Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jornal O Diabo

jornalismo independente

jornalismo independente

Igreja está sem dinheiro

As receitas caíram a pique e as depesas subiram em flecha. Em 2009, a Igreja Católica deve perder mais de 20 milhões de euros. Já há dioceses a contrair empréstimos. O Estado continua a cobrar impostos, como a qualquer empresa, acusa o Ecónomo de Viseu.

 

A crise chegou à Igreja Católica e já obriga a instituição a vender terrenos para poder cumprir as obrigações sociais a que se comprometeu. As receitas para 2009 estão a cair a pique e a Conferência Episcopal estima que diminuam cerca de 30 por cento em relação ao ano passado. Em suma: menos 20 milhões de euros, no total. D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, declara: “A diminuição das receitas causa-nos apreensão, até porque temos grandes encargos a que não podemos fugir”.  Em Viseu, por exemplo, a Diocese foi obrigada a contrair um empréstimo de 3.5 milhões de euros para continuar o seu trabalho. A intervenção de requalificação e modernização do Seminário Maior da cidade devia ter sido paga com dinheiro de 28 andares, construídos em terrenos cedidos pela Diocese.


Mas o mercado imobiliário não gerou receitas suficientes e, agora, a crise de tesouraria é grave. “O projecto financeiro foi feito. Dele, fazia parte uma permuta com uma empresa que ia construir uma urbanização. Cediamos terrenos e recebíamos o resultado da venda de alguns andares. Era um negócio normal, mas a empresa atrasou muito e apertou-nos as contas na Diocese”, relata o Pe. Armando Esteves Domingues, Ecónomo Diocesano de Viseu, a “O Diabo”.


“Hoje a falta dinheiro está transversalmente na sociedade - e em todo o lado. Não é só nesta Diocese que se sentem dificuldades. Quando se fazem obras no Seminário Maior, não se espera retorno. É uma obra social. Não tivemos apoios e também, em abono da verdade, não os solicitámos”, prossegue o prelado. Mas a crença de que a venda dos andares correria bem saiu falhada. E, agora, a igreja católica em Viseu está a viver da boa vontade de alguns católicos: “Foram os cristãos que nos ajudaram”, diz o Pe. Esteves Domingues.  Que remata: “Felizmente já nos entregaram alguns andares…”. O sacerdote, responsável pelas contas, não poupa críticas, no entanto, ao Estado que apenas olha para as contas.


“O Estado é laico e deve continuar a sê-lo. Mas o Estado cobra-nos impostos, cobra-nos como a qualquer outra instituição. O Estado podia olhar para a obra social da Igreja e compreendê-la como válida para receber, como o faz a outras instituições, uma atenção no campo da fiscalidade. Isto é apenas uma opinião pessoal. O que fazemos é, na maior parte das vezes, um trabalho muito sossegado mas importante. E não queremos pedir para nós, queremos pedir para quem precisa. Quando isso se torna difícil, não podemos deixar que aqueles que mais necessitam fiquem sem apoio”. Por isso, a Diocese de Viseu decidiu recorrer ao crédito, para pagar as suas contas e manter as suas obras. Mas tem agora uma dívida à banca para pagar. “A Igreja não pode ser confundida com o Estado. Mas o laicismo não pode ser visto pelo Estado como uma religião…”, desabafa o prelado.


Viseu não é a única diocese a braços com problemas financeiros. No Algarve, desde 2008, que a informação diocesana deixou de ser distribuída num pequeno jornal e passou para a Internet. Nas missas há cortes nas esmolas. Várias paróquias de Lisboa, contactadas por “O Diabo”, comunicam uma quebra entre 10 a 20 por cento, quer nas esmolas quer em estipêndios. Há menos pessoas a assistir à missa, logo há menos missas. Concentram-se esforços em economia. Remata D. Jorge Ortiga: “Sente-se a crise porque são cada vez mais os pedidos de ajuda das pessoas”.

 

Até no Vaticano

 

A Santa Sé está a considerar, pela primeira vez na sua história, aceitar publicidade comercial na Rádio Vaticano. É uma necessidade para manter a estação radiofónica no ar. A Rádio Vaticano transmite em 45 línguas desde 1931 e nunca teve qualquer anúncio na sua emissão. Mas a emissora é apenas uma das vítimas da falta de dinheiro. Segundo a agência Ecclesia, o balanço económico consolidado da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano de 2008 apresentou resultados negativos de mais de 15 milhões de Euros, no seu conjunto, que se seguem aos 2,3 milhões negativos do ano passado. A Santa Sé tem autorizado algumas medidas piloto, para recuperar um pouco das esmolas que se foram perdendo. Na Costa Rica, por exemplo, foi autorizada a instalação de um sistema de pagamento em multibanco e cartões de crédito, para facilitar a caridade.


Outra das medidas, relatada pela referida agência, é a participação dos padres nos esforços contra a pobreza. O bispo da diocese de Calahorra y La Calzada-Logroño, Espanha, sugeriu a criação de um fundo para ajudar os desempregados que não têm rendimentos. D. Juan José Omella propôs que parte do dinheiro seja proveniente de contribuições voluntárias dos padres, através de um dos subsídios extraordinários ou de dez por cento do salário durante um ano.


Em carta datada de 17 de Junho, D. Omella acrescentou que esse fundo extraordinário poderia também receber donativos de congregações religiosas, paróquias, escolas católicas, organismos da Igreja e fiéis.


O prelado determina que "enquanto durar a crise, deveríamos rever os gastos ordinários e extraordinários das nossas instituições eclesiais, numa óptica de maior austeridade e sentido solidário".

1 comentário

Comentar post