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Jornal O Diabo

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Os Problemas dos Portugueses

António Marques Bessa

 

A qualquer observador descomprometido parece que o grave problema em Portugal anda à volta dos GAY. Outros dirão que roda sobre os imigrantes que vêm de todas as partes do Mundo, deletérios, mal falando a língua, doentes e pedintes. Outros ainda dirão que a questão reside nos ciganos que distribuem droga, têm Mercedes e recebem grandes subsídios, arrancados à custa de ameaças às serventuárias do Serviço Social, que vão no meio deles fazer inquéritos às suas necessidades para atribuir uns euritos aqui e ali. Alguns, observando a onda de pobreza encapotada em Portugal, dirão que o problema está aí: caem no meio da miséria mais sórdida (fome) famílias inteiras enquanto outros se banqueteiam com o dinheiro público e outros ainda recebem os mais diversos subsídios para fazer nada de nada. Dentro dos problemas não existentes como sérios, podem ainda destacar-se mais alguns: o racismo que parece galopar nos bairros sociais, o crime violento com morte e balada para um funeral, os políticos com assento na Assembleia que parecem baralhados e com uma aptidão violenta para os negócios mais ou menos legais, a organização dos advogados apostada em dificultar a vida a Lei.

 

Torna-se premente perceber que estes não são problemas verdadeiros e que derivam do eco que lhes dão os meios de comunicação de massa, a começar pela televisão. A acreditar nela, agora, os portugueses estariam interessados em oferecer perfumes caros e refinados, carros de alta cilindrada e mais humildemente comer bacalhau do Lidl. Ninguém acredita nisso. Porque é que têm de acreditar no resto dos outros problemas?

 

Quais são os problemas verdadeiros?

 

Criar riqueza pela produção. Este é um problema que não foi resolvido nunca desde Dom Manuel até aos dias de hoje. As conquistas, as descobertas, os ciclos da Índia, do Brasil e da África, tornaram esse um problema para resolver agora. E agora não se resolve porque toda a gente entende que entrou no ciclo prateado da Europa. Eles que paguem – entenda-se. Eles que resolvam. É o Deus dará. Mas não vai dar e aí reside a falência do Estado de dez milhões de patetas alegres sem terem razão para andar alegres.

 

Resolver o défice. Este problema também é antigo e só conheceu um intervalo de solução quando os emigrantes mandavam divisas para Lisboa e o Estado tinha controlado as despesas ao mínimo. Vê-se hoje o contrário: o défice galopa, isto é, não anda a trote. Todos sacam da mesma teta da República e ela já está inerme, magríssima, e tem pouco leite.

 

Educar e Civilizar o Povão. Talvez uma tarefa impossível de qualificação de gente inqualificável que vemos nos aeroportos, nas cidades onde chegamos e que nos envergonham quando vemos que continuam uns pacóvios como saíram daqui. Não vale virar a cara para o lado e dizer que somos assim. Porcos, mal-educados, sebentos, barulhentos, ruidosos, exibicionistas, palermas e inoportunos. Basta de gente do Terceiro Mundo, como se disse no 25 de Abril que éramos. Talvez fosse bom um programa educativo sério, sem tantas burocracias estúpidas, sem tantos papéis a preencher, sem tanta má educação consentida, sem tanta estimulação à preguiça, a má formatação da mente e a tolerância do intolerável. Os professores são a ponte que conserva o saber desde o tempo de Platão. Que querem fazer sem eles? Uma burocracia que vai ensinar em lugar deles? A burocracia só pode estupidificar, criar regras dentro de regras e o Povão não gosta de regras, como se vê no Futebol.

 

Qualificar o Território que habitamos. É extremamente doloroso ver o que se faz por todo o lado, destruindo a paisagem, construindo em leitos de rios, em terrenos de terra deslizante, em baixios. Ordenamento do território? Aonde existiu? Valorização da paisagem e da geografia humana, mas a sério, não aos bochechos – é do que se precisa. Vigiar para que não se destrua a floresta e as praias e não se polua à vontade. Não é que as florestas estão cheias de casas de “cantoneiro” abandonadas? Essa vigilância e cuidado não poderia ser transferida para quem recebe subsídios para não fazer nada?

 

Criar Ciência. Isso faz-se em poucas universidades e centros. Porém, o estímulo é para os atletas de Circo que ganham milhões. Os cientistas que podem salvar vidas e mudar o modo de vida terão algumas centenas. Então para quê tanto discurso sobre a Ciência se não há dinheiro para a pagar? Se tudo não passa de uma farsa falsificada em relatórios à Fundação da Ciência e Tecnologia, que também entra na dança do faz de conta, metendo para isso cientistas estrangeiros nas avaliações de percursos científicos. E quem são eles? Na verdade, encontrei-me com alguns destes em diversos sítios. Não emito opinião, mas não os convidava para almoçar comigo. Fazer Ciência é silencioso, tem custos altos, e é por isso que os Nobel europeus costumam sair de uma fundação alemã, antigamente denominada Kaiser Guilherme II. E agora, Max Planck. Sem alardes ou foguetes, ganham o que há a ganhar.

 

As questões ociosas. São as que as que ocupam os políticos, porque eles são e constituem um entrave a que se resolvam os problemas reais do país que existe. A Assembleia não é o País, é um país a fazer de conta para 10 milhões. São Paulo, Nova Iorque e muitas outras cidades do Mundo têm a mesma população. Alguém creditará que terão tanta gente sem fazer nada a não ser a “nobre” arte de praticar a política de todas as maneiras ínvias, querendo que nós pensemos que o país-cidade é uma potência muito respeitada “lá fora”? Quem foi “lá fora”, desde novo até agora, sabe que não nos ligam nada. E essa é que é a realidade, quer se goste, quer se embrulhe em açúcar para este Natal.

A difícil escolha de Guterres entre Angelina Jolie e a corrida a Belém

O antigo primeiro-ministro,  alto comissário da ONU e “chefe” de Angelina Jolie,  está longe de desejar ser candidato contra Cavaco Silva, mas o PS, que detesta Alegre, está a fazer-lhe a vida negra.

Os telefonemas começaram a tornar-se mais frequentes quando os socialistas perceberam que Cavaco Silva pode ser batido nas eleições presidenciais, em Janeiro de 2011. Desde Novembro que António Guterres, ex-primeiro ministro de Portugal e actual alto-comissário da ONU para os refugiados, tem recebido apelos vários para que considere ser candidato à Presidência da República. “Compreendo que ele esteja reticente em aceitar”, diz a O Diabo um destacado socialista, que ocupou lugar no antigo Governo do PS. “Ser chefe da Angelina Jolie  e desistir disso para regressar a Portugal deve ser uma opção difícil”, graceja. No entanto, este militante do PS, mais a sério, considera “pouco provável que ele [Guterres] se apresente a eleições se não for para ganhar, e o PS ainda tem de resolver o problema do Manuel Alegre antes de queimar alguém”.

