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Jornal O Diabo

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Hugo Chávez: quem está disposto a desafiá-lo?

por Roger F. Noriega*


Aos olhos de Hugo Chávez, o homem-forte da Venezuela, como aos olhos de qualquer outro “valentão”, a fraqueza dos inimigos aparece como um desafio e uma provocação. Por isso ele galopa com o freio nos dentes e nos provoca a todo o momento, testando para ver até que ponto nós nos preocupamos o suficiente com a defesa dos nossos princípios ou com o apoio que devemos aos nossos aliados. Neste quadro, o Congresso norte-americano fez bem em insistir para que a Administração Obama prove ter realmente compreendido a ameaça de Chávez e a necessidade imperiosa de adoptar uma política para com a Venezuela que defenda os interesses do Ocidente.

 

O último ataque aos nossos interesses de segurança visou os planos da Colômbia para permitir o uso das suas bases militares na interminável guerra contra a droga, no âmbito de acordos de cooperação externa. Com grande fanfarra, Chávez ameaçou cortar todos os laços comerciais com a Colômbia e deu instruções às suas tropas para se prepararem para um confronto, declarando em 9 de Agosto: “Convoco o povo e as forças armadas! Vamos! Prontos para o combate!”.

 

O tenente-coronel Chávez sabe que a última coisa que pode fazer é mandar o seu pobre exército, corrupto e politizado em extremo, para aquilo que seria uma confrontação humilhante com as tropas colombianas, fortemente exercitadas em batalha. Não, ele tem outros objectivos. Ao agitar as espadas em direcção a um rival tradicional, Chávez apenas espera distrair os seus compatriotas da sua triste obra na Venezuela: uma ditadura sem futuro, ruas onde paira a morte, uma política de malfeitores e uma economia corrompida e em desintegração. Ao classificar a cooperação da Colômbia na luta anti-droga como “interferência dos gringos”, ele pretende enfraquecer o único governo da região que opõe resistência à sua agenda de agressões, concitar os sentimentos anti-americanos em seu favor e ver até que ponto os americanos estão de facto dispostos a ir.

 

“Ventos de guerra”

 

Se continuar impune, a agressão de Chávez ultrapassará os limites da simples fanfarronada. Do nosso lado, desvalorizar os seus insultos permanentes não é resposta suficiente a ameaças muito reais. Chávez transformou a nação venezuelana, que outrora se orgulhava de si mesma, num regime personalizado que usa a sua vasta riqueza petrolífera e a sua influência na região para impor uma visão agressiva e anti-democrática numa zona do globo vulnerável à desestabilização.

 

Os seus acólitos da Bolívia e do Equador seguiram a linha de Chávez ao minarem a cooperação internacional anti-droga e ao cumpliciarem-se com os “narco-guerrilheiros”. Ele usou os petrodólares para comprar influência em Estados mais fracos (El Salvador, Honduras e grande parte do Caribe) e para se imiscuir na política interna de nações poderosas (Argentina, Peru e México). Outras potências regionais, como o Brasil e até os Estados Unidos, têm estado mais preocupadas em mostrar-se “imperturbáveis” face ao estilo infantil de Chávez, enquanto ele vai alargando a sua influência.

 

Inquestionado num número crescente de países, Chávez e os seus seguidores desmantelaram instituições e concentraram poderes nas mãos de inúmeros “caudilhos”, substituindo democracias nascentes por regimes destrutivos e divisionistas. Quando os honduranos quiseram interpretar e aplicar a sua própria Constituição para defender as suas instituições de um desses “caudilhos”, Chávez tratou muitos diplomatas da região como carneiros e obrigou-os a defender o “direito” do seu fantoche a desrespeitar a lei e a tomar o poder.

