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Jornal O Diabo

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Há jovens professores a passar fome

Pagos contra recibo verde, em situação de trabalho precária, há milhares de professores que apenas contam com a ajuda de familiares para sobreviverem e dão aulas de estômago vazio.

 

Anabela Delgado, dirigente da Fenprof (Federação Nacional dos Professores), considera preocupante a situação de milhares de jovens professores. “Não temos números – a maioria das pessoas tem vergonha em falar dos seus problemas - mas calculamos que possam ser cerca de 5 mil os professores que estão a passar por graves dificuldades financeiras. Sabemos que alguns estão a passar fome”, afirma.

 

Francisco (nome fictício) é um desses casos. A morar na margem sul do Tejo é professor numa escola secundária de Lisboa, confirma: “Se não fosse a ajuda dos meus pais estava a passar fome. Tenho um horário de 3 horas, sem direito aos 4,27 euros de subsídio de almoço. Com este esquema, o meu ordenado é de aproximadamente 600 euros, o que não dá para pagar o passe e almoçar diariamente”.

 

Considerando-se um “felizardo”, devido à ajuda familiar, Francisco revela que existem “colegas que não tem essa vantagem e, por isso, passam por graves dificuldades. Muitos tomam o pequeno-almoço e depois só comem ao jantar, quando regressam a casa. Passam o dia inteiro sem comer”.

 

Segundo Anabela Delgado, existem muitas situações dramáticas, principalmente com os professores de Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC), normalmente pagos pelas Câmaras Municipais ou por empresas privadas contratadas pelas edilidades para essas actividades.

 

Para os docentes, as Câmaras Municipais recebem do Ministério da Educação cerca de 15 euros para cada hora de formação, mas, tendo em conta que as aulas nas AEC têm a duração de 45 minutos, às mãos dos professores só chegam 8,60 euros, pagos em alguns casos pela empresa contratada pela autarquia para gerir o processo de contratação,

 

A situação desagrada aos professores, que querem ver a sua situação profissional melhorada neste ano lectivo. “Fazendo as contas são cerca de 6,50 euros que ficam pelo caminho, desde que o dinheiro sai do Ministério até chegar a nós”, denunciam.

 

As Câmaras defendem-se destas acusações, garantindo que “todos estão a receber pelo índice referente a habilitação igual à licenciatura”.

Para as autarquias, o apoio recebido do Ministério não é só para a remuneração dos professores, mas serve também para pagar material, transportes e, em situações pontuais, para o aluguer de instalações.

 

Como referem várias fontes contactadas por O Diabo, também entre os professores mais velhos existem “situações gravíssimas de indigência” nos docentes contratados, alguns a viverem a instabilidade de emprego há 15 anos. A maioria,  casada e com filhos, deslocados da sua zona residencial, vêem-se obrigados a alugar apartamentos ou quartos no local onde são colocados e têm ainda de contribuir com algum dinheiro para o sustento familiar. Há casos, garantem as nossas fontes, de docentes que apelam, via Internet, à solidariedade dos colegas para conseguirem dinheiro para pagar as despesas inerentes à sua colocação fora da zona de residência.

 

Há poucos dias, num blogue de professores, um docente, devidamente identificado, pedia ajuda aos colegas: “Nunca me passou pela cabeça chegar a este ponto de humilhação de ter de me dirigir aos meus colegas, amigos, aos amigos dos meus amigos, às pessoas de boa vontade que venham a ter acesso a este e-mail, no sentido de receber deles a caridade de uma dádiva que jamais poderei pagar. Não perdi o emprego, não deixei de trabalhar, mas estou em vias de perder a dignidade se não regularizar a minha situação económica, provocada pelas constantes colocações em zonas fora do distrito onde resido”.

 

Qualidade afectada

 

A precaridade de emprego, aliado aos baixos ordenados que muitos profissionais de ensino auferem, tem reflexos óbvios na qualidade de ensino, afiançam os Sindicatos.

 

Para os sindicalistas, este cenário prejudica gravemente alunos e professores. “Cada dia que passa é um dia em que as escolas estão a funcionar de forma pior, com prejuízo para os alunos”, refere Anabela Delgado.

 

Os professores recusam que a responsabilidade “nos prejuízos causados aos alunos lhes possa ser atribuída”. Para solucionar este problema, os sindicatos pedem: “a eliminação da desrugulação laboral e o fim dos recibos verdes, ilegais e incompatíveis com a função de docente, e aprovação de um Contrato Colectivo de Trabalho que regulamenta, entre outros aspectos de âmbito sócio-profissional, as regras relativas a horários de trabalho, a organização, das diversas componentes das funções de docentes, tabelas salariais e condições de progressão na carreira”.

 

Só assim – defendem – será possível criar reais condições para a estabilidade profissional de docentes e formadores que “tem sido o garante da resposta educativa e formativa ao longo de 20 anos”.

 

Como salientam as diferentes fontes contactadas por O Diabo, “um professor mal alimentado, muitas das vezes com fome, não está em condições de dar aulas. Quem sofre é o aluno, que sai mal preparado”.