A questão é exactamente esta. Qualquer candidatura que apareça do quadrante socialista tem de compensar o efeito do cada vez mais candidato Manuel Alegre. O poeta da Anadia tem recolhido fortes apoios de base nos últimos meses. Cada vez que José Sócrates perde uma batalha pública ou se vê envolvido, involuntariamente, em qualquer escândalo público, uma boa parte dos socialistas (em que se revêem guterristas, sampaístas e até alguns antigos apoiantes de Salgado Zenha), batem palmas por ver que Alegre ganha estatuto. Mas o que tem acontecido a Alegre não é simpático. O Diabo apurou que, depois do jantar de 11 de Dezembro, a campanha está já com um fundo de maneio razoável para começar a pensar em lançar acções de financiamento a uma candidatura independente. Mas a verdade é que os principais financiadores, como os bancos e as construtoras civis, não se entendem com Manuel Alegre. Julgam que o poeta faria um magistério pró-estatizante, com mais impostos sobre as empresas e menos obras públicas de vulto. O medo é tal que têm sido estes mesmos financiadores a sugerir, em privado, a José Sócrates, que encontre outro candidato a Belém que não Alegre. Guterres é, para eles, o melhor nome.

E quem concorda com estes grandes apoiantes das candidaturas é Mário Soares. O velho “pai” dos socialistas está a fazer tudo para convencer os seus mais fiéis seguidores a rejeitar qualquer apoio ao seu antigo amigo. Soares ainda não engoliu a pesada derrota que teve às mãos de Alegre, perante Cavaco Silva. Sim, porque Soares não aceita que perdeu contra Cavaco por culpa própria – foi Alegre quem lhe tirou votos e o impediu de forçar uma segunda volta, que levaria de vencida a Aníbal Cavaco Silva…

Perante tamanha confusão, seria justo pensar que José Sócrates estaria pelos cabelos com estes nomes em luta. Guterres, sabe O Diabo, seria a escolha que não deixaria dúvidas a Sócrates: é seu amigo e companheiro de anos, têm uma belíssima ligação pessoal, muito embora Guterres não se reveja totalmente nas opções políticas do seu amigo – como o casamento homossexual.

Para aplacar a voragem alegrista, Sócrates tem vindo a admitir que vários nomes circulem se aparente controlo de informação partidária. Primeiro foi o de Jaime Gama, que não tem hipóteses nas urnas, mas é sempre um aparente incontornável quando se começa a falar de presidenciáveis. Depois, surgiram vozes a favor de Víctor Constâncio e de Guilherme de Oliveira Martins. Mais recentemente regressou em força a teoria de que António Vitorino é que teria o mote certo para chegar a Belém, batendo Cavaco Silva. E faltam ainda os nomes da “sociedade civil” que orbitam o PS, como António Barreto, que aos olhos dos socialistas seria um oponente de peso para… Manuel Alegre.


PS deseja Vitorino

Mesmo assim, de todos os nomes ventilados, o que recolhe maior registo de realidade é o de António Vitorino. Longe de estar na calha para secretário-geral do PS, lugar que poderia ser seu caso o tivesse desejado já – mas que sempre recusou -, o comentador que faz contraponto a Marcelo Rebelo de Sousa na RTP está bem cotado quer à esquerda do PS, quer no grande “centrão”. Perante as dificuldades que o mandato de Cavaco Silva atravessou, os socialistas estão convencidos de que, melhor que Alegre, era ter um homem de craveira e bom senso em Belém, que soubesse confrontar um eventual governo PSD com estratégia e inteligência e, depois, lidar tranquilamente com um futuro primeiro-ministro PS. Em suma: Alegre só traria problemas, Vitorino seria um sossego, Guterres era ouro sobre azul.


Sem oposição de Cavaco, qualquer um

Uma coisa é certa: se Cavaco Silva não se recandidatasse – hipótese que parece cada vez mais afastada -, qualquer socialista teria hipóteses de conquistar Belém. Sem opções claras, o PSD teria que passar tempo demais a discutir quem iria dar a cara para salvar uma eventual “irregularidade”, mesmo em democracia: ter um presidente em primeiro mandato que não se recandidatasse. Nesse caso, o nome mais óbvio é o de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas como lembram os seus críticos, Marcelo nunca ganhou nada nas urnas, a não ser a sua luta pelo “Não” nos referendos da Interrupção Voluntária da Gravidez e da Regionalização.

Carta entreaberta ao Prof. Marcelo

João José Brandão Ferreira*

 

Na sua prédica domingueira, do passado dia 13 de Dezembro, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), contemplou nas suas "escolhas" o meu mais recente livro "Em Nome da Pátria". E neste acto de mostrar o livro é que a coisa passou a inusitada.

 

De facto MRS não se limitou a mostrar a capa do livro mas a tecer considerações que nunca o havíamos visto fazer a nenhuma das centenas de obras que já deu a conhecer.

 

Pese embora a falta de equidade para com os restantes autores - um pecadilho para a sua qualidade de jurista - eu só teria a agradecer a distinção se ela não fosse eivada de descortesia. Estamos, pois, em face de uma discriminação negativa que exige algum contraditório.

 

Que disse então MRS? Basicamente três coisas: que não concordava com o conteúdo do livro; apelida o autor de "radical de direita" e que, apesar de tudo, o livro também "tem lugar aqui, isto é um programa pluralista".

 

MRS é livre de ter as opiniões que entender e também de as dar a conhecer ou guardar para si. Ao contrário do que fez, porém, relativamente à esmagadora maioria dos livros que exibe, deste quis dizer que não concorda, o problema sendo, que toda a gente ficou sem saber com o quê, dado não ter referido sequer do que é que o livro trata. Ou seja, é uma recusa literal da obra.

 

Afirmar que o seu programa é pluralista (era suposto não ser?), parece um pleonasmo. Eu julgava, mesmo sem ser matemático, que tal era um axioma, isto é, não carecia de demonstração. Assim passou a carecer...

 

Não, o que MRS, lá no seu íntimo, quis dizer aos espectadores era que o livro era tão (?),  que estaria nas barbas do pluralismo...

 

Teria sido mais honesto e menos ínvio, ignorar o livro, que nada o obrigava a trazer à colação.

 

Mais grave se apresenta a adjectivação de "radical de direita".

 

Não quero maçar ninguém com os diferentes significados que tem o termo "radical". É incontroverso que ele foi aplicado na sua vertente política o que me classifica entre os adeptos do "radicalismo". Ora o radicalismo em ciência política é o sistema político que "pretende reformas absolutas e profundas na organização social". Não parecendo ser isto,também, o que MRS quis dizer - ele o desmentirá se for o caso - só resta a hipótese do comentador me querer remeter para aquilo que a "vox populi" entende por radical, isto é, extremista, fundamentalista, etc. Foi ou não foi, Professor?

