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Jornal O Diabo

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As ligações politicamente perigosas das grandes empresas

Há empresas privadas que apoiam financeiramente um partido. Às vezes, não vá um qualquer outro Diabo tecê-las, distribuem dinheiro por dois e mesmo mais forças políticas. As ligações do PS e PSD a essas entidades estão também em jogo nas legislativas.

 

Jorge Coelho é, talvez, a face mais visível da questão. Ex-ministro de António Guterres, o socialista estendeu o tapete vermelho a José Sócrates, quando este ambicionou conquistar o lugar de líder do PS. Aquele que uma vez disse “quem se mete com o PS, leva”, é hoje o homem-forte de uma das maiores empresas portuguesas de construção civil, a Mota Engil. A entrega até 2042 do terminal de carga de contentores de Lisboa à empresa de Coelho levantou dúvidas políticas à oposição. A câmara da capital, liderada por socialistas, tal como o País, foi acusada de entregar de mão beijada a um antigo camarada um valor 407 milhões de euros. Mão beijada, entenda-se, dizia a oposição por o contrato ter sido por ajuste directo.

 

Mas a Mota Engil não é um exclusivo do PS. Apesar de Jorge Coelho ser a sua face, fonte do CDS garante a “O Diabo” que a empresa fez “um pequeno contributo” para financiar a campanha do CDS. Uma opção comum às grandes empresas que, em tempo eleitoral, decidem entregar quinhões diferenciados aos partidos.

 

O PS guarda, porém, mais trunfos na manga. A administração do Banco Comercial Português, agora Millennium, está do seu lado. O primeiro Vice-presidente da instituição é Armando Vara, velho amigo do actual primeiro-ministro, que chegou a ser colega de Governo de Sócrates, nos tempos em que António Guterres era chefe do executivo. Ao grupo juntava-se Joaquim Raposo, ora presidente da Câmara da Amadora e Edite Estrela, agora eurodeputada.

 

A calma imposta pelo governo PS ao BCP, banco antes liderado pelos conservadores Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, foi o resultado do exercício do poder socialista. O BCP debatia-se com graves problemas, que levaram os accionistas a pelejarem-se na praça pública. O acordo para instalar uma nova administração foi negociado entre os dois partidos do Bloco Central. Quando o PS assumiu influência da administração do BCP, um antigo ministro de Aníbal Cavaco Silva tomou a cadeira do poder do maior banco público: a Caixa Geral de Depósitos.

 

Aliás, as influências partidárias nos bancos não acabam aqui. Mira Amaral, ex-ministro do PSD, dirige o maior banco privado angolano em Portugal, o BIC. Fernando Ulrich, do BPI, é um simpatizante social-democrata. E Ricardo Espírito Santo, que se colocou várias vezes do lado das opiniões laranjas, tem agora sorrido aos socialistas, colando assim o “seu” BES ao lado dos do PS. Só Nuno Amado, do Santander Totta, se tem mantido fora das discussões políticas nacionais – mas, afinal, o seu banco é controlado a partir de Espanha.

 

Do outro lado da fronteira também chegou um dia a nomeação de Pina Moura, ex-ministro de Guterres, para a Mediacapital, quando a Prisa, empresa espanhola, adquiriu o canal de televisão TVI a Miguel Paes do Amaral. Os três canais portugueses têm, aliás, um alinhamento político suave mas definido. A SIC é liderada pelo antigo primeiro-ministro do PSD, Pinto Balsemão. A TVI está entregue à Prisa, próxima do PSOE, partido socialista espanhol, mas nos seus quadros intermédios pontificam ainda muitos directores e gestores escolhidos por Paes do Amaral: Isaias Gomes Teixeira ou Luís Nobre Guedes – e essa maioria é afecta ao CDS. Já a RTP é, na velha versão nacional, de quem a apanhar. A direcção da informação do canal está com José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. O primeiro sem expressão pública política, mas com uma guerra aberta com o PSD sobre a independência da estação.

 

Há nas empresas privadas mais amigos dos dois maiores partidos. A Compta, por exemplo, que lida com sistemas informáticos e largos e chorudos contratos com o Estado. Armindo Monteiro, o dono da empresa, admitiu já financiar as campanhas dos dois principais partidos, PSD e PS.

