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Jornal O Diabo

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Os cinco combates que ditam a vitória

Depois do resultado de Domingo, o PSD tem de conseguir manter os seus bastiões autárquicos para sair com dignidade de 2009. O combate faz-se nas cinco principais cidades do País, mas também nas periferias de Lisboa e Porto.  


Os socialistas cantarão nova vitória no próximo dia 11 de Outubro se conseguirem manter Lisboa, conquistarem Coimbra e, por algum milagre político, reconquistarem alguma autarquia à volta das grandes cidades ao PSD. O cenário é claro e não deixa dúvidas: o PSD, ainda detentor da gestão do maior número de autarquias, tem a todo o custo que vencer, para não entrar numa das maiores depressões de que há memória. Se os sociais-democratas, no entanto, perderem, será o fim de uma era onde o PCP mandava a Sul e o PSD a Norte, deixando os socialistas com as urbes.

Assim, a sul, as principais preocupações são Oeiras, Cascais, Amadora, Vila Franca de Xira e Santarém que, se ganhas, podem até compensar uma eventual derrota de Santana Lopes na capital. A norte, Gondomar, Gaia, Matosinhos e a Feira devem cair no colo laranja, para que não haja um desequilíbrio na Área Metropolitana do Porto, cuja câmara dificilmente será perdida para o PS.

Num voo rasante pelas principais candidaturas das principais cidades portuguesas, “O Diabo” mostra-lhe as opções que se apresentam.


Lisboa

Santana contra todos

O ex-primeiro ministro tem nesta corrida a sua última prova política. Ou reconquista Lisboa a António Costa, perante uma esquerda que se dividiu, ou fica provado que os parcos meses de Governo deram cabo da sua popularidade na capital. O candidato do PS, António Costa, “agarrou” a oportunidade que se lhe apresentava de ganhar estatuto político na Câmara de Lisboa e abandonou o executivo de José Sócrates. Mas, mesmo unindo-se a Helena Roseta e ao “´Zé que faz falta”, Sá Fernandes, o actual presidente tem um coro de críticas apontado: a cidade está mais suja, falta iluminação pública, não há dinheiro para reasfaltar os principais eixos viários, os serviços não funcionam ou não se entendem uns com os outros, as empresas municipais são um saco de nomeações políticas. Exemplos disso são a EPUL, a Gebalis ou mesmo a gestão conjunta do MARL, o mercado abastecedor da cidade. Costa enfrenta ainda a ira dos fornecedores que ainda não viram tostão do seu apregoado pagamento a tempo e horas. Pior, em mais de dois anos, os socialistas não conseguiram resolver três problemas fundamentais da cidade. A zona oriental de São João, Beato e Marvila estão de novo a degradar-se  e ali nascem ali aglomerados de barracas e mato selvagem, perante a indiferença da câmara socialista . O Parque Mayer continua decadente e sem solução à vista. O empreendimento da Alta de Lisboa está por acabar e, agora, até serve para sortear andares em programas de entretenimento matinal. Santana podia ter uma campanha tranquila e até vencedora, mas nestes primeiros dias tem mantido a descrição. Insiste nas soluções que resultaram na sua eleição: mais um túnel, a recuperação do Parque Mayer e novos bairros sociais de integração mista. Santana quer ainda melhorar a acessibilidade do centro da cidade aos automobilistas e devolver a Praça do Comércio e a frente rio aos cidadãos. É programa para dois mandatos, no mínimo. Conta em Lisboa com o apoio do PPM, CDS, MPT e luta contra três partidos de esquerda: Costa, pelo PS, uma tímida candidatura de Luís Fazenda pelo Bloco de Esquerda e um sempre robusto Ruben de Carvalho, do PCP, em fim de carreira lisboeta, mas com um eleitorado fiel.

