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Jornal O Diabo

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A Europa está doente

Por George Weigel, investigador do Ethics and Public Policy Center, de Washington

 

A demografia é inequívoca: a Europa está a morrer. Sofre de uma doença que não é física mas afecta o espírito humano: aborrece-se. O Islamismo poderá ocupar o vazio.

 

 

As fracas taxas de natalidade na Europa são a mais concreta manifestação de uma crise espiritual no berço da civilização Ocidental. Esta crise tem origem na marginalização do Cristianismo ao longo do último século na cultura, na intelectualidade e na vida pública da Europa.

 

A Europa, e em especial os países ocidentais, atravessam uma crise moral e civilizacional. A mais dramática manifestação disto não deve ser procurada na estima dos europeus pela burocracia governamental ou na sua devoção pelos instáveis esquemas de saúde e de reforma, na lenta produtividade económica ou na conciliadora mentalidade mostrada por alguns dirigentes em relação ao terrorismo islâmico. Não, a mais dramática manifestação da crise moral e civilizacional europeia é o facto chocante de que a Europa está a despovoar-se.

 

As taxas de natalidade, incapazes de manter a reposição populacional, causaram situações inimagináveis à época em que as instituições de integração europeias foram criadas, no final da década de 40 e início dos anos 50. Em meados do século actual, se o presente padrão de fertilidade se mantiver, 60 por cento dos italianos nunca viverão a experiência de ter um irmão, uma irmã, uma tia, um tio ou um primo. A Alemanha perderá o equivalente à população da ex-Alemanha de Leste e a Espanha terá menos um quarto de habitantes.

 

Quando todo um continente, mais saudável, mais próspero e seguro do que nunca, falha na criação do seu futuro humano, no sentido mais elementar – criar a próxima geração – algo de muito sério se passa. Não consigo pensar em melhor descrição para esse “algo” do que crise moral e civilizacional.

 

Esta crise apenas se tornou completamente visível depois do fim da Guerra Fria. Os seus efeitos foram primeiro escondidos pela ilusão de paz vivida entre as duas grandes guerras, depois pelo risco de totalitarismo e da Grande Depressão, pela II Guerra Mundial e, mais tarde, pela Guerra Fria. Só em 1991, quando terminaram os longos setenta e sete anos de crise politico-militar iniciados em 1914, se mostraram, tal como foram e como são, os efeitos a longo prazo da “raiva de auto-mutilação” da Europa. O continente europeu sofre hoje de uma crise civilizacional e moral provocada pelos noventa anos anteriores.

 

As taxas demográficas não mentem: a Europa está a morrer. A doença devastadora que afecta aquela que foi uma grande civilização não é, contudo, física. É uma maleita no cerne do espírito humano. David Hart, teólogo analista da história contemporânea, designa-a de “tédio metafísico”, tédio pelo mistério, pela paixão e pela aventura da própria vida. De acordo com a imagem de Hart, a Europa aborrece-se de morte.

 

E este processo está a consentir aos Muçulmanos fundamentalistas do séc. XXI – que encaram as derrotas dos seus antepassados, em Poitiers, Lepanto ou Viena e a expulsão de Espanha, como reveses temporários no caminho para o triunfo final do Islão na Europa – pensarem que o dia da vitória final não está longe. Não porque a Europa venha a ser conquistada por um exército invasor, marchando sob os estandartes do Profeta, mas porque ao despovoar-se, ao aborrecer-se, ao desarmar-se culturalmente, abriu o caminho a esses imigrantes islâmicos, que criarão aquilo a que alguns investigadores chamam a “Eurabia”, o continente europeu como extensão cultural e política do mundo árabe islâmico. Caso isto venha a acontecer, a ironia é inquestionável: o drama do humanismo ateu, esvaziando a Europa da sua alma, resultará no triunfo de um profundo teísmo não humanista. A actual crise civilizacional e moral europeia atingirá o seu amargo apogeu quando a Notre-Dame de Paris se transformar na Hagia Sophia sobre o Sena.

 

Podemos já ver os efeitos deste despovoamento nas tensões que se vivem em França, na Alemanha e noutros países, provocados pelas vagas de imigração vindas do Norte de África, da Turquia e de outros locais do mundo islâmico. Desde os anos 70, o que não é assim tão distante, uns 20 milhões (legais) de imigrantes islâmicos – o equivalente ao total das populações da Irlanda, da Bélgica e da Dinamarca – estabeleceu-se na Europa. E enquanto, segundo os cenários mais optimistas, estes imigrantes podem tornar-se bons democratas europeus, praticando a tolerância e o civismo, há outra alternativa ameaçadora. A depauperada demografia europeia, combinada com a radicalização do Islão, que parece ser o subproduto do encontro de alguns Muçulmanos com a secular Europa de hoje, pode eventualmente resultar num séc. XXII – ou mesmo num séc. XXI – enormemente influenciado, ou até dominado, por populações islâmicas, convencidas de que o almejado triunfo está ao seu alcance.

 

Será que este futuro europeu, dominado pela mentalidade de compromisso em relação ao radicalismo Islâmico, é do interesse do Ocidente? Não acredito.

 

O estranho debate em torno da simples menção da contribuição do Cristianismo para a civilização europeia, durante as discussões da constituição europeia, foi especialmente perturbadora devido aos amnésicos que queriam reescrever a história, varrendo o Cristianismo em nome de um limitado conceito de democracia. Negar esse Cristianismo nada tem a ver com a evolução de uma sociedade europeia livre, respeitadora da Lei e próspera e representa mais do que falsificar o passado. Pretende criar um futuro em que a verdade moral não representa qualquer papel na governação, na determinação das políticas, na compreensão da justiça e na definição de liberdade, princípios intrínsecos da democracia.

 

Se estas ideias prevaleceram, serão más notícias para a Europa mas também para os Estados Unidos. O triunfo desta forma de pensar reforçaria inevitavelmente tendências semelhantes na nossa cultura e, finalmente, na nossa Lei. E o que representaria para o projecto democrático em todo o mundo se a noção de que democracia nada tem a ver com verdade moral fosse exportada da Europa Ocidental para a central e oriental, através de uma União Europeia alargada e daí para outras novas democracias do mundo?

 

Assim, os americanos têm e devem ter cuidado. Separarmo-nos das nossas raízes é ignorarmos a Europa. Mas a nossa segurança estará em risco se a demografia europeia continuar a proporcionar vantagens ao dinamismo do Islamismo radical nas políticas mundiais. A democracia americana ficará enfraquecida se a definição legal europeia de liberdade vier a provocar tendências semelhantes nos Estados Unidos e nas democracias do Mundo.