 

O PSD recebeu já dinheiros da empresa Somague. A confissão pública foi feita depois da campanha dos sociais-democratas, com Durão Barroso a concorrer a primeiro-ministro. A Somague é uma das cinco maiores empresas de construção portuguesa e depende, como as outras, das grandes obras públicas para sustentar os seus negócios. À época, o “Público” relatava que o PSD mal assumiu o poder, mandou suspender todas as obras de auto-estradas adjudicadas pelo PS, desejo expresso pela empresa durante a campanha eleitoral.

 

A Bragaparques é outra empresa que, em 2005, financiou com cerca de 20 mil euros a campanha do PSD em Lisboa. A detentora dos terrenos da antiga Feira Popular viu-se envolvida num processo judicial por tentativa de corrupção, quando tentou convencer José Sá Fernandes, o ex-vereador do Bloco de Esquerda, recorrendo a meios informais e pecuniários, a ser-lhe favorável em votações futuras.

 

Os sociais-democratas têm também figuras do passado interessadas nas obras futuras. O ex-ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, é hoje presidente da Lusoponte, que domina em exclusivo as travessias sobre o rio Tejo que sirvam a grande Lisboa. Ferreira do Amaral é um dos principais impulsionadores da mudança do Aeroporto da Ota para Alcochete e, por arrasto, da terceira travessia do Tejo, a construir-se entre o Barreiro e Chelas. Coincidência ou não, a nova ponte é aquela em que PSD e PS estão totalmente de acordo. Pode vir a ser construída pela Mota Engil – por causa da larga experiência da empresa nesse campo –, e gerida pela Lusoponte. Embora haja mais concorrentes à obra, como a Somague.


Por fim, os pequenos partidos.

 

O CDS tem em Pires de Lima, gestor da UNICER, um benemérito reconhecido. O gestor admitiu já entregar várias quantias de dinheiro aos partidos, entre os quais o “seu” CDS. Foi deputado pelos populares e chegou a ser falado com sucessor de Paulo Portas, até acontecer o fenómeno Ribeiro e Castro. Pires de Lima tem uma carreira brilhante no sector das bebidas engarrafadas, tendo resgatado a Compal de um caminho perigoso e ter conduzido a empresa a um sucesso seguro.

 

Também António Lobo Xavier, administrador da Sonae, admite contribuir pessoalmente para os fundos do CDS, partido ao qual pertence. Mas a Sonae, de Belmiro de Azevedo, não admite defesa de qualquer tendência política. Já o filho e provável sucessor de Belmiro, Paulo Azevedo,  declarou publicamente que sente “simpatia” pelo actual primeiro-ministro, José Sócrates.

 

Lóbi sem regulação

 

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, onde as empresas dão abertamente dinheiro aos partidos – e são escrutinadas por isso -, em Portugal as doações partem muitas vezes dos cofres pessoais dos gestores. Uma empresa raramente entrega dinheiro e se liga a um partido, mas é comum os empresários pagarem às cores por quem nutrem maior simpatia.

 

Documentos consultados por “O Diabo” no Tribunal de Contas não revelam a origem real das “doações” que os partidos sustentam ter recebido – quer para as campanhas eleitorais, quer para seu fundo maneio. A verdade é que, apesar de existir, a actividade de lóbi não está legalizada nem reconhecida em Portugal. A vida profissional de um ex-ministro é sempre mais frutuosa do que era antes de assumir uma pasta governativa. Assim o confessou Dias Loureiro, ex-ministro da Adminsitração Interna de Cavaco Silva, que foi administrador no grupo Banco Português de Negócios. O BPN era tido como “o banco do PSD”, porque no seu quadro dirigente pontificavam ex-ministros e ex-secretários de Estado da maioria cavaquista. A sua derrocada e subsequente nacionalização foi um duro golpe para os sociais-democratas, que temeram fortes consequências políticas. Mas a mudança de caras   com Paulo Rangel nas Europeias a fazer a despesa toda de tentar olvidar a Comissão de Inquérito ao BPN –, salvou o PSD de sofrer golpe político nas urnas.

 

Por fim, a esquerda radical. O PCP financia-se fortemente pelas quotas e por cativar parte do ordenado dos cargos electivos que os seus militantes ocupam. A sua maior receita pontual provém da festa promovida pelo jornal “Avante!”. E foi por causa dessa receita sem recibos que esteve para ser aprovada uma lei de financiamento que permitia aos partidos receber um milhão de Euros sem prestar contas da sua origem. A lei passou na Assembleia mas não passou por Cavaco, que a vetou.