 

Porto

A direita unida à volta de Rui Rio e a esquerda esfrangalhada. O actual presidente da Câmara Municipal do Porto deve reconquistar tranquilamente o lugar, sem margem para coligações no executivo camarário com Elisa Ferreira, a candidata do PS que é, ao mesmo tempo, eurodeputada. O PS parece ter desistido de lutar pela Invicta desde que, ia a Primavera a meio, as primeiras sondagens davam mais de 25 pontos de avanço a Rui Rio, o homem que olha para as finanças autárquicas como um lince. Elisa Ferreira, que fora uma das mais reconhecidas ministras do governo de António Guterres, passou de cavalo para burro quando aceitou ser candidata a Bruxelas. Rio aproveitou-se e mandou fazer um cartaz devastador: “Com os dois pés no Porto”, lia-se, eficazmente, no primeiro assomo de campanha. Em causa estão ainda as guerras antigas de Rio. Este quis tirar os toxicodependentes das ruas e criou o programa “Porto feliz”, que obrigava os arrumadores a sair da rua e a internarem-se em centros de recuperação. O Governo central tirou-lhe o tapete, o programa acabou e agora o autarca promete regressar à sua luta. No segundo mandato Rio quer também demolir todos os bairros de barracas e realojar, rapidamente, as famílias que vivem em bairros como o Aleixo. Mas há dois problemas no Porto: a insegurança e o desemprego. A primeira, que sobressai à noite, está a aumentar e Rui Rio sabe que sem o governo não resolve o drama. Propõe, inclusive, que se unifique o comando das polícias, para combater melhor o crime. Já Elisa Ferreira defende primeiro intervenções nos bairros sociais para responder às necessidades dos indigentes e criminosos para, só depois, lidar com a grande criminalidade. Rio e Ferreira apoiam depois uma mão cheia de propostas de bom senso, como a ligação das empresas às escolas e universidades, o apoio à procura de emprego, as obras mais rápidas para as pessoas mais necessitadas.

O que está em causa no Porto, mais do que em Lisboa ou noutras cidades, é a escolha do líder. E aí, Rio parece estar tranquilo. Chegou ao Porto contra o “papa” Pinto da Costa, lutou contra variados grupos de interesses e foi conquistando simpatias de todos. Mas há um problema na eleição de Rui Rio: se o PSD lhe exigir que seja líder do partido para combater os socialistas nas próximas legislativas, o autarca terá poucos argumentos para dizer “não” ao partido. E assim, em vez de dois pés no Porto, terá dois braços a trabalhar em campanha eleitoral, para recuperar o PSD e o poder.

 

Braga

Ricardo Rio, PSD, tem uma difícil tarefa: arredar Mesquita Machado da presidência da Câmara, o último dos dinossauros socialistas numa grande cidade. Machado foi eleito aos 29 anos para presidente, em 1976. Desde então, nunca mais largou o poder, recandidatando-se este ano ao seu último mandato permitido por lei. A cidade sofreu uma transformação radical na última década. A instalação da Universidade do Minho, de mãos dadas com a crescente influência da igreja Católica – hoje Braga é a capital religiosa de Portugal -, levou a que em 2009 seja a terceira maior cidade portuguesa. Ricardo Rio junta o PSD ao CDS e ao PPM, reeditando a sempre saudosa AD. Rio promete continuar a apoiar as Instituições Particulares de Solidariedade Social e as empresas que tenham vontade em instalar-se ali. Diz que não quer ser alternativa ao que existe e faz propostas como a certificação da qualidade das escolas ou o aumento dos meios da protecção civil. Promete maior colaboração com os autarcas das juntas e, acima de tudo, diz que vai acabar com “a prática caciqueira e a política de chapéu na mão”. Mas Ricardo Rio tem pela frente uma máquina socialista muito oleada, com décadas de experiência e, acima de tudo, uma rede de interdependência no status quo: Mesquita Machado talvez conheça pessoalmente todos os líderes comunitários da cidade, contou cedo com boas redes viárias e é hoje dinamizador de uma plataforma comercial importante com a Galiza, papel que Viana do Castelo perdeu. O PSD quer criar um pelouro específico de um vereador para a Universidade, uma vez que é esse o motor do distrito.