 

A agressão ‘chavista’ é mais do que política: é palpável e cresce. Recentemente, o ditador declarou que “os ventos da guerra sopram” na América Latina. Claro que Chávez não se referia à guerra ilegítima que há quase uma década vem desencadeando contra a Colômbia, nem à sua imparável ofensiva contra os interesses norte-americanos na região. Não: ele critica a Colômbia por se atrever a defender-se contra os amigalhaços “narco-terroristas” do regime venezuelano e a ceder as suas bases militares para o combate ao tráfico da droga.

 

Aliado do Irão

 

Os agentes de Chávez foram apanhados em flagrante quando forneciam “rockets” anti-tanque, armas, munições e dinheiro a guerrilheiros que travam uma guerra ilegal contra um Estado vizinho soberano. Mas as provas indesmentíveis do seu apoio a organizações terroristas internacionais têm sido virtualmente ignoradas pela comunidade internacional.

 

Pior ainda. Alguns governos apressaram-se a criticar as acções defensivas da Colômbia. O presidente brasileiro, Luiz Inácio “Lula” da Silva, disse literalmente: “Não gosto da ideia”. A presidente da Argentina, Christina Kirchner, disse que se tratava de “beligerância inaceitável”. E o presidente do Equador, Rafael Correa, considera estar-se perante “uma provocação”. O que estes líderes parecem querer dizer é que a Colômbia é o único país do mundo sem direito a tomar decisões por si próprio e a defender como melhor entende o seu território.

 

Em contrapartida, Chavez dá guarida ao programa nuclear ilegal do Irão ao permitir que este país explore minas de urânio na província venezuelana de Bolívar, ao apoiar a sua política diplomática e ao ajudá-lo a escapar às sanções usando o corrupto sector bancário venezuelano.

 

Vários senadores norte-americanos defenderam já uma reavaliação da ameaça venezuelana. Pela voz de Richard Lugar, da Comissão de Relações Externas do Senado, o General Accountability Office difundiu no mês passado um relatório devastador confirmando que os cúmplices corruptos de Chávez estão envolvidos no negócio da droga. Pouco depois, o Senado requereu formalmente que o director da National Intelligence se pronunciasse sobre o impacto das ligações de Chávez ao terrorismo, à escalada militarista e à subversão na região. E o senador Jim DeMint usou a nomeação de vários responsáveis da Administração Obama para convencer o Senado da necessidade de uma revisão de toda a política para a América Latina e da adopção de medidas efectivas de resposta.  

 

Valores fundamentais

 

O Presidente Obama devia ouvir as preocupações do Congresso. Em primeiro lugar, devia insistir para que a comunidade dos serviços de informações fizesse, perante o Congresso e o mundo, um retrato credível da ameaça aguda e crescente que o regime de Chávez representa. Em segundo lugar, uma vez empossada a sua equipa para a América Latina (chefiada pelo competente e experiente diplomata Arturo Valenzuela), devia pedir-lhe que traçasse uma estratégia capaz de enfrentar o desafio. Em terceiro lugar, devia adoptar planos de reforço dos laços de segurança com a Colômbia e outros países amigos da região. Devia ignorar interesses mesquinhos e propor ao Congresso a aprovação de acordos comerciais pendentes com a Colômbia e o Panamá. Em quarto, devia pressionar o Congresso para que financiasse ajudas à Colômbia em particular, e à América Latina em geral. Por fim, devia empenhar-se pessoalmente em poupar a democracia na região às ofensivas da pérfida diplomacia de Chávez, nomeadamente ajudando a encontrar uma nova e efectiva liderança para a Organização dos Estados Americanos.

 

As boas-intenções de conciliação e diálogo do Presidente Obama têm sido mal interpretadas por Chávez, que as vê como fraqueza e falta de vontade de lutar. Pelo contrário, se substituir essa política por outra, capaz de enfrentar o desafio ‘chavista’, Obama dará um sinal claro de que está disposto a empreender uma vigorosa defesa dos valores da segurança. Valores fundamentais.

 

*Investigador convidado do American Enterprise Institute for Public Policy Research