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Jornal O Diabo

jornalismo independente

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A universidade e os portugueses

António Marques Bessa

 

As Universidades foram desenvolvidas pelos religiosos católicos e depois pelas Cidades na época medieval (também dita das Trevas?). Foram, sem lugar a dúvida, as maiores instituições para promover os homens nascidos baixo a cargos prestigiados de legistas, de médicos, de farmacêuticos, de professores, de administradores de fortunas e assim por diante. Enfim, sabedores cultos e cientistas. As Universidades deram aos Povos aquilo que o Circo e todos os divertimentos modernos, não conseguiram oferecer em anos sem conta e que nunca conseguirão dar: melhor nível de vida às populações, através das tecnologias desenvolvidas e melhor conhecimento da realidade em que nos acontece viver, para tratar do nosso próprio bem-estar.


Hoje, como na ponte de anos que nos separa da sua fundação, eram supostas fazer o mesmo. Mas não fazem. E porquê?

 

Aconteceu o inesperado: a massificação

 

O êxito da Universidade foi o seu principal inimigo. Como fórmula de sucesso social e estamentário, motivou a sua invasão por arrivistas que não buscavam o saber mas o emprego e, logo de seguida, aconteceu o amplo caminho para a sua degradação, anquilosamento, imitação, assimilação e politização. A Universidade então abandonou grande parte dos seus grandes objectivos: ensinar com rigor, investigar, criar saber novo, preparar gente para a continuar no mesmo nível.


A massificação acarretou turmas multifacetadas de ilustres alunos, mas também de gente que nada tinha a ver com interesses genuínos de ser ensinado, investigar e aprender. Estavam interessados num título, bom ou mau, mas que lhe desse acesso a algo de interessante, nomeadamente um emprego público.

 

A tripla natureza da massificação

 

Mas a massificação não ocorreu só do lado dos estudantes vindos de um secundário degradado. Este movimento é impossível detê-lo, mas já veremos como foi contido. Registou-se sobretudo com a inflação de professores, não preparados, sem qualificações e, as mais das vezes, odiados pelos estudantes que eles  ensinavam e chumbavam sem explicação. A proliferação de professores no mercado das escolas superiores ditou respostas diversas e erradas. Exigir qualificações rápidas para responder ao problema empurrou uma multidão, que reprovaria aqui, para universidades de  Espanha onde obteve os títulos ambicionados, mas tal expediente encontra-se tão espalhado, de Saragoça aos Estados Unidos e daqui a Inglaterra, que era bom pensar nas certificações dos professores, como primeira medida contra a segunda grande massificação.


A terceira massificação é a onda europeia da mobilidade e da aplicação dos Acordos de Bolonha em que as Licenciaturas (antigamente de 5 anos) sem importância passam para 3 anos, o Mestrado para 2 anos com uma tesesinha incorporada, que é um pequeno texto de 60 páginas, e em seguida é que se vai para um curso de doutoramento, que custará  entre 10 000 e 4 000 euros. É o mercado. Bolonha fez o impensável: colocou tudo o que eram licenciaturas de humanidades, difíceis de maturar na cabaça de um estudante interessado, num ciclo de estudos de três anos, em que se fica a saber nada de nada. E aí estão já os licenciados bolonheses, que às vezes não sabem escrever, contar, somar, encontrar raízes quadradas, mas sabem muito da net, onde foram copiar trabalhos para dar aos seus professorzinhos.


Três ondas de delapidação fizeram a erosão dos maiores cursos não protegidos por Ordens. Os Engenheiros, Médicos, Advogados, Arquitectos puseram os pés à parede. Os outros não tiveram senão que amochar. E agacharam-se até. A Europa está nesta onda e as três massificações que podiam ser desviadas para escolas profissionais não o foram. Não dizia o José Cid: “Pai, eu não ser doutor”, numa fabulosa lírica que intitulou “Eu Nasci para a Música”? É isso. É perceber para que se nasce.

 

O supererro português

 

Ele consistiu em duplicar a rede das  Universidades, já multiplicadas com uma de Institutos Politécnicos, que, logo que criados, quiseram as prorrogativas da Universidade. Criados para serem cursos médios e técnicos, para se ligarem imediatamente ao trabalho, acabaram também a ensinar  humanidades, porque o Ministério era dirigido por tontos, porque os professores sem emprego abundavam e os doutoramentos estavam aí à mão. Nada de Institutos Industriais, Comerciais ou Agrícolas ou outros. A ideia dominante, aparentemente facial, consistia em acabar com o atraso e licenciar tudo o que mexia e era gente com BI. Os portugueses ficaram mal servidos com este expediente. Por isso a falência destas instituições está à porta e só se evita em certos casos admitindo alunos do secundário com 7 valores ou menos.

Portanto, ao responsabilizar as Universidades pela sua gestão, o Ministério sacudiu a água do capote e passou a afirmar: arranjem meios de financiamento. Que se pode fazer? Arranjar mais cursos inúteis, multiplicar as inutilidades funcionais e explorar os professores.

 

E vem agora o novo ECDU

 

Esta é a última revelação. O Ministério do Ensino Superior, neste desespero, tentou tapar o dique com um dedo e criou, agora em 2009, o Estatuto da Carreira Docente Universitária (vulgo ECDU). E eis aí a nova lei do Ensino Superior que é um funil aplicado aos professores. Os alunos estão bem e recomendam-se. O que importa é disciplinar os malandros, criar-lhe uma fieira por onde dificilmente passarão, acabar com o tipo contratos existentes para os novos, colocar novas regras. Parece ter sido feito por engenheiros que estudaram nos USA e que não se notabilizaram por ter inventado nada, a não ser regras. Mas pensam que 10 milhões de pessoas devem ter sistemas  iguais às superpotências. Que bom. Seria melhor ver o que faz na Holanda, na Bélgica, Lituânia, Eslovénia, países com a dimensão demográfica do nosso.


Todavia as principais matrizes são conhecidas e do agrado de controleiros: burocratização, artigos em inglês, afunilamento, barreiras visíveis à progressão na carreira docente, a que se somam as exigências de grande produtividade científica. Não se vê como se vão conseguir esses objectivos, com alunos medíocres que vêm do secundário e são incentivados pelo Ministério a faltar às aulas, a repetir exames, a tornar a vida universitária um inferno. 

 

Isto ainda acaba mal. A não ser que se perceba o que são incentivos a estudantes, a pessoal burocrático e a docentes certificados. Sem isso temos todo o jogo viciado como esteve até hoje e não é este documento, por muito boas intenções que tenha, que vai alterar o fundo da questão: não temos ciência competitiva. Porque como agora, quem sabe pensar, tem possibilidades e está entre os melhores, vota com os pés: vai-se embora e não volta.