 

Coimbra

O ilustre desconhecido Henrique Fernandes é o candidato do PS à câmara municipal de Coimbra, contra o histórico Carlos Encarncação, do PSD, que se recandidata. Apesar de alguns problemas na cidade – como a venda de um edifício dos CTT de manhã por um valor e na tarde do mesmo dia por dez vezes mais –, Encarnação aguentou o barco e está em boa posição para voltar a ganhar a autarquia. A famosa “ponte Europa” sobre o Mondego foi outro dos cavalos de batalha do social democrata contra o governo do PS. Inacabada durante anos, a ponte foi dos maiores exemplos de falta de planeamento estratégico urbano do País. Fernandes chegou há pouco a líder da concelhia local, depois de ter ocupado o cargo de Governador Civil da cidade. Ainda não tem qualquer proposta ou programa publicado. Já neste mandato, Carlos Encarnação quer resgatar a cidade dos doutores da morrinha pachorrenta e letárgica que tem vivido, melhorando não só a sua universidade como ajudando a fixar mais as empresas e serviços que têm fugido para as vizinhas Leiria e Aveiro. Uma guerra que deve ser serena para o PSD e que pode já ter vencedor antecipado.

 

Faro

O socialista José Apolinário enfrenta este ano Macário Correia, do PSD, um dos mais populares militantes de base dos sociais-democratas que comandou o destino de Tavira nos últimos anos. Macário (ou, como lhe chamou um dia Nicolau Breyner, “o utente da maca”), é autor da célebre frase “beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro”. Mas após a sua passagem pelo governo do conterrâneo algarvio Cavaco Silva, fez uma travessia no deserto para depois se revelar um aplaudido autarca, com direito a medalha e comenda por parte do Presidente socialista Jorge Sampaio. O social-democrata já disse que o seu principal objectivo é colocar em ordem as contas da Câmara, cuja dívida ascende a 55 milhões de euros. Depois se verá, diz o ainda presidente de Tavira.

José Apolinário foi, durante anos, o homem do PS no Algarve e agora tem de defender a sua câmara com unhas e dentes, porque Macário é um adversário que pode virar a corrida. A sua aposta é criar diversos parques científicos e tecnológicos para potenciar as empresas locais, os congressos durante a época baixa de ocupação de hotéis e, acima de tudo, chamar massa cinzenta para o Algarve. É uma das disputas mais interessantes da campanha autárquica.

Entrevista a José Ribeiro e Castro

“CDS deve chegar agora aos 20 por cento”

O histórico dirigente do CDS avisa que o partido não vai fazer acordos com o PS: “As pessoas rir-se-iam de nós se o fizéssemos” e aposta tudo na tomada do eleitorado do PSD. “Se o CDS fosse mais forte, não estávamos dependentes da esquerda, depois destas eleições”. Uma entrevista exclusiva, no regresso de José Ribeiro e Castro ao Parlamento.

 

O Diabo – Foi um candidato surpresa quando se apresentou nas listas pelo Porto, depois da luta interna que travou com Paulo Portas. Está contente?

José Ribeiro e Castro – Estou. E estou particularmente contente com a minha eleição mas, mais importante, com a eleição de mais dois deputados pelo círculo do Porto.

 

O Diabo – A união do partido, que o juntou a Paulo Portas e a Telmo Correia, foi fundamental para este resultado?

José Ribeiro e Castro – É um resultado de todo o partido e de todos os que fazem parte dele. O que se pode esperar agora é mais crescimento. O CDS perseguia há bastante tempo este objectivo, que era ultrapassar a fasquia psicológica de dois dígitos. Isto significa que o CDS entra definitivamente num outro campeonato.

 

O Diabo – Que campeonato é esse?

José Ribeiro e Castro – É um campeonato de ter a meta de passarmos para além dos 20 por cento. Não creio que seja já na próxima eleição, mas na seguinte, por exemplo. Estamos num caminho de crescimento para ser o mais forte referencial político em Portugal. Creio que é a isso que o partido deve aspirar. Esta votação é bastante encorajadora. Agora este caminho de que falo exige bastante trabalho e não se resume apenas a eleições, mas a crescimento em ligação com a sociedade civil, de intervenção, em aumentar a capacidade de propostas e reforçar o prestígio. Há um encorajamento nesta votação que o partido e toda a sociedade portuguesa têm de saber ler.

