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Jornal O Diabo

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Os negócios da educação

Livros escolares vendidos

a 5 vezes o preço de custo

 

O livro escolar-tipo tem um preço de custo de cerca de cinco euros, mas chega à mão do estudante a 25. Num mercado em que a concorrência se tornou feroz, as editoras convidam professores para sessões em hotéis, à cata de simpatia...

 

Ana Maria é professora de Biologia do ensino secundário, numa escola a norte de Lisboa. O ano passado recebeu vários convites para “ir a hotéis ouvir vender os livros escolares”, com o patrocínio das editoras. “Todos os anos recebo, em média, sete ou oito livros da minha disciplina. Depois, dou a minha opinião. Naturalmente, as editoras querem vender, por isso investem neste tipo de aproximação, que não é nova”, conta a professora.

 

O que é recente são os almoços, os lanches e os convívios para professores, em hotéis, onde os livros são propagandeados. Aconteceu a Ana Maria ser convidada para algumas destas apresentações: “Fui ver o que ofereciam mas, de facto, é um tempo perdido a ouvir vendedores. O que as editoras querem, com estas apresentações, é auto-valorizar-se, o que é natural, mas o valor pedagógico das apresentações é pequeno”, esclarece a docente.

 

As editoras têm todo o interesse em vender os livros. O mercado está agora dominado pela Porto Editora e pelo Grupo Leya (através, por exemplo, da Texto Editora), que comandam algumas etiquetas para além da própria. Por exemplo, a Porto Editora tem livros de marca própria, mas comanda e edita ainda os títulos da Areal Editores e da Lisboa Editores. É um esquema simples para dominar o mercado: diversificar as marcas. O valor deste mercado ronda os cem milhões de euros e a Porto Editora tem mais de cinquenta por cento do negócio.

 

Aumento de 5%

 

O preço de venda ao público de um manual escolar é, no entanto, muito diferente do seu real custo. “O Diabo” consultou vários manuais, mas em nenhum encontrou impressa a indicação de tiragem. No entanto, estima o Ministério da Educação que cada manual tenha uma tiragem perto dos 35 mil exemplares. Ora, para um livro de 200 páginas a cores, o custo de impressão e acabamento será de 5 euros por exemplar. Depois, há que juntar os custos de ‘copyright’ do autor e ilustrador, mais a revisão e paginação. Uma antiga autora de livros escolares de Português diz a “O Diabo” que o custo por autor é entre os três e os cinco mil euros. O Ilustrador pode custar cerca de dois mil euros. O que dá um total de sete mil euros por equipa, para cada livro.

Fazendo as contas: o livro, antes de distribuição, custa 5,2 euros. Até atingir os 25 euros por que é vendido nas livrarias, há quase 20 que são os ganhos da editora, da distribuidora e das lojas.

 

Acresce ainda que os manuais escolares são revistos de quatro em quatro anos, o que implica que no segundo ano de vida do manual – e nos seguintes – o seu preço de impressão é mais baixo, uma vez que só se gasta papel e tinta. Todos os outros componentes estão já pagos, como as “chapas” de impressão e todo o processo pré-rotativa.

 

Portugal é um dos poucos países onde os livros escolares são certificados. Depois de polémicas em torno dos erros gramaticais, semânticos ou factuais dos livros escolares, o Governo decidiu, há três anos, estabelecer comissões de certificação. Estas comissões, no entanto, não mandam nos preços, apenas dão uma opinião técnica.

 

Em 2009, o acordo para a estabilização dos preços dos manuais escolares foi revisto pelas editoras, Governo e Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). O resultado é um aumento dos custos em cerca de cinco por cento. Este aumento nos manuais revela também uma subia superior aos valores da inflação e dos aumentos salariais.

 

Livros de exercícios

 

Quem mais sofre são os pais dos alunos do primeiro ciclo do ensino básico. O custo dos livros aumenta cinco por cento, mas o preço de “cabaz”, valor indicativo dado pelo ministério da Educação, está longe de corresponder ao preço real. O Governo diz que os livros para os que agora começam a escola devem custar 25,54 euros. Na verdade, as editoras cumprem este preço, mas vendem os seus manuais agregados a livros de exercícios, o que encarece o pacote. É que, ao contrário dos livros nos anos setenta e oitenta, agora os manuais não têm muito espaço para fazer exercícios – o que abre a porta à edição destes cadernos com testes, vendidos em conjunto com o verdadeiro manual.

 

Segundo a APEL, o aumento de preços traduz-se numa subida real de 1,36 euros no 1.º ciclo, de 3,90 euros no 2.º ciclo de escolaridade e de 6,20 euros no 3.º ciclo. Mas há truque nestas contas. Os editores estão a contabilizar apenas os custos de algumas disciplinas. Deixam de fora, por exemplo, os manuais de Educação Física, de Educação Visual e de Tecnológica. As disciplinas são obrigatórias, os manuais estão feitos, mas como são pouco usados nas aulas, as editoras não os incluem nos cálculos.

 

A APEL justifica estes novos valores: “Resultam da Convenção de preços assinada em Março do ano passado, que veio pôr termo a um longo congelamento de preços. E defende: “Apesar dos acertos de 2008 e 2009, nos últimos seis anos, a actualização verificada nos preços dos manuais escolares ficou 1,78% abaixo do valor acumulado da inflação referente ao mesmo período.