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Jornal O Diabo

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Cenários pós-eleitorais

Resultados ditam futuro dos líderes

 

E se eu perder? – perguntam-se os líderes dos principais partidos concorrentes às legislativas. Sócrates teria de engolir a derrota e carregar o partido às costas, numa penosa travessia do deserto. Manuela sairia pelo seu pé. E Portas avançaria com uma surpresa na noite das eleições…

 

A 25 dias das eleições legislativas já se afiam facas para a noite eleitoral. No CDS, alguns destacados militantes esperam avidamente o resultado para saber se se “colam” ao poder (no caso de uma vitória) ou se avançam com um pedido de congresso extraordinário, caso Paulo Portas obtenha um resultado inferior ao das eleições passadas. “O Diabo” sabe que um conjunto de apoiantes do jovem João Almeida está apenas à espera de um mau resultado para pedir uma reunião magna do partido e tentar substituir o líder.

 

Os rivais de Paulo Portas arriscam-se, contudo, a enfrentar duas surpresas. A primeira, com os próprios resultados eleitorais: “O CDS vai ter melhor resultado que nas eleições anteriores”, garante um dirigente do partido a “O Diabo”. “A campanha está a correr melhor. Isto não quer dizer que venhamos a somar, com o PSD, uma maioria que dê para governar. Mas que vamos subir de votos, isso vamos”.

 

Mas Paulo Portas, que não entrega a terceiros a gestão da sua carreira política, tenciona antecipar-se com uma outra surpresa: a convocação de um congresso extraordinário na própria noite das eleições, qualquer que seja o resultado.

 

“É natural que um líder que ganha se queira ver novamente legitimado”, explicou um dirigente do CDS a “O Diabo”. Mas se perder em toda a linha, Portas pode mesmo sair. Outro militante do partido assegura ao nosso jornal: “Não há oposição interna que se veja, as coisas estão unidas, mas Paulo Portas já disse que ou conseguia um bom resultado e era governo, ou ia-se embora. O problema é que Paulo sente que uma dezena de anos depois, ou as pessoas entendem a mensagem, ou o problema é do mensageiro, e então deve afastar-se”.

 

Coelho e Rangel

 

Já no PSD, as contemplações face a uma hipotética derrota de Manuela Ferreira Leite não seriam grandes. Caso a líder perdesse para o PS as eleições, o partido avançaria mesmo para congresso extraordinário. Depressa e em força. Tanto mais que é conhecida a determinação de Manuela Ferreira Leite de não se eternizar na liderança num cenário de oposição. O que preocupa a oposição interna é o pouco tempo que restaria ao novo líder até às próximas legislativas. Marcelo Rebelo de Sousa já avisou, sobre o programa do PSD: “É um programa para as eleições de 27 de Setembro, mas é programa que me parece pensado para a hipótese possível, plausível, de sair um Governo minoritário e de haver novas eleições dois anos depois”, previu o comentador.

 

Ora, com menos de dois anos para preparar alternativa, e sendo provável que um eventual Governo do PS não aguentaria, sequer, um ano, os candidatos Pedro Passos Coelho ou Paulo Rangel – vistos como os mais prováveis sucessores de Manuela teriam pouco tempo para conquistar o partido e o País. Em caso de fracasso eleitoral, se a líder não caísse a 27 de Setembro, por mão própria, cairia no congresso seguinte. Isto deixaria, ainda, o Presidente da República em maus lençóis políticos. Apesar de o “seu” PSD não o desapoiar caso decida avançar com a candidatura a um segundo mandato, Cavaco teria de esperar que Rangel ganhasse para ter apoio explícito. Se fosse Passos Coelho a vencer, Cavaco poderia muito bem ter que suar as estopinhas sozinho… contra um Manuel Alegre revigorado e candidato em pleno do PS.

 

“Carro-vassoura”

 

Quanto ao PS, mesmo que saísse vencedor das eleições do próximo dia 27, teria vida a prazo no poder, com José Sócrates fragilizado. Seria o primeiro líder do PS a não conseguir melhorar resultados de umas legislativas para as outras (excluindo, naturalmente, os casos em que foi derrotado), e teria de carregar o partido às costas” numa penosa travessia do deserto. António José Seguro, Paulo Pedroso, António Costa ou outro candidato que surgisse não quereria servir de carro-vassoura dos despojos socráticos. O jovem Tozé espera, no entanto, ser líder parlamentar na próxima legislatura, caso o PSD vença, preparando-se para futuros combates.

 

À esquerda, só um maremoto poderia afastar Jerónimo de Sousa da liderança do PCP. É cedo para o jovem Bernardino Soares e tarde para o sindicalista Carvalho da Silva, que se vem afastando dos comunistas desde que se doutorou. O maremoto seria, no entanto, ficar em quinto lugar, atrás do Bloco e do CDS. Nesse cenário, Jerónimo regressaria a Pirescoxe, abrindo caminho para a primeira sucessão no PCP na era pós-Cunhal – o maior desafio dos comunistas desde 1975. No entanto, as sondagens internas dos partidos ainda vão dando o PCP à frente do CDS – oxigénio suficiente para se afastarem as hipóteses de sucessão.

 

Resta o Bloco de Esquerda, alicerçado em Francisco Louçã, que habilidosamente vem “desgastando” as figuras de proa do partido e, aparentemente, não tem de enfrentar a oposição de tendências internas – ao contrário do que geralmente sucede nos partidos congéneres europeus. Um mau resultado para o Bloco seria voltar a ter dois ou três deputados. Mas uma votação que faça o BE descer para o quinto lugar – fruto do voto útil da esquerda moderada no PS e não nos bloquistas pode fazer com que Louçã apenas consiga um quarto lugar na tabela, atrás do PCP ou do CDS.