 

O Diabo – Que sinais são esses?

José Ribeiro e Castro – É o facto de ser a melhor votação do partido desde 1983. Regressámos a tempos históricos. Depois, desde 1985 que não tínhamos deputados sozinhos em Coimbra, nunca tínhamos tido em Faro, e na Madeira só em 1976… É um partido finalmente nacional. E embora não tenha conseguido eleger deputados no Alentejo, por exemplo, consegue ali votações muto interessantes e importantes. Consegue em muitos distritos duplicar a votação. Por isso, o CDS é hoje um partido nacional. Os eleitores sabem o que querem do CDS e o partido não os pode defraudar. Há um crescimento uniforme.

 

O Diabo – Sendo o CDS o único partido sozinho que pode dar maioria ao PS na Assembleia…

José Ribeiro e Castro -…não é verdade, o PSD também pode…

 

O Diabo –…é verdade, mas o PSD está prestes a ficar sem líder e o CDS tem uma liderança estável e um caderno de encargos claro. E perante isto, espera-se do seu partido uma possível viabilização de governo. Concorda?

José Ribeiro e Castro – Isso seria um desapontamento para o eleitorado do CDS. Creio que a verdade é que o País, sendo o CDS o grande vencedor político das eleições, virou à esquerda. O mais votado é o PS e a Assembleia voltará a ter uma maioria de esquerda. Sou um democrata mas lamento este resultado. É um mau resultado para Portugal, ninguém esperava que isto acontecesse, mas temos que respeitar. E se o eleitorado decidiu votar à esquerda, então é isso que deve ter. As tentações de bloco central que sejam procuradas com o PSD. O CDS tem um caminho a percorrer e não deve agora misturar as coisas. Nos próximos dias muito se vai falar do interesse do partido e do interesse nacional. Ora, eu julgo que o interesse nacional passa por um CDS forte na oposição e não a servir os interesses de outro partido. E o CDS deve fortalecer-se cada vez mais como opção à direita e isso é que cria prestígio e confiança dos portugueses na política. As pessoas rir-se-iam com outra posição do nosso partido e diriam: “lá estão eles, outra vez…”. Depois da linha que o CDS apresentou, depois de tudo o que fez, seria ridículo entrar numa entente com o PS. Face a este resultado extraordinário e brilhante, acho que o CDS deve seguir a sua linha própria.

 

O Diabo – É o primeiro passo, depois de 15 anos consigo, com Paulo Portas e Manuel Monteiro, para criar o grande partido democrata-cristão que substitua o PSD que está a esvaziar-se ideologicamente?

José Ribeiro e Castro – Eu sou do CDS e sempre tive o sonho — e mais do que o sonho, porque não me deitei a dormir —, que o partido deve ser a mais forte referência política em Portugal. O meu pensamento e a minha convicção é esta. Portanto, desejo que o CDS faça esse caminho que acaba de descrever. A votação deste domingo é um sinal nesse sentido e significa confiança e esperança para que o CDS consiga isso. Mas agora o partido tem de se preparar para conseguir responder às expectativas criadas – e tem todas as condições para o fazer. Não vejo no PSD um adversário, mas se o CDS tivesse ficado mais à frente nos resultados nas eleições de domingo, hoje o País não estaria refém destes resultados.

 

Paulo Portas a "O Diabo"

“Não quero o governo a qualquer preço”

 

 

Paulo Portas, líder do CDS, assegura que não vai deixar a liderança do partido e está pronto a apresentar um caderno de encargos ao PSD para poder viabilizar um governo de direita

 

O Diabo - A campanha eleitoral tem sido feita volta do TGV, dos espanhóis, das pequenas polémicas diárias sobre as escutas. Era isto que esperava? Que revela este discurso sobre a qualidade política do País?