 

Quanto ao termo "direita" (dextra) estou certo, também, que MRS não quis atribuir-me o epiteto de "pessoa recta", mas sim colocar-me entre as forças políticas, que se sentam à direita do presidente do parlamento (o que tem origem na Revolução Francesa).

 

Ou seja, MRS quis rotular-me como estando na extrema do leque partidário da AR (que por caso acaba ao centro...).

 

Julgo, porém, menos apropriado, que um distinto professor universitário, e proclamado democrata, venha dizer na televisão de uma pessoa que ele não conhece, que não tem filiação partidária, e não está presente para se defender, que ele é "radical de direita". E substituindo com isso a critica ao livro com um anátema sobre o autor...

 

Será que o título do livro, que nem sequer pronunciou, lhe queima os lábios? Será que algo no conteúdo  lhe faz doer, nalgum lado?

 

Alguma coisa será, de outro modo não me teria dispensado segundos preciosos do seu apertado tempo de antena.

 

Tudo somado e pela sua prestação, dou-lhe três valores, um por cada questão que levantou. Nos meus tempos de estudante, tal equivalia a um reprovativo "Mau".

 

*TCor/Pilav (Ref)

 

ONDE, O NATAL?

 

Conto inédito de

António Manuel Couto Viana

  

Finalmente, a saída para a aldeia!

   Veio-lhe à memória o “Pátria Adorada”, sargento músico reformado, seu conterrâneo, que exercera, na cidadezinha próxima, as funções de professor de canto coral do liceu e de muitas associações recreativas, em todas ensaiando a marcha patriótica Pátria Adorada, da sua autoria (“Pátria adorada/ Meu doce encanto/Terra querida/Que eu amo tanto”...), que lhe rendera a alcunha.

      Rebelde a qualquer manifestação coral, sem voz nem afinação, ele chegou a odiar, pela insistência da marcha, a pátria adorada, a que regressava, agora, com emoção, com saudade.

   Vinha cansado de haver guiado milhares de quilómetros de auto-estradas monótonas através da França e da Espanha, com algumas chuvas e muita neve, para chegar na véspera de Natal. Descansava, pelas noites frias, com a mulher e os filhos nos motéis das Estações de Serviço. As refeições eram comidas à pressa, todas semelhantes na insipidez. Ele que, durante trinta anos, apurara o paladar no seu restaurante afamado da grande cidade turística dos Alpes franceses, para onde emigrara ainda adolescente na companhia de um tio fura-vidas, bom cozinheiro, que lhe ensinara a lida dos tachos, segredo dos temperos.

   Casara cedo com uma burguesinha do país estranho, que lhe deu dois filhos (Jean François e Charlotte) e lhe aprimorou o restaurante com conforto e elegância.

Chamava-se Rose, mas ele, com aquela negação para línguas, chamou-lhe Rosa e, aos filhos, João e Carlota. Em compensação, os três dominavam, com desembaraço, o português e aceitavam, com agrado, as viagens anuais ao berço paterno.

Isto fez com que decidisse construir uma moradia de férias na aldeia minhota, onde nascera, enroupada de verde dos vinhedos e dos milheirais, no deslizar de uma colina, perto da casa rústica dos pais, lavradores remediados, negociando o leite de quatro vacas turinas e pagando a um garoto o pastoreio do maior rebanho de cabras da povoação.

Enviara a um empreiteiro da cidadezinha a planta do edifício, após ouvir, atento e conciliador, as opiniões de Rosa.

Era um chalé alpino, de telhado inclinado, apropriado para os nevões inexistentes, maison vexada entre o granito e o colmo aldeões, como estrangeiro em pátria hostil.

Os pais haviam falecido no ano anterior, um atrás do outro, numa prova de amor duradoiro, citada pelo abade e por toda a freguesia.

Fora-lhe impossível assistir aos enterros, mas o tio, já regressado às raízes, com um bom pé-de-meia e uma camada dolorosa de reumatismo gotoso, representou-o, erguendo-lhes, a pedido do filho, um rico mausoléu no humilde campo-santo.

A estrada estreita parecia-lhe diferente, despida da densa verdura dos pinheirais.

O fogo passara por ali, no Verão escaldante. Confrangiam, aqueles espectros negros dos troncos calcinados, o chão de cinzas, o cheiro ainda acentuado a madeira queimada, todo um panorama lúgubre, trágico mesmo, a subir a colina, mas poupando, por sorte, o casario da aldeia, a emergir, nu, tiritante, dos caminhos vidrados de geada.

Avistava-se, de longe, mais alto do que a igreja românica, o chalé, garridamente pintado, com as suas portadas exteriores de madeira escura e a altivez das múltiplas chaminés dos fogões de sala.

O claxon do Mercedes novo em folha acordou a aldeia já ocupada a preparar a ceia tradicional.

O tio veio, trôpego, à porta do chalé, a recebê-los num abraço, com muito palavreado franciú para os sobrinhos pequenos e a entregar as chaves do mausoléu e da casa paterna.

Enquanto se inteirava das novidades da terra, dos custos da manutenção do chalé, a mulher e os filhos correram as salas, os quartos, a cozinha, descerrando janelas, desfazendo malas, pondo a funcionar o aquecimento central, a arca frigorífica, a televisão.

Ele entrou também, lançou um olhar satisfeito, de proprietário, aos móveis cobertos de lençóis, aos sofás, às poltronas, imaginando sestas prolongadas, preguiças de férias despreocupadas.

A mulher veio dos fundos, apressada, ofegante:

Mon ami, quelle domage! Não temos nada para jantar, nem para preparar o almoço de Natal de amanhã. E as crianças querem a sua árvore de plástico, os seus enfeites. Dá-me as chaves de carro. Vou fazer compras à cidade, ao centro comercial, ao super-mercado. Hoje fecham mais tarde. Levo as crianças comigo. Comemos lá qualquer coisa. Não esperes por nós que podemos demorar. Vou pedir ao tio que te mande uma sopa, uns ovos para uma omeleta. Há uns queques que eu comprei no caminho, para as crianças. Amanhã terás um bom almoço, descansa. Entretanto, dá um arrumo à casa, à mobília, estende os tapetes, pendura os quadros que trouxemos. E não percas a missa de galo.

Ouviu-a sem interromper.

Lá se ia a ceia com que tanto sonhara! Sabia que a não podia saborear na casa do tio, agora tão afrancesado, desprezando a simplicidade de um bacalhau cozido com grelos tenros da geada, todo virado para os souflés, as empadas, os pratos cobertos, combinações subtis de doce e do salgado e o vinho e o queijo, sempre presentes nos molhos, nas misturas.

Viu a mulher partir, ligeira, com a alegria dos filhos, no fito das prendas, das máquinas de jogo, feéricas e trepidantes, e começou a dispor a mobília e as carpetes a seu gosto, a pendurar os óleos que tinha adquirindo para a decoração dos quartos e das salas, com paisagens de abetos sob a neve.

