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Jornal O Diabo

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Iraniano detido no aeroporto à espera de asilo político

Tem 31 anos e foge da ira de Teerão

 

Deu nas vistas nas manifestações de rua, em Teerão, e foi “marcado” pela polícia. Depois de conseguir fugir para o Ocidente, está há um mês detido no aeroporto da Portela, em Lisboa, onde aguarda resposta ao seu pedido de asilo político.

 

Desde 24 de Julho que está detido nas instalações do Aeroporto da Portela, em Lisboa, um cidadão iraniano que fugiu à perseguição do governo do seu país. Mohammad Bahrami, nascido a 27 de Agosto de 1978, queria chegar a Toronto, no Canadá, e tinha passado já por vários países quando foi detectado pelas autoridades portuguesas, atentas às movimentações de cidadãos árabes em Portugal.

 

Bahrami aguarda, em detenção, ser ouvido pela polícia, mas já pediu asilo político ao nosso País. O pedido, sabe “o Diabo”, foi apresentado a 30 de Julho deste ano, seis dias depois de Bahrami ter sido detido em Lisboa, em trânsito para a cidade canadiana. Na parca bagagem que transportava – não mais do que umas mudas de roupa – estava ainda um testemunho do seu caminho até Lisboa. Um bilhete, emitido a 22 de Julho, em Paris, comprovava que Bahrami tinha viajado desde França até Barcelona. Ali, na segunda maior cidade espanhola, terá encontrado transporte para Portugal, através do voo do dia 24 de Julho, aterrando na Portela nessa manhã.

 

Mohammad Bahrami, segundo informações recolhidas por “O Diabo”, estava a fazer uma viagem de fuga ao regime iraniano, depois de ter-se envolvido nos protestos contra o resultado eleitoral de 12 de Junho, em que o actual Presidente, Mahmoud Ahmadinejad, foi reeleito, apesar dos fortes protestos da oposição. Mohammad terá participado nestas manifestações e ficado “marcado” pela polícia local. Desenhou então a sua fuga até ao Canadá, apenas interceptada em Lisboa pela vigilância das autoridades alfandegárias.

 

Mas este homem, cuja morada fornecida é na rua Bemeshti, em Teerão, solteiro e filho de iranianos, não se arriscou a viajar com a sua verdadeira identidade. O seu passaporte, que está a ser analisado pericialmente pela polícia portuguesa, tem a sua fotografia mas uma outra identidade: o seu “nome de salto” é Scott Artur Bedford, cidadão australiano, com documentação emitida a 11 de Junho de 2002, em Melbourne, e válido até à mesma data do ano 2012.

 

O pedido de asilo por parte de um cidadão perseguido por razões políticas no seu país é geralmente considerado com benevolência no Ocidente. No entanto, fontes ouvidas pelo nosso jornal admitem que o caso deste refugiado (o primeiro iraniano a pedir asilo em Portugal na sequência da repressão pós-eleitoral em Teerão) esteja a “embaraçar” o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que tem feito tudo para não beliscar as relações diplomáticas com o regime teocrático iraniano. Esta circunstância explicaria a demora numa resposta ao seu pedido de asilo.

 

Segundo relatos oriundos de Teerão, depois dos protestos contra o resultado eleitoral de 12 de Junho, terão morrido já 69 pessoas – número negro avalizado pela Associated Press. Mais de uma centena de jovens opositores do regime de Mahmoud Ahmadinejad, o vencedor contestado, foram detidos e, dizem fontes da oposição, a polícia política está a torturá-los dentro das prisões. Outros tantos opositores ao regime têm vindo a ser julgados por não terem acatado a decisão de legitimar os resultados eleitorais. Os detidos sob tortura, afirma a oposição, estão submetidos a maus tratos em Kahrizak, uma instalação prisional perto do centro da capital iraniana.

 

Muitos dos que se manifestaram em Teerão fugiram da cidade, com medo de perseguições policiais. O sistema iraniano de governo elege livremente o chefe do Executivo, mas mantém na mão do Ayatollah, o líder espiritual do País, o poder supremo.

 

Na passada semana, o alvo de um grupo de antigos deputados reformistas iranianos foi mesmo o Ayatollah Ali Khamenei, actual líder supremo. Dizem estes oposicionistas, numa carta dirigida à Assembleia de Peritos, o órgão colegial supremo do Irão, que Khamenei deve ser destituído por permitir a tortura, a detenção por motivos políticos e a vingança. É a primeira vez que um Ayatollah é posto em causa naquela república islâmica.

 

O destino da iniciativa, amplamente publicitada através da Internet, será, dizem os comentadores internos, o arquivamento. O mais importante, no entanto, está feito: colocar directamente em causa, e pela primeira vez, um líder supremo – pedindo a sua destituição.

 

Entretanto, o candidato reformista Hossein Mousavi, que continua a clamar vitória nas eleições de 12 de Junho, ainda não manifestou apoio público ao pedido de destituição do líder supremo. A carta está agora nas mãos do Ayatollah Rafsanjani, que se colocou ao lado dos reformistas durante os protestos. É, no entanto, pouco provável que este dirigente possa sequer enviar a proposta a votação. A Assembleia de Peritos é composta por 86 membros, mais de dois terços dos quais são favoráveis ao actual líder supremo.