Paulo Portas - Revela partidos que, durante os últimos quatro anos, nunca falaram seriamente de temas como a Segurança, a Agricultura, ou que só neste Verão se lembraram das PMEs. Destes partidos, não se pode esperar muito mais. A questão do investimento do TGV é importante se, e apenas, se apresentar – como fez o CDS – as alternativas. Eu esperava que se falasse no desemprego. Afinal Portugal tem, neste momento meio milhão de pessoas desempregadas, uma percentagem assustadora de jovens qualificados no desemprego… a esquerda esquece-se sempre que quem cria o emprego são os empresários, que são constantemente maltratados.

 

O Diabo – Afinal, qual a sua ideia para Portugal? Onde quer que Portugal chegue, caso tenha a oportunidade de liderar o País?

Paulo Portas - O País, que José Sócrates nos deixou, está mais endividado e tem menos crescimento, tem mais desemprego e menos empresas, mais dependência do exterior e menos exportações, mais rendimento mínimo e menos pensões, mais criminalidade e menos justiça. Queremos um país com mais motivação dos professores e mais exigência nos alunos, como mais autoridade e menos violência. Uma comunidade que possa acreditar na Justiça, com segurança para haver liberdade, com reguladores financeiros que dêem confiança no sistema financeiro. O CDS quer valorizar quem trabalha, com menos impostos e impostos mais amigos da Família, um País que não abandone o mundo rural nem os recursos do mar.

 

O Diabo - Que temas quer ver ainda discutidos na campanha?

Paulo Portas - A Família, é um bom exemplo de um tema que tem estado longe da discussão política, assim como a óbvia falta de confiança na Justiça ou os problemas da Saúde. Acreditamos que, na Educação, se tem de lutar pela autoridade dos professores nas salas de aulas e avaliar também os programas escolares actuais. Um tema que o CDS tem levantado, mais uma vez, é a importância, para um País como o nosso, das políticas do Mar.

 

O Diabo - O CDS teve o papel de moderador do PSD a partir de 2002, nos governos liderados por Durão Barroso e Santana Lopes. Está disposto a repetir a experiência?

Paulo Portas - Já o disse, sei o que é estar no Governo e não tenho a ambição de lá voltar a qualquer preço. Só vale a pena se o CDS tiver mais força, nos votos, para podermos cumprir o que chamamos o nosso “caderno de encargos”, as nossas prioridades para Portugal.

 

O Diabo - Caso o CDS consiga ser Governo assume a pasta da Agricultura?

Paulo Portas - O desastre do ministro actual é tão grande, tão terrível, que uma coisa lhe asseguro, vamos ter de ter um ministro que lute pelos agricultores, não contra eles, que fale com quem trabalha a terra, não os ignore, que lute pelos apoios comunitários para Portugal, não os desperdice, que seja activo, em vez de atrasar todos os prazos, que acredite na agricultura, e não um que desista do sector agrícola.

 

O Diabo – Viabilizará um governo minoritário do PS ou do PSD, sem estar no Governo?

Paulo Portas -  O CDS já provou que é um partido que dá estabilidade e que tem responsabilidade, mas não abandonamos as nossas exigências nem os valores em que acreditamos. Está na altura de virar a página deste governo socialista, não podemos perder mais oportunidades nem desprezar quem trabalhou uma vida toda e vê as pensões mínimas esquecidas.

 

O Diabo – O seu apelo ao voto indica que há pessoas que concordam consigo mas não querem votar no CDS. Como explica isto?

Paulo Portas - Deve votar-se no partido que pensa o mesmo que nós, em que nos identificamos no discurso e damos razão. Quem pensa o mesmo que o CDS tem razões para acreditar que faremos um bom trabalho… o nosso trabalho, ao longo da última legislatura, mostrou bem que somos o partido mais trabalhador, com mais iniciativas. O voto serve também para censurar quem merece ser censurado e premiar quem merece ser premiado. José Sócrates governou mal, tem de levar um cartão vermelho. O CDS foi quem mais trabalhou na Oposição, por isso, agora, pedimos mais força.

 

O Diabo – Se o CDS mantiver o número de deputados,  já fica contente?

