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Jornal O Diabo

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Entrevista a D. Januário Torgal Ferreira

“Asfixia democrática? Há é asfixia de pouca vergonha!”

 

O bispo das Forças Armadas lança acusações duras aos temas da campanha eleitoral e exige maior atenção à pobreza. Desassombrado, sobre o caso Manuela Moura Guedes, acusa: “Quem foi calado pode sempre falar noutro lado. E quem não tem dinheiro?”.

 

O Diabo - A Igreja está a passar dificuldades financeiras. Como olha para este cenário?

D. Januário Torgal Ferreira – Vamos por partes. A Igreja, em si, não me preocupa. Um padre ganha o seu dinheiro no final do mês, conforme está estipulado. Se for novo, levará, digamos, uns mil euros. Se for mais velho terá os seus dois mil euros. A Igreja, assim, não passa dificuldades financeiras…

 

O Diabo – Mas há quebra nas receitas, isso afecta o trabalho social…

D. Januário Torgal Ferreira – Deixe-me concluir. No meu sector não tenho qualquer dificuldade. É como numa fábrica, num liceu, num lugar de Estado: ao fim do mês toda a gente tem o seu legítimo salário. Nós, felizmente, temos. Mas os problemas da Igreja não são os seus legítimos salários. O que sinto é uma grande inquietação por outra coisa. É que há muita gente que não tem aquilo que merece. Digo isto de outra forma, mais clara. Há muita gente em Portugal que não recebe aquilo a que tem direito. Isso é que me preocupa.

 

O Diabo – O seu trabalho social é afectado por isso?

D. Januário Torgal Ferreira – Ainda este ano fizemos um pedido junto das Forças Armadas para dar aos que não têm. São as viúvas, as crianças, os antigos combatentes. Conseguimos reunir cerca de três mil euros para distribuir. Há pobres nas Forças Armadas, famílias pobres, que são as dos cabos, dos soldados, até sargentos… E digo-lhe uma coisa: no meio de tanto palavreado que vamos ouvir até ao dia 27 de Setembro, até às eleições legislativas, estas crianças, esposas, viúvas, antigos combatentes devem receber um sinal. Pelo menos um sinal claro de que as suas preocupações estão a ser tomadas em consideração.

 

O Diabo – Se a Igreja ficar sem dinheiro, nada terá para dar…

D. Januário Torgal Ferreira – É verdade, mas isso implica fazer um estudo grande sobre as receitas e as despesas da Igreja. Devíamos fazê-lo. Mas o que me preocupa não é que a Igreja não tenha. É que cada vez mais pessoas não tenham. E repare: não será esta uma oportunidade de dar muito do que me sobra para aqueles a quem não sobra nada? Acho exemplar que se dê o que tem. Mas quero também que os laicistas e asssociação dos ateístas se sentem à mesa. Isto não pode ser apenas um esforço de uma Instituição. Devemo-nos sentar todos até que encontrássemos uma plataforma, para que todos dessem. 

 

O Diabo – E o clima em Portugal permite essa abertura?

D. Januário Torgal Ferreira – Vou ser-lhe sincero. Nos últimos dias fala-se em asfixia democrática [por causa da suspensão do Jornal Nacional de 6ª na TVI]. Eu não sinto asfixia democrática nenhuma. O que sinto é uma tremenda asfixia capitalista sobre as pessoas. Os pobres são os mais explorados.

 

O Diabo – Mas houve um episódio…

 D. Januário Torgal Ferreira – Não há asfixia democrática. O que sinto é asfixa capitalisa em Portugal. Os pobres são os mais explorados nesta sociedade. As pessoas estão asfixiadas em ter, em parecer, em fazer de conta. A asfixia da pouca-vergonha que governa Portugal é que tem de acabar. Agora asfixia democrática? Uma pessoa que não fale aqui, vai falar ali para a frente, para outro lado qualquer. Quem não tem dinheiro, quem tem fome, esses sim sentem a asfixia. E isso é que realmente me preocupa.