chegou a Ministro da Educação entre 1968 e 1970, passando do governo de António de Oliveira Salazar para o de Marcelo Caetano. Foi protagonista, do lado do poder, da crise académica de 1969. A frase “em Coimbra a ordem será mantida”, dita de dentes cerrados, como ministro, ante as câmaras da RTP, persegui-lo-á como um ícone de autoritarismo.

 

Irmão do historiador da Literatura António José Saraiva, distinguiu-se deste pelo conservadorismo, apesar de confessar que, depois do 25 de Abril, tem votado sempre em candidatos socialistas. Homem de esquerda, António José, pai do director do SOL, acabou por sofrer as perseguições do regime que Hermano soube servir. Não foi fácil equilibrarem ambos a relação de sangue com a filiação política.

 

Não é porém linear a sua trajectória nos quadros políticos do Estado Novo. Em muitos aspectos tomou distâncias e acabou por encontrar incompreensões. Mas desde cedo se perfilou como uma figura com valor, possível quadro do regime de Salazar.

 

Talvez por isso o 40º Aniversários da Revolução Nacional viveu um dos episódios emblemáticos do modo de ser português. O regime concentrara-se na efeméride. Viajando de avião para Braga – aventura única neste ser sedentário –, Salazar proferiria uma alocução em que, criando irónico ‘suspense” lançara o repto: Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo”. Sentiam-se as moscas, a respiração contida. O Chefe parecia claudicar. Mas o homem que era o Estado Novo rematou, como se em gozo com o momento embaraçoso que gerara: “Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria”.

 

Para além do acto em Braga, a data iria ser oficialmente comemorada com uma cerimónia de Estado na Assembleia Nacional, envolvendo discursos, loas, apelos. Designado para falar o Dr. José Guilherme de Melo e Castro, líder da União Nacional, o partido único do regime, preparava o seu discurso quando foi decidido que o jovem e controverso Dr. Hermano também discursaria.

 

Nas suas memórias, Saraiva descreve o júbilo com que recebeu a notícia, acrescido ao saber que o Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, estaria presente no hemiciclo de São Bento. Foram tempos de ensaio, de declamação ao espelho, de antevisão do efeito, de representação teatral, aquilo que os telespectadores ainda hoje conseguem imaginar ao seguir-lhe o gesto, a expressão facial, a pose.

 

Vaidoso, sentiu-se levado ao Panteão da Glória quando julgou perceber, num dos momentos de maior arroubo retórico, uma furtiva lágrima que escapava da face inerte, fria e contida do homem que governou Portugal durante meio século.

 

A televisão, que haveria de ser o seu local de eleição, seguia atenta e cumpridora toda a cena, mas não gastara filme a gravar o discurso do jovem Dr. Saraiva, tendo optado, numa lógica de respeito pelas precedências, pelo do Dr. Melo e Castro, o qual se revelaria, porém, crítico em relação à Situação. Desconcertante, este ousara dizer que em relação a Salazarum grande serviço tem de pedir-se-lhe, após tantos e tamanhos que tem prestado... o de afeiçoar os mecanismos da governação... de modo que o país possa progredir à medida do tempo presente e sem que tenha de depender do impulso da sua autoridade ou de abrigar-se à sombra do seu prestígio”. Era um toque de inconformismo, que rematava com o apelo ousado a uma autêntica “via representativa”.

 

O azar escondia-se atrás da porta. Instruída nesse sentido, a RTP não passara o discurso controverso. Mas havia o de Saraiva que, consentâneo com a política oficial, poderia remediar o caso. Salazar não hesitou. Pegou no telefone e ei-lo em diálogo com o director da RTP.

 

Eis aqui, na sua melhor expressão, a mentalidade e o espírito do tempo. Incapaz de assumir que tinha optado por privilegiar o discurso do líder da União Nacional, o homem da RTP acabaria por mentir, afirmando que de modo algum o Dr. Saraiva havia sido esquecido. Que sim, que concordava que havia sido um bonito discurso. Que, claro, estava todo registado e que inclusivamente iria ser objecto de uma transmissão especial, dada a sua evidente importância. Salazar desligou agradecido, talvez convencido, sobretudo enganado.

 

Angustiado, o homem do Lumiar inventou a paródia da solução. Armado com um operador de câmara, ajuramentado para antes morrer que falar, fez-se a montagem farsolas do que não sucedera. De noite, em sigilo, ante as carteiras vazias, os deputados ausentes, tendo apenas o próprio filho como testemunha, Saraiva repetiu o discurso, tentando lembrar-se dos gestos e dos tiques, para que tudo parecesse natural e verdadeiro. Colaborou numa encenação em que a História passou a ser o que poderia ter sido. Eis como foi.