Paulo Portas -  O CDS vai subir, vamos ter mais votos, mais deputados.  Estou a percorrer o País e posso garantir-lhe que há cada vez mais pessoas a pensar como nós. O CDS tem de ter mais votos que a esquerda radical, é a única forma de impedir o regresso a um tempo arcaico – de nacionalizações e controlo estatal – que alguns continuam, em 2009, a propor.

 

O Diabo – E se tiver menos votos que nas eleições legislativas anteriores, abandona o cargo de presidente do Partido?

Não se preocupe, isso não vai acontecer. Ouça, nas últimas eleições davam 2 por cento ao CDS e tivemos quatro vezes isso!

 

Quem se mete com o PS, leva

É o regime da impunidade para os amigos e da ameaça ou da retaliação para os inimigos. Desde os recentes excessos de velocidade das viaturas de campanha em que os processos de contra-ordenação são mandados, imediatamente, limpar, à interferência directa na justiça, passando por pressões sobre jornalistas ou a alteração de dados estatísticos, no governo de Sócrates vale tudo.

 

Jorge Coelho, ex-ministro socialista, já tinha avisado em 2001 que “quem se mete com o PS, leva!”. Num discurso inflamado de campanha, referia-se assim o actual presidente da Mota Engil a uma crítica do Bastonário da Ordem dos Advogados da época, António Pires de Lima, que acusou o governo socialista de interferir nos tribunais e na justiça. Coelho viria a dizer depois que o “leva” era, afinal, uma frase por concluir: “Leva uma resposta política, claro”, justificou-se.

 

Já neste mandato, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, declarou numa reunião do PS que o que gosta “é mesmo de malhar na direita” e nas forças da reacção. No saco metia o Bloco de Esquerda e a CDU. A “asfixia democrática” que o PSD acusa agora o PS de usar para governar o País começou, segundo os sociais-democratas, quando a polícia visitou o Sindicato dos Professores da Região Centro, na Covilhã, antes de uma manifestação contra a política educativa. A PSP foi saber o que preparavam os professores, uma vez que o primeiro-ministro José Sócrates se deslocava àquela cidade no dia da demonstração pública.

 

Já em campanha, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária limpou multas de excesso de velocidade à caravana do PS, autuada por agentes da GNR local. Em menos de 10 horas os socialistas foram perdoados.

 

O presidente do Instituto Sá Carneiro, Alexandre Relvas, foi também pressionado pelo gabinete do primeiro-ministro, segundo o advogado da instituição. Jorge Black afirmou que foi recordado a Relvas que este era gestor de uma empresa privada com contratos com o Estado e que, por isso, devia medir “com cuidado aquilo que iria dizer como presidente do Instituto”.

As pressões recaíram depois sobre António Balbino Caldeira, professor, que no seu blogue “Do Portugal Profundo” decidiu investigar como José Sócrates tirou a sua licenciatura. O autor disse ter sido vigiado durante o período da investigação. Agora, fez uma edição de autor de um livro que compila a sua investigação – obra que foi recusada por várias editoras, apesar do entusiasmo inicial de algumas, como a “Leya”. A “O Diabo”, Balbino Caldeira fala da pressão que sofreu: “A perseguição do poder é insidiosa e raramente ostensiva ou imediata. Mas a vingança virá. A pedagogia da vingança é uma marca do socratismo”, acusa.

 

Na investigação ao caso Freeport, o PS também foi acusado de pressionar os magistrados que investigam a eventual corrupção no caso que envolve o nome de José Sócrates – a acusação partiu do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma. Augusto Santos Silva, ministro socialista, reagiu imediatamente e exigiu explicações ao sindicalista. O caso está sob investigação.

 

Depois, José Sócrates elegeu Manuela Moura Guedes, a TVI e o jornal Público como alvos das críticas socialistas, no último congresso do PS, a 27 de Fevereiro deste ano. O Jornal de 6ª acabou cancelado pela administração da TVI. Agora, é a vez do jornal Público estar a ser colado a uma campanha de recados transformados em notícia, vindos do Palácio de Belém, pela mão do jornal rival “Diário de Notícias”.