Tocaram à porta. Era a empregada do tio com uma terrina fumegante e meia-dúzia de ovos num cesto enfiado no braço.

Tal como suspeitava, nem sombras de bacalhau!

A sopa era uma soupe au pistou, de legumes, com manjericão, muito elaborada e abundante de feijão, fava, cebola, batata, tomate... e queijo, claro!

Os ovos traziam um recado; que os batesse numa omelette quercynoise. Ele devia ter uma garrafa de Armagnac, um bocado de roquefort...

Preferiu-a simples, com a perícia que o orgulhava, ciente de que uma omeleta consagra o cozinheiro.

Comeu sem apetite, na solidão da mesa, num tabuleiro.

Mastigou um queque farinhento, saudoso das lautas sobremesas familiares de Natal minhoto: as rabanadas, os formigos, os pastéis de jerimu...

No almoço do dia seguinte, era sabido, só haveria o bolo-rei francês, do super-mercado.

Acendeu a televisão, onde só se viam figuras de Pai Natal e ficou-se modorrado, a fumar e a aguardar a meia-noite para a missa.

 Que, ao menos, ela lhe confortasse o espírito, lhe matasse a saudade dos antigos Natais: a igreja a brilhar de velas, as loas ao presépio ingénuo, e, no final, o beijo nos pés rosados do Menino, ritual que tanto o enternecia.

Os sinos começaram a tocar. Estava na hora. Vestiu o sobretudo e abalou.

À medida que se aproximava da igreja, começou a ouvir os sons insólitos de uma banda, semelhante àquelas dos festivais de Verão que lhe empolgavam os filhos.

Era da igreja que a música se escoava.

À direita do altar-mor, diante do velho presépio, soava um frenesim de instrumentos, soprados e dedilhados por um grupo de adolescentes.

Os fiéis saracoteavam-se, elevando os braços, cantando alegremente.

No altar, um padre amulatado, muito novo, balanceava-se, também, cantava, pulava, até.

Perguntou, para o lado, quem era.

Era o padre Nicanor, brasileiro, muito querido pela rapaziada da aldeia. Pensou no decrépito abade passa-culpas, a quem confessava a modéstia dos seus pecados. Detestava o espalhafato, humilde, discreto.

Se assistisse a tal espectáculo, morreria de novo.

Ajoelhou-se. Quase se envergonhou de se persignar.

A missa foi celebrada ao som da banda, dos cânticos frenéticos para os seus ouvidos relutantes à música, acompanhados de palmas.

Sentia-se ridículo no meio daquele Carnaval, como ousou classificar a santa eucaristia.

            Quando a folia terminou, perguntou a um dos assistentes:

            – Não se beija o Menino?

            – O bispo não deixa. É perigoso. É uma falta de higiene. Bem vê: os micróbios da saliva...

Saiu cabisbaixo.

Como estava velho, com quase cinquenta anos! O mundo dera um salto (para a frente? Para trás?) até na sua aldeia recôndita. E ele viera em busca da sua infância, da sua juventude, perdidas no tempo. Nos Alpes distantes, sabia que existiam, também, novas transformações, atrevimentos, novos costumes aceites pela Igreja.

Mas não os tolerava na saudade das tradições que todos os anos vinha procurar ali.

E, no entanto, ele igualmente as traíra, construindo o horrendo chalé destoante na beleza rústica da terra.

Naquela hora, não quis encarar a família. Precisava recolher-se consigo, acertar os pensamentos alterados.

   Tinha a chave da casa dos pais no bolso. Era a dois passos.

            Casa sólida, de granito forte, sobre o chiqueiro dos porcos, agora vazio.

   Trepou a escada exterior, de pedra.

            Abriu a porta com esforço. Acendeu o candeeiro de petróleo que o tio deixava sempre à entrada. Com ele aceso, foi até à cozinha de grande lareira, onde os pais costumavam seroar ao borralho.

   Ao canto, um molho de lenha. Empilhou-o sob a vasta chaminé e pegou-lhe fogo. O rubro da labareda iluminou-lhe a face pálida.

Era o tempo passado a regressar aos poucos.

Lembrou-se de ir buscar ao seu quarto uma caixa de cartão (ainda lá estaria?), só aberta uma vez por ano.

            Estava. Trouxe-a para a cozinha, para a luz da lareira, onde, na noite da consoada, deixava a sua bota cardada de menino aldeão, própria para chutar pedras soltas, chapinhar em rego d'água. Na manhã seguinte, abarrotava de roupa quente e brinquedos de madeira, comprados nas feiras.

Destapou a caixa. O presépio!

Presépio de barro tosco, toscamente pintado.

Dispôs as figuras, com cuidado, na mesa de pinho: o Menino na manjedoura, São José, a Virgem. Mais atrás, o burrinho e a vaquinha, na sua simpleza.

Pelo janelo, descerradas as portadas, escapou-se, como que por milagre, um raio de luar, iluminando de azul a Sagrada Família.

Trémulo, lento, retirou o Menino das palhas.

   E beijou-lhe os pés.

 

Entrevista a Maria José Nogueira Pinto: “O casamento gay sem adopção é uma medida hipócrita”

Maria José Nogueira Pinto voltou à ribalta por se ter irritado com um socialista durante um debate parlamentar. Farta da discussão política “asséptica”, contra ataca e, em entrevista a O Diabo, esclarece que o casamento gay é um erro sem precedentes.

 

O Diabo - Foi protagonista de um picante incidente no Parlamento, quando chamou “palhaço” a um deputado do PS em plena Comissão de Saúde. Arrepende-se?

 

Maria José Nogueira Pinto - Não falo sobre isso, já disse o que tinha a dizer. Fartei-me de dar explicações.

 

O Diabo - Insistimos: foi atacada pela linguagem e pelas mudanças políticas que tem feito. Considera que a linguagem política anda muito sensível?

 

Maria José Nogueira Pinto - Isso acho. A sociedade portuguesa foi invadida de um poeticamente correcto, de uma correcção política lamentável. Estas reacções estão a impedir que se faça política em Portugal de outra forma, mais leal, mais directa e mais franca.

 

O Diabo - Culpa dos políticos?

 

Maria José Nogueira Pinto - Tenho de dizer que sim, mas também com muitas responsabilidades para os jornais, rádios e televisões. Introduziu-se uma ideia de absoluta correcção no discurso político que o torna asséptico. Há demasiados preconceitos e isso acaba por se reflectir no discurso e no trabalho político.

 

O Diabo - O PSD, partido pelo qual foi eleita, está em mudança. É mais que provável que mude de líder e de políticas. Como membro do grupo parlamentar, o que defende para o partido?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu não sou do PSD. Aceitei ser deputada porque estimo muito Manuela Ferreira Leite, que me fez o convite. Acredito nas ideias e nas propostas que ela defendeu e que, com o tempo, se têm tornado inevitáveis e cheias de razão. O que eu quero para o PSD é que saiba manter e potenciar essas ideias, que não se desvie desse rumo que Manuela Ferreira Leite definiu – não só nas políticas económicas, mas naqueles campos menos conhecidos, como as políticas sociais, de educação e de saúde…

 

O Diabo - Vai manter-se como deputada, se o rumo e o líder mudarem?

