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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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Revolucionários que eu conheci

António Pina do Amaral

 

O título é o de um livro de ‘Vera Lagoa’ como assinava literariamente, a fundadora deste jornal. Foi um acto de coragem, a denúncia do vira-casaquismo. Hoje é um exemplo moral e um aviso.

 

Uma pessoa muda de opinião, de ideologia, de religião, de clube futebol. Quando as mudanças se dão já na idade adulta, tem de haver uma explicação. Muitas vezes é torpe o motivo.

 

Uns mudam por terem sido maltratados por aquilo em que acreditaram, outros porque esperam benesses com a exteriorização das novas crenças. Muito poucos mesmo mudam por causa de um intenso e por vezes doloroso processo interior de reflexão e crítica. As conveniências são quase sempre mais fortes.

 

Há países em que uma mesma geração teve de se adaptar a alterações substanciais do seu sistema político e das regras de jogo sociais. Aqueles que viveram na Alemanha de Leste, hoje parte integrante da Alemanha unificada, viram chegar o nazismo nos anos vinte, o comunismo a meio dos anos quarenta e a democracia no final dos anos oitenta, com a queda do Muro de Berlim. Uma mesma geração teve ou de se adaptar, mascarando sentimentos e dissimulando opiniões, ou tornar descarada e ostensiva a profissão de fé nos novos tempos.

 

Em Portugal mudaram muitos da Monarquia para a República, o que já foi há muitos anos, muitos outros em 25 de Abril. Diametralmente. Está nisso a diferença. Trata-se de passar de uma ideia para a sua contrária.

 

O que é curioso é que as novas situações políticas nunca desdenharam trânsfugas e convertidos, por mais duvidosa que fosse a sua fé de cristãos-novos. E o que é curioso é que a denúncia dessas, quantas vezes apressadas, conversões, nem sempre surte efeito. As pessoas riem-se, mas acabam por compreender, perdoando. Há infelizmente uma moral adaptativa a balizar o comportamento de muitos portugueses.

 

Em 1977 a fundadora deste jornal publicou um livro notável que o editor Paradela de Abreu chamou “uma forma de luta a favor do saneamento moral da sociedade em que vivemos”.

 

Grande parte dos textos que integraram o livro era constituída por crónicas que haviam sido publicadas no jornal ‘O País’. “Revelações sobre este punhado de homens que bajularam, se adaptaram, serviram o antigo regime e hoje são os mais ferozes adeptos do ‘processo revolucionário em curso’”.

 

É o outro lado da vida de muitos dos que a Mocidade Portuguesa lançou e o SNI premiou, os protegidos pela Agência Geral do Ultramar, os que viram na Legião Portuguesa a “barca do venha a nós”, os que irmanavam com a PIDE, todos quantos com a ‘Revolução dos Cravos’ passariam a reclamar o estatuto de “perseguidos”, “vítimas do fascismo” depois de terem estado mais do que comprometidos com o regime anterior.

 

Tenho aqui o livro a meu lado para reler. Ali estão tantos! João de Freitas Branco, Fernando Luso Soares, Ary dos Santos, Teixeira Ribeiro, Luís Francisco Rebelo, Miguel Urbano Rodrigues e Urbano Tavares Rodrigues, Mário Castrim e Luís de Stau Monteiro. Poderiam estar muitos mais. A cruzada que travou em ‘O País’ continuou-a Maria Armanda Falcão no ‘Diabo’

 

Infelizmente a obra desapareceu das livrarias, esgotadas as edições. Cito pois a sua memória, em homenagem a um acto cívico cada vez mais actual, a propósito de Humberto Delgado, a cuja coerência dedicámos a última crónica.

 

Estrela de cartaz do jornal ‘Agora’, saído no difícil ano de 1961, em 18 de Fevereiro, Fernando Luso Soares escreve aí um artigo de fundo a que chamou ‘Pirataria e Descaramento’. O a propósito é o assalto ao paquete Santa Maria por um comando liderado politicamente por Henrique Galvão, por detrás do qual se encontrava o general que havia concorrido em oposição do regime às eleições presidenciais de 1958. Fantástico texto esse assinado por quem haveria de ser activista do PCP e seu advogado. “Traidores”, assim lhes chama, “inconcebível ex-general, ex-legionário, ex-comissário da Mocidade Portuguesa, ex-patriota e ex-português”, assim se refere a Delgado. Numa intervenção na Emissora Nacional reclamaria o enforcamento para Galvão, a pena tradicional para os piratas. Pois.