O país dos 200

No dia a seguir ao debate televisivo entre Ferreira Leite e Sócrates, alguns jornais “de referência” apressaram-se a dar “a vitória” da noite ao chefe do PS. Baseados em quê? É simples: numa sondagem feita pela Aximage, segundo a qual 45,6 por cento dos portugueses achavam que Sócrates tinha “estado melhor” do que Ferreira Leite (30,2 por cento). Um ingénuo perguntar-se-ia, perante tão esmagador veredicto: para quê fazer eleições?

 

Mas o cidadão avisado lê as letras pequeninas. Foi o que fiz. Fiquei então a saber que a sentença cabal daqueles órgãos de Comunicação Social tinha como fundamento um “inquérito telefónico” junto de 200 pessoas (duzentas, leu bem!), assim distribuídas: 95 eram homens, 105 eram mulheres; 58 moravam em Lisboa, 41 no Porto e 101 no resto do país; 51 tinham idades entre os 18 e os 34 anos, 68 tinham entre 35 e 54 anos, e 81 tinham mais de 55 anos. Esfreguei os olhos e li outra vez. Mas não restava dúvida: os grandes títulos “Sócrates ganhou” e “Manuela derrotada” não passavam, afinal, de 200 chamadas telefónicas e muita falta de vergonha.

 

Costuma dizer-se que “as sondagens valem o que valem”. Não há generalização mais injusta, pois umas valem alguma coisa, outras valem pouco e outras não valem nada. Agora, resumir “a opinião pública” a uma loja dos 200 passa todos os limites. Há Comunicação Social que parece ainda não ter percebido que vamos eleger o Parlamento de que sairá um Governo – e não fazer um ‘casting’ para uma telenovela…

 

FRA DIAVOLO

 

História e encenação: Hermano Saraiva

António Pina do Amaral

 

O regime anterior oprimia? Ou eram as pessoas que queriam agradar? Um dia na vida de Hermano Saraiva ilustra do que se trata. A História passa a ser o que poderia ter sido.

 

 

Foi Advogado no princípio da sua vida. Proferiu em 1964 uma conferência na Ordem dos Advogados sobre a Crise do Direito que recentemente reeditou. A inteligência do que então disse mantém hoje plena actualidade.

 

Não seriam, porém, os tribunais que o animariam. Licenciado em Histórico-Filosóficas em 1941 – na altura o curso era comum – e em Ciências Jurídicas em 1942, acabaria por ser a História que lhe ocuparia o espírito, menos pelo que escreveu, embora seja o autor de uma ‘História de Portugal’, muito conhecida, e sobretudo de uma ‘História Concisa de Portugal’ que o popularizou. A opção pelo Direito havia sido pragmática. Uma vez disse que a História só lhe pagava o dia até à hora do almoço.

 

Não o ganho económico, mas a sua grande projecção deu-se, porém, graças aos programas de televisão em que os seus dotes de grande comunicador estavam presentes, sofrendo embora por vezes a acusação de fantasista.

 

Na verdade, os seus programas ‘O Tempo e a Alma’ (1972), ‘Horizontes da Memória’ (1996) e ‘A Alma e a Gente’, atraíram multidões e deram cultura àqueles que, por outro modo, não a teriam.

 

Espírito irrequieto, a sua vida política foi atribulada. Chegou a Ministro da Educação entre 1968 e 1970, passando do governo de António de Oliveira Salazar para o de Marcelo Caetano. Foi protagonista, do lado do poder, da crise académica de 1969. A frase “em Coimbra a ordem será mantida”, dita de dentes cerrados, como ministro, ante as câmaras da RTP, persegui-lo-á como um ícone de autoritarismo.

 

Irmão do historiador da Literatura António José Saraiva, distinguiu-se deste pelo conservadorismo, apesar de confessar que, depois do 25 de Abril, tem votado sempre em candidatos socialistas. Homem de esquerda, António José, pai do director do SOL, acabou por sofrer as perseguições do regime que Hermano soube servir. Não foi fácil equilibrarem ambos a relação de sangue com a filiação política.

 

Não é porém linear a sua trajectória nos quadros políticos do Estado Novo. Em muitos aspectos tomou distâncias e acabou por encontrar incompreensões. Mas desde cedo se perfilou como uma figura com valor, possível quadro do regime de Salazar.

 

Talvez por isso o 40º Aniversários da Revolução Nacional viveu um dos episódios emblemáticos do modo de ser português. O regime concentrara-se na efeméride. Viajando de avião para Braga – aventura única neste ser sedentário –, Salazar proferiria uma alocução em que, criando irónico ‘suspense” lançara o repto: Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo”. Sentiam-se as moscas, a respiração contida. O Chefe parecia claudicar. Mas o homem que era o Estado Novo rematou, como se em gozo com o momento embaraçoso que gerara: “Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria”.

 

Para além do acto em Braga, a data iria ser oficialmente comemorada com uma cerimónia de Estado na Assembleia Nacional, envolvendo discursos, loas, apelos. Designado para falar o Dr. José Guilherme de Melo e Castro, líder da União Nacional, o partido único do regime, preparava o seu discurso quando foi decidido que o jovem e controverso Dr. Hermano também discursaria.

 

Nas suas memórias, Saraiva descreve o júbilo com que recebeu a notícia, acrescido ao saber que o Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, estaria presente no hemiciclo de São Bento. Foram tempos de ensaio, de declamação ao espelho, de antevisão do efeito, de representação teatral, aquilo que os telespectadores ainda hoje conseguem imaginar ao seguir-lhe o gesto, a expressão facial, a pose.

 

Vaidoso, sentiu-se levado ao Panteão da Glória quando julgou perceber, num dos momentos de maior arroubo retórico, uma furtiva lágrima que escapava da face inerte, fria e contida do homem que governou Portugal durante meio século.

 

A televisão, que haveria de ser o seu local de eleição, seguia atenta e cumpridora toda a cena, mas não gastara filme a gravar o discurso do jovem Dr. Saraiva, tendo optado, numa lógica de respeito pelas precedências, pelo do Dr. Melo e Castro, o qual se revelaria, porém, crítico em relação à Situação. Desconcertante, este ousara dizer que em relação a Salazarum grande serviço tem de pedir-se-lhe, após tantos e tamanhos que tem prestado... o de afeiçoar os mecanismos da governação... de modo que o país possa progredir à medida do tempo presente e sem que tenha de depender do impulso da sua autoridade ou de abrigar-se à sombra do seu prestígio”. Era um toque de inconformismo, que rematava com o apelo ousado a uma autêntica “via representativa”.

 

O azar escondia-se atrás da porta. Instruída nesse sentido, a RTP não passara o discurso controverso. Mas havia o de Saraiva que, consentâneo com a política oficial, poderia remediar o caso. Salazar não hesitou. Pegou no telefone e ei-lo em diálogo com o director da RTP.

 

Eis aqui, na sua melhor expressão, a mentalidade e o espírito do tempo. Incapaz de assumir que tinha optado por privilegiar o discurso do líder da União Nacional, o homem da RTP acabaria por mentir, afirmando que de modo algum o Dr. Saraiva havia sido esquecido. Que sim, que concordava que havia sido um bonito discurso. Que, claro, estava todo registado e que inclusivamente iria ser objecto de uma transmissão especial, dada a sua evidente importância. Salazar desligou agradecido, talvez convencido, sobretudo enganado.

 

Angustiado, o homem do Lumiar inventou a paródia da solução. Armado com um operador de câmara, ajuramentado para antes morrer que falar, fez-se a montagem farsolas do que não sucedera. De noite, em sigilo, ante as carteiras vazias, os deputados ausentes, tendo apenas o próprio filho como testemunha, Saraiva repetiu o discurso, tentando lembrar-se dos gestos e dos tiques, para que tudo parecesse natural e verdadeiro. Colaborou numa encenação em que a História passou a ser o que poderia ter sido. Eis como foi.

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