 

Maria José Nogueira Pinto - Estou convencida de que há muitas linhas políticas que se irão manter neste ou no futuro PSD, em qualquer circunstância. O conjunto de preocupações será o mesmo, independentemente da forma, com qualquer novo líder que seja escolhido.

 

O Diabo - Faz parte do movimento que recolhe assinaturas para forçar um referendo sobre o casamento homossexual, a Plataforma Casamento e Cidadania. Quer o referendo por quê?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todas as iniciativas que façam discutir esta questão são importantes. Estamos perante algo que se baseia em valores milenares e não de circunstância. A proposta de referendo, como se sabe, pode apenas obrigar o Parlamento a discutir a adopção ou não da medida que é realizar o referendo. Não implica obrigatoriamente que se realizar a consulta às pessoas. Mas a verdade é que seria importante ouvir e, acima de tudo, debater este problema, que não é sequer religioso, e que levanta outras questões como a da adopção…

 

O Diabo - O PS alega que a adopção ficará de fora

 

Maria José Nogueira Pinto - Pois alega - o que é juridicamente uma hipocrisia. A adopção não pode ficar de fora da admissão do casamento entre homossexuais. É hipócrita, juridicamente. Se se está a legislare ara combater uma aparente desigualdade, não se pode depois introduzir uma nova descriminação em todos os Códigos. A adopção para os homossexuais é algo que entra imediatamente em vigor, mal a lei seja aprovada.

 

O Diabo - Não admite, assim, que os homossexuais se casem, mesmo no respeito pelas diferenças na sociedade?

 

Maria José Nogueira Pinto - Eu respeito imenso as minorias, as diferenças. Não é isso que está em causa. Não se está a discutir a homossexualidade. O que estamos a discutir e uma alteração de valores e costumes muito antigos, com razões para existirem. Não se pode agora fazer tábua rasa da História, sem sequer a debater. E muito menos faz sentido aprovar uma lei sem que tudo o que advém dela esteja clarificado.

 

O Diabo - O Parlamento actual tem capacidade para essa discussão ou é necessário um referendo?

 

Maria José Nogueira Pinto - Todos os Parlamentos estão capacitados para discutir este tema, são representantes legais e directos dos eleitores. O problema não é esse. As poucas sondagens que existem sobre o assunto mostram claramente que as pessoas até admitem que duas pessoas do mesmo sexo vivam em comum, com um certo reconhecimento social – ou do Estado -, perante essa opção. Quanto à adopção, aí é que a maioria da população está contra. Ora, com uma lei aprovada nestes termos, não se pode ter uma discussão séria. Eu bem sei que isto fazia parte do programa eleitoral do PS, mas apresentar a lei nestas circunstâncias é uma perda de debate que vai afectar gravemente a sociedade. Depois, deixe-me dizer, a relação custo-benefício da adopção desta medida também não está estudada nem explicada. 

 

Casamentos gay podem ser motivo de referendo

 

Presidente não gosta do caminho que o PS está a seguir: é que depois do casamento dos gays, vai apoiar direitos dos transexuais e a eutanásia. A oposição prepara-se para exigir um referendo sobre a matéria.

A guerra entre o Presidente da República e José Sócrates está cada vez mais dura. Aníbal Cavaco Silva está à procura de todos os meios legais para travar o casamento entre homossexuais, a última iniciativa dos socialistas, que está aprovada pelo governo e que, em meados de Janeiro, vai ser votada na Assembleia da República. O Diabo sabe que o Presidente está contra a aprovação da lei que permite a dois homens casarem-se com a bênção do Estado, sem antes ter sido o tema discutido abertamente na sociedade portuguesa. Cavaco Silva já pediu vários pareceres jurídicos para compreender ser a adopção da proposta do Governo está de acordo com a Constituição da República Portuguesa. Mas mesmo que os juristas e constitucionalistas nada oponham ao texto de José Sócrates em defesa do casamento de homossexuais, o mais alto magistrado da Nação pode vetar, politicamente, a iniciativa.

Não é, no entanto, apenas o casamento entre gays que está a preocupar o mais alto magistrado da Nação. A ameaça do PS em levar à Assembleia da República, já no princípio do ano, uma proposta para legalizar a eutanásia, está também a preocupar Belém. Para Cavaco Silva, a situação económica, financeira e fiscal do País é suficientemente preocupante que será difícil a sociedade aceitar que os políticos agora se concentrem em outras coisas que não a crise.

O actual debate gay já é suficientemente incómodo para Belém, que acompanha a reacção social à proposta socialista. Nos últimos dias as vozes contra o casamento entre dois homens ou duas mulheres têm saído a público para protestar contra o secretismo em que a medida aparentemente foi aprovada.

O referendo é agora a arma que a oposição tem contra José Sócrates e o Bloco de Esquerda. A plataforma Cidadania/Casamento já tem as assinaturas suficientes para pedir, legalmente, um referendo sobre o assunto, o que pode levantar um problema maior a Sócrates durante 2010: juntar-se a Francisco Louçã nos palcos do País a defender o casamento entre os gays e lésbicas.

Os apoiantes do referendo, no entanto, não temem a luta política. José Ribeiro e Castro, deputado do CDS e subscritor da iniciativa referendária, explica as razões porque discorda da adopção sem discussão pública do casamento gay e lésbico: “O casamento e família não são palavras criadas e definidas pelo Estado. Não são o Cartão do Cidadão, nem uma direcção-geral ou instituto público. São palavras - e realidades - nucleares e estruturantes da própria sociedade. O Estado recebe-as para o que lhe importa; mas deves-lhe respeito, não domínio”, diz o deputado, que acrescenta: “Em regime democrático, aberto constitucionalmente à democracia directa, dificilmente se pode conceber um tipo de decisão em que o referendo tanto seja exigível”.

Não é o único a defender o referendo nem a criticar a falta de respeito do Estado pelo casamento. João César das Neves, professor universitário, ataca o coração dos esquerdistas: “Que é mais corajoso, lutar por causas libertinas que toda a opinião pública tolera, ou defender os valores exigentes do casamento, família e vida? Quem são realmente rebeldes, os membros do Bloco de Esquerda que a imprensa exalta e os intelectuais apoiam, ou os que enfrentam as teses politicamente correctas? Onde está hoje a verdadeira heterodoxia, rebeldia, atrevimento? Quando a esquerda se torna estabelecida, burguesa, dominante, quem é realmente revolucionário?”, afirma César das Neves.

D. José Ortiga, presidente da Conferência episcopal, também acusa os socialistas de tentar legislar contra o conhecimento dos cidadãos. “A sociedade portuguesa está muito alheira a esta discussão e os políticos estão a decidir sozinhos”, dispara o prelado. D. José Ortiga quer o referendo: “Se o referendo servir para as pessoas reflectirem na ideia, concerteza que o defendo. Está por aí muita gente incomodada, e não devia estar. Estes assuntos não devem ser tratados desta forma”, diz o líder da Conferência Episcopal Portuguesa.

Mas nem só o arco cristão da sociedade está preocupado com a mudança legislativa que os socialistas preparam.  Abdul Vakil, presidente da comunidade islâmica de Lisboa, está contra uma medida legal que admita o casamento gay. Diz Vakil: “Eu não condeno os homossexuais, mas a religião islâmica não admite a homossexualidade. Eu respeito o cidadão homossexual enquanto indivíduo, mas a minha religião não admite casamentos homossexuais ou lésbicos”. O líder dos islamitas portugueses vai mais longe: “Os meus, são valores abraâmicos: casamentos são sempre entre pessoas de sexos diferentes. Mas lei é lei e se o Governo quer passar a lei, passam-na concerteza. Nós, os muçulmanos, não acreditamos em casamentos homossexuais" – esclarece, peremptório.

Por isso, Abdul Vakil propõe uma tomada de posição conjunta das várias religiões existentes em Portugal. “Julgo que deveríamos concertar-nos com os abraâmicos, com os judeus e cristãos - e ver se fazemos chegar a nossa voz, de uma forma ordeira - não vamos fazer manifestações - , mas fazendo chegar essa nossa opinião junto do Governo de uma forma concertada com outras religiões", propõe.

 

Até o PCP tem dúvidas

O líder dos comunistas portugueses saiu à rua contra a oportunidade da proposta de José Sócrates em casar homossexuais através do Estado. Disse Jerónimo de Sousa: “Deve haver uma definição e uma clarificação sobre as prioridades [do País], que são a crise económica, os salários dos trabalhadores, os desempregados e o acesso da juventude ao trabalho". O comunista esclarece: “Não ponho isso em termos dicotómicos mas parece não haver tempo para discutir a destruição do aparelho produtivo nacional" mas haver tempo para debater o casamento gay. Curiosamente, foi o único líder partidário que defendeu Cavaco Silva, perante um ataque dos socialistas: “Considero que o Presidente da República manifestou preocupações que são justas". Jerónimo de Sousa referia-se à defesa da natalidade em Portugal, que tem vindo a decrescer nas últimas décadas.

Numa visita ao Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, dois dias depois de se saber da intenção socialista de autorizar gays e lésbicas a casar, o Presidente defendeu a importância “da família tradicional” . Alega o Chefe de Estado: “Neste momento, o número de filhos por mulher em Portugal é 1,35. Para conseguir uma reconversão de gerações é preciso dois filhos por cada mulher. São precisas políticas e iniciativas para ajudar os pais, as mulheres empregadas, a poderem cuidar dos seus bebés”, disse o Presidente, que adendou: “Um país sem crianças é um país sem futuro, por melhores que sejam as políticas económicas, por melhores que sejam os aeroportos, os portos, as estradas que nós tenhamos. Se não existem crianças, nós avançamos rapidamente para o envelhecimento da população e todos sabemos que a consequência do rápido envelhecimento da população é um baixo crescimento económico e uma grande dificuldade em satisfazer os apoios sociais aos mais idosos”, esclareceu o Presidente.

Poucas horas passavam destas declarações quando o jovem deputado socialista Sérgio Sousa Pinto acusou Cavaco Silva de se “intrometer na agenda do PS” sobre o casamento entre homossexuais. Sousa Pinto, regressado há pouco de cinco anos como eurodeputado, admoestou Cavaco: “O Presidente da República, como qualquer cidadão português, tem a liberdade de ter a sua posição pessoal relativa ao diploma respeitante à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas já não terá o direito de se intrometer na agenda dos partidos e no caso vertente do PS», disse. Mais acrescentou: “O Presidente, assim, estará a contribuir inutilmente para a dramatização da vida nacional e a pôr em causa as condições de estabilidade política, que são indispensáveis para dar resposta a problemas que preocupam o senhor Presidente da República, como preocupam o Governo e o PS”. Para rematar, Sousa Pinto deixou o aviso: “Os portugueses não escolheram o PS para formar Governo para que a agenda do Governo e do PS fosse determinada pelo senhor Presidente da República”.

 

Adopção não, padrinhos sim

 

Entretanto, o PS veio já esclarecer que a futura lei não vai permitir aos homossexuais adoptar crianças. Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência, assegurou este fim-de-semana que o Código Civil será adaptado para que, agora, impeça que dois homens casados adoptem menores de idade para viverem em conjunto consigo. Mas o problema pode vir a levantar-se perante o apadrinhamento civil, uma nova figura legislativa criada pelos socialistas e que é apenas uma adopção sem tantos requisitos legais e que dá aos adultos a hipótese de conviver domesticamente com as crianças. O ministro também não esclareceu o que virá a acontecer quando um pai separado e com a guarda de um filho menor decidir casar depois com outro homem. É neste ponto que os esquerdistas do Bloco de Esquerda preparam argumentação para defender, posteriormente, a legalização da adopção de crianças por gays e lésbicas. O Bloco prepara-se, entretanto, para apresentar em Janeiro uma proposta para igualar os direitos dos transexuais aos das pessoas que sempre mantiveram o mesmo sexo – e que deverá ainda propor alguma defesa contra o preconceito de alguns empregadores. Isto é, o Bloco defenderá que um empresário que contrate, por exemplo, uma educadora para cuidar dos seus filhos não a poderá despedir essa pessoa se um dia em vez de uma educadora for um educador a apresentar-se ao serviço.

O Progresso: um mito utopista com fim à vista

António Marques Bessa

 

Todos os anos gregorianos caímos na mesma esparrela armada pelo marketing armadilhado e ficamos convencidos de que estamos a celebrar algo de real. Na realidade não estamos a celebrar nada. E isso é um facto ululante.

 

O mito do Ano Novo remete-nos para uma esperança encantada na renovação das coisas, num mundo melhor, e as pessoas concertam-se a desejar melhorias entre si. O mito do Ano Novo, tal como se apresenta hoje, é um subproduto do mito do progresso avassalador, que exige que se deposite no futuro a certeza das melhorias que não se alcançaram no passado. As frustrações, perdas e retrocessos como que são submetidos à acção de um grande apagador universal, de modo que no quadro negro das nossas mentes se abre um espaço próprio preparado para as novas inscrições faustosas. Então 2010, seja lá o que isso for, é o ingresso num tempo novo e não estreado por nenhum mortal ou deus antigo. É um tempo reservado que só pode naquele dia, depois de bem bebidos, proporcionar a realização dos sonhos mais acarinhados.

 

Esta verificação geral, tão peculiar dos europeus e americanos e ainda em expansão em micromitos de uma mitogénese muito antiga, é de facto pouco romana e pouco tradicional. Para encontrar o ponto do tempo que cruzamos, quais argonautas do tempo sem bússola ou máquina cronológica, é infantil invocar com optimismo um tempo linear, segundo a crença recente no progresso.

 

Um dos sábios mais peculiares do mundo antigo traçou um mapa bem diferente do mapa que aceitamos. O grego Hesíodo escreveu que a Idade que se viveria pela sua altura era uma dura Idade do Ferro, decadente, sem horizontes e onde só os maus tinham uma palavra a dizer. Para trás estava a Idade de Ouro dos Deuses, e a Idade de Prata dos heróis. A Idade que iríamos viver durante muito tempo seria regida pelo ferro, pelas espadas, pela inclemência da Terra. O que devia repercutir até hoje, quando Ernst Jünger escreveu ‘Tempestades de Aço’, que dedicou à vivência da Primeira Grande Guerra. Eram o ferro e o aço, dos quais ainda não nos afastámos, que governavam a vida.

 

A época degradada é ainda aludida nas crónicas e sabedoria dos Vedas, que nos apontam que a vida decorre hoje sob um tempo dominado pelo destruidor da Criação: o tempo de Kali-Yuga, o que se tem por inevitável na sua interpretação canónica. Os próprios e autênticos cristãos sabem dogmaticamente que o futuro jamais poderá vir a reproduzir  o  estado original do Paraíso Perdido num espaço-tempo de tranquilidade e felicidade. Foi por isso que Milton se voltou para a poesia do ‘Paradise Lost’ e Blake escreveu e desenhou um Deus tão zangado e furioso com o que criou. Quer Milton, quer Blake, quer Mervin Pike com as ‘Crónicas de Gormenghast’, e que morreu doido, tinham essa centelha de sabedoria que antecipava o realmente acontecido e iminente no horizonte dos acontecimentos desagradáveis.

 

Três Nomes

Talvez o monge Viço, ao detalhar as três Idades e ao fazer um contraste entre a sua Idade (Idade dos Homens) com a Idade dos Deuses e a Idade dos Heróis fosse o primeiro pioneiro da Ideia de progresso que nos havia de invadir como uma lepra branca. É que a Idade do Homem dominada pela racionalidade assumia-se como um avanço em relação às idades em que predominavam a fé, os mitos e a arbitrariedade. Vico, com pretensões científicas, cotou-se na sociologia, mas foi um optimista. Na sua senda, e às vezes afastando-se dele, surgiram nomes muito fortes: Comte e Marx. O francês Auguste Comte do “Catecismo positivista”, inventor de uma religião, contava o tempo como uma sucessão de progressos que deviam culminar na época científica que hoje vivemos e que se entrevia no seu tempo. Nesse momento, todas as explicações seriam científicas e o poder político pertenceria a uma casta de tecnocratas e sociólogos, que imporiam a razão como matriz suficiente. Para trás estendiam-se idades de trevas, a que deu nomes de estudos desprestigiados: Idade Teológica e Idade Metafísica. À sua frente estendiam-se as virtualidades de uma era dominada pelas claridades das indústrias e pela emergência de poderes realmente racionais. Comte tinha lido Vico e o optimismo racional e a crença no progresso aí estava plasmada numa sociologia utópica e inventiva. O futuro era dos industriais, dos cientistas e dos sociólogos.

 

Não é nada disso que vemos. Mas Marx lera ambos, o que era grave, porque para lá das canecas de cerveja que bebia e do hegelianismo que o martirizava, assumiu o optimismo e ficou apto a pensar que o Geist (Espírito) tinha uma ideia para a História destes bichos humanos de grande progressismo porque se iria finalmente reconhecer e conhecer na sua realização. Ora que admira que a sociedade sem classes estivesse no fim do programa do Geist e do Marx? Hegel era progressista, Marx também, e finalmente o Geist também tinha de ser um crente no que criou.

 

Assim se enraizou a crença no progresso, nos trunfos da Ciência e numa vida sempre melhor, esquecendo que o mundo em si é um mundo de miseráveis e a cuja miséria escapa muito pouca gente. A miséria tornou-se uma doença endémica que exige um tratamento global. Mas quem serão os médicos? Os que querem vender vacinas, Tamiflu, que promovem as grandes indústrias farmacêuticas?

 

Claro que não. Parece que ninguém detém o “progresso” que agora não propõe a sociedade dos Homens como Vico, não lembra a sociedade industrial de Conte e a sua Igreja do progresso, nem já quer saber de Marx e da sua sociedade final sem classes. O que se propõe como fim da História, na versão que lhe deu Francis Fukuyama e outros cegos, é outra realização do Geist: é a “democracia”. E aqui é que está a verdadeira revelação. Não se pensa em mais nada. A História acaba aqui. Mas acabará de facto? Não existem pessoas que pensam outra coisa? Lá chegaremos com paciência.

 

Portugal à beira da bancarrota, Sócrates não está preocupado

A situação económica do país assemelha-se a um cenário de apocalipse. O Governo insiste ter a situação sob controlo, mas antigos ministros das Finanças denunciam a engenharia financeira duvidosa de Sócrates. O Executivo faz tudo para que os portugueses não se apercebam da situação de bancarrota iminente que os governos socialistas provocaram. Sócrates mantém “não estar preocupado”.

Corte nos salários da Administração Pública, mais impostos, redução dos gastos nos subsídios de doença, de desemprego e nas pensões. Menos investimentos públicos durante os próximos anos e, com sorte, em 2013 Portugal pode salvar-se da falência do Estado. A análise devastadora para as contas públicas surgiu esta semana pela mão do Fundo Monetário Internacional, que teme o regresso de Lisboa ao desastre de 1983.

Os avisos são muito directos: “O crescimento potencial da economia, que já era baixo, sairá, como acontece noutros países, ainda mais prejudicado”, diz o FMI, que acrescenta que o “crescimento abaixo da média da zona euro e elevados níveis de desemprego” são o cenário mais certo para o País durante os próximos dois anos e que mesmo este quadro não deverá “ser mais brilhante no longo prazo”.

 

Pior ainda é que as agências internacionais estão todas de acordo. Quer a Comissão Europeia como as empresas líderes em análise económica concordam que Portugal deve chegar a 2013 com um défice de orçamento “entre cinco e seis por cento” do Produto Interno Bruto e, para piorar o plano, o endividamento total do Estado não baixará dos cem por cento. Isto é: toda a riqueza produzida pelo País num ano não chega para pagar o que devemos ao estrangeiro. Pior: gastaremos seguramente mais cinco a seis por cento, por ano, do que aquilo que produzimos.

 

O economista Daniel Bessa dá a receita: “Vai ser preciso reduzir o défice em 10 mil milhões de euros no próximo ano”, afirma, confrontado com o cenário de crise iminente. Recusando-se a decretar já a falência do Estado, Bessa é crítico: “É tão fatal como o destino que acabaremos por pagar mais impostos – isto vai acontecer no muito curto prazo”, revela o economista, confirmando já palavras ditas em público nas últimas semanas. Quanto à forma como pode Portugal sair da crise, Bessa admite: “Se calhar, o Governo terá de congelar os salários, cortar nas despesas, criar novas taxas…”, diz o gestor que foi ministro da Economia do PS ao tempo de António Guterres.

 

A taxa de crescimento do País está também comprometida para 2010. Segundo as análises internacionais, Portugal não deverá ultrapassar os 0,5 pontos de crescimento. Isto é, além de se continuar a endividar no exterior para pagar as despesas que tem, o aumento da riqueza está quase parado.

 

Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, já engoliu o erro das previsões. “Só quem não faz previsões é que não comete erros”, assume, e acrescentou, durante um debate parlamentar: “Assumo que errei nas previsões. Assumo, assumo. Temos que perceber também o contexto de grande incerteza e instabilidade a nível global”. Sobre o que serão os números para 2010, Teixeira dos Santos nem sequer quer ouvir falar em previsões: “É prematuro, ainda estamos a tratar da rectificação do orçamento de 2009… Não faz sentido apresentar uma estimativa agora, e outra daqui por um mês no Orçamento para 2010”, acrescentou.

 

 

Engenharia financeira duvidosa

Mas nem estes números podem estar correctos. Aliás, a forma como o Estado faz contas é diferente hoje daquela que era utilizada há cinco anos. Por isso, alguns ex-ministros das Finanças têm dificuldade em analisar a evolução económica e de despesa, instados a comentar a crise em comparação com o passado. Bagão Félix, que foi ministro das Finanças no último governo PSD/CDS, afirma: “Hoje em dia não é possível comparar orçamentos. Há cada vez maior desorçamentação. Quer do défice, quer da dívida”. Ora, sem os custos de pessoal contabilizados, por exemplo, é, para Félix, fácil de entender como o ministro das Finanças e o primeiro-ministro dizem que as despesas com pessoal na administração pública, no sector público administrativo, diminuíram de 15 para 11 por cento do PIB. E reage: “É uma mentira. Os funcionários dos hospitais, que agora são entidades públicas empresariais…  os da antiga Junta Autónoma das Estradas, que agora é uma sociedade anónima… os de alguns laboratórios do Estado… deixam de ser pessoal do Estado. Mas estão lá. São pagos pelo Estado”.

 

Perante esta engenharia financeira, Bagão Félix duvida dos números:  “Arrisco dizer que um défice actual de oito por cento equivale, em termos comparáveis, a um défice de 11, 12 ou 13 por cento há 15 anos”.

 

Governo rejeita tudo

“O problema relacionado com a receita mais do que um problema relacionado com a despesa”, respalda Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência, contra as incómodas críticas externas. O plano, para os socialistas, é outro: “A estratégia do Governo assenta sobretudo em fazer aquilo que estiver ao nosso alcance para ajudar a economia a criar dinamismo e isso permitirá também uma evolução mais favorável do lado das receitas”, insiste, chegando mesmo a afirmar: “A alteração orçamental que o Governo apresentou na Assembleia da República para o ano de 2009 demonstra que não só o limite da despesa que estava previsto não é ultrapassado, como se reduz ainda que marginalmente em relação aquilo que estava previsto para 2009”, afirma com certeza, apesar do seu ministro das Finanças ter admitido erros nas previsões e nos números.

 

Sócrates está ainda mais tranquilo, perante o cenário de apocalipse financeiro e económico. O Instituto Nacional de Estatística reviu a semana passada, em baixa, o crescimento de Portugal. O primeiro-ministro disse isto: “Não estou preocupado. É um dos maiores crescimentos europeus.

 

As diferenças entre a estimativa rápida e os números que são divulgados pelo INE umas semanas mais tarde, acabam sempre por poder variar algumas décimas”, justifica José Sócrates, que acredita que no meio da tempestade as suas políticas podem ainda impedir uma queda da produção de riqueza. Para tal, Sócrates já se mostrou contra “a irresponsabilidade” da oposição em “impedir” que o PS faça tudo como se tivesse maioria absoluta. Preocupado com o Orçamento de Estado para 2010, Sócrates extremou posições, dizendo mesmo que as alterações a um documento apresentado pelo Governo podiam ter consequências na política fiscal, financeira e económica do Estado. Algo impensável para o primeiro-ministro: “O País não pode ter dois orçamentos, um do Governo, outro das oposições”, queixa-se Sócrates.

 

Pensões levam corte, despesas pessoais também

Entre os muitos recuos na despesa, um deles está já decidido para 2010. Quem decidir reformar-se no próximo ano arriscará um corte no valor da sua pensão em 1,65 por cento. O Ministério do Trabalho já confirmou a notícia: “A causa é o chamado factor de sustentabilidade”, afirma o departamento, que se baseia no equilíbrio das pensões face às que existem e à riqueza do País. Este corte vai afectar dezenas de milhares de pessoas, entre as quais milhares de desempregados que, chegando ao fim do seu subsídio de desemprego – e por causa da idade -, tencionam pedir reformas totais ou antecipadas ao Estado.

Mas há mais crise nos bolsos domésticos.

 

Segundo o Instituto Nacional de Estatística o consumo caiu mais de 4 por cento desde o início do ano. Os negócios mais afectados são as vendas de automóveis, de casas, o mobiliário doméstico e todos os bens duradouros. Isto é, segundo a Estatística, os carros velhos e as casas antigas, ainda que desadaptadas às necessidades familiares, terão que continuar a servir.

 

 

Eles avisam…

 

“Chegámos a uma situação em que temos mais défice com mais despesa, mais impostos, mais endividamento externo, mais dívida pública, mais desemprego, mais orçamentos rectificativos, menos crescimento. Acho que era natural que perante esta realidade soubéssemos ou procurássemos encontrar, com humildade democrática, um caminho e não continuar a geral falácias políticas que não conduzem absolutamente a nada. Porque, repito, estamos sempre atrasados.”

Bagão Félix

 

"Para corrigir o défice teremos que ir pela despesa, com orçamentos sérios de austeridade”

João César das Neves

 

“Não está por isso neste momento muito clara qual é a saída para a situação presente e para a futura que se adivinha. Na falta de um programa coerente para entender como vamos garantir o nosso futuro, pode-se pensar que se conta sobretudo com o passar do tempo. Mas o que está em jogo é de tal maneira importante para o futuro de todos nós e dos nossos filhos que não podemos persistir num caminho que racionalmente se prevê que não dê em nada. A continuar assim o mais provável é não regressarmos à "normalidade" e mesmo que regressássemos, a normalidade que conhecemos antes da crise já não chegava.”

Joaquim Ferreira do Amaral

 

“É preciso que exista um plano credível de redução do défice orçamental até 2013, desejavelmente com o compromisso de todos os órgãos de soberania”

